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Full text of "Vizeu : apontamentos históricos"

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VTZEIU^ 



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VIZEU 

( *ramiEM! HISTORICnS ) 



Maximiano Pereira da Fonseca e Aragão 

bachabtl km tiieoloqia u bachabel formado em di11e1to 

pela Universidade db Coimbra, 

advomm nos auditórios de vlzud b professor de 

phil08ophia ko lyckd nacional da 

mesma cidade 



TOMO 1 



VIZEU 

Tjnojrapliii "POPIMR, li íutlp FraiDín It Um. 

Camtákr Fratl» Alves li Itllt— Imparai ffiiti lu lurlilt t 

laiotl M m Soma Amorim 



1894 



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,V6ó 

A Co 



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PROLOGO 



De Fagilde, minha terra natal, sai aos nove 
annos de idade para a villa de Mangualde, sede 
do meu concelho e comarca, a estudar os rudi- 
mentos da língua latina, e aos doze (1805) entrava 
pela primeira vez em Vizen em companhia de meu 
saudoso pae, então um velho de setenta e oito an- 
nos, como fim de fazer o meu exame de admissão 
aos lyceus (instmccào primaria) e cursar nos an- 
nos seguintes os estudos secundários e eccleslas- 
ticos. 

Desde então ate ao presente a minha residên- 
cia nesta cidade tem sido apenas interrompida, 
não fallando no tempo de ferias, durante os cinco 
annos de frequência na Universidade de Coimbra, 
onde consegui o bacharelato e:n Theologia eu for- 
matura em Direito, e durante quasi dois que exerci 
o cargo de administrador de alguns concelhos 
d'este dístricto. 

IVeste modo a minha vida ligou-se estntita- 
:nsníe desde a infância a esta cidade, que consi- 
dero e amo como minha pátria. 

Nada mais natural, pois, que um dia siirgíss 
no meu espirito a idea de fazer estudos e de colli 
gir os factos e lendas que a ella se ligam. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Desde esse momento comecei a dedicar a es- 
se trabalho as horas que me sobravam das minhas 
occupações, e, decorridos alguns annos, quando 
já eram avultados os materiaes, colhidos de livros, 
manuscriptos e documentos, julguei que prestaria 
algum serviço á historia organisando-os e dando-os 
a publicidade. 

Grandes serão as imperfeições e talvez os er- 
ros que uma critica severa encontrará neste meu 
trabalho, tantas vezes interrompido por multípli- 
ces e variados que fazeres. 

Bem vindas serão quaesquer observações ju- 
diciosas que possam dar luz aos leitores e a mim. 

Em quasi todas as pessoas, a quem me dirigi 
solicitando esclarecimentos, pedindo livros e ma- 
nuscriptos, encontrei a melhor boa vontade. 

à todas aqui protesto a minha gratidão. 

Devo, porem, mencionar especialmente o sr. 
conde de Prime José Porphyrio de Campos Re- 
bello, que alem d'outros subsídios me facultou o 
valioso manuscriptu do padre Leonardo de Sousa, 
elaborado sobre outros manuscripos que se perde- 
ram. 

primeiro volume de— VIZEU— comprehende 
tudo o que podemos colher acerca d'esta cidade 
até ao principio da monarchia. 

Em breve poderemos dar á publicidade o se- 
gundo, que ainda não temos concluído. 



Vizeu, 10 de junho de 1894. 



Maximiano Pereira da Fonseca e AragÀo. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



CAPITULO 



Factos da historia geral, que illustram a historia da 
VIZEU 



A. Península Hispânica, denominada pelos gre- 
gos ffíaperia Ultima, antes das primeiras invasões 
dos romanos era confusamente conhecida dos geo- 
graphos. 

Não obstante, muitos escríptores portuguezes, 
dominados pelo preconceito de vão orgulho nacio- 
nal e pelas pretensões fidalgas a uma remota anti- 
guidade, achaque trivial em todas as nações, apro- 
veitando todas as noticias verdadeiras ou fabulosas 
achadas em escriptores genuínos ou suppostos, e 
accrescentando-lhes algumas que os melhores crí- 
ticos suppoem da sua lavra, passeiam livremente 
não só pelas epochas do domínio carthaginez e ro- 
mano na Península, mas ainda pelos tempos ante- 
historícos. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Na primeira plana vem Fr. Bernardo de Brito, 
que nos dois primeiros volumes do grande corpo 
histórico chamado Monarchia Lusitana exaggera 
até ao absurdo essas noticias. 

O bom do monge cisterciense na primeira 
parte d'essa obra organisa uma serie ininterrupta 
de reis na Península desde Tubal, neto de Noé, 
que aqui diz ter arribado com alguns Chaldeus ; 
designa-os pelos seus nomes ; e indica as datas do 
principio e do fim de seus respectivos reinados. 

Rejeitando por fabulosas as narrações da mi- 
gração japhetica e dos heroos hellenicos, que con- 
sideram como primeiros conquistadores d' esta re- 
gião Tubal, Hercules, Ulysses, Baecho e outros 
personagens, parece que nos tempos primitivos fu- 
ra povoada por duas migrações successivas : a dos 
Iberos, ou melhor Euskaklunac, e a dos Celtns, ou 
antes Célticos. 

Alexandre Herculano julga-as oriundos da 
Ásia. O ar, Oliveira Martins chama aos Iberos raça 
africana e attribue-lhes uma influencia secundaria 
na constituição ethnica da Península (aj. 

O sr. Theophilo Braga diz que as raças que 
occupam a Hespanha vieram de varias proveniên- 
cias; já da Afiica, como o elemento ibérico, berbe- 
re e mauresci; já do Mediterrâneo oriental, como 
Celtas ligios, jonicjs; já do norte da Europa, como- 
o Celta louro e as tribus germânicas dos Alananos, 
Vândalos, Suevos, Visigodos (b). 



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Diodoro de Sicília refere que, depois de pro- 
longada lucta entre os Iberos e Celtas, estas duas 
tribus convencionaram possuir o paiz em com- 
mum, ficarem para sempre unidas e com um só 
nome : Celtiberos. 

Os Célticos dividiram-se em cinco grupos prin- 
cipaes : os Cantabros, Asturios e Vasconios ao se- 
ptemtrião ; os Calíaicos e os Lusitanos ao occi- 
dente. 

Affirma Strabão que a Lusitânia era limitada 
ao sul pelo Tejo, mas hesita em lhe attribuir o ter- 
ritório da moderna G-alliza e d'Entre-Douro e Mi- 
nho, porque, se numa passagem suppõe que os 
Lusitanos estanciavam até ao promontório Ne- 
rio ou Céltico (Finisterra), noutra díz que elles 
occuparam as margens do Lima por uma migra- 
ção dos Célticos (Tunletanose Turdulos), que habi- 
tavam ao longo do Guadiana pelo Algarve e Anda- 
luzia, e em parte do Alemtejo (cl. 

Os Turdulos, segundo alguns auctores, divi- 
diam-se em antigos e modernos, habitando os pri- 
meiros as costas do mar situadas entre o Douro e 
o Tejo e os últimos as que ficavam ao sul d'este 
rio até ao território dos Celtas. 

Asseveram — Christovão Cellario (d) que esta 
tribu habitou o Alemtejo e uma parte do Algarve a 
pouca distancia dos Tuvdetanos ; e Fr. João de Ma- 
rianna (e) que Turdulos e Turdetanos habitaram a 



c) Alexandre Herculano, Hist. de Tott. vol. i 
14 e 15. 

rf| Notitia Orbis mitiqui. L. II. cap. I. 
e) PrtrL I, cap. XVIII. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Betica ou Andaluzia, junto ao Xeres, sendo Turde- 
to a sua cidade principal. Samuel Bochart ff) con- 
funde estes dois povos. 

Floriano dei Campo (g), Plínio (h) e Fr. Ber- 
nardo de Brito (i) conjecturam que na moderna 
província da Beira habitaram os Berones, opinião 
com que não concordam Baudrand e Hoftmanl, 
que dizem ser povos sujeitos aos Celtiberos, e ficar 
a sua principal cidade onde hoje é Trejo, nem o 
padre Argot nas Memorias de Braga, pag. 450. 

E' um facto indubitável que em tempos ante- 
riores a Homero também estanciaram na Penín- 
sula colónias pheniàas e gregas, que fundam feito- 
rias sobre diversos pontos da costa e ahi exercem 
um commercío assas vantajoso, ignorado das ou- 
tras nações. 

A influencia que principalmente as primeiras 
exerceram na população foi tamanha que ficou pre- 
dominando até hoje no paiz o nome de Spania que 
ellas lhe puzeram. 

A propila denominação de Lusitânia (paiz dos 
Lusos) indica o elemento phenicio, e os nomes de 
Tejo (Tagus) e do Guadiana (Ana) são daquelta 
língua, como o nota o erudito Bochart (j). 

Nos nomes das povoações predomina a forma 
céltica brig ou briga, e nos costumes apparecem 
vestígios da influencia grega. 



/) Geogr. 8ac. liv. I, cap. XXXIV. 

o) Hist. de Hesp. liv. 11, cap. X. 

k) Liv. IV, cap. XX. 

t) Geogr. cap. IV. 

j) Chanaan Hw. I, cap. XXXV, pag. 695. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Quando os -Cartaginezes entraram na Penín- 
sula, os Iberos e Celtas, as duas raças mais antigas, 
não só se achavam confundidos uns com os outros, 
mas também se tinham misturado, principalmen- 
te os das orlas do mar, com os Phenicios e Gre- 
gos. 

Neste estado de associação de raças, a con- 
quista púnica veio tornar mais completa a mis- 
tura. 

Os Cartaginezes, originariamente phenicios, 
tinham incorporado em si uma grande parte dos 
lybios ou mouros, formando a casta mixta, conhe- 
cida pela designação de Libephentces (k). 

Mas, esquecendo os laços de parentesco, in- 
vadem a Península, apoderara-se das estações phe- 
nicias, tornando-se senhores de todo o litoral da 
Hespanha. 

No século III antes de J. Ch. a influencia car- 
thagineza estabeleceu-se definitivamente aquém do 
Estreito por me» da conquista, conseguindo o ge- 
neral Hamilcar vencer as resistências dos Turde- 
tanos, Célticos, VettÕes e outras tribus da Lusitâ- 
nia, subjuga-las e constrange-las a fazerem parte 
do exercito vencedor. 

E' sabido que a infanteria celtibera, a cavalla- 
ria andaluz e os fundibularios baleares constituíam 
o nervo das forças do neto de Hamilcar, Hanni- 
bal. 

No tempo d'este é que começam as luctas.en- 
tre a republica carthagíneza e a romana, que du- 



k) Cit. Chanaan do Bochart. liv. I,-cap. XXV. 



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ram por duzentos anhos, no fim dos quaes o lon- 
go braço de Roma cinge a Hespanha. 

Em quatro annos (220 a 216 antes de J. C.) 
Scipião, chamado depois o Africano, expulsa os 
Carthaginezes, subjuga esta província e volta a Ro- 
ma rico de triumphos, gabando-se de não ter dei- 
xado ura só Carthaginez na Hespanha. 

Mas é ceito que, ainda muito depois de des- 
truída Carthago, se protrahe a guerra entre os 
novos senhores da Península e os indígenas. 

O génio militar de Viriatho torna por annos 
duvidosa a victoria de Roma nos territórios do Oc- 
cidente (l). 

Mas, sendo elle assassinado pelos seus ofíi- 
ciaes Distalião, Minuto e Aulaces, que haviam sido 
corrompidos para tal fim pelo cônsul romano Quin- 
to Servilio Cepio, o domínio dos senhores do mun- 
do civilisado fortiflca-se na Península. 

Ainda os Lusitanos não se submettem. Cha- 
mam, para os capitaneai-, a Sertório, proscripto por 
Sylla, que se achava em Africa, d'onde trouxe com- 
sigo três mil soldados. 

Outros proscriptos também abandonaram a Itá- 
lia para se virem refugiar na Lusitânia. Perpenna 
reuniu na Sardenha vinte mil homens com que veio 
reforçar o exercito de Sertório. 

Obedecido por setenta mil soldados italianos, 
hespanhoes e africanos, Sertório subtrahe grande 
parte de território hespanhol ao jugo de Roma. 
Converte a porção da Hespanha, em que dominava 



l) A. HevcuL, Hist. de Port., vol. I, pag. 16 e seg, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



e que era principalmente a Lusitânia, a Celtiberia 
e parte da Betica, numa imagem de republica em 
que elle tinha um illimitado poder. Ebora foi capi- 
tal da Lusitânia; Osca da Celtiberia. 

Morto Sertório pela traição de Perpenna, a 
llespanha submetteu-se a Mettello e Pompeu, com 
excepção dos montanhezes dos Herminios (Serra 
de Estrella), que ainda resistiram; mas o resultado 
desta inútil resistência foi o extermínio. 

Durante o tempo da republica romana, a Pe- 
nínsula esteve dividida em duas grandes provín- 
cias, a Citerior e a Ulterior, mas no tempo do im- 
perador Octaviano César Augusto é de novo divi- 
dida em três : a Betica, Tarraconense e a Lusitânia. 

Depois, Constantino Magno a retalhou em 
cinco : Tarraconense, Carthaginense, G-allecia, Lu- 
sitânia e Betica. 

Nesta ultima divisão os limites da Lusitânia 
foram ao norte o Douro e ao sul o Guadiana. Pelo 
oriente ficaram incertos, sendo aliaz provável a 
suspeita de Cellario (mj de que, segundo as con- 
veniências da administração, a linha oriental va- 
riou sob o governo dos differentes imperadores 
romanos. 

O que, porem, se pode deduzir dos antigos 
geographos é que esses limites estendiam pelas 
províncias hespanholas muito alem do moderno 
Portugal. 

Ha quem lhe assigne como linha divisória o 
rio Douro desde a foz até a sua confluência com 



nt) Nolitia Orbis antiqui, liv, II, cap. I. 



D, B itizeot> V GoOgIe 



o Torraes e o Ana (Guadiana) desde os montes de 
Toledo até ao Atlântico, e affirme que Libara so- 
bre o Tejo e Angustobriga eram os dois pontos 
mais orientaes. 

Emérita Augusta, hoje Merida, era a sua ca- 
pital. Ahí residiam os legados e pretores romanos. 

Os Lusitanos eram celebres por suas rapinas; 
alimentavam-se de farinha e bolotas doces; só be- 
biam cerveja; eram ágeis na carreira; e marcha- 
vam para o combate dançando (n). 

Os que habitavam o norte, denominados Ar- 
tabros, eram homens rudes e guerreiros, e junta- 
mente com os Callaicos por muitas vezes prova- 
ram o seu valor, e designadamente defendendo 
até ao heroísmo o solo da pátria contra as legiões 
romanas do pretor Decio Junio Bruto. 

Não menos notáveis eram os montanhezes dos 
Herminíos. Bravos e astutos, por muitos annos re- 
sistiram fortemente e souberam conter o ímpeto 
das águias da republica. 

Antes da dominação romana não podemos as- 
signar a Lusitânia centros de população. 

Só depois, é que encontramos povoações no- 
táveis, cidades florescentes, como Olysipo e Ari- 
tio sobre o Tejo, Gerabrica, Scalabis, Cohimbri- 
ca, Emfnio, Lamcobrica, Calle, Bracara, Limea, 
Tude, etc, onde os vencidos, sujeitos ás leis dos 
vencedores, acceitaram a civilisação que lhes era 
imposta, abandonando a vida selvagem que até ahl 
tinham vivido. 



n) Strabâo, tiv. III, cap. III. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



No principio do século V a dissolução do Im- 
pério dos Césares havia acabado a tarefa que a 
Providencia lhe destinara na obra do progresso 
humano. 

As hostes e as tribus selvagens do norte arro- 
jam-se por cima do império, e (Teste cataclysmo 
nascem as nações modernas. 

Por morte do imperador Theodosio é o impé- 
rio dividido por seus dois filhos, Arcádio e Honó- 
rio, ficando aquelle com o oriente e este com o 
occidente. 

Stilicão, não tendo podido conseguir que a co- 
rda imperial recaísse em seu filho Eucherio, ma- 
quina vingança. 

Pela sua perfídia, Introduzem-se no império 
gentes da Alemanha, denominadas Vândalos, Sue- 
vos, Alanos e Silingos, que, depois de saquearem 
Roma e destruírem uma parte das Gallias, invadem 
a Hespanha, governada por Geroncio, general ro- 
mano, que fez acclamar imperador um certo Má- 
ximo e abriu passagem peias montanhas áquellas 
hordas de bárbaros. 

Os Vândalos e Suevos apossaram-se dos terri- 
tórios da Gallecia e dos que hoje chamamos Cas- 
tella-a-Velha. Os Alanos occuparam a Lusitânia e 
a Carthaginense. Os Silingos, tribu vândala, fize- 
rem assento na parte da Betica, actualmente de- 
nominada Andalusia (o). 

As Astúrias e Biscava continuaram sujeitas a 
Roma. 



o) Idatii Cluon, na Espan. Sagr. tit. IV, pag.' 853 e 364. 



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A irrupção dos bárbaros foi assignalada por 
todo o género de devastações. 

No primeiro Ímpeto, e antes de escolherem 
as províncias em que haviam de estanciar, matam 
gente innurnerave). 

A' guerra associa-se a peste e a fome; os cam- 
pos são talados; os edifícios derrocados. O povo 
chegou a miséria horrível de devorar carne hu- 
mana e as mães de cevarem-se nos cadáveres dos 
filhos (p). 

Cada parcialidade dos bárbaros tinha o seu 
rei ou chefe : os Vândalos e Silingos fí-underico ou 
Mondigelesio, os Alanos Resplandiano, e os Sue- 
vos Hermenerico. 

Ataces, successor de Resplandiano, faz guer- 
ra a Hermenerico, rei dos Suevos; toma-lhe algu- 
mas terras, nomeadamente Conimbriea, situada 
onde hoje é Condeixa-a-Velha, e, começando a edi- 
ficar a nova Coimbra, obriga ao trafego da obra 
os vencidos sem distincçâo de qualidade de pes- 
soas. 

HeriTienenco quer resistir e castigar os atre- 
vimentos de Ataces. Para isso pede auxilio a (Jun- 
derico, rei dos Vândalos, e fortifica-se no Porto. 
Chegam os dois exércitos a combate, em que Her- 
menerico é derrotado. 

Em troco da paz offerece em casamento ao 
vencedor sua filha Chindasuinda com um dote 
considerável. 



(p) Cif. Idatii Chr., na Esp. Sagr. tit. IV, pag. 354-A. 
Herttj vol. J, pag. 2S. 



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Sogra e genro vivera socegados, occupando-se 
em fazer algumas correrias nas terras dos sequa- 
zes de Roma. 

N'este tempo é que os Wisujodos, capitaneados 
por Ataulpho, cunhado do imperador Honório, por 
ter casado com sua irmã Gala Plácida, invadiram 
a Península. 

A guerra entre estes e os primeiros invasores 
dura alguns ánnos. 

Walia, successor de Ataulpho, atacou os Ala- 
nos da Lusitânia e os Silingos da Bélica; e, depois" 
de uma lucta de três annos, obrigou os que so- 
breviveram a buscarem na G-allecia o amparo dos 
Suevos, com os quaes se fundem. 

Incorporados os Alanos e Silingos com os Sue- 
vos, posto que independentes de facto, reconhece- 
ram a supremacia de Roma, de quem os Wisigo- 
dos eram considerados auxiliares em consequência 
da paz que Walia fizera com o imperador Honório. 

Os Vândalos começaram logo uma guerra ci- 
vil com os Suevos que os desbarataram e, obriga- 
dos a sair da Gallecía, precipitam-se de novo so- 
bre a Betica. 

Passados poucos tempos, em numero de 80 
mil, passam d'ali para a Africa, ficando apenas "na 
Hespanha os Suevos, cujo rei, em 440, era Rechi- 
la, a quem succede seu iilho Reciario. 

Mal. que os Vândalos abandonaram a Europa, 
os Suevos tentam dilatar o seu império pela Lusi- 
tânia e Betica e libertar-se do jugo dos Wisigodos, 
já substituídos aos Romanos no domínio da Hes- 
panha. 



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Theudorico, rei dos Wisigodos, vence Recia- 
rio, depois de o ter apertado no estreito cerco de 
Astorga (448). 

Dissipadas as grandezas e nome suevo e fun- 
dado nas suas ruínas o império gothico, Theudori- 
co, deixando as terras da Lusitânia sujeitas á sua 
obediência, retira-se para Franca. 

Os Suevos, por intervenção de seus bispos que 
vão a França, supplicam e conseguem do rei godo 
a liberdade de acclamarem rei próprio e nacional 
com o reconhecimento de feudatarios. 

Os prelados voltam para Braga e ahi elegera a 
Masdra para seu rei. 

Alguns nobres, pretextando a falta de convite 
para essa eleição, reunem-se em Lugo, onde accla- 
mam por seu legitimo rei a Franta. 

Entre os dois partidos trava-se a lucta que só 
serena depois da morte de Masdra pelo tractado 
de paz que seu filho e successor Remismundo (ou 
Arismundo, segundo Santo Isidoro) fez com o seu 
adversário. 

Frumario, successor de Franta, persistindo em 
ser elle o legitimo rei, resuscita as antigas conten- 
das que só terminaram por sua mdrte, ficando Re- 
mismundo com todo o principado dos Suevos. 

Para maior segurança do seu domínio manda 
pedir ao rei godo confirme os tractados de paz fei- 
tos com seus antecessores, expressando-lhe ao mes- 
mo tempo a sua fidelidade e reconhecimento. 

Lisongeado com esta attenção, Theudorico hou- 
ve por bem suas conquistas e alem d'isso deu-lhe 
por esposa uma de suas filhas, a qual, sendo secta- 



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ria do Arianismo, introduziu no reino esta seita (qj, 
em que permanecem outros reis durante noventa 
annos até Theudemiro que resuscita a fé catholica 
e faz abjurar aquella heresia. 

Depois da morte de Remismundo é muito in- 
certa a serie dos reis suevos. 

O crédulo Fr. Bernardo de Brito enumera 
Theodulo, Veremundo, Miro e Pharamíro. 

O chronicon de Marco Máximo, seguido por 
Filippe de la Gandara (rj apresenta Hermenerico, 
Rechila II, Reciario II, Ariamiro ou Theudemiro, 
em cujo. reinado se celebrou o primeiro concilio 
bracharease, (e a quem o padre Argot nas Memo- 
dria de Braga (sj dá o nome de Theudemiro Jú- 
nior por afftrmar que antes d'elle reinou Theude- 
miro Sénior), Miro ou Ariamiro, (que alguns con- 
fundem com Theudemiro) no tempo do qual se 
reuniu o segundo concilio bracharense (572), e 
Eburico ou Eurico (583) que, despojado do reino 
por Endeca,, seu padrasto, foi obrigado a professar 
no mosteiro de Dume. 

Leuwigildo, rei dos Godos, estimulado não só 
pelas tyrannias de Endeca para com os Suevos, 
mas também por este se ter revoltado contra a sua 
soberania, passou á Hespanha, prendeu o revolto- 
so, e depois de o constranger a tomar o habito no 
sobredito mosteiro, desterrou-o para Beja, e apode- 
rou-33, como supremo dominador, de todo o reino 
dos Suevos. 



(q) Horalsfl-Liv. n, cap. XXXUT. 

(r> Triumph. Eec d» Oalliza, P. II, llv. VII, eap. VII. 

(s) Liv. V, eap. I. 



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Ainda estes tentam tornar-se independentes, 
acclamando por seu rei a Malarico, cora quem saem 
a dar batalha aos godos, mas, sendo vencidos, fica 
o reino completamente submettido ao poder de 
Leuwigildo. 

Um dos seus primeiros actos foi substituir os 
prelados catholicos por outros sequazes do arianis- 
mo. 

D'aqui em deante o antigo reino suevo é go- 
vernado por capitães e condes sujeitos aos reis go- 
dos, que, depois de Leuwigildo, foram : Flávio Re- 
caredo, Liuva, Witerico, Clundemaro, Sisebuto, Flá- 
vio Suentila, Sisenando, Chintila, Tulga, Chinda- 
suindo e Recesuindo. 

Quando este morreu, seu filho Theudofredo 
tinha poucos annos de idade, e os grandes de Hes- 
panlia, aproveitando, segundo parece, a occasião 
para se libertarem do domínio dos Godos Francos, 
escolhem para rei da Península em 676 Wamba ou 
Bamba, natural da. Idanha (t). 

A imaginação popular envolveu a eleição e vi- 
da d'este monarcha nas lendas que foram recolhi- 
das pelos escriptores do século XVII. 

Attribuiu a sua escolha a revelação divina, 
transmittida aos grandes de Hespanha pela bocca 
do Summo Pontífice, que declarou : Que Deus se 
serviu de que I Vamba f03sc rei de Hespanha. 

Mas como este fosse homem pouco conhecido 
lhes deu os signaes para o encontrarem. 



(i) Morales liv. XTI-Faria o Souza Epitmne de las hist, 
portng., Cap. VI, pagr. 128-Mon. Luait., IÍt. VI, cap. XXV. 



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Percorreram alguns togares ató que junto da 
Idanha, então cidade de bastante importância, o 
acharam occnpado na lavoura. 

Declararam-lhe o motivo que ali os levava, mas 
Wamba, julgando que o escarneciam, respondeu 
que, quando o aguilhada que tinha na mão pro- 
duzisse flores, elle seria rei, o que logo se reali- 
sou. 

Levaram-no immediatamente para Toledo, on- 
de foi recebido com veneração e espanto, e, na oo 
casião de ser ungido pelo arcebispo, exalou-se da 
sua cabaça um vapor e entre elle uma abelha que 
subindo ao ar se perdeu de vista. 

A abelha é o syrabolo da boa administração. 

Fossem quaes fossem as circumstancias que 
acompanharam a sua eleição, pode aflirmar-se que 
o nome de Wamba ficara gravado na memoria do 
povo e o seu reinado abrira um novo período no 
viver da Hespanha, porque é no seu tempo que 
ella se torna independente do jugo godo-franco, 
para o que ainda foi necessário vencer e castigar 
alguns revoltosos. 

No seu tempo promulgam-ss leis e celebram- 
se concílios em que se assígnam os limites das 
egrejas de Hespanha (o que alguns andores con- 
testam) e se reformam os costumes abusivos. 

Um certo conde por nome Ervigío, casado 
com urna sobrinha do rei Recesuindo, revolta-se 
contra elle, e obriga-o a renunciar em seu favor a 
corda (081), recolhendo-se Wamba ao mosteiro de 
Pampliega, (entre Burgos e Valladolid, junto do 
rio Pisnerga) onde tomou o habito de monge be- 



>,Sitizeot>vGoOgIe 



nedictino e viveu sanctamente o resto dos seus 
dias /«/. 

Ervigio, para assegurar a coroa, fez celebrar 
concilio a que assistem vários prelados. 

Casa sua filha Cixilona com Egica ou Egiza, 
sobrinho de Wamba, e, como elle, natural de Ida- 
nha. Logo que subiu ao throno, Egica repudia sua 
mulher, desterra os que tinham conspirado contra 
seu tio, e suffoca uma rebellSo tramada contra si, 
á frente da qual estava Sisiberto, arcebispo de To- 
ledo. 

Por morte de Egica passa a coroa para seu 
filho AVitiza, homem de talento, mas que por seus 
vícios e crueldades mereceu ser cognominado o 
Nero de Hespanha. Manda tirar os olhos á mulher 
de Favila, duque de Biscava, que morreu dos maus 
tractos. 

O príncipe Pelayo, filho de Favila, e seus pri- 
mos 0. Acosta e D. Rodrigo, filhos de Theudofre- 
do, e todos netos de Chindasuindo, deliberando 
vingar aquelles crimes, pedem e conseguem o au- 
xilio dos Romanos, vão contra Witiza que se acha- 
va em Toledo, conduzem-no preso para Córdova, e 
mandam-lhe tirar os olhos. 

Em seu logar é acclamado D. Acosta que de 
sua mulher Reçolina houve dois filhos, D. Sancho, 
que, ainda menor, lhe succede no throno, e D. Elier. 

Na menoridade de D. Sancho é seu tutor e ao 
mesmo tempo governador do reino seu tio D. Ro- 



(«) Epítom cit. pag. 181- Barganç. Antiguidwi. de Hesp. 
part. I, liv. I, cap. VI, n. 67. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



drigo, que se obrigou sob juramento a entregar o 
governo a seu sobrinho logo que este chegasse á 
idade competente. 

Postergando, porem, esse juramento, depõe-o 
e tas-se acclamar rei. 

O seu reinado é a continuação dos escândalos 



Durante os primsiros annos que se seguiram 
a usurpação teve de combater, vencendo-os em vá- 
rios recontros, os filhos e partidários do rei des- 
thronado. 

Reconhecendo a sua fraquaza, os filhos de 
Witiza foram pedir soccorro a Ilijan, (o conde Ju- 
lião dos chronistas hespanhoes), príncipe de Ceu- 
ta e de Tanger e, como tal, tributário dos Árabes, e 
conde das villas de Cêa, Covilhã, Bobadeila e ou- 
tras. 

llyan solicitou o auxilio dos Árabes, dirigindo- 
se para este fim a Mousa-Ibn-Nosseir, governador 
d'Africa subordinado ao Califa de Damasco. 

Mousa, que ha muito tempo pensava em levar 
suas armas á Hespanha, aproveitou a occasião que 
lhe era offerecida e prometteu intervh; vigorosa- 
mente no interesse dos príncipes espoliados. 

E' esta a narração dos historiadores árabes, 
designadamente de Al-Makkari {v) na sua Historia 
das dynastías mahometanas em Hespanha. 



v) Makkari (Alune»! Al), oscriptor árabe, nascido era Tlem- 
cen {Algéria) em I58õ e morto no (Jairo om 1(531. Pertencia ;i 
uma lainilia que prptendia descender da tiíbu dos Coraiauhi- 
tas. Estabeleceu se om Mascam, perto de Tlemcen, onde ad- 
quire grande fortuna por operações commofciaea. Educado 



;ai,- ; ::; v GOOglC 



Porem os poetas e historiadores hespanhoes 
explicara o procedimento do conde Julião pelo 
sentimento de' vingança e desaggravo da violência, 
que D. Rodrigo havia feito a sua filha Florinda ou 
Cava, dama de estremada belleza, desposando-a, 
para pouco depois a repudiar e casar com Egilona 
ou Eyalata, filha de Mahomet, rei momo em Afri- 
ca. 

Fosse qual fosse a causa que o determinou a 
solicitar o auxilio do governador de Africa, (segun- 
do alguns o rei de Ceuta— Septum — Uiit Miramo- 
lim), todos os historiadores concordara em que 
este mandara á Ilespanha um dos seus togares te- 
nentes, Tarif — Abou — Zorah — , com 4 mil soldados, 
que desembarcaram em Tartessus, tomando esse 
togar, em memoria do acontecimento, o nome de 



sob a direcção do um de seus tios, mufti deTlemcen, adquire 
o gosto das luttras o vae em seguida paru Fez, um dos princi 
pães centros liltorarios du Africa, onde habitou 18 ar. nos. Do 
pois tez a peregi mação a Meca e a Medina (1010), e no anno 
seguinte fixou ao no Cairo. Passados 8 annos foi para Damas 
co, onde tez cursosp blieos que tiveram o maior suecesso. 

A sua vasta erudição granjeou lhe o sobrenome do Ha- 
ftdh ai Maghrébi (o Doutor do Oeste) e de Cttchab ed din tEs- 
t rei la da religião). Escreveu muitas obras do thoologia e his- 
toria, quo pola maior parte se perderam ou ficaram manus 
criptas. A única que se possuo no Occidenle é a sua obra ca 
pilai -Naf ai Thylemin (íodlin ai Andalos ai Ralliyb, oue 
nzihr oné zyriha Liçan ed Dyn ibn ai Khatib. (Cheiro suave 
de três ramos de Andalos o historia do Visir Liçan od Dyn 
ibn ai Khatib). 

E' uma historia littoraria e politica dos Árabes do Hes- 
panha, principalmente de Granada, e contom uma narração 
seguida dos acontecimentos da Península desde a chegada 
dos Árabes ale á sua oxpulsão. O texto árabe da obra foi pu- 
blicado pela primeira vez em Leyde (1855 l8i>8,-4 vol., in. 
4.°) sob o titulo de Analoctos da historia politica e litieraria 
dos Ambos do Hespanha. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Tarifa. Entranharulo-se neste paiz, depois de o as- 
solarem e praticarem actos de crueldade voltaram 
para a Africa, levando muitas riquezas e um gran- 
de numero de captivos (em 710 segundo aiguns 
auctores, em 711 e 713 segundo outros) (x). 

Este successo encheu de alegria o emir árabe, 
que fez togo os preparativos para uma segunda e 
mais formidável expedição. 

A 30 d' abril do anno seguinte Tarik-Ibn-Zeiyad, 
liberto de Mousa, desembarcou com oito mil sol- 
dados junto do monte Galpe, que de seu nome se 
chamou Djebel-Tarik (a montanha de Tarik), pala- 
vra que se transformou em Gibraltar. 

Apenas desembarcou, foi atacado por Theu- 
demiro, governador da Andaluzia, que não ponde 
nem desaloja-lo da forte posição que occupava, 
nem impedir a sua juncção aos reforços conside- 
ráveis que lhe vinham da Africa. 

A' frente de numerosas forças, Tarik desceu 
á planície e avançou sem obstáculo até Medina Si- 
dónia. 

Perto d'ahi encontrou D. Rodrigo, que tinha 
sob snas ordens exércitos consideráveis mas indis- 
ciplinados. 

Depois de muitos recontros parciaes durante 
seis~dias consecutivos, os dois exércitos vieram a 
uma luta decisiva em 6 de julho de 711 (714 di- 



x) Esta ultima computação è a geralmente seguida.-D. 
Rodrigo -nrceb. Itv. I. cap. XLV-Hist. geri. do Hesp. cnp. LV, 
png. 2-Moralos, liv. XTI, cnp. LXIX-Chronicon Albendenae, 
seguido por Harianna part. I, liv. VI cap. XXLII, otc. etc. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



zem outros), junto das margens do rio Barbate, se 
acreditarmos Al-Rasis e outros historiadores que o 
seguem (;/). 

Esta batalha memorável que decidiu da sorte 
da monarchia dos Wisigodos é geralmente desi- 
gnada na historia sob os nomes de batalha de Xe- 
rês, do Chryssus, do Guadalete. 

A victoria foi valorosamente disputada dos 
dois lados até ao momento em que a traição do 
Oppas e de outros partidários de Witiza, aos quaes 
D. Rodrigo havia confiado o commando da ala di- 
reita, assegurou o triumpho aos Árabes. 

A derrota torna-se então gemi no exercito dos 
Christàos e a elite dos guerreiros godos caiu sob a 
espada dos sequazes de Mahomet, que practicarain 
as maiores atrocidades. 

Se D. Rodrigo ficou entre os mortos ou se fu- 
giu e veio terminar seus dias em Vizeu è questão 
que tractaremos noutro logar. 

Dois annos depois, pela submissão coerciva ou 
voluntária de todas as localidades, estavam os Mou- 
ros senhores da Península, com excepção das mon- 
tanhas das Astúrias, onde D. Pelayo ouPelagio, que 



y) Razy (Amed — bon — Hohainined — ben — Mousa— abou 
— Beki — A)) chamado também Rases, Rasia, ou Razes, histo- 
riador árabe do Hospanha, nascido em Córdova no sec IX. 
Qonou dos favores dos kalifas ommiadas Abd Allah e Ab-Hr- 
laliman III (8S8 961) e distinguiu so entre os sábios da sua na 
çào.Eacioveu varias obras o entro ellas as historias o as expe- 
dições militares dos soberanos mussulmmios de Hospanha 
e um trabalho histórico sobre a situação do Hospanlia no 
tempo dos Godos, que foi traduzi lo em porlugutz o cas- 
telhano. 



felOax ::; ; GOOglC 



r 



havia acompanhado a D. Rodrigo na batalha, se 
refugiou com alguns christãos (z). 

Os invasores não gosaram por muito tempo a 
posse pacifica da victoria, porque os christãos das 
Astúrias, com D. Pelayo à frente, começam a re- 
conquista da Península, que só se completa cinco 
séculos depois, fundando-se successivamente no 
meio de guerras continuadas as monarchias chris- 
tãs novogodas: Astúrias, Oviedo, Leão, Castella, 
Navarra, Aragão e Portugal. 

As diversas raças de mussulmanos, árabes do 
Iemen, modhaiitas, egypcios, assyrios e berberes, 
que successivamente tinham vindo colonisar a Hes- 
panha, estanceavam separadas, cada uma em seus 
districtos. 

Le\-adas pela emulação, andavam em conti- 
nuas guerras civis, que Affonso I soube aprovei- 
tar para ganhar novas forças e dilatar os seiB do- 
mínios. 

Muitos dos seus successores também por ve- 
zes aproveitam essas contendas, e não é raro vêr 
pelejar, ao lado de christãos, mouros contra mou- 
ros. 

Para perfeita Intelligencia do que vamos es- 
crever acerca de Vizeu, basta sabermos que, como 
deixamos dito, as guerras entre christãos e mou- 



3) Andres Merino— Escuda Paleographica— paginas 118 
-transcreve uni documento do ann<> 1080,0 'onde consta que 
os Mouros se apoderaram da Península em 710; e— a paginas 
fti— dá noticia do um privilegio do rei Affonso— o Casto—, co- 
piado por D. Bernardo de Castro, em que se aasigna o anrio 
de 711. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



ros duram por sete séculos aproximadamente, e 
que os successores de Pelayo e os annos, em que, 
certa ou provavelmente, deixaram de governar, fo- 
ram : 

Favila 735, Affonso I, o Catholico, 757, Fruela 
768, Aurélio 774, Silo 783, Affonso II, o Casto, 
Mauregato 788, Bermudo 795, segunda vez Af- 
fonso II 842, Ramiro 1 850, Ordonho I 866, Affon- 
so III 911, Ordonho II, 924, Fruela 925, Affonso 
IV 927, Ramiro II 950, Ordonho III 955, Sancho I, 
o Gordo, 975, Ramiro III 985, Bermudo II 999, Af- 
fonso V 1027, Bermudo III 1039, Fernando I, o 
Magno, 1067. Este dividiu o reino por seus três 
filhos, dando Castella a Sancho, Leão a Affonso, e 
parte das terras que hoje formam Portugal a Gar- 
cia. 

Depois da morte de seus dois irmãos, Affon- 
so, denominado o Magno, e o VI d'este nome, 
fica sendo o único rei de todos os estados chris- 
tãos da Península. 

Continua as guerras contra os mouros, auxi- 
liado pelo conde D. Henrique, descendente de 
Hugo Capeto, rei de França, a quem (1095) em re- 
muneração de seus serviços dá em casamento sua 
filha D. Tereza, Tarazia, ou Tareja, e em dote, e 
com o titulo de conde portugalense, as terras En- 
tre Douro e Minho e parte da Beira. 

D. Affonso Henriques, ainda depois da morte 
de seu pae, governa alguns annos com o titulo de 
conde, e só depois da batalha do Campo de Ouri- 
que (1139) é que é acclainado rei, fundando assim 
o reino de Portugal, que até ao presente tem vivi- 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



do uma vida autónoma, com excepção dos 00 an- 
nos (1580 a 1640), que, sob o governo dos Filippes, 
esteve dominado por Castella. 

Para não omittirmos os traços gentes da his- 
toria que se prendem com o nosso trabalho espe- 
cial acerca de Vizeu, temos por conveniente apre- 
sentar a serie dos reis portuguezes, posto que seja 
geralmente bem conhecida, acompanhando-a das 
datas do principio e fira dos respectivos reina- 
dos. 

I). Affonso Henriques (11394185), D. Sancho I 
(1185-1212), D. Affonso II (1212-1223), D. Sancho 
II (1223-1248) D. AfTonso III (1248-1270), D. Diniz 
(1270-1325), 1). Affonso IV (1325-1357), I). Pedro I 
(1357-1367), D.Fernando, (1367-4383), o ultimo rei 
da primeira dynastia. 

D. João I— Mestre da Ordem de Aviz (1385- 
1433), D. Duarte (1433-1438), D. Affonso V (1438- 
1481), D. João II (1481-1495), D. Manoel (1495- 
1521), D. João III (1521-1557), D. Sebastião (1557- 
1578), e D. Henrique (1578-1580), o ultimo rei da 
segunda dynastia. 

D. Filippo I (1580-1599), D. Filippe II (1599- 
1621), 1). Filippe III (1621-1640), de Portugal, que 
são D. Filippe II, III e IV de Castella. 

D. João IV (1640-1656), D. AfTonso VI (1656- 
1668), D. Pedro II (1668-1706), D. João V (1706- 
1750), D. José (1750-1777), D. Maria I e seu tio D. 
Pedro III (1777-1816), 1). João VI, (1816-1826). 

D. Pedro IV abdicou, cedendo os direitos á 
coroa a sua filha menor D. Maria II, em 2 de maio 
de 1826, seguindo-se a regência de D. Isabel Maria 



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e desde 1828 a 1834o governo de D. Miguel, e, de- 
pois da Concessão de Évora Monte, ocenpam o 
throno D. Maria II (183Í-185S),' 1). Pedro V (185»- 
1881), D. Luiz I (1881-188!)), o o sr. 1). Carlos 
(1880-....). 



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CAPITULO II 



Fundação da cidade da Vizeu. 
Nomes que lhe são attribuidos. Sua antiguidade. 



Nem a mais leve referencia a Vizeu se encon- 
tra nos geographos e historiadores gregos e roma- 
nos, que tractaram da península ibérica mui per- 
functoriamente, por ser naquelle tempo a parte 
inais remota do mundo conhecido. 

Foi este silencio, talvez, que auctoi isou alguns 
auctores relativamente modernos a envolverem em 
lendas a origem d'esta cidade; attribuindounsasua 
fundação aos Chaldeus, que acompanharam Tubal 
á Península (a), outros aos Turdulos, que estancia- 
ram entre o Tejo e o Douto, quinhentos annos 
antes de Christo /&,.'. 



a) Brito-Mon. Lus. 

b) Rodrigo Mandos da Silva -Poblacion geiier.il do Espana. 



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Posto que seja incontestável a sua antiguida- 
de, como adiante mostraremos, nenhuma d'estas 
affirmativas tem base séria. Ignora-se quando e por 
quem tbi fundada. 

Dominada pela idêa dadescobsrta das origens, 
tão vnlgarisade em certas epochas da vida da hu- 
manidade, a imaginação de muitos escriptores, pa- 
ra justificar a antiguidade de Vizeu, leva-os a at- 
tribuirem-lhe primitivamente, não obstante o silen- 
cio dos antigos, diiTerentes nomes, que se encon- 
tram nos geograplios romanos, a saber Lancia, 
Vacca, Viço- Aquário, Vimncio, Verruouim, e Viso. 

O cónego Oliveira Berardo também lhe dá o 
nome de Visonium. 

Não subscrevemos nenhuma destas opiniões, 
por falta de fundamento; limitamo-'nos a reprodu- 
zir o que acerca delias encontrámos em críticos 
graves e prudentes. 

O nome de Lancia, de que falia Ptolomeu na 
sua Geographia, não quadra a Vizeu, mas a uma 
povoação situada entre Salamanca e o rio Douro. 

Baseados na circumstancia da proximidade 
desta cidade ao rio Vouga, (que é denominado 
Vaeca por Piinio, Vaccum por Ptolomeu, e Vttoua 
por Strabão), e encontrando o nome de Yaeoa no 
livro de Rezende — De antiquitatibus Lusitaniie — e 
numa edicçào de Plínio que existia na livraria de 
Alcobaça, alguns antiquários pretendem que este 
nome fora o de Vizeu. 

Nesse numero entra o dr. Ribeiro Botelho (c), 



c) Dialogo 1, cap. X-1C 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



que, desprendendo as azas da phantasia, nos seus 
diversos voos, affirma: is que Vizeu foi a ci- 
dade de Vacca ; 2." que a cidade de Vacca esteve 
dentro da Cava ; 3.° que o nome de Cava ê corrup- 
ção de Vacca ; 4.° que o rio Vouga tomou o nome 
da cidade de Vacca. 

E, para explicar as escassíssimas referencias 
que se encontram nos auctores antigos, diz : 

«E, como os antigos escreviam por informações 
te esta cidade estava tanto no sertão e era a mais 
c notarei d'este contorno e aonde ninguém vinha 
cpela aspereza dos montes, os que aportavam em 
ca foz do rio Vacca não tinham d'ella mais que a 
«noticia de que o tal rio nascia junto d'ella e até 
«passara por perto, e ainda se o dito rio não fora 
«menos menção se faria d'ella do que se acha fei- 

«ta 

« por Isso e por não ser caminho 

«para outras partes ha tão pouca noticia d'ella nos 
«auctores que só em Plínio e Strabão (que lhe cha- 
cina Vaccua) se acha memoria de seu nome». 

Insurge-se depois contra Gaspar Barreiros por 
este affirmar que o rio Vouga tomou o nome da 
cidade Vacca, mas que esta demorava a uma légua 
de distancia de Eminio (Águeda). 

Com respeito a fundação de Vacca encontra- 
mos as seguintes versões : 

l. a Foi edificada pelos TurdulosÕOO annos an- 
tes de Christo no sitio da Ciava e nella nasceu Vi- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



riatho, o insigne capitão dos Lusitanos, no tempo 
do qual já era muito opulenta. 

2. a Foi Viriatho quem a fundou no sitio da 
Cava, que d'elle tomou o nome. 

3.» Por morf e de Fernando Magno, rei de Cas- 
tella e Leão, os habitantes de Vizeu, vendo desman- 
telladas as muralhas d'esta cidade, e julgando-se, 
por isso,pouco seguros, mudaram as suas habitações 
para dentro dos muros da Cava de Viriatho e ahi 
estanciaram até ao tempo de D. AÍTonso Henri- 
ques; mas, restaurada a cidade por determinação 
d'este monarcha, nella voltaram a residir, denomi- 
nando d'ahi em deante a antiga fortificação Cidade 
Velha ou Citlade Vacca, ou ainda Cidade Vácua, 
palavra esta que por mal pronunciada ou mal es- 
cripta foi substituída por Vacca. 

4. a assento de Vacca foi em sitio pouco dis- 
tante da Egreja velha de Pinho. 

A opinião que attribue a Vizeu este nome pri- 
mitivo é combatida pelo erudito e consciencioso 
Henrique Flores (d), e pelo sábio cónego Oliveira 
Berardo (ej, que diz : 

«O nome de Vacca, que alguns lhe deram fun- 
«dados em tradições falliveis e semelhanças mal 
«concebidas, tem comtudo alguma especialidade, 
«poi estar próxima ao rio Vouga, que Ptolomeu de- 
«nominou Vaccum, e Estrabão Vaecua, porem, é 
«uma applicação gratuita, porque estes geographos 



d) Hospanha Sagrada- -tom. XIV, pag. ! 
t) Liberal, I anno 11857), -n.° I. 



;gi,7 5t ; : GoOglc 



«faliam do rio, e nenhum menciona povoação as- 
«sim chamada por estes sitios». 

F incontestável que pelo nome de Vacca se 
conheciam antigamente o rio Vouga e duas cida- 
des, uma próximo da foz d'este rio a uma légua de 
distancia de Eminio (Águeda) ([}, e outra junto dos 
Pyrinneus, d'onde derivaram o nome os povos Vac- 
ceos da antiga província Tarraconense, como attes- 
ta S. Isidoro de Sevilha /<//. 

Mas bem podia este nome ser attribuido a uma 
terceira cidade como succedia com os nomes de 
Carteia, que quadrava a três povoações uma na 
Catalunha, outra na Betica, e ainda outra junto a 
Huelva, de Ebora, das quaes uma era situada no 
Betica, outra na Lusitânia e outra naTarroconense, 
de Merobiga, que se applicava a quatro povoações, 
de Arcnbrica a três, de Atigustobríga a três, deCV 
sonoba a duas, de Osca a quatro, e de Laoobrica-n 
quatro, etc. 

Seja o que for, é carto que no cartório do Ca- 
bido da Sé de Vizeu existe uma provisão do nosso 
rei D. AfTonso V do anno de 1460, d'onde consta 
fora concedida para as obras do convento de S. 
Francisco do Monte toda a pedra necessária que 
se encontrasse na cidade de Vacca, principiada 
dentro da Cava (k). 



fi Oaspar Ba irei roa— Observações de mão que rtfto viram 
a luz, mas silo leferídua por Botelho nos Diálogos. 

g) S. Isidoro do Seviltu— Etymolog. liv. II, cap. II, diz; Vac- 
ca opidum fuitjuxta Pirineum, a quo sunt cognomínati Vac- 

h) liberal, n.°* 1 e 2. Francisco Manoel Corroa, Memorias 
(mss.) em respeito a cidade de Vizeit, pag. b\ 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



O nome de Viço- Aquário, que se lê no Itine- 
rário de Antonino Pio, e que Rodrigo Mendes da 
Silva (i) applica a Vizeu, não lhe convém, mas a 
uma povoação situada no caminho de Astorga a 
Saragoça $}. 

Visoneio, nome que .lhe é attribuido pelos es- 
criptores Rafael Volaterraneo e Lúcio Marineo Sí- 
culo, era tima povoação que Ptolomeu assenta nos 
Pelendones, distante de Vizeu mais de setenta lé- 
guas (k). 

A situação de Verruvium, (ou Venirium, como 
escreveu Ptolomeu), podia ser a de Vizeu, mas não 
ha fundamento em vista do qual nos possamos 
convencer d'isso, e tanto méis que não devemos 
ter como seguras as posições attribuidas por aquel- 
le gaographo a diversas localidades da Península, 
da qual elle tinha informações pouco exactas. 

tiaspar Barreiros e com elle o dr. Botelho Ri- 
beiro nos Diálogos (manuscriptos) combatem a opi- 
nião que attribue a Vizeu o nome de Verurium. 

Diz este: «aquella cidade conforme a descrip- 
«ção que vae fazendo Ptolomeu devia de estar per- 
«to de outra, que logo immediatamente se segue, 
«chamada Valadis, que também a impressão de 
«Valgrissio interpreta Valdasta, e na vulgar de João 
«Baptista Pedresano se interpreta Valdissa, deven- 
«do de querer dizer Valdigein, que está junto a 
«l,amego, sitio muito alongado, onde Ptolomeu si- 



i) Poblacion gonoral de Espana. 
j) H. Floras, Ior. citiido. 

k) Sanctuario Mariftnno-tom. V, pag. 139-Bitolrm, Dia 
logos mus. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



•tua Valadis, que é um logar duas léguas de San- 
«tarem, onde hoje se mostram ruínas de huma ci- 
cdade, que ali foi, da qual se chama agora aquelle 
«campo de Valada, e Santarém tem uma porta que 
«se chama de Valada, onde esta Nossa Senhora de 

«Valada 

« ' e debaixo do rio, diz Barreiros, se 

«vêem ainda grandes minas, onde se acham mui- 
«tas moedas de prata e bronze dos' Romanos, va- 
«sos ao irodo de urnas de barro, solhos de mosai- 
«co marchetados, e não ha muito tempo se acha- 
«ram caveiras e ossos de finados». 

Em algumas escriptimis do anno 925, em que 
figuram como senhores desta cidade Huflb llufles 
e sua mulher D. Tareja, e-lhe dado o nome de ri- 
so (11. 

Por este nome já era conhecida no tempo dos 
Suevos, que pretendem deriva-lo do facto de se 
achai - edificada no cume e encosta de um monte e 
denominar-se antigamente Viso o cume das mon- 
tanhas (mj. 

Alguns escriptores e entre elles o nosso dr. 
Botelho (n) fazem remontar este nome da cidade 
ao tempo dos Romanos, e dão a seguinte explica- 
ção. 

X cidade de Vacca, que era sita na Cava de 



I) Fr. B-rnardo do Brito diz: "Têmpora illo quo comités 
"Goterris Alia, et coiuitissa Aldara tenebant l'ortogale, et 
"teiraa de Santa Maria, et comités Huflo Hiiffes, tit wuiiítiísíi 
"Taiej.1 tenebant Viso, et adjacentia in ora DCCCCLIII». 

»i) Vilhena Baibosa-A* cidades o Vltlaa de Portugal quo 
tem braíÕL'8 d'armas-vol. III, png. 181. 

n) Dialogo I, rap. XIII, in fine. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Viri ho, tendo por vezes rebatido o poder e a fú- 
ria os Romanos, passados dois annos depois do 
assassinato do grande capitão lusitano, foi manda- 
da destruir pelo cônsul Decio Junto Bruto, que 
mandou construir em logar sobranceiro uma nova 
fortaleza com duas torres, denominando-a Viso, 
por estar no alto ou viso da encosta fronteira á 
Cava, e junto d'ella uma nova povoação, que mais 
tarde se chamou Vizeu. 

Accrescenta Botelho que essa fortificação ficou 
sendo como aviso ou atalaia e que d'ahi proveio o 
nome de Viseu à nova cidade, a cidade actual, e o 
velho annexira: Viseu, aviso teu, ou aviso é teu; 
que elía soube guardar seu nome. que nem em 
tempo de Godos ou Mouros deixou perder; e que, 
embora houvessa corrupção em todos, só elle não 
mudou, inda que se lhe accrescentou um c, deno- 
tando que Viseu he e sempre será. 

Estas palavras do dr. Botelho merecem em 
verdade o commentario que lhes faz o nosso ami- 
go e sábio continuador do Portugal Antigo e Mo- 
derno, dr. Pedro A. Ferreira, digno abbade de Mi- 
ragaia: 

«Ditosa pátria que tal filho teve. Esta etymo- 
t logia honra o estro de Botelho. Está bem pensada 
«e seduz; mas eu quizera que elle para auetorisar 
«os seus versos citasse n.lguin geographo romano que 
«desse o nome de Vizeu a cidade em questão, pois 
«móis natural parece que de viso se formasse an- 
ates o nome de VisonUum ou Visoncio, dado por 
«Ptolomeu a uma cidade romana da península, ou 
«o de Visonium ou Visonio dado a Viseu por Be- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



«rardo; o, bem podia ser que do Visnneio ou Viso- 
*nio se formasse com o tempo Viseu* (o). 

Considerando esta queslào como d« lanx cor 
prinoe, o illustrodo escriptor lambam nos apresen- 
ta unia hypothese sua, que considera um thema 
novo para novas dissertações, acerca da ety.nolo- 
gin da palavra Vizeu, nos termos seguintes : 

iE' innegavel (pie muitas povoações do nosso 
ipaix e da península tomaram o 1101110 de peiso- 
■nagens romanos, suevos, godos e moiros. Podis- 
«mos citar grande numero dessas povoações, por- 
tque já temos organisada unia lista d'eílas, mas 

«como este aitigo vae já muito longo 

« Aqui apenas indicaremos que em 

«muitos documentos dos mais antigos que chega- 
«íam até nós,— documentos authenticos dos secu- 
tlos X e XI, repelidas vezos se encontra Visoi, 
«como nome próprio de homem, entre assignatu- 
cras das testemunhas, que firmam aquelles docu- 
cmentos. 

oNão fantasiamos como pode ver-se no Por- 
itugalix Momtmenta llistoritxi, tit. Diplomata et 
iChartx » 

Cita depois esses documentos e as paginas a 
que se encontra aquelle nome e conclue : 

«Do exposto se vè claramente que Visoi ou 
« Visoy era nome ainda muito vulgar nos séculos X 
«e XI, o que leva a crer que este nome foi usado 
«nos séculos anteriores, talvez durante a oceupa- 
«çào dos suevos, godos e moiros. 



o) Portugal Antigo e Htxlorno — tom. XII, pag. 17 iõ. 



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«E' pois muito possível que Viseu tomasse o 
«nome oValgum personagem assim denominado, 
«como d'outros personagens romanos, suevos, go- 
«dos e moiros tomaram o nome outras muitas po- 
«voações de Portugal e da península.» (p). 

Alem do cónego Oliveira Berardo não conhe- 
cemos outro escriptor anterior que attribuisse a 
Viseu o nome de Visonium, mas estamos certos 
de que elle o fez, não por o encontrar em auctores 
antigos, mas por intender que por essa palavra 
poderia veiter para a língua latina a palavra Viseu, 
como depois o tem feito os auctores das folhinhas 
que, naquella língua, se tem publicado neste bis- 
pado, e como nos obrigava a fazer nas datas dos 
themas o nosso chorado professor da mesma língua 
no lyceu de Vizeu padre Joaquim José de Souza. 

Nada mais se nos oíferece dizer sobre os vá- 
rios nomes attribuidos a Vizeu. 

Passamos por isso a. faltar da sua antiguidade. 
Como. diremos em logar competente, e aqui só no- 
tamos de passagem, alguns auctores dão noticia de 
ser bispo de Vizeu S. Justo no anno 270 de Chrís- 
to e de se continuar depois a serie dos Prelados 
na Egreja Viziense ; mas a primeira noticia certa, 
constante de documentos authenticos, que se re- 
fere a Vizeu e lhe dá este nome, é do século VI 
da nossa era. 



I» Tortngnl Antigo o Modorno - tom. XII, png. 1713. 



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Todavia, em vista dos monumentos archeolc- 
gicos e históricos, não pode duvidar-se que a exis- 
tência d'esta cidade remonta a uma grande anti- 
guidade. 

O sr. dr. Pedro A. Ferreira (q) opina que o ter- 
ritório de Vizeu fora occupado pelos Iberos ou pre- 
Celtas, constructores dos monumentos megalithi- 
cos pre-historicos, e que pode muito bem aflirmar- 
se que esta cidade data d'aquelles remotíssimos 
tempos pre-historicos, muito anteriores á occupa- 
Çâo dos godos, romanos, carthaginezes gregos e 
fenicios. 

No seu intender pode afoitamente dizer-se 
que os gregos habitaram o território de Vizeu e de 
grande parte da Beira, como prova a denominação 
de orcas, ainda hoje dada na Beira aos dolmens, 
pois è sabido que os gregos denominavam oreos os 
monumentos funerários, e como taes são geral- 
mente considerados os dolmens (rj. 

E na pagina antecedente /«/, havia dito : «Tam- 
«bem é certo que o chão da cidade — ou pelo me- 
«nos do concelho de Vizeu — foi habitado ou oceu- 
«pado nos tempos pre-historicos, — milhares de an- 
•nos talvez antes do nascimento de Christo, como 



çi Portugal Anligo o Moderno - tom. XLI, psig. 1741. 

r) Os dolmens, conhecidos tnmbom pelou numes do laboas 
do diabo, telhas dou fadas, passadiços cobertos, silo formados 
com uma ou mais pedras chatas, onllocadaa h o n sou tal monto 
sobra algumaa pedras vorticaos. Eram camarás sepnlchraes 
que encerravam os restos du algum cliufu famoso, e u'ellusse 
tom encontrado instrumentos do podra, de bronze, do miro, a 
do ferro. Alguns medem 7 mo troa do comprimento u nu roa 
tantos de largura. 

a) Portugal Anlign o Moderno-tom. XTI, pag. 1742. 



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«provam evidentemente os monumentos megalithi- 
«cosd'aquellaepocha, hoje denominados orem, ar- 
«cos e antas, que se encontram no concelho e em 
«volta do concelho de Viseu, taes são as orcas de 
«Mondão a N. ou N E., e as de Cannas de Se- 
«nhorim a S.; as antas de Penalva a E. — e o doltnen 
«ou anta da freguezia de Arca, no concelho de Olí- 
«veira de Fiades, a O., alem de outros muitos mo- 
«numentos congéneres que ainda hoje se encon- 
«tram dessiminados pela Beira. 

«Citaremos aqui os dois penedos baloiçantes 
«apontados pelo sr. Borges de Figueiredo na sua 
tRevista Archeoloaica (n.° 1, janeiro de 1888) dos 
«quaes se encontra um na quinta de Carragozella, 
«freguezia de Espariz, concelho de Tábua — e outro 
«na quinta da Torre do sr. visconde de Taveira, fre- 
sguezia de Lourosa, a 5 kifometros de Vizeu, já 
«descripto no Conimbricense n.° 3ÍH0, em -1885». 

Dá ainda noticia de outros penedos baloiçan- 
tes : o do Pêro Moleiro em Villa Nova de Tazem ; 
o da freguezia d'Abragão, concelho de Penafiel, 
que foi despedaçado; o do Forno Telheiro, conce- 
lho de Celorico da Beira. 

Pessoa que bem conhece os territórios de 
Ferreira d' Aves informa-nos que paia *o lado do 
nordeste d'esta freguezia, e na margem esquerda 
do rio Sátam, mui próximo do limite do concelho 
de Fraguas (antigamente Barrellas), existem três 
orcas pouco distantes umas das outras. 



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CAVA DE VIRIATHO 



Um dos actuaes limites de Vízeu pelo lado 
noite é a Cava de Viriatho, o monumento mais 
considerável d'esta cidade. 

E' um vasto campo no meio de uma extensa 
planície, o qual em séculos passados foi circuitado 
de muros de terra, terminando em cavallete, cer- 
cados de ura fosso. 

Confina com o Campo da Feira ou Largo da 
Ribeira ou, segundo a moderna, mas imprópria, 
terminologia ofticial consagrada pela camará mu- 
cipai viziense, Campo de Viriatho, nome que ou- 
trora se applicava a planura fechada pelos muros. 

A. pouca distancia, 4 ou 5 metros, do lado poen- 
te encontra-se a estrada de macadara (real n.° 7), 
que é o prolongamento da começada, e talvez nun- 
ca concluída, AvenUia Navarro, e conduz d'esta ci- 
dade á villa de S. Pedro do Sul. 

A aproximada distancia de 1 kilometro, ve-se 
para o mesmo lado a povoação da Aguieira, e para 
o noroeste a de Abravezes. A nordeste e ainda 
mais próximas ficam as da Eseulca e S. Theago, e 
ao sul, a distancia de poucos metros, está o antigo 
quartel militar, onde desde ha muito se aloja o 
destacamento de cavallaria que permanentemente 
estanceia nesta cidade. 

Avista-se a Cava de vários pontos, sendo os 
principaes os edifícios do Collegio e Mizericordia, 
a serra do Crasto e o monte de Santa Luzia. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Os seus muros de que ainda se salientam cin- 
co, posto que já muito damnificados, eram de 
terra com alicerces de pedra. 

A área interior era de 307200 metros quadra- 
dos, e, comprehendidos os muros, de 383400; o 
raio interior de 320 metros e o raio total de 355. A 
largura dos muros na sua base era de 35 metros; o 
comprimento de cada um, de angulo angulo, pelo 
lado interno, de 240 metros, e, pelo externo, de 270; 
e o circuito, medidos os lados pela base exterior, 
de 2100 metros, pela interior, de 1020, e, pela me- 
dia, de 3040. 

O muro actualmente existente, (pie fica ao la- 
do da sobredita- estrada de macadam, mede de al- 
tura desde a base exterior metros, e 5 desde a 
base interior; e tem no alto, bem como o que de- 
fronta com a cidade, um passeio de 6 metros de 
largura, aproximadamente. 

Ainda hoje se vêem restos, consideráveis, de 
5 muros, e, insignificantes, dos 3 restantes. 

A altura de quatro d'elles (osdeSO., O., NO., 
e N.) medida pelo lado exterior varia entre 9 e 15 
metros e pelo lado interior entre 3 e 6; a altm'a 
do quinto (o de N E.) é de 5 a 7 metros; e a doa 
três restantes varia entre 2 e 4 acima dos terrenos 
adjacentes. 

Attendendo à largura da base dos primeiros, 
ainda hoje pode calcular-se a máxima elevação que 
todos elles podiam ter attingido; mas, se ella efle- 
ctivamente lhes foi dada, é impossível dize-lo. 

O que é certo é que os fados, por que tem 
passado, lhes foram pouco favoráveis. 



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A incúria, a ignorância e a rapacidade huma- 
na conjugaram-se para a sua destruição, que a 
estas horas seria total, se os poderes públicos 
não tivessem tomado algumas medidas conserva- 
tórias, que tem sido incompletas e em grande par- 
te ineflicazes. 

El-rei D. João V por decreto de 13 de agosto de 
1721 determinou que a Academia Real da Historia 
Portuguesa providenciasse para se conservarem os 
monumentos antigos que podessem illustrar e tes- 
tificar a verdade da mesma historia (tj e em 1728 
expediu uma ordem para que a Cava fosse medida 
e apegada e se conservasse com o maior cuidado o 
que restava de tão precioso monumento. 

A medição e apegação foram feitas pelo irmão 
e architeto da Congregação do Oratório (S. Filippe 
Nery) Manoel Pereira, coadjuvado pelo notável João 
Colt, padre da mesma Congregação, Sócio da Aca- 
demia Real da Historia Portugueza, e bispo eleito 
de Elvas, cargo que não acceitou. 

Verificaram os dois Congregados que os mu- 
ros tinham de circuito 3:055 passos andantes (mais 
de légua franceza ou poloneza e menos que a hes- 
panhola 363 passos), de largura no cimo 40 palmos, 
e no passeio dos muros 10 (o que não tinha no 
principio, pois terminava em cavallete, disseram 
elles), e de altura 3 lanças, isto é, 75 palmos cra- 
veiros, visto que, como diz Viterbo no Elucidário, 
cada lança tinha 25 palmos. 



() Memur. da Ac.ui.-t.oni XVII pag. 311. 



D, B itizeot> V GoOgIe 



Nessa occasiào ainda existiam as quatro aber- 
turas ou vãos de portaes, que tiveram cantaria com 
portas. 

A determinação d'aquelle monarcha lelativa- 
mente á conservação não foi cumprida. 

Os lavradores visinhos, nos reinados seguin- 
tes, começaram de nivelar com o arado fossos e 
muros, e retiraram os restos de pedraria ali exis- 
tentes. 

Estes factos vandalicos despertaram o zelo 
patriótico do general da província cfci Beira, Anto- 
nio^Marcellino da Victoria, — o Olho Verde—, que 
depois foi barão de Tondella, e é um dos ascen- 
dentes da família Aragão da quinta da Ponte, con- 
celho da Guarda. 

A instancias suas, a Camará Municipal, em 
fins de junho de 1818, mandou collocar marcos, 
alguns dos quaes ainda hoje existem, em todo o 
circuito do lado interno e externo dos muros. 

Mas era já tarde, não só porque os muras que 
ficavam para o nascente tinham desnpparecido e 
os terrenos, onde assentavam, nivelívlos já com os 
circumjacentes, estavam encorporados num prazo, 
mas também porque os muros ainda existentes 
se achavam muito cerceados pelas cubicaras ex- 
cava?0Gs dos possuidores dos prédios confinan- 
tes. 

Quando em I8S2 visitou esta cidade Sua Mages- 
tade D. Luiz I, a camará municipal presidida pelo sr. 
Conde de Prime, José Frederico Teixeira Hebello, 
mandou nivelar o cimo dos dois muros que de- 
frontam com a cidade o com a estrada de mao 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



adam, abrindo assim um passeio, por onde passa- 
ram as pessoas reaes e as suas comitivas. 

Ultimamente (1892) a camará municipal, por 
iniciativa do seu presidente sr. conselheiro José 
Maria de Souza Macedo, professor de historia e 
geographia no fyceu nacional desta cidade, man- 
dou proceder a reparações nos dois referidos mu- 
ros, acarretar para ali a terra indispensável para 
sa regularizarem, e ao mesmo tempo nivelar a hor- 
ta dos soldados e a parte contigua do Largo da Fei- 
ra, onde foram plantadas arvores, que de futuro 
formarão uma bella alameda, tornando assim esse 
sitio mais pittoresco e ameno. 

Apezar das opiniões, em contrario, de indiví- 
duos que não ligam importância alguma a antigui- 
dades, desejáramos que o senado viziense restauras- 
se aquelle antiquíssimo monumento, expropriando 
até o terreno dos muros que hoje já é do domínio 
particular. Km todo o circuito ficaria um dos mais 
attrahentes passeios da cidade. 

lia vinte annos a esta parte na planície fecha- 
da pelos muros viam-se apenas alguns pequenos 
pinheiros e giestas e num ou noutro ponto semea- 
va-se centeio. 

Depois disso construiram-se ahi algumas ca- 
sas, arnmcaram-se os pinheiros e as giestas, e tem- 
se applicado o terreno á cultura doutros géneros. 
A face do muro que defronta com a cidade 
acha-se revestida de arvores que ensombram dois 
passeios um no alto do talude e outro a meia altu- 
ra do lado exterior. Três plátanos gigantes que ahi 
se vêem foram plantados pelo general inglez An- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



dersen no tempo da gueiTa peninsular, e das res- 
tantes arvoíes algumas pelos officiaes do regimen- 
to de infanteria 17, que occupava o já referido 
quartel militar, e outras por ordem da camará mu- 
nicipal, que ha três annos também mandou plan- 
tar grande numero no talude exterior do muro que 
corre quasi pirellamente á estrada de macadam. 

Do antigo fosso restam dois trocos perfeita- 
mente definidos. Um, denominado vulgarmente o 
Poço da Cava, e — pelo sr. conselheiro Thomaz Ri- 
beiro no seu apreciado poema D. Jayme — Lago da 
Cava, está no angulo das duas faces comprehen- 
clidas no quadrante NO, tem aproximadamente 10 
metros de largura, e permanentemente tem mais 
ou menos agua, nativa, escorrida ou pluvial. O ou- 
tro, ao lado das duas faces que seguem a direcção 
N E., está secco e é cultivado de milho. 

Na base do muro que defronta com a cidade 
ainda no século passado se achava aberto o fosso. 

Foi no principio do actual que os ofliciaes do 
regimento de infanteria 11, cujo quartel era nas 
casas onde actualmente está o destacamento de 
cavallaria, quasi o nivelaram com o terreno con- 
tíguo, vedaram com uma baixa parede e começa- 
ram a cultivar, deixando apenas um pequeno poço,' 
d'onde extraiam agua para o regar. Esse terreno 
d'ahi em deante denominou-se horta dos soldados. 

Alguns annos depois de ter saído d'ali o so- 
bredito regimento, a camará municipal pediu a sua 
entrega (até judicialmente, segundo me informam) 
ao commandante do regimento de infanteria 14, 
que já então fazia a guarnição d'esta cidade. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Chegando noticia do facto ao ministério da 
guerra, este communicou-o ao do reino, que expe- 
diu ordem para que a camará desistisse do seu 
procedimento. 

Nada mais occorreu até que ha três annos o 
sr. José Victorino de Souza Albuquerque, sendo 
deputado por Santa Combadão, apresentou um 
projecto de lei, que foi approvado, em virtude da 
(piai passou para o domínio e posse da camâra 
municipal, a horta ifos solda-los, que alguns meses 
depois foi nivelada com o terreno contíguo e encor- 
porada no Largo da Feira, sendo ainda presidente 
d*aquelía. corporação o conselheiro sr. José Maria 
de Souza Macedo. • 

Todos os antiquários, que escreveram acerca 
da Cava, e os padres da Congregação do Oratório, 
que a mediram e apegaram em 1738, dizem que os 
seus muros formaram um octogono, e assim pare- 
ce á simples vista. Porem o sr. Pedro A. Ferrei- 
ra, baseado nas informações e na medição feita 
pelo dr. Nicolau Pereira de Mendonça Falcão, veio 
asseverar que era ura polygono irregular de 11 fa- 
ces, ainda hoje bem visíveis, parecendo-lhe até 
que outr'ora teve 13, pois duas fazem uma insigni- 
ficantíssima curva. 

Descreve depois essas faces ou lanços, a co- 
meçar na que defronta com a cidade, pela seguin- 
te forma : 

cO lanço immediato (1.° da planta) é o mais 
vistoso, mais alto, mais saliente e o que nós per- 
corremos em 1862. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



«Ainda hoje está todo arborisado com algu- 
mas arvores antigas e outras modernas, e tem dois 
passeios— um junto da base do grande talude e da 
horta dos soldados, com alguns assentos de pedra; 
outro no alto do talude. 

«li' o lanço mais bem tractado e mais bem 
conservado, rnas já esteve muito mais alindado, 
porque antes â>\ extincção das ordens religiosas e 
de se arvorar em quartel o convento de Santo 
António de Maçorim, o regimento da guarnição de 
Vizeu (então infanteria n.° 17) occupava o quartel 
contíguo á Cava e a oficialidade transformou o 
dito lanço em uma formosa alameda, jardim e pas- 
seio pubjico. 

«Datam d'aquelle tempo as arvores mais anti- 
gas que ainda hoje lá se vêem, mas já desappare- 
ceram as flores, as trepadeiras e um lindo cara- 
manchão, etc. 

«O dicto lanço trajou galas e foi o rendez-vous 
de Vizeu, mas com aquelles embellezamentos e 
movimentos de teria perdeu bastante altura. Dos 
16 metros que tinha em 1729 hoje a sua altura 
máxima, a prumo, do lado exterior ou sobra a hor- 
ta dos soldados, está reduzida a IO" 1 ,500; e a do la- 
do opposto a 5 metros, medidos também a prumo. 

«Na tese tem de largura 31 ,n ,t>0 ; no alto ca- 
vai lete 6m,00; comprimento total 2i6«',00. 

«Caminhando para a nossa direita o lanço im- 
meriiato {'2." da planta) tem de comprimento 24O' Q ,0O 
— e na sua extremidade N. está o vão de uma das 
4 antigas portas. 

«O dicto vão tem de largura 15 m ,00. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



«O 3.° lanço tem do com prima rito 244 m ,0O, ca- 
minhando para N. 

«Encostado a este lanço ainda hoje se ve, do 
lado exterior, um fragmento dos antigos fossos. 
Denoinina-se Po<;-o da Caim, espécie de lago com 
42™ ,60 de largura e 147 metros de comprimento, 
cuja agua não secca nem trasborda, por sei' mais 
.alto o terreno circumvisinho. Apenas na estiagem 
tiram alguma para rega com uns engenhos muito 
simples, denominados picanços. Assim regam al- 
guns chãos da quinta contigua, que foi do fallecido 
negociante Castcllo Branco, cuja casa defronta nas 
trazeiras com o lago e tem uma linda varanda qua- 
si sobre elle. 

«0 padre Leonardo de Souza no 1." tomo do 
seu catalogo também fatiou d'este poço e disse (pie 
criava peixes, mas que ninguém os pescava nem 
comia, receando serem nocivos a saúde, por estar 
a agua sempre encharcada. 

«0 dito poço tem de superfície cerca de 1850 
metros quadrados; é de suppor que tenha nascen- 
tes próprias que o alimentavam e (pie muito pro- 
vavelmente alimentavam os fossos aquáticos, (pie 
outr'ora circuitavam a Cava toda. Também é de 
crer que os dictos fossos recebessem as agitns plu- 
viaes da Cava e dos terrenos adjacentes — e talvez 
as do Pavia, captadas em altura própria, a grande 
distancia. 

«0 4." lanço, immediato a este, tem de com- 
primento 257 metros e, quasi a meio, a abertura de 
uma das quatro antigas portas, cujo vão tem de 
largura 10 metros. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



«O 5.* lanço pela ordem seguida tem de com- 
primento 240 metros e forma com o 4.» lanço o an- 
gulo e a extremidade N. da Cava. 

«O 6.° lanço tem de comprimento 254 metros, 
e a 64 metros, contados do norte, tem o vão dou- 
tra antiga porta com 10 metros de largura. 

«O 7." lanço tem de comprimento 180 metros 
— e na sua extremidade sul esta um pontão sobre 
o ribeiro, que vem da aldeia de S. Thiago e vae 
regar o quinta das Mestras e a do Comi, que ficara 
defronte d'este lanço. 

«E' também muito provável que outr'ora as 
aguas deste ribeiro alimentassem parte dos fos- 
sos, pois elle toca no sitio do pontão no muro de 
terra deste lanço. 

«O 8.° lanço tem de comprimento 180 metros 
e o 9." 145. 

«Estes dois lanços já estão quasi destruídos e 
nivelados com o solo. 

«O 10. fl lem de comprimento 185 metros e na 
sua extremidade S O. estava uma das antigas por- 
tas, cujo vão tem hoje de abertura 20 metros, por- 
que ha ali uma espécie de terreiro que dá serven- 
tia para dilTerentes casas e quintas já feitas dentro 
da Cava. 

«Este lanço corre atravez de bom terreno po- 
voado de vinha e olival. 

«O 11.° (a N. do quartel) tem de comprimento 
200 metros e é este o ultimo lanço do polygono da 
planta. 

«Todos aquelles 11 lanços se tocam e formam 
11 ângulos de 130 graus, o mais fechado, e de 155, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



o mais aberto, mas a maioria (Telles é de 140 
graus. 

«A ctrcumferencia do polygono, contada pela 
extensão total dos H lanços, é de 2303 metros : a 
Cava tem de superfície aproximadamente 300 mil 
metros quadrados — e dentro, não no centro, mas 
na proximidade dos muros, se vêem hoje diversas 
casas de quintas e habitações ruraes, formando de 
longe em longe pequenos grupos. 

cBerardo e Botelho disseram que os muros 
da Cava foram feitos sobre pedras, mas claudica- 
ram neste ponto, porque o sr. dr. Nicolau diz que 
não encontrou pedra alguma appavelhada ou tosca 
na base dos muros, nem mesmo nos lanços que 
estão quasi desfeitos e nivelados com o solo. Ape- 
nas encontrou ainda muitos dos grandes marcos 
de pedra, mandados por como balisas pela cama- 
rá, ao longo dos muros, tanto do lado interior co- 
mo do exterior, quando emprazou aquelles chãos. 
aTambem das arvores antigas apenas lá se 
encontram hoje 3 plátanos monstruosos que, se- 
gundo consta, foram plantados nos princípios d'es- 
te século pelo general inglez Andressen. 

«Desappareeeram também ja do antigo fosso 
do lanço n.° i, hoje horta dos soldados, duas ou 
ou trcs grandes arvores lindíssimas — Acers ncgun- 
do (acers com folha de freixo) — que la se viam no 
meado d'este século. Todas as arvores que hoje 
ensombram o dito lanço, tanto antigas como no- 
vas, n3o teem merecimento algum, exceptuando 
alguma Rabina pseudo-Acaeia, a que o povo chama 
EsjÀnhosa. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



<i A isto se reduz a pobre Cava, este monumento 
venerando que já conta mais de vinte séculos, pois 
com certeza ó anterior ao nascimento de Christo. 

«O i.° dos lanços mencionados supra olha 
para S O. ; o 2.° para O S O. ; o 3.» para O N O.; 
o 4.° para N N O. ; o 5.° para N N E. ; o 6.° para 
N E.; o 7.° para E.; o 8.° para E S E. ; o 9.» para 
S E.; o 10.° para S S E,— e o \i." para S S O.» 

No tempo de D. João I ainda nos muros da 
Clava existiam quatro portas guarnecidas de pedra 
de cantaria, e no campo por ell&s circuitado o in- 
fante D. Henrique fez erigir uma ermida dedicada 
a S. Jorge, ã qual deixou em seu testamento ceita 
renda para ahi se cantar uma missa em todos os 
sabhados do anno, e onde collocou um retábulo 
com a imagem d'aquelie sancto, em cujo dia a er- 
mida era visitada annualinente por uma procissão, 
muito concorrida de povo, dirigida pelo cabido. 

Pelo andar do tempo arruinon-se a capella; — a 
missa passou a cantar-se na cathedral; e o quadro 
que ali estava foi transferido para outra capelk, 
dedicada a S. Luiz, rei de França, que, arniinando- 
se também, foi reedificada no sec. XVIII e dedica- 
da a Nossa Senhora da Conceição. K' a que ainda 
existe no Campo da Feira Franca a pouca distan- 
cia da ponte da Avenida Navarro. 

Mas, já em Ki.18, tinha desapparecido o qua- 
dro e a missa não se cantava, como pode ver-se 
do Livro das Missas, que o cabido mandava di- 
zer, recopilado pelo chantre Gaspar de Campos e 
Avren. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



A provisão de D. Affonso V do anno de 4-460, 
de que já Azemos menção, concedeu a pedra, que 
se achasse na Cava, para ser applicada ú edificação 
do convento de S. Francisco do Monte, mas é cer- 
to que nos annos de 1630 a 1636, em que o dr. 
IUbdiro Botelho escreveu os seus Diálogos, ainda 
ali havia alguma pedra, e os restos, que então 
existiam, dos muros e fossos eram tão considera, 
veis que com pouco trabalho estaria a gente mais 
segura dentro, que nos muros da ciiaiU. 

Escreve elle : «A opinião de ser real de Ne- 
tgidio fica bem refutada com a vista d'este edifício, 
«que alem de ser huma cousa tão grande, e forte, 
«naste mesmo muro de pedra (onde já entrámos) 
«que não foi feito ao acaso, nem para uma defen- 

«sa momentânea 

t Este pedaço de mura tão forte e arga- 

tmassado estas três seteiras, por- 

«tas, e vasâo d'esta cidade em circuito, são tão bem 

«feitas e lavradas Mostra mais ser esta Cava 

«naquelle tempo inexpugnável, pote neste depois 
«de tantos centenares de annos está ainda tão for- 
«te, que com pouco trabalho estaria a gente mais 
«segura dentro que nos muros da cidade, por es- 
«tar quasí toda_ cercada de agua, por estar pelo de- 
«curso do tempo meio desbaratada, mas ainda 
«nestes vestígios mostra sei- cousa fortíssima, e 
«que foi cidade e feita esta cerca para isso.» 

D'aqui se vê que no segundo quartel do sécu- 
lo XVII, a Cava tinha ainda sólidos muros, portas 
e seteiras bem feitas e lavradas, e se achava quasi 
toda cercada de agua. 



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Braz Garcia Mascarenhas, natural da Villa de 
Avô, e governador da praça de Alfaiates, que vi- 
veu de 159&-4Ô56 e foi um dos valentes da res- 
tauração de 1640, no seu poema — ViiHato Trágico, 
referindo-se á Cava, diz : 

(Gahto X, k. 99) 

Tão alta a Cava fez, grossa a Trínchei/ra 
Que inda o tempo a reserva quasi inteyra 

(Canto X, K. 100) 

MU setecentos, e setenta annos 
Depois de feita foi de mim notada 
Por Gentil Epipkei*ia de Romanos, 
Se mais forte, que bem descortinada : 
Parece que o temor dos Lusitanos 
A fez lavrar mais alta, e mais fossada, 
Que inda a Cava se vê, sem ver o Leyto, 
Chèa d'agoa, e de terra o Parapeyto. 

O padre Leonardo de Souza (u), que escreveu 
no meado do século XVIII, descreve a Cava do 
seguinte modo : 

«No bairro da Ribeira onde corre o Ryo Pa- 
via, e tem Ponte de dous arcos, correndo as aguas 
para a parte do Norte, se vè a memorável Cava de 
Viriato, na qual com os seus Lusitanos fez dar 
aos Romanos que nella estavão aquartelados o ul- 
timo vale (adeus) ao terreno Visense. 



(u) Padre Leonardo de S'iizii-"Meniorias Históricas e 
Chrom>ln#juii9 dos Bhpos de Vizou,, (msM)-fl. 18 v. e 19. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



eOs muros que defendem este grande cerco 
sào formados de terra extrahida de hum largo fos- 
so, que lhe cercava todo o âmbito, e de que ainda 
se conservam grandes vestígios, posto que já gran- 
de parte por utilidades particulares está entulhada. 

«Por dentro dos mesmos muros estão fortís- 
simos e grandes penedos como nas partes que se 
tem demolido virão os que o executarão : servin- 
do naturalmente aquelles como de alicerces e ba- 
lizas a toda esta antiga e tosca fabrica. 

«Medida sua altura perpendicularmente, co- 
mo fez por Ordem Regia o Architeto e Irmão Ma- 
noel Pereira, da Congregação do Oratório de Lis- 
boa, no anno de 1728, com seu companheiro o R. 
P. M. João Gol, que depois foi bispo eleito de El- 
vas, que não aceitou, e faleceo na sua Congrega- 
oara passados annos, tem atéá superílcie três lan- 
ças : de largo na mesma superfície quarenta pal- 
mos: no passeyo dos três muros dez : o que não 
leve em seus princípios, pois acabava de cavalete 
para sua maior defensa. E, na circumferencia de 
toda esta decantada obra, trez mil e sessenta e 
cinco passos andantes : mais de legoa Franceza ou 
Poloneza, e menos que a Espanhola tresentos, e 
sessenta, e trez passos : no parecer de Lima e Jus- 
tiniano. 

tA forma que a mesma Cava ainda de alguma 
sorte conserva, mostra fora perfeitamente outava- 
da : costume ordinário dos Romanos em taes edi- 
fícios. 

cpara dentro d'ella se entra por quatro aber- 
turas de alto a baixo nos mesmos muros. Duas 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



para a parte Meridional e as outras duas para a 
Septentrional : não porque os mesmos Romanos 
assim as fizessem, mas porque a utilidade dos po- 
vos que lhe ficam mais visinhos as fez abrir. São 
estes os da Aguieira, Abravezes, Bouvezes (vj e 
Santiago da Esculca : filiaes da Sé, e da qual se 
lhe administrâo os Sacramentos a seus morado- 
res. 

«Dista a Cava da estrada que vay por fora da 
Ponte hum tiro de baila; e em uma parte do fos- 
so que olha para o Norte se eriào peixes, que se 
não pescão por temer ser de qualidade maligno, e 
não serem as aguas correntes, mas enxarcadas. 

«No Campo que medeia entre a Ponte e a Ca- 
va se faz annuaimente no mez de Settembro a fa- 
mosa feira franca, que excede nos provimentos, e 
géneros, a todas quantas ha no Reyno, como asse- 
verão os que a ellas concorrem». 

D'esta narração se vê que das quatro portas 
que communicavam o exterior com o interior da 
Cava duas ficavam para o norte, e duas, que já 
não existem, para o sul, sendo por isso inexactas 
a afíirmativa do Portugal Antigo e Moderno, que 
considera como uma das antigas portas o vão ou 
abertura, feita em nossos dias no muro do oeste, 
que dá passagem paia a fabrica de vidros, existen- 
te denfcro da Cava na mesma casa onde esteve a 
fabrica de serragem de madeiras, e a do sr. Hen- 



(») Não existo actualmenlo povoação chamada Bouvezes. 
A nosso ver, ora esto o nome da que hoje se chama Povoa de 
Abravezes. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



rique J. das Neves, quando diz restarem ainda ho- 
je os vãos dos quatro portões que ha séculos exis- 
tiam. 

O dr. Brito, na Monarchia Lusitana, attribue a 
construcção da Cava aos Vetones e aos Vaceos, di- 
zendo : 

«Augmentando a população dos Vetones e Va- 
«ceos, que viviam na Estremadura, e não queren- 
cdo guerrear os seus visinhos Celtas, mandaram 
«todos os homens de idade inferior a quarenta an- 
t nos passar o Mondego e estabelecer-se na Beira 
«e foram estes que fundaram a cidade de Vacca, a 
«Cava, e os seus muros, para se defenderem dos 
«naturaes, que os molestavam e perseguiam». 

E', porem, geralmente, e até pelo próprio dr. 
Brito, que se contradiz, attribuida aos Romanos, 
suppondo-se que era uma das suas praças ou for- 
tificações, denominadas Castra Hiberma, onde as 
legiões estacionavam por muito tempo e collovam 
hospitaes, armazéns e outras fabricas de guerra, 
e também Campos de César, porque este general 
levantara muitos nas G-allias, sendo o seu exem- 
plo seguido por outros capitães romanos nas pro- 
víncias que andavam conquistando. 

A tradicção popular, recolhida por alguns es- 
criptoies, acerca dos feitos gloriosos dos Lusita- 
nos, considera aquelle monumento como obra ro- 
mana e refere os acontecimentos pela forma que 
segue : 

No anno 3816 da creação do mundo e 186 an- 
tes de Christo chegou ao conhecimento do senado 
romano que os seus poderosos exércitos haviam 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



soflrido grande derrota nos combates com os Lusi- 
tanos, capitaneados por Viriatho, e que n'uma ba- 
talha morrera o pretor Caio Vitelio e noutra o pre- 
tor Caio Planeio. 

Para remediar tão consideráveis perdas, re- 
solveu mandar á Lusitânia como pretor, mas com 
as honras de cônsul, a Cláudio Unimano, singular 
e experimentado capitão, em quem depositava 
grande confiança. 

Ajuntou este um numerosíssimo exercito na 
Andaluzia, e, confiado no grande poder resultante 
da união de tantos homens, mas desconhecendo 
a prudência, valor, sagacidade e industria militar 
de Viriatho, presume ter certa a victoria, e por isso 
sae ao encontro dos Lusitanos e os accomette em 
batalha campal junto á cidade de Colla e Campo, 
que depois se chamou Campo de Ourique. 

O exercito romano é derrotado, mas o pretor 
consegue fugir e pôr-se a salvo. 

Viriatho immediatamente volta a Lusitânia com 
os seus soldados carregados de despojos. 

A sua passagem pelas dilterentes povoações 
alegrava os naturaes, que o acclamavam, dando os 
louvores devidos aos seus feitos. 

Quando se preparava para de novo voltai - ao 
Alemtejo, soube que Caio Negidio fora nomeado 
pelo senado pretor da província ulterior para o ef- 
feito de castigar e reprimir os Lusitanos e que já 
havia entrado pelo Riba-Côa e invadido a Beira, 
talando os campos, matando e roubando a gente 
descuidada, que se oceupava na agricultura e ci-ea- 
ção dos seus gados. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Deixando por isso de seguir, dirige-se á Beira 
a flm de soccorrer os seus moradores e de vingar 
as atrocidades practicadas pelos Romanos. 

Caio Negidio, ao saber que Viriatho se aproxi- 
mava e lhe ia pedir estreitas contas, absteve-se dos 
costumados roubos e insultos e fortificou-se num 
campo raso, que vemos junto da cidade de Vizeu, 
cercando-o de muros de terra, em cuja volta abriu 
um profundo fosso ou cava. 

Na construcção d'esta fortaleza, que para o 
tempo e meios de combate em quasi inexpu- 
gnável, empregou considerável numero de operá- 
rios. 

O afamado defensor dos Lusitanos, logo que 
disto houve noticia, acudiu immediatamente a este 
ponto, e, como reconhecesse a impossibilidade de 
escalar a fortaleza, poz-lhe um apertado cerco até 
constranger, pela fome, os Romanos ou a rende- 
rem-se ou a pelejarem. 

Sempre acautellado, preparou-Ihes uma cilada, 
ordenando aos seus capitães que, se por ventura 
vissem a sorte do combate a inclinar-se contra si, 
se dirigissem para a fortificação, esforçando-se por 
ganha-la, e, quando o não podessem conseguir, ao 
menos, brigassem com os guardas, a fim de os ini- 
migos combatentes correrem a soccorre-los e a 
defender o arraial. 

Feriu-se a batalha, em que os contendores se 
portaram coin coragem e valentia, mas em poucas 
horas o pretor perde iis Águias e quasi todo o exer- 
cito, conseguindo eile fugir com alguns dos seus 
cavalleiíos. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Os restantes ou são captivos ou mortos no cam- 
po, e, entre estes, segundo refere Botelho, ura nobre 
soldado chamado Lúcio Emílio, cujo cadáver os Lan- 
cíenses Transcudanos, que viviam em Riba-Côa, vin- 
do ao logar da batalha, queimaram como então se 
costumava, e, encerrando as cinzas em um vaso, as 
sepultaram no logar onde lhe erigiram uma estatua 
com o seguinte letreiro, que também se encontra 
em Morales, Resende e Brito : 

L. ÀEMILIO L. F. CONFECT. VVLNERE 

IIOST. SUB NIGIDIO COS. CONT. VIRIATUM 

LATRONEM IANCIENS. QUOR. REMP. 

TUTARAT. BASIM CUM URNA, ET 

STATUAM IN LOCO PUBL. EREX. HONORIS, 

LIBERAL. QUE ERGO 

A traduccão que o mesmo Botelho faz d'este 
letreiro é a seguinte : 

Os Lancienses puzeram em logar publico uma 
base com sua estatua e um vaso com cinzas de Lú- 
cio, que morreu na batalha de Nigiíio contra o 
sa'tcaior Viriato, ferido por um inimigo, c foi-lhe 
posta pelo honrar, e mostrar por elle magnificência, 
por lhe sempre ter emparado e defendido sua repu- 
blica. 

Resende declara não ter visto tal letreiro nem 
encontrar noticia de haver sido cônsul, nas guer- 
ras contra Viriatho, Caio Negidio, que, segundo Plí- 
nio (x), fora opprimido pelo valoroso capitão lusi- 

(x) Pliitio— íp libcllo de viris Ulustribun. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



tano; mas admitte a possibilidade de Negidio ter fei- 
to essas guerras com poderes consulares (y). 

Ainda a Monarchia Lusitana (2. a parte) da con- 
ta de outro letreiro, referente a batalha de Nigi- 
dio, que, diz, se encontrou na Cava ou muito per- 
to, e cujos termos eram : 

L. CAPETU. GAP. F. CENT. LEGIONIS 
MARTIN ET. M. LUGEJU. C. 
MILIT. SUB. NIGIDIO. CONS. 
IN. BELLO. VIRIAT. OCCUS. ORD. 
'LACON. DIE-POST. PUGN. IN 
CASTRIS. SEPEL. AMORIS ET 
BENEFIF. CAUSA S.S.P.L. 
Ao dr. Brito, que parece ter descoberto as cha- 
ves da interpretação de. todas as inscripcões roma- 
nas, (o que nâo admira por ter inventado a maior 
parte das que apresenta como taes) também lhe não 
escapou a decifração d'esta, que traduziu assim : 

A gente do gouerno e regimento de Lacumurgi 
(que he Lamego) por causa de amor e gratificação 
sepultaram a Lúcio Capeta, filho de Capeto, Centu- 
rio da Legião Mareia, e a Marco Lúcio, Tribuno 
dos Soldados, aqui nos próprios reaes ao 3. a dia de- 
pois da peleja e foram mortos na guerra contra Vi- 
riato debaixo da bandeira do Cônsul Nigidio. 
Continuemos a narração. 
O vencedor Viriatho fica senhor da fortale- 
za com tudo o que dentro d'ella se continha, e 



ix) Andr. Resend.-ZV anliquUalibus Lusitânia;, tom I, 
pag. 173, odic. de 1790 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



manda altear seus muros e profundar seus fos- 
sos. Ahi se fortifica e de tal modo que, quando os 
Romanos voltaram com forças superiores ás suas, 
não conseguem vence-lo nem reganhar aquelia po- 
sição. Desde então se ficou chamando Cava de Vi 
riatho aquelia magestosa fortaleza. 

A tradicção, ou, antes, os etymologistas dizem 
que a povoação da Aguieira fora assim chamada 
por ser o pretoilo do arraial, onde estiveram as 
águias romanas, o que evidentemente é mna con- 
jectura mal uixtida, por isso que o pretório eia sem- 
pre situado dentro dos muros; que a de Abravezes 
derivou seu nome da palavra braveza para attestar 
o furor com que os Lusitanos combatiam, e a da 
Esculea da palavra escuta, por ter sido ahi que o 
exercito lusitano se demo.rou como eme em escu- 
ta e observação, o que não passa de afflrmayões 
gratuitas, lilhas da stulta pretensão de tudo ex- 
plicar. 

O sr. Henrique José das Neves, major de in- 
fanteria, com quem tivemos a fortuna de contrahir 
relações de amisade durante alguns mezes que 
nesta cidade esteve exercendo as funeções de vo- 
gal dos conselhos de guerra da 2.» divisão militar, 
acaba de publicar um opúsculo, de que nos olTer- 
tou um exemplar, e onde nos faz uma amável re- 
ferencia, o que tudo agradecemos, intitulado — A 
CAVA DE VIRIATO. Noticia descripliva e critico- 
historica — com um Appendice a propósito dos Moi- 
nhos do Pintor — subsidio para a questão da oístencia 
de Grâo-Vasco. impresso na Figueira da Foz, Im- 
prensa Lusitana— Í8'JS. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Antecede a monographia, que divide em seis 
capítulos, de Palavras previas, onde traça o plano, 
que adoptou, nos seguintes termos : 

cAos três primeiros capítulos — parte descripti- 
va e narrativa — segue-se a parte critica, destructi- 
va no Cap. IV, e de algum modo constructíva no 
Cap. V. E' uma opinião nova, snppomos, mas que 
vae como conjectura. Realmente seria estultícia ou 
leviandade querer edificar solidamente uma con- 
clusão sobre alicerces sem a consistência reque- 
rida. 

«O Cap. VI poderia talvez intitular-se — outras 
incógnitas do problemas — e nasceu mais tarde; são 
aspectos vários, pontos de vista que vão surgindo, 
quando mentalmente seguimos determinado cami- 
nho com os olhos fitos numa idea». 



Estes seis capítulos tem as seguintes epigra- 
phes : I A Cava na actualidade ; II A Cava no sé- 
culo XVII; III que diz a tradtcção ; IV Critica 
da tradicçâo. Duvi-ías ; V Uma opinião ; VI Proba- 
bilidades. 

Seguem-se algtimas notas e um appendice. 

A dicção é correcta, e o estylo elegante, e nós 
comprazemo-nos em ter contribuído com o nosso 
insignificante auxilio para o apparecimento de tão 
interessante opúsculo. 

Na parte descriptiva, que em geral é exacta, 
contem-se os seguintes enos : 

1.° ainda existem os vãos dos quatro por- 
tões que faziam a communicacão entre o exterior 
e o interior da (Java, o que é inexacto, porque os 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



dois portões, que existiam do lado sul, como attes- 
ta o padre Leonardo de Souza, desappareceranr, 

2.° o contorno da obra é um poligno octogonal 
irregular, quando na verdade é regular. 

A divergência acerca da forma da Cava que 
encontrámos nos difTerentes escriptores, levou-nos 
a examinar attentamente o que ainda resta d'aquel- 
le monumento, e pareceu-nos, á simples vista, que 
os muros formaram um octogono regular e que as 
curvaturas que actualmente se notam em alguns 
lados resultam da falta de terra que d'e!les foi ti- 
rada. 

Mas, não satisfeitos com este nosso juízo, filho 
das apparencias, pedimos ao sr. António Cardoso 
de Figueiredo, distincto conductor das obras da ca- 
mará municipal d'este concelho, com uma longa 
practica dos serviços a seu cargo, alhada a uma 
rara aptidão e esclarecida intelligencia, a especial 
fineza de ir ao local levantar uma rigorosa e exa- 
cta planta. 

Com a melhor boa vontade nos attendeu, en- 
tregando-nos dentro de poucos dias uma pianta, 
que temos á vista, d'onde se vê que os muros da 
Cava formaram um octogono regular e que elles, 
bem como o campo circuitado, tem as dimeasòes 
que acima lhe attribuimos. 

Aqui protestamos ao digno e probo funccio- 
nario os nossos agradecimentos pelo valia-jo servi- 
ço que nos prestou. 

No capitulo I emitte o sr. Neves a opinião de 
que ás 6. a e 7.» faces (assim designa as que defron- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



tam com S. Theago e com a quinta das mestras), 
pelo que resta, não lhes foi dada na construcçâoa 
grandeza e imponência das faces oppostas. 

O nosso parecer é inteiramente contrario. Se 
as oito faces tinham egual compiimento; se como 
é de presumir, peio que ainda resta, as três pri- 
meiras eram eguaes em altura e largura, não será 
mais crivei que toda a obra guardasse perfeita sy- 
metria ? 

Se nas faces, cujos restos são insignificantes, 
existiam dois portões, não devemos suppor que 
ellas tinham a mesma grandeza e importância que 
as outras ? 

Se houvesse difterença, não seria ella notada 
pelos antigos escriptores que fizeram a descripçâo 
(Teste monumento? 

Se os muros não tivessem egual altm'a, os pa- 
dres do Oratório que os mediram em 1728 teriam 
dito, sem mencionar qualquer difterença que por 
ventura existisse, que os aterros ou muros tinham 
três lanças de altura ? 

No Cap. IV, a parte critica destructiva, como 
lhe chama, combate o sr. Neves a tradicção, que 
considera a Cava obra romana. 

A posição relativa aos terrenos circumjacentes 
e ás alturas próximas que a cercam ; a sua forma 
e condições, inteiramente differentes das que os 
Romanos escolhiam e adoptavam para estabelece- 
rem os seus campos militares; o não apparecerem 
ali moedas, medalhas, utensílios, cippos, lapides 
romanas e outros documentos triviaes em uma es- 
tação histórica ; o não haver tradicção oral ou es- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



cripta que a designe co:n o nome de Castro ou 
Crasto, que se applicava aos logares onde" os Ro- 
manos fixaram arraiaes e se fortificaram, o não se 
compadecei' com a brevidade, que a tradicção diz 
haver, do trabalho de uma fortificação improvisada 
para abrigo e defeza de occasião, a arte manifes- 
tada nos muros, portaes, torres e seteiras, tudo 
visto era seus fragmentos pelo dr. Botelho, a cir- 
cufnstancia de as escavações em varias epochas 
terem descoberto memorias, moedas e lapides fu- 
nerárias, que revelam a existência do homem ro- 
mano, não na Cava, mas no chão ou monte onde 
esta edificada a cidade, são outros tantos argu- 
mentos, base da conclusão a que chega o sr. Ne- 
ves. 

No Cap. V, a parte constructiva, diz acceitar 
parte da tradicção que denomina patriótica, na- 
cional, (recolhida pela Monarchia Lusitana, Part. I, 
Liv. III, Cap. IV, pag. 217 o 218 da edição de 
1579, mas rejeitada por Fr. Bernardo de Brito), de 
que as trincheiras e fossos de maiores dimensões 
e de mais avantajada defeza foram construídos pe- 
los Christãos depois da retomada de Vizeu aos Sar- 
racenos por Fernando Magno em 1057, para ahi 
se entrincheirarem e defenderem das correrias e 
razzias dos inimigos. 

No Cap. VI, julga provável que o actual en- 
trincheiramento tivera por origem uma obra simi- 
lhante e rudimentar dos Lusitanos na epocha pre- 
romana, que estes toscos e baixos muros foram 
renovados e ampliados pelos Vizienses no século 
XI, e que essa construcção primitiva servira de 



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cerca, atira!, onde os Lusitanos recolhiam e de- 
fendiam os seus gados e onde se abrigavam os 
próprios guerreiros de Viriatlio, que em grande par- 
te eram pastores, ou creados de gado, da Estrella. 

São estas as opiniões que encontrámos acerca 
da Cava. Se outras ha, desconhecemo-las. 

Seria fundada pelos Vetones e Vaceos, como 
opina o dr. Brito ? 

Nem a tradicção nem outro qualquer dado 
abona uma tal origem, que temos como uma das 
muitas phantasias e patranhas que o monge de 
Alcobaça semeou na historia. 

Seria obra do pretor Caio Negidio para se de- 
fender do imminente ataque de Viriatho? 

Entre os muitos escriptores latinos, que nar- 
raram as guerras do capitão lusitano, apenas faz 
menção de Caio Negidio o auetor do livro intitula- 
do — De viris illustribus Urbis Romarne — nos seguin- 
tes termos : Viriatho, lusitano por geração, primei- 
ramente mercenário em virtude da sua pobreza, e 
depois caçaior por passatempo, e lairão por audá- 
cia, fezse ultimamente capitão, tomando d sua con- 
ta a guerra contra os Romanos, cujos genwaes, Cláu- 
dio Unimano e Caio Negidio, derrotou, (z) 

Rezende (aaj attribue a Plinio este livro, que 
o cónego Oliveira Berardo (bbj, com outros criti- 



(*) Yiriatua genere Ltisitanua, ob paupertatem primo 
mercenarius, deinde nlacritate venator, audácia Latro, nd 
postremum dux, belliwii adversum Romanos sumpsit, eoruin 
que imperatorem Claudium Unimaniira. deinde C. Negi 
di um oppressit. 

{aa) Do antiq íitatibus Lusitaníra. 

(W») Liboral, n.«l .°. 



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cos, rejeita como apoci ypho, dizendo que, embora 
se encontre nos antigos códices, tem sido attribui- 
do, variamente, a Suetonio, a Plínio, o Moço, e a 
Corneiio Nepote, não se sabendo, por isso, com 
certeza, quem seja o auctor, o que é já uma gran- 
de lesão na sua legitimidade. 

Embora seja authentico o livro de que vimos 
fallando nem por isso Viriatho podia considerar-se 
como um salteador, já porque a palavra loiro na- 
quelle tempo expiimia o mesmo que fronteiro, e 
não salteador ou ladrão infame, e tanto que em 
Hespanha houve a nobre família dos Latrones co- 
mo se vê em Porcio Latro e na inscripção que se 
acha no quintal dos Duartes de Lamego, em que 
se faz menção d'essa família (cc), já porque os Ro- 
manos, sendo os oppressores dos povos, por ex- 
ceilencia, eram muito liberaes em dai- o epitheto de 
salteadores a todos os que se lhes oppunham para 
defenderem o que era seu. 

Existisse ou não Caio Negidio, não damos cre- 
dito á tradicção tal como se nos apresenta. 

Se este cabo de guerra receiasse o próximo en- 
contro de Viriatho, ter-se-ia retirado para algum dos 
arraiaes romanos já fortificados, onde o esperaria 
com mais vantagem, e não se abalançaria á cons- 
trucção de uma obra collossal, que, demandando 
o trabalho de milhares de homens, não podia ser 
executada em poucos dias por se estorvarem uns 
aos outros. 

Maa, não sendo a Cava uma fortificação de 

(cc) Viterbo, Eíucidarâ-verb. Saltear. 



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. momento, seria, como pretendem alguns antiquá- 
rios, obra dos Romanos e um dos seus arratoes, 
denominados Castra hibemia ou Campos de César, 
similhante aos que existem nas Gallias ? 

Se abrirmos os Commentanosde César conven- 
cemo-nos de que nunca houve capitão que melhor 
soubesse escolher os postos vantajosos, fortifica- 
los, e collocar um exercito em segurança com as 
possíveis commodidades. 

A complacência com que elle falia das pre- 
cauções, que tomou, e das situações, que preferiu, 
para nellas se fortificar, fazer novos progressos e 
parai' os do inimigo, mostra claramente que dedi- 
cava os seus principaes cuidados á castrameta- 
ção. 

Ambiorix e Vercingetorix, reconhecendo que 
a progressiva conquista das Gallias ia sendo devi- 
da á habilidade dos Romanos na boa escolha dos 
postos onde se entrincheiravam, julgaram não po- 
der oppor-lhes resistência senão levantando cam- 
pos como os seus, circumstancia de que o próprio 
César nos dá conhecimento. 

Não admira, por isso, que a maior parte dos 
campos, com forma romana, que se encontram na 
Franca, sejam attribuidos a este illustre capitão. 
Entre os principaes citam-se o de Dieppe, chama- 
do a Cidade de Lima {cite de Lime), que, longe de 
ser um campo de César, nem mesmo é um campo 
romano, e parece ter sido edificado pelos inglezes 
no século XV; os de Neufchãtel, de Catenoye, e de 
Briennerle-Chateau, todos de epochas posteriores 
á conquista das Gallias pelos Romanos; o de Saint- 



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Len-Desseran, onde nada attnsta a passagem rte 
César, mas que bem ponde ser construído sob o 
governo de qualquer imperador; o de Picquigny, 
sobre o Somme, um dos raros que lhe pode ser 
attribujdo com plausíveis motivos, visto que se 
acha situado no Belgtum, propriamente dito, pró- 
ximo de Amiens, onde César estacionou por muito 
mais tempo que em qualquer outro logar das Gal- 
lias. 

A pouca distancia do campo de Picquigny, es- 
tá o de Etoile, que, pela sua forma, posição, e ain- 
da proximidade de Amiens, merece eguaímente a 
designação de Campo de César. 

Reservámos para o ultimo logar o de Octo- 
durum (hoje Martigny), no Valais. Foi ahi que Cé- 
sar, obrigado a ir a Roma para se tornai' lembrado 
do povo.tdeixou o seu logar— tenente G-alba com a 
a segunda legião; foi ahi que, a acreditar a tradic- 
ção, foi martyrisada a legião thebana no tempo de 
Diocleciano. 

Em geral os campos romanos tinham a forma 
de quadrilátero ou de quadrado (castra quadrata), 
eram cercados por uma trincheira (vallum), sepa- 
rada dos terrenos circurajacentes por um fosso 
(fossa) e coroada em todo o circulo por palissadas 
ou estacadas (valli, sudes. poli}, ficando dentro o 
terreno — (age-r). 

Penetrava-se ahi por quatro portas, abertas em 
cada um dos lados e defendidas ordinariamente 
por pequenos fortes exteriores. Cada uma tinha o 
sua denominação. A que estava voltada para o ini- 
migo chamava-se pretoriana ou extraordinária, a 



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do lado opposto decumana, e as lateraes principal 
direita e principal esquerda. 

Por qualquer porta que se entrasse encontra- 
va-se logo um caminho de cintura para receber as 
bagagens e os prisioneiros. Duas ruas, de porta a 
porta, cortando-se em ângulos rectos, dividiam o 
campo em quatro partes. 

Os Romanos, diz Polybio, adoptavam na maior 
parte dos seus campos a forma quadrada, por ser 
a das suas cidades, cuja representação perfeita que- 
riam que elles fossem. 

Fortificavam-nos mais ou menos, segundo a 
maior ou menor demora, que nelles tinham. 

Havia os campos ligeiros (súbita, temporanea, 
tumultuaria castra), que, apesar do pouco tempo 
que se gastava na sua construcçào, ainda assim 
eram cercados de fossos bastante largos e profun- 
dos e de um terrasso ou trincheira de paUssadas, 
que os tornava muito seguros. 

Quando as legiões queriam demorar-se muito 
tempo num logar. construíam o que chamavam 
campos fixos (castra stativaj, que cercavam de 
trincheiras solidas e de fossos muito mais largos 
e profundos. 

As trincheiras, formadas por muros de teixa- 
sustentados por troncos de arvores entrelaçados, 
e revestidos de relva, tudo disposto por camadas 
eguaes, com muita ordem e symetria, resistiam 
aos mais fortes ataques. Ambiorix as encontrou 
impenetráveis quando atacou os campos de César, 
o que foi a salvação das legiões. 



Lifi^ 



jo.ra i.Google 



O antiquário Mege, que estudou a castrameta- 
ção dos antigos povos, notou que os campos roma- 
nos eram quasi sempre situados ou na confluência 
de dois rios ou ao longo dos caminhos abertos pe- 
las legiões, nos pontos onde tomavam a forma de 
desfiladeiros, paia os vigiar e para defender o seu 
percurso. 

Cada dia a cultura tem feito desapparecer es- 
tes monumentos militares, mas ainda assim en- 
contra-se a sua memoria nos nomes de castro, cas- 
tello, crcstello, conservados pelas povoações mais 
visinhas. 

Confrontando o que conhecemos da Cava de 
Viriatho com os castros romanos, encontramos si- 
milhanças, a par de muitas diflerenças. 

Uma e outros eram campos cercados de trin- 
cheiras ou muros com quatro portas, separados 
dos terrenos circumjacentes por um fosso ou val- 
ia, conservando muita oixlem e symetria. 

A foima «mis frequente dos castros era o qua- 
drado, diz Polybio; a forma da Cava era a de um 
octogono regular. 

Os castros eram construídos, sobre troncos de 
arvores entrelaçados, em geral nos desfiladeiros 
junto aos caminhos, ou na confluência de dois rios, 
e em logares donde podessem vigiar-se as opera- 
ções dos inimigos. A Cava acliava-se ao lado do pe- 
queno rio Pavia, collocada no meio de uma planí- 
cie, cercada e dominada por três elevações mais 
ou menos distantes : a serra do Crasto, o monte 
de Santa Luzia e aquelle em que está edificada 
uma parte da cidade; o seu horisonte é assas limi- 



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tado, o que exclue a idea de ter sido construída 
para vigiar os caminhos e as operações dos inimi- 
gos; e os muros que foram demolidos assentavam 
sobre grandes pedras, segundo o testemunho das 
pessoas que o observaram, referido pelo padre 
Leonardo de Sousa. 

Estas dissimilhancas são outras tantas razões 
que nos levam á conjectura muito provável de que 
a Cava não era um dos castros -fixos dos Romanos. 

Mais natural seria que as legiões escolhessem 
paia estacão permanente alguma das sobreditas 
elevações, d'onde melhor poderiam defender-se e 
vigiar os passos dos inimigos, e que, em razão das 
superiores condições naturaes, preferissem o mon- 
te em que se construiu a nossa cidade. 

E temos por certo que assim succedera, ba- 
seando esta convicção na existência das torres ro- 
manas, de que adiante fatiaremos, na circumstan- 
cia de se terem encontrado aqui muitas lapides 
funerários e algumas moedas romanas, e na tra- 
dicção. 

Ainda no tempo de D. João III existia junto 
das torres um muro denominado da castra, nome 
de origem romana. 

Por alvará escripto em Évora por Gregório do 
Amaral aos 12 de setembro de 153$ concedeu 
aquelle monarcha ao bispo de Vizeu, depois car- 
deal, D. Miguel da Silva, umas casas de seus cou- 
tos desde o canto da torre de menagem ou home- 
naycm junto do muro da castra, para as derribar 
e á sua custa fazer uma varanda ao longo desse 
muro. 



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Se as denominações fossem indicio seguro das 
origens, também poderíamos asseverar que a serra 
do Crasto que fica ao noroeste de Vizeu, foi fortift- 
çào romana ; mas não temos qualquer outro dado 
que nos conduza a formar esse juizo. O mais que 
se pode affirmar é que isso era possível. 

Mas, não sendo a Cava ura castro fixo dos Ro- 
manos, quando e com que fim foi construída ? 

São dois problemas que consideramos insolú- 
veis, não passando de conjecturas quaesquer con- 
clusões mais ou menos habilmente archi tecladas 
a que possa chegar-se. 

Sem pretensões a resolve-los, abalançamo-nos 
a emittir o nosso parecer, e congratular-nos-emos 
que os estudiosos e críticos descubram argumen- 
tos decisivos que o confirmem ou destruam por 
completo. 

E' crivei que aquelle monumento fosse cons- 
truído pelos Romanos. 

Pela historia geral sabemos que as legiões, na 
sua arte militar, adoptavam os fossos não só em 
volta dos castellos, villas e cidades e junto dos 
portos, mas também em volta dos campos planos, 
de solo pouco consistente, desempenhando estes 
últimos um papel assas importante, quer na agri- 
cultura, pois que limitavam e saneavam os terre- 
nos, quer na defeza e guarda das pessoas e dos 
animaes. 

Tomando este facto por pharol, e dando co- 
mo assente a existência de uma fortificação romana 
no alto do monte da cidade, sentiu a população 



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que aqui habitava a necessidade de construir em 
logar próximo outra fortaleza supplementar, onde 
recolhesse e defendesse os gados próprios e os 
que por ventura arrebatasse aos inimigos nas diffe- 
rentes correrias e razzias que naquelles tempos 
eram os meios de guerra os mais usuaes e fre- 
quentes. 

A esta vantagem accresceria a de beneficiar, 
pela abertura do fosso, para onde escorressem as 
aguas, a agricultura do terreno circuitado e dos 
externamente circumjacentes. 

Recolhidos na Cava homens e animaes, facil- 
mente podiam ser soccorridos pelas forças estacio- 
nadas no monte onde assenta parte da cidade, que 
a seu turno estaria melhor defendida por aquelie 
lado ; e mais completo seria o systema de defeza 
se a serra do Crasto estivesse também occupada e 
fortificada. 

E não é de presumir que, sendo Vizeu como 
que o centro do grande e fertilissimo valle forma- 
do pela Estrella, Caramulo e Monte de Mirro, a es- 
colhessem para aqui estabelecerem a maior forta- 
leza da Beira ? 

Durante a prolongada lucta entre Mouros e 
Christãos era Vizeu das terras d"esta província uma 
das mais bem fortificadas, sendo por essa razão 
ambicionada sempre, tomada e retomada por va- 
rias vezes, pelos dois contendores, e, como não 
consta quo so então adquirisse essa reconhecida 
superioridade, não repugna faze-la remontar á epo- 
cha romana, e acreditar que a Cava fora construí- 
da poios legionários. 



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E a esta conclusão não obsta a forma octogo- 
nal que lhe foi dada. Era a que mais se adaptava 
ao terreno, e infere-se das palavras de Polybio que 
os Romanos algumas vezes não adoptavam nas 
suas fortificações e forma do quadrado. 

Os muros da Cava tiveram primitivamente a 
máxima elevação, e os fossos a máxima profunde- 
za, ou foram accrescentados depois ? 

sr. Neves, confrontando e admittindo a tra- 
dicção na parte que se refere a Viriatho e a Fer- 
nando Magno, decide-se pela segunda hypothese. 

Embora déssemos valor á tradicção de que os 
Vizienses no tempo de Fernando Magno mudaram 
suas habitações para dentro da Clava por ahi se 
julgarem mais seguros que na cidade, o que ne- 
nhum dos antigos chronicons confirma, não po- 
díamos afftrmar que 03 seus muros foram alteados 
e os fossos profundados, pois a mesma tradicção 
nada diz sobre este facto. Entretanto devemos crer 
que, a realisar-se a mudança, não deixariam, para 
maior defensa, de fazer nelles reparos e accrescen- 
tamentos. 

Em todo o caso esta conclusão não ultiapassa 
a orbita das conjecturas, e como tal a apresenta 
o sr. Neves. 

Era natural que Mouros e Christãos, nas va- 
rias luctas que feriram junto de Vizeu, aproveitas- 
sem aquellu fortaleza para defenderem pessoas e 
gados, e que alteassem seus muros quando o ti- 
vessem por conveniente, mas nenhuma noticia 
confirma este facto. 



; ? i,7 5SSv GoOglc 



Se por ventura aconteceu, é crivei que com 
essa obra se relacione o imposto do fossado, que 
vemos estabelecido nos nossos antigos foraas, e 
que provavelmente já existia antes da fundação da 
monarchia portugueza, se aquella palavra, alem de 
designar a obrigação de ir d guerra, como preten- 
dem Martinez Marina na explicação dos fomes de 
Castella e com elle o nosso Alexandre Herculano 
(dd), tinha também a significação que lhe da Vi- 
terbo (ee) dizendo : «essa palavra não só se toma 
pelos fossos, vallos, cavas e outras obras com que 
uma praça, fortaleza, castello, ou arraial se fortifi- 
ca, e resguarda; mas particularmente se tomou por 
uma Expedição Militar, ou Cavalgada, mui diffe- 
rente da Oste, ou Hoste, AppeUido, Azaiia, Frontei- 
ra, e Annwlwa. Consistia, pois, em sair cora mão 
poderosa, e armada, a talar ou a colher as novida- 
des, e fructos que os inimigos haviam agricul- 
tado. 

«Para este fim apoderados do campo se en- 
trincheiravam ligeiramente em vallos ou fossos, con- 
tendo-se unicamente na defensiva, e guardando as 
costas aos que se occupavam na extracção dos 
fructos e forragens». 

■ Seria a Cava um fossado permanente, construí- 
do e augmentado successivamente para os mora- 
dores de Vizeu ahi defenderem os seus gados ou 
os que arrebatavam aos inimigos nas differentes 
correrias, visto que, em razão da estreiteza do re- 



ád) Panorama. Tom. VII, pag. 397. 
ee) Elucidário, verb. Fossado. 



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cinto, os não podiam encerrar dentro dos muros 
da cidade ? 

Tudo isto pode conjecturar-se, mas faltam por 
completo as noticias para se formar um juizo a que 
um espirito despreoccupado possa dar o seu as- 
sentimento. 

Concluindo, diremos : que a origem d'este mo- 
numento esta envolta nas trevas, sabendo-se ape- 
nas, pela tradiccão, que a elle anda ligado o nome 
de Viriatho ; e que é digna de ser lida e meditada 
a monographia do sr. Henrique das Neves. 



VIRIATHO 

Da exposição que deixamos feita vè-se que o 
nome de Viriatho anda ligado ao monumento mais 
notável d'esta antiga e nobre cidade, onde se acha 
perpetuada a sua memoria; e por isso pareceu-nos 
não ser fora de propósito apresentarmos neste lo- 
gar outras noticias acerca d'este valoroso capitão. 

Na Lusitânia houve dois varões illustres, que 
ambos tiveram o nome de Viriatho. 

Viriatho I foi um regulo, que, acompanhado de 
seus vassalos, passou com Annibal á Itália, como 
refere Sillo Itálico, livro III. 

Viriatho II foi quem deu seu nome á Cava e 
é mais notável na historia que o primeiro. 

D'elle diz o nosso épico que foi mais dextro 
na lança que no cajado; e, no parecei - de Justino, 
Livro ultimo, a llespanha não produziu outro varão 
mais valoroso em muitos séculos 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Foi o terror de Roma e a destruição dos Ro- 
manos, a quem venceu por muitas vezes.le de to- 
do os expulsaria da Lusitânia, se ellescom vergo- 
nhosa manha o não mandassem~matar pelos annos 
137 antes de Chiisto (ff). 

Gomo succede com Homero e outros heroes e 
vultos notáveis, reclamam para sÍ^a~glorta'deTte- 
rem sido a pátria de Viriatho varias^povoações da 
antiga Lusitânia : Vizeti, Longa (antiga_Lobriga na 
encosta do lado poente da Serra de Estreila), Fol- 
gosinho (antigamente Felgosinho) na encosta nor- 
deste da mesma serra, e algumas localidades do 
Âlemtejo. 

O dr. Botelho, dominado sempre pelas glorias 
da terra que o viu nascer, tomando por argumen- 
to o facto de Viriatho se apressar a soccorrer os Lu- 
sitanos contra as hostes de Negidio, abrindo mão 
da guerra em que no Aíemtejo andava empenhado 
contra Cláudio, conclue que aqueile pretor tinha 
ena cerco alguma cidade, cujos moradores o cha- 
maram, e que, pela pressa com que veio, essa cida- 
de devia ser sua pátria. 

E' tradicção que Viriatho, no anno 147 antes 
de Christo, casara em Évora com uma nobre da- 
ma, e que, tendo 40 annos de idade, os Lusitanos 
o acclamaram por seu rei. 

Vários auctores latinos, que escreveram sobre 
as guerras de Viriatho, asseveram que o seu esfor- 
çado valor começou a florescer no governo dos 

ff) Apian. Alox. liv. III. Mapp. de Port. por J. B. de Caa 
' tro, tom. II, pag. 441. 



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cônsules Cneio Cornelio Lentulo e L. Mnmio. 
Por elles sabemos que, em varias batalhas, der- 
rotou os seguintes capi',5es das hostes romanas : 
os pretores Caio Vitellio ou Marco Vitellio, Caio 
Planeio junto de Toledo, Cláudio Unimano, Caio 
Lolio, o cônsul Fábio Emiliano, irmão de Scipião, 
cujo numeroso exercito foi destrocado, retirando 
elle vergonhosamente, e os pretores Pompilio, Jú- 
lio e Quinto Pompeu, ao qual tomou a cidade de 
Utica e os sens estandartes. Depois de ter perdido 
dez batalhas, Roma mandou a Lusitânia com gran- 
des exércitos, que também foram destroçados, os 
cônsules Quinto Fábio Máximo e Lúcio Metello Cal- 
vo. No anno 139 antes de Christo, ainda Viriatho 
venceu o pretor Serviliano, mas no anno seguinte 
é enviado contra elle o cônsul Quinto Servilio Ce- 
pio, que subornou a DistaUão, Minuto e Aulaces, 
para o assassinarem, o que fizeram quando estava 
dormindo. 

nosso celebre historiador João de Barros 
(ggj refere que Viriatho foi morto no Lumiar, ter- 
mo de Lisboa, e que vira em Bellas, na quinta que 
fora de Pedro Machado, sua sepultura, com as le- 
tras jã estropiadas, onde se liam ainda as seguin- 
tes palavras : Hic jacet Viriatus Lusitanomm dux—, 
achando-se dentro d'ella uma espada, em qne ain- 
da se divisavam letras (hh). 

Em vista do silencio dos anctores coevos, res- 
tam-nos apenas a tradição e os vestígios da Cava, 



10 DescripçAo do Minho, liv. NI. 

ifl) J. B, tíeCantro-Mapp do Port tuin. II, patf. 441. 



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íi que anda ligado o nome de Viriatho, para acre- 
ditarmos que esta cidade foi um dos theatros da 
lucta entre elle e os Romanos. 

Os crédulos Floriano dei Campo e Fr. Bernar- 
do de Brito, que se não cahcaram com inventar fa- 
bulas ou reproduzir as que encontraram tecidas por 
outros escriptores, para fazerem acreditar as victo- 
rias de Viriatho junto a Vizeu, adduziram o testi- 
munho de lapides que dizem ter sido descobertas 
aqui e o do testamento de Gallo Favonio. 

A critica tem mostrado a falsidade d'estas nar- 
rações, e que os testimunhos invocados não pas- 
sam de pura invenção (a). 

Fundado talvez na auctoridade de Plinio, o ce- 
lebre poeta Braz Garcia de Mascarenhas, a quem 
já nos referimos, relata a batalha entre as tropas 
de Viriatho e as de Caio Negidio, afdrmando que 
estas soffreram grande mortandade e que, pos- 
tas em fuga, foram perseguidas pelo general Al- 
bano (jj). 

Narram-se os feitos e morte de Viriatho num 
interessante artigo, inserto no Panorama, (tomo 
VII, pag. 359 e 360), pela seguinte forma : 

«Até que convertida toda a Hespanha em pro- 
víncia consular, e intolerável cada vez mais o jugo 
dos intrusos, um só homem lhes refreou a audá- 
cia e ambição : deliberou-se um só a vingar tantos 
ultrages e a recuperar a perdida liberdade : esse 
homem foi o segundo Viriato. — Nasceu na Lusita- 



ií) Ruzende-.De aníiquitaUbus Lusitânia)— Liv. III, 
jj) Braz G. de Ma scaienhas— Viriato Tragico, Cant. X, n. 
82 e soguintes. 



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nia, e passou os primeiros dias da juventude obs- 
curamente na tranquilla occupacão de pastorear 
gado : parece que não era chegada a idade e occa- 
si3o de manifestar a sua intrepidez, mas de algum 
modo antecipou-a e deu-se a conhecer ao mundo. 
Não lhe soffria o animo observar pacientemente o 
latrocínio dos dominadores, pelo que largando al- 
gumas vezes o cajado e pondo-se á testa de outros 
descontentes, que do mesmo modo ardiam em de- 
sejos de vingança, sahia ao encontro dos inimigos, 
e quasi sem mais armas que a desesperação an^e- 
batava-Ihes os espólios que levavam. Assim foi 
crescendo em audácia e destreza, auginentando-se 
de dia para dia o numero dos que se encorpora- 
vam nas fileiras, de que era caudilho : e apenas 
pôde organisar corpo regular de tropas apresen- 
tou-se em campanha abertamente. 

A primeira façanha de Viriato foi attrahir o 
exercito inimigo a uma emboscada, onde o destro- 
cou completamente. Grandíssimo pasmo houve em 
Roma ao saber-se que um troco de bandoleiros 
(que assim appellidavam os soldados de Viriato) 
haviam desfeito as hostes dos cônsules Cornelio 
Lentulo, e Lúcio Mummio, e se iam assenhoreando 
da Lusitânia, apoz quatro assignaladas batalhas : 
reuniram pois as tropas mais veteranas e aguerri- 
das, e mandadas pelo pretor da Hespanha ulterior 
as enviaram contra Viriato. liste heroe sahiu a 
campo e desbaiatou-as, tornando prisioneiro o com- 
mandante : neste canto do occidente desfechou 
contra a poderosa Homa golpes mortaes, destro- 
çou-lhe cinco exércitos causandc-lhe a perda dos 



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melhores soldados e de afamados capitães. Metei- 
lo, que passou a Hespanha com os valentes que 
restavam á orgulhosa republica, não conseguiu 
oppor diques ás victorias do lusitano, e deixando-o 
de posse do território firmou uma capitulação ver- 
gonhosa para o senado romano : este, por não dar 
animo ás outras províncias da Hespanha para sa- 
cudir o jugo, imitando o nobre arrojo dos portu- 
guezes, deu o feito por nullo e nomeou novo gene- 
ral que proseguisse na guerra : mas não havia em 
Roma quem ousasse marchar contra Viriato. Então 
se fizeram alistamentos forçados, requereram-se 
dos aluados os contingentes auxiliadores, accres- 
centou-se o numero das legiões. Quinto Pompeo, 
passando ã Hespanha com este ultimo e poderoso 
reforço, apresentou-se na frente de Viriato, para 
reparar as affrontas que tinham soíTrido as armas 
da republica. 

Chegou o dia do combate, e os nossos, reco- 
lhidos em seu acampamento, não mostravam si- 
gnaes de atacar : esperavam sem duvida a presen- 
ça do homem que sempre os guiava á victoria, 
queriam escutar o breve discurso que lhes inspira- 
va o amor da pátria, e ouvir as suas ordens. — Suc- 
cediam-se minutos a minutos, e os soldados, de 
olhos fitos na barraca do general, só os desviavam 
para observar o nascimento do sol acima do hori- 
sonte. Começou a espalhar-se por todo o campo 
um presentimento vago e funesto, um d'esses ru- 
mores que parecem sahidos das entranhas da ter- 
ra, tanta é. a celebridade com que se communi- 
cam, e tão inexplicável é a sua origem. Nada foi 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



capaz de conter os soldados, e no meio do susur- 
ro entram a tenda do seu capitão. Que sanguento 
e horrível espectáculo se Jhes oflerece ! Viriato 
jaz sem vida... fora traidoramente assassinado; 
testemunha do delicio era o exangue cadáver so- 
-bre o leito e crivado de punhaladas. Que desespe- 
ração a d'aquelles guerreiros, que não poderam de- 
fende-lo, nem preserva-lo ! — «Que será da nossa 
terra, viuva do seu mais heróico defensor ?— excla- 
mavam chorosos e lastimados. — Gloria a ti, Viria- 
to, que pela pátria morreste ; que foi mister a trai- 
ção tenebrosa para acabar com teu valor ! A nós 
cabe a amargura da saudade, e a triste consolação 
de louvar teus méritos e de chorar-te.— «A nós ca- 
be o dever e a honra de vinga-lo» — vozeou o maior 
numero; e rebentou a explosão confusa de soluços, 
imprecações e ameaças : fervia a cólera em todos 
os corações; e os militares meneando com violen- 
lencia as armas requeriam que os guiassem ao 
combate. Pelejaram sim e valentes, mas sem or- 
dem, sem a voz e o exemplo do idolatrado capitão, 
e succumbiram ao numero e á fatalidade. Os que 
poderiam substituir Viriato no mando do exercito 
eram os próprios que lhe cravaram o ferro no 
coração, comprados pela perfídia do astucioso ro- 
mano, que, não podendo vencer pelo esforço e pe- 
ricia militar, recorreu a traição, á cobardia. 

Assim acabou Viriato, e por sua morte voltou 
de novo o jugo romano a península quebrantada. 
Morreu antes do completamento de suas heróicas 
emprezas; mas a posteridade conserva a recorda- 
ção da sua gloria». 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



TORRES ROMANAS 

As Torres Romanas, de que ainda hoje se 
vêem restos, são outra monumento que utte^tu a 
occupação de Vizeu pelos Romanos, a quem unani- 
memente os antiquários attribuein a sua fundação, 
que referem pela forma seguinte. 

No anno 616— (Resende (hlc) ) ou 617 (taboas 
capitolinas (11) ) da fundação de Roma e 13!) ou 
138 antes de Christo, o praconsul Decio Junio 
Bruto marchou para a Península, onde depois de 
varias luctas alcançou triumpho sobre os Lusita- 
nos e Callaicos da Hespanha Ulterior. 

Antes de se retirar da Beira para Entre Dou- 
ro e Minho, fez lançar os fundamentos a duas tor- 
res e a uma cidadella, que denominou Viso, em 
om logav sobranceiro aos celebres arraiaes de Caio 
Negidio, e encarregou da sua construcção a dois 
irmSos Frontonio Peílio e Flacco, capitães do seu 
exercito, cujos nomes se liam num letreiro, que 
estava numa d'essas torres (mm), e que Botelho 



kk) Resende-fle anliquitatibm Lusitânia;, liv, III. 
II) As taboas capitolinas dizem : 

Decias Junina Marii filias Marti Nepos 

Brutus 

Coltaiua anno sexcentesimo decimo septimo 

Procônsul de Lusitaneis et Çallaioeis cx Hispânia 

UUeriore. 
mm) Ribeiro Botelho -Dial. I, cap. XlII.-Confrontando 
os antiquários o diversas passagens de Botelho, ficamos som 
saber em qual das doas torras estava o letreiro. Botelho nu 
ma parte diz qno so lia na torre de menagem o noutra diz 
que na ameia do canto da torre de menagem, que está para 
norte, estão esculpidas duas águias, lutma de uma parte e 
outro da owfra,. As águias estavam em ambas as tone»? ou 
•4 muna, e na outra o letreiro ? 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



nos seus Diálogos e outros antiquários dizem ser 
o seguinte : 

FRONTONI PELLI 

FIACCVI FRATER 

G. 

Na outra torre, segundo o testemunho do 
mesmo escriptor, viam-se gravadas as Águias ro- 
-manas. 

Observa o padre Argot (nnj que, se as Águias 
existissem ou o seu desenho nos tivesse sido trans- 
mittido, poderiam servir para decidir a questão 
ventilada entre os eruditos sobre se todas as Agidas 
tinham, como a da bandeira romana, duas cabe- 
ças. 

Francisco Manoel Corrêa, no seu valioso ma- 
nuscripto que temos presente e que o sr. Pedro 
A. Ferreira, abbade de Miragaia (oo), com justos 
motivos considera de grande importância, conje- 
ctura que «as duas torres fizeram parte da fortale- 
za romana, que parece ter sido em forma de um 
quadrado, com quatro torres nos ângulos e duas 
outras torres de menos capacidade que aquellas 
no centro-, que o quadrado da fortificação era fe- 
chado cora muros ou ameias pelos quatro lados, 
tendo dentro, como praça d'arraas que era, Casa 
ou Paço para o Governador, e casa de quartel pa- 
ra a tropa, uma cisterna para deposito de aguas 
em tempo de cerco e outras officinas e arranjos 



nn) Memorias de Braga. 

oo) Portugal Antigo e Moderno, tom. XII, pag. 1678 e 

outras. 



>,Sitize0t> V GoOgIe 



necessários para o fim para que fora construído ; 
que os quatro lados da fortificação faziam face aos 
quatro ventas, norte, sul, nascente e poente, pa- 
recendo ficar ao poente a porta da entrada princi- 
pal; e finalmente que o terreno comprehendido 
dentro da fortificação parece achar-se todo occu- 
pado pelos edifícios da Cathedral e Adio d'ella e 
pelo Paço Episcopal (Collegio).» 
Continua o mesmo auctor : 
«Quanto às duas tones, que deviam corres- 
ponder a estas nos outros dois ângulos do quadra- 
do da fortificação, não ha noticia alguma da sua 
existência, mas é muito provável que existissem 
para regular defeza por todos os lados e mesmo 
para symetria de semelhante obra, como costuma- 
va observar-se em outras da mesma natureza». 

Diz ainda que os bispos para construírem o 
Paço e Seminário Episcopal demoliram a fortaleza 
pelo lado do norte, empregando a mesma pedra 
naqueile edifício, que, para ter a necessária capaci- 
dade, não só iicou occupando uma parte do recin- 
to coniido no quadrado, mas também algum ter- 
reno que ficava fora da muralha. 

E conclue : «Quem observa a qualidade da pe- 
dra com que se fizeram as paredes, que formam o 
interior do Paço, bem conhece que era pedra, que 
já tinha servido em outras obras, sendo de presu- 
mir que fosse da fortificação naquella parte demo- 
lida (pp}. 



PP) Francisco Manoel Corrêa -Memorias em respeito ;í 
cidade de Vizan (mes.) pag. 7, 8 e 9. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Como claramente se vê das palavras que dei- 
xamos transcriptas, a existência de mais duas tor- 
res, e a da fortaleza, cujos ângulos eram por ellas 
formados, não passa de conjectura, aliaz racional. 

A torre do relógio, que no tempo de D. João I 
era a de maior altura, foi doada por este monar- 
cha ao bispo D. João Homem, padrinho do infan- 
te D. Henrique, duque Vizeu, para nella mandar 
collocar os sinos. 

Por muito tempo ahi esteve o antigo relógio, 
sem mostrador, chamando-se por esse facto torre 
do relógio, nome porque ainda hoje é conhecida a 
rua contigua, officialmente designada pelo de rua 
Nova das Ameias. 

Serve actualmente esta torre para despejos; e 
os quatro arcos que nella havia acham-se tapados. 

A torre de menagem foi doada por el-rei D. 
Alíonso V ao bispo D. João Gomes d'Abreu, falle- 
cido em 1482. 

Este Prelado, depois de a ter mandando ac- 
crescentar e reparar, converteu-a em aljube ou 
prisão ecclesiastica. 

Também lhe fez alguns melhoramentos o bis- 
po D. Júlio Francisco d'01iveira. 

Depois da implantação do systerna liberal, a 
jurisdiccão dos bispos limitou-se ao foro espiritual, 
pelo que deixou de existir prisão ou aljube eccle- 
siastico; e esta torre (nome por que ainda hoje é 
conhecida em algumas povoações ruraes) é actual- 
mente a cadeia civil. 

Reservamos para um capitulo especial acerca 
da Sé e das construcções annexas a descripçáo do 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



que nellas existe do tempo dos Romanos, e então 
volveremos a f liar das Torres. 

Nesse trabalho, que será desenvolvido, sere- 
mos auxiliados pelo insigne pintor-retratista, nosso 
patrício, José d' Almeida e Silva, que com a melhor 
boa vontade e interesse accedeu ao pedido que 
lhe fizemos para realisação do nosso intento. 



INSCRIPÇÔES E MOEDAS ROMANAS 

As inscripcões sepulchraes e as moedas ro- 
manas encontradas em Vizeu ou nas suas proxi- 
midades são outros tantos factos que vem pôr a 
toda a luz a dominação d'esta cidade pelo império 
dos Cezares. 

Ribeiro Botelho nos seus Diálogos dá noticia 
de varias inscripcões nos seguintes termos : 

«A três tiros de besta do logar de Paradinha 
on Repeses numa vinha de Miguel Mrdeira achou- 
se uma sepultura que hoje (1630 a 1636) está so- 
bre a porta do lagar desta propriedade com o se- 
guinte letreiro: 

VALÉRIO 

REBUR 

ROAN. VXij 

PATER ET 

MATER 

F. C. 

ique quer dizer. O pae e a mãe de Valério Rebur 

Romano, que morreu de 17 annos, lhe fizeram 

esta sepuiturai). 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



«Junto das Vendas de Cavernàes existem as 
ruínas de uma torre ou templo de gentilidade, e 
ahi se achou uma pia ou fonte de pedra muito gran- 
de, pedaços de columnas e pedras lavradas e le- 
treiros, um dos quaes dizia : 
LVRV 
NI 
LALLIVI 
EVERVS 
A. L. P. 
que traduziu : «Erus Anio Liberto poz aquella pe- 
dra a Lurunio Lalivio». 

«Noutra pedra achava-se esculpida uma cabeça 
de ura boi bem figurada e no reverso estas pala- 
vras latinas, meio apagadas : 
TANGIN 
ESPIII 
V„VNI 
que parecem significar o trabalho pela cabeça do 
boi e nelle a esperança do descanco». 

«Ao lado da Egreja de S. Miguel da parte de 
fora a um canto que faz a sacristia está um letrei- 
ro, que se lê com trabalho e diz : ■ 
INTILIFAN 
CADIFA XX 
ET CÍCERO 
I. SORORI 
C. 
Neste letreiro sé filss menção de Cícero e da 
Julja sua irmã». 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Em vista delle conjectura Ribeiro Botelho que 
Cícero estivera nesta cidade ou que, quando foi côn- 
sul, nella colloc^ra por capitão ou governador algum 
parente seu para ter oppríinidos os Barbaras e evi- 
tar que se levantassem contra os Romanos, ou 
que, quando isto se não conceda, não pode deixar 
de accreditar-se que aqui vivia gente romana. 

«Outro letreiro está na rua da Rigueira ás qua- 
tro quinas numa pedra quebrada pelo meio, len- 
do-se em metade d'ella as seguintes letras : 
H. S. 
LVCAN 
F. SVIPO 
ET CMAL», 
que interpreta pela forma seguinte : 

«.Aqui jaz Lucano, filho de Lucano, e sua filha 
Polia e Cana Liberta lhe pozeram esta sepultura». 
«Nos alicerces que se abriram para a Egreja 
ou Mos',eiro de Jesus da Ordem de S. Bento d'esta 
cidade encontrou-se numa pedra partida que esta- 
va nos alicerces de um muro antigo de mais de 
vinte palmos de largo outro letreiro que dizia d' es- 
te modo : 

D. M. S. 

REINO PATRIEI 

RVFIN/E MAThE RFINA 

S. R. RiAREIVS EIRENA F. C. 

e que quer dizer— Sepultura consagrada aos Deuses 

do inferno, eíc.s. 

«Na frontana de uma cari da ma da Rigueira 
pertencente a um cónego estava umo pedra que- 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



brada, que elle d'ali fez retirar quando a recons- 
truiu, com estas letras : 

FLORO CVM 

PACATIANVM 

APER EXTESTAMEN». 

Todas estas inscripções assevera Ribeiro Bote- 
lho terem sido encontradas no seu tempo. As inter- 
pretações que d'ellas apresentamos são do mesmo 
auctor, e se as não contestamos também as não 
adoptamos. Não temos elemento para dizer se são 
exactas ou falsas. 

O distincto antiquário José d'OIiveira Berardo 
dá testimunho de dois camponezes terem encon- 
trado em 1818, quando cavavam em uma quinta 
situada detraz da Egreja do Carmo perto da antiga 
capeila de S. Amaro, já então profanada, um mau- 
soléu, que descreve nestes termos : 

«0 sarcophago do comprimento de 7 palmos 
portuguezes e 4 de altura era mais largo do lado 
da cabeça, como observamos em quasi todos os 
mausoléus. A pedra inteiriça de uma espécie de 
cal, carbonatada, fétida, desenvolvia, pelo attrito 
de um corpo duro, o cheiro do gaz hydrogeneo sul- 
phurisado. Já outra de semelhante natureza foi 
encontrada na cidade de Évora, como testemunha 
Diogo Mendes de Vasconcellos (qq), o que nas faz 
persuadir que os Romanos estimavam esta quali- 
dade de pedra para depositarem os seus despojos 



qq) Llv. V do município Eborense, na colleçáo das Anti 
guidades do Évora por B. J. S. Fiirinlia. 



>,sitizeot> v GoOgIe 



mortaes. Três pedras de granito coraraura do paiz 
cobriam o sarcophago e a do meio tinha esculpidos 
era caracteres romanos o seguinte epitaphio : 

MAELO BO 
VTI F. TAP 
ANNO LXH 
S. E. S. T. T. LEVIS 
FILI. F. G. 

«Confiados na ficção dos antiquários ousamos 
interpreta-lo d'esta maneira : 

dMaslo, Boutt filius, Tapsus annorum sezagin- 
ta, hic situs est. Sit tibi terra levis. Filius facien- 
dum curavit. 

«Melo Tapsio, filho de Boucio, tendo sessenta 
annos, aqui foi sepultado. A terra te seja leve. O 
filho lhe mandou fazer (esta sepultura). 

«Não nos lisongeamos que os nomes próprios 
aqui designados sejam exactamente os verdadei- 
ros, era razão dos breves ; porem os diccionarios 
que consultámos nos fizeram inclinai* a este pare- 
cer. De resto para corroborarmos esta leitura con- 
vidamos os curiosos a estudarem as obras do nos- 
so André, de Resende, e, se nem sempre é licito 
jurar nas palavras do mestre, muitas vezes não 
nos devemos envergonhar das licções dos homens 
de reputação e saber (Vid. André de Resende de 
antiquitatibits Lusitani:e. Idem de antiquitatibus 
Eborxf. 

«Tudo nos induz a crer que este sepulchro é 
do tempo dos romanos. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



«Os caracteres das letras, a forma e matéria 
do sarcophago, semelhantes a outras que se veri- 
ficou serem do m3s no temjn, coníimam a nos- 
sa opinião, e se o D. M. S. (Diis Manibas sacritm), 
que quasi sempre precedia os epitaphios, não se 
encontra neste, temos exemplos de faltar em ou- 
tros referidos pelo citado Resende. 

«E' obvia a impossibilidade de se fixar o anno 
em que fora lançado este monumento. Seja-nos 
tão somente permittido leva-lo á epocha do domí- 
nio romano na Lusitânia. 

«Sendo collocado ao fundo de um terreno la- 
deirento, as aguas, rolando areias, pelo decurso 
do tempo occultaram aos indígenas o seu (este) ja- 
zigo, até que o acaso o patenteou, como disse- 
mos. 

«Quem isto escreve presenciou o furor brutal 
dos rústicos, despedaçando as pedras, sem que se 
podesse intender o interesse de tão bárbaro pro- 
cedimento, a não ser talvez o impulso do sangue 
dos Godos e Suevos, de quem somos descenden- 
tes. 

«Não nos devemos admirar da rusticidade, 
quando os homens chamados de letras, que então 
podiam obstar ao furor, tractaram com indilTeren- 
ca este objecto. 

«Bem se confirma que a sua capacidade intel- 
lectual pouco ou nada difteria d'aqueH*outros, por- 
que não souberam nem cuidaram de interpretar O 
dístico da lapide. 

«Pouca honra lhes cabe por certo, mas con- 
solem-se os Portuguezes ao menos, pondo-se ao 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



par d'essas nações, que se appellidam Mostradas, 
e cuja civilisação tanto se nos tem gabado (rrjt>. 

Refere Francisco Manoel Correia que em 1853 
foi demolida uma parede de alvenaria da sacristia 
da Egreja de S. Miguel do Fetal, em que se en- 
controu uma lapide com a seguinte inscripção : 
D. M. S. Diis Manibis Sacrum 

SVNV.E Sumtaa 

BOG. CL F. Boci Cinx filix 

AZ. XI. Aetatis Xí 

AM. E NA. Amore e naturali 

MATRI. PIE Matias pie 

NTISSIM^E Missimx 

ET ALBIN Et Albinianus Gener 

IANVS. G. F. C. Facere curavit 

cg na língua portugueza : 

(Monumento) consagrado aos Deuses Manes. 
A Suna, filha de Boco Cina, de idade de 11 annos, 
mandaram fazei' esta sepultura sua mãe piedosíssi- 
ma, pelo seu natural amor, e o genro Albinianot. 

As letras D. M. S. mostram evidentemente a 
origem romana deste epitaphk». 

As moedas do tempo dos Romanos, que se 
tem encontrado em varias localidades da Beira Al- 
ta e na cidade de Vizeu, são outros tantos teste- 
munhos authentlcos de que esta região esteve sob 
o domínio d'aquelle povo, quer ainda no tempo da 
republica, quer diu-aute todo o tempo do império. 



rr) O Liberal- I mino, u.° 1. 



D, B itizeot>yGoOgIe 

ba&s ■ _____ 



Possuímos nós duas moedas; uma do impera- 
dor Gordiano, que viveu no 3.° século da era chris- 
tã, a qual foi encontrada em 1891 por um operário 
no convento de Jesus d' esta cidade na occasiâo em 
que d'ali retirava um entulho, e outra do impera- 
dor Maximiano, que com outras do mesmo tempo 
dos Romanos appareceu num campo junto da Silva 
e nos foi offertada pelo nosso amigo, parocho d'a- 
quella freguezia, padre Luiz Borges de Castro Car- 
doso. 

E' esta o exemplar mais perfeito que temos 
visto. Ainda se conservam em toda a sua nitidez a 
effigie do imperador e quasi todas as letras. 

Embora o Egypto, a Grécia e Roma nenhuma 
cousa fizessem memorável, ou na paz, ou na guer- 
ra, que as medalhas nos não representem, todavia 
não chegou ao nosso conhecimento qualquer des- 
tes monumentos históricos que diga respeito a VI- 
zeu, o que, se acontecera, lançaria muita luz nes- 
te nosso trabalho, porque os monumentos e a his- 
toria se dão reciprocamente as mãos : sendo aquel- 
les a segurança d'esta, e esta o commentario d'a- 
quelles. 

Por meio das medalhas romanas, fabricadas no 
tempo dos cônsules, poz Goltz em ordem chrono- 
logica os nomes de um grande numero de perso- 
nagens, que ainda hoje ignoraríamos, se não fos- 
sem aqnelles irrefragaveis testemunhos. 

M. Patin, depois de Fulvio Ursino, appro- 
priou-as a mais de vinte famílias romanas, e a mui- 
tas mais M. de Vaillant em dois grandes volumes 
em folha. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Pelas medalhas romanas ímperiaea M. Spon 
dispoz por ordem chronologica todos os imperado- 
res desde Júlio Cezar até Heraclio, e todos os ty- 
rannos, que usurparam o governo, porque o pri- 
meiro signal do seu poder era mandarem gravai" 
os seus rostos nas moedas coiTentes. 

Das medalhas tirou M. de Tillemont matéria 
abundante para os volumes que compoz com o ti- 
tulo de Historia dos Imperadores. 



EGREJA DE VIZEU 
NO TEMPO DOS ROMANOS 

Fosse qual fosse o nome d'esta povoação no 
tempo das imperadores romanos, sabemos pela 
historia geral que-se achava comprehendida den- 
tro dos limites da província da Lusitânia, governa- 
da por Legados e Pretores, que residiam em Eme- 
nta Augusta, sua capital. 

Afíirmam alguns escriptores (es} que Constan- 
tino Magno fez a primeira divisão dos bispados de 
Hespanha, erigindo em metropolitanas seis das 
suas egrejas e em nossas terras Braga e Merida, 
tendo esta por suffraganeas Beja, Lisboa, Évora, 
Ossonoba, Galiabria, Salamanca e Coria, e aquella 
Àstorga, Tuy, Coimbra, Iria Flavia, Britonia, Vi- 
zeu, Lamego, Idanha e Orense. 



bí) Mon. Liwit. liv. VI, cap. XXIV-Murifinnn, liv. VI, 
cap. XV-Paciilha. caiit. IV, tom. I, cap.XXXXVI-Gaiyabi, 
liv. VII, cap. XXVIII -Agui ire, tom. II, cone. vol. CCCI, n.° 
15— Loyasa publicou tssa divisão. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Mas tanto esta divisão como a vinda de Cons- 
tantino Magno á Península são contestadas por au- 
ctoies de boa nota (tt). 

padre Colt, rejeitando algumas clrcumstau- 
cias, admitte como verosímil a divisão dos bispados 
por Constantino, quanto a substancia (\m). 

Se dermos credito a alguns escriptores, a 
Egreja de Vizeu, que juntamente com Coimbra era 
suffraganea da de Braga, em 270 da era enrista te- 
ve o seu primeiro bispo, S. Justo, que foi marty- 
risado no tempo da 9. a perseguição geral movi- 
da contra os Christãos pelo imperador Aurelia- 
no (vu). 

Faiia e Souza (xxj diz que, peio anno 276, Vi- 
zeu tivera três bispos Justos nos nomes e nas vi- 
das ; e Abreu e Gouvea, fundados na sua auetori- 
dade, mencionaram como segundo Prelado d'esta 
diocese a S. Justo, mas não assignaram o tempo 
em que viveu. 

O padro Jjeonardo de Souza (yy} julga-o certo 
na dignidade da egreja viziense, embora duvidoso 
no tempo. 



íí) Lsbbe, tom. V, cone. coll. 876-Baron. ad anxum 080 
g 9.*-Mornles, liv. X.cap. XXXII- Viterbo, Klucidario, verb. 
Concilio - Veja se Mappa do Portugal por J. B. de Castro to- 
mo II, pag. 6. 

míí) Conferencia de 24 de fevereiro do 1724 nas Mem. da 
Aead. R. da Hist. lom IV n.° 9. 

ou) Padre Leonardo do Souza, tom. I (mss.) - Castro, Ca 
talogos Chronolngicos das Dignidades de Portugal. Paria, Eu- 
ropa P' i tuguoza. 

xx) Europa Portugueza. 

yy) Abreu e Gouvea, nos seus manuscrlptos— Padre Leo- 
nardo de Souza, tom. I (mas.) - Dextro ad annum 320— Ágio- 
logio Lueit. tom. I, pag. 18. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



São nomeados como successores d'elles S. 
Aulo, que fora morto por não seguir a seita dos 
Manicheus, que então grassava na Hespanha (an- 
no 306) (yyj, S. Justo, que florescera em sancti- 
dade fz:/, e S. Lusto, acerca do qual se ignora o 
tempo em que vivera, posto que haja a certeza de 
ter sido bispo de Vizeu (yyj. 

A existência de S. Aulo é posta em duvida por 
Castro na Politica moral (ah). 

Seguiu-se S. Justo IV, que governou a egreja 
viziense até 310, segundo uns (yyj, até 320 na opi- 
nião de outros (nc), e padeceu o martyrio por não 
admittir as doutrinas de Ario, hereje do IV sécu- 
lo, que negava a divindade de Christo [zzj. 

Escrevem Abreu e Gouvèa (abj que em 385 
fora bispo de Vizeu Idacio, dizendo o primeiro 
d'estes dois auctores que assistira ao concilio ce- 
lebrado naquelle anno em Trevoriz. 

Bail da-o como presente ao concilio de Bor- 
déus (Franca) e outros escriptores ao de Saragoça 
em 381, conjunctamente com outro prelado por 
nome Istaquio. 



yy) Abreu o Gouvóa, nos seus manuscriptos — Padre Leo- 
nardo de Souza, tom. I (mss.) -Dextro ad annum 820-Aglo- 
logio Lusit. tom. I, png. 18. 

zz) Faria o Souza— Europ. Port. 

abj Piídre Leonardo de Souza, tom. I (mss.). 

ac) Dextro (auct. antigo) no Clironicon-Nicolau na Ctir. 
dos Cónegos Regrantes do Santo Agostinho -Bluteau no Vo- 
cabulário Portuguez— Cardoso no Agiologio Lusitano— Lima 
na Geogrnphia Portugueza e Castro na Politica Moral. 

ad) Hiat. Eccl. 

ae) Varões illustres. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Notai Alexandre (ad) Isidoro (ae) Brito [afj e 
Castro (ag) elogiam-no como acérrimo inimigo dos 
Priscillianistas, que não consentiu no seu bispado, 
mas nenhum declara que elle fosse bispo de Vi- 
zeu. 

Com o nome Idacio houve um bispo de Merida 
e Chaves, denominada então Aguas Flavias (ah). 

O licenceado Francisco d'Abreu, visiense, em 
seus manuscriptos, fundando-se na auctoridade do 
chronicon de Dextro, dá noticia de que no anno 
400 eia bispo de Vizsu Lasaro, que assistiu ao con- 
cilio de Saragoça, celebrado no mesmo anno, cujas 
actas subscreve com Herodes, bispo de Lerida, e 
com Prudencio, de Tortosa, e de que com outros 
prelados mandara consultar a Africa Santo Agos- 
tinho, bispo de Hippona, para decidir varias duvi- 
das levantadas pelos herejes PrisGillianistas acerca 
da alma racional. 

Dextro é tido pelos modernos académicos co- 
mo escriptor de fraca e pouco firme auctoridade, 
e, por isso, não obstante o seu testemunho e Fr. 
Leão de S. Thomaz na Benedictina Lusitana asse- 
verar que Lasaro fora bispo de Vizeu, deve ter-se 
como duvidoso (ai). 



af) Muii. Lus. 

ag) Politica Moral e Civil. 

ah) Aigot.— Memorias do Braga— Morori, Dicc. D. 
nardo ila Aimtinci.içao, Colleução Académica Litúrgica - 
drg Leonardo de Souza, duss.), vol. I. 

ai) Padre Leonardo de Souza (mas), vol. I. 



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CAPITULO III 



Vizeu no tempo dos Bárbaros 



Sabe-se com certeza que, na divisão da Penín- 
sula entre os Bárbaros, a Lusitânia ficou sendo 
dominada pelos Alanos, que depois foram expulsos 
e substituídos pelos Suevos. 

Acerca de Vizeu, porem, não temos outras no- 
ticia seguras, relativas a esta epocha, alem das que 
constam das actas dos concílios, celebrados na 
Hespanha. 

Alguns escriptores mencionam como seus bis- 
pos em 513a Mansueto, em 541 a Affanio (a), e em 
5b\3aThÍmotheo/b/,que, dizem, assistira ao segun- 
do concilio Bracharense, celebrado neste ultimo 
anno, com todos os prelados da Galliza e Lusitâ- 
nia, a saber : Lucrécio, metropolitano de Braga, 



a) Abreu, Gouvòa, nos suus mas.— Castro no Catalogo — 
Padre Leonardo de Souza, mas., vol. I. 
í>) Os mesmos, e Brito, Mon. Ltisit. 



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jnho de Dume, Lucencio de Coimbra, André 
ria Flavia, junto a S. Theago, etc, e em refar- 
ia sua opinião invocam a anctoridade de Bail 
lumma dos concílios, de Natal Alexandre na 
ária Ecclesiastica, de Castro' na Politica Moral, 
Lrgot nas Memorias de Braga, e de Flores na 
e Histórica (o). 

Porem, Yepes, que escreveu em 1609 a Chro- 
Geral de S. Bento, declara que Thimotheo era 
o do Porto, e não de Vizeu, asseverando ao 
mo tempo que áquefle concilio presidiu o pri- 
de Braga Crasconio, que não é mencionado 
nenhum dos catálogos dos prelados piima- 
e o citado Bail na addicçâo que faz. á Sumira 
concílios diz ter-se celebrado em 566 o segun- 
wncilio de Braga (d). 

Segundo alguns auctores (dj, era bispo de Vi- 
em 568 Adaulfo, que assistiu ao concilio Lu- 
ie, celebrado em 569, e a quem Botelho consi- 
. como o primeiro, na ordem, dos prelados 
ta diocese. 

Mas o padre Leonardo de Sousa é de parecer 
naquelle anno já a cathedral viziense se achava 
ipada pelo virtuoso Remisol, que estava degra- 

>/«/■ 

Não obstante as referencias, que até este tem- 
ncontramos nos citados escriptores, relativas a 
os em Vizeu, alg.ins críticos tem por muito du- 



;) Padre Leonardo de Souza, vol. I, 

i) Padre Leonardo de Souza, vot. I. 

:) Abreu, líouvéa, mau.— Faria o Souza, Europa Portug., 

telho, Dulogos. 



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vidosa a existência (Telles, por faltarem documen- 
tos, onde se baseiem aquellas aflirmativas. 

O que é incontestável, se dermos credito 
aos fragmentos do concilio de Lugo, publicados 
em Madrid por Garcia de Loyasa em 1593, e 
que Vizeu já era decorada com sede episcopal no 
anno de 561, em que se reuniu o primeiro conci- 
lio de Braga, a que assistiram oito bispos e entre 
elles Lucencio ou Lucrécio, de Coimbra; e que, du- 
rante o domínio dos Alanos, como cidade situada 
entre o Tejo e o Dduro, era da jurisdicção de Me- 
rida, caindo em erro o padre Leonardo de Sousa 
ff) quando diz que em 569 era suffraganea de Bra- 
cara Augusta. 

íleunindo-se em 572 (e não em 563) o segun- 
do concilio de Braga, as suas actas são assignadas 
pelo bispo de Vizeu, Remisol, logo depois do me- 
tropolita de Braga e antes de Lucencio, de Coimbra, 
que tinha assignarto no primeiro (gj. 

Ora, estando estabelecido num cânon d'aquel- 
les tempos que os bispos deviam subscrever im- 
mediatamente aos metropolitanos, segundo a ordem 
da antiguidade das suas sagrações, Remisol já era 
bispo de Vizeu quando se celebrou o primeiro con- 
cilio de Braga (561). 

De tudo isto se segue que a Egreja de Vizeu Ô 
uma das mais antigas da Lusitânia por haver pre- 
cedido este concilio e não haver noticia certa da 
sua origem, que alguns (hj fazem remontar aos 



Padre Leonardo de Souza, mes.— toI. I. foi. 8 v. 

g) Flores, Heep. Sagr., vol. IV, pag. 172. 

A) Vigravei, in Epilog. Chron., Epilog. XIII, caf. XVIII. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



annos 38, 3!) ou 40 de Christo, em que, dizem, S. 
Theago esteve nas Ilespanhas, outros aos annos 
de 60 a 0!>, em que aqui pregaram S. Pedro e S. 
Paulo, o que temos por novella mal urdida. 

liemisol ou Remismundo, bispo deYizeu des- 
de antes de 561 em que se reuniu o primeiro con- 
cilio de Braga até, pelo menos, 572 em que se reu- 
niu o segundo, viveu no tempo dos papas João íli 
e Bento I, e de'A.rianimiro ou Ariamiroe seu filho 
Eburico, reis suevos na Lusitânia. 

No segundo concilio de Braga, na questão re- 
lativa ao novo estabelecimento de duas metrópo- 
les na GallizfL, uma em Braga e outra em Lugo, 
tomou o partido de S. Martinho Bracharense. 

Não falta quem aflime que o rei godo I-emvi- 
gildo, sectário de Ario, depois subjugar os Suevos, 
o desterrou, padecendo esse prelado no exilio 
grandes trabalhos, que lhe abreviaram a rida ji', o 
que carece de todo o credito, por falta de pro- 
vas 0"). 

Não é, porém, de crer que tal succedesse, 
porque Leuwigildo só se apoderou da Hespanha 
em 585, e não é provável que neste anno ainda 
vivesse aquelle prelado, sabendo-se que já tinha 
esta dignidade antes de rv.il. 

Desde 572 eiu que ha a ultima noticia de Re- 



i) Flores, ilesp. Sa^ i ., tom. IV, |v.g. õTI.etoiu. XIV, pag. 
82Í-Moiurch. Lusil. !u\ VI. tap. XVlI-Uap. de Fort. Ant. 
e Mod. |h4u pailie João B,ipUsUi de Castro, Xvm. II. pag. 101 
-l»i Ciww. Hist. de PoiL, tom. I, pag. 19, tom. 11, liv. IU, 
pag. 22 o UB. t» rippvtiiiii-u ao tom. II, pag. 13P. 

)\ 14bet;il, I anno, ri." 2. 



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misol até ao anno de 589 em que se celebrou o 
terceiro concilio cie Toledo, a que assistiu Sunila 
ou Sinrrala ou Sunnia ou Sumira, bispo de Vizeu, 
podia ter havido outro ou outros bispos nesta. dio- 
cese, e alguns auctores.ha (l) que, logo depois de 
Remisol, dizem ter sido bispo em 577 Justo, mas 
nào conhecemos documentos que justifiquem este 
asserto //;/. 

Do que não pode duvidar-se é de que Leuwi- 
gildo, quaudo em 585 se apoderou do reino dos 
Suevos, de que Vizeu fazia parte, nomeara para 
bispos das dioceses novamente adqiuridas sacer- 
dotes infeccionados da heresia ariana ; e é prová- 
vel que o primeiro nomeado para esta diocese fo- 
ra o referido Sunila, (exaltado defensor dos erros 
de Ario), porque em 589 assiste ao terceiro conci- 
lio de Toledo, convocado por Fiavio Recaredo e 
presidido por Massona, bispo de Merida, segundo 
uns, e por Leandro, bispo de Sevilha, na opinião 
de outros. 

Nesse concilio converteu-se Sunila á fé catho- 
lica e anathematísou a herezia ariana (m). 

Entre os setenta e dois bispos, que assistiram, 
o seu noine occupa o n.° 34, tendo assignado sob 
n." 33 João, bispo da egreja Velense, que em al- 
guns maouscriptos se escreve Belense. 



k) Castro na Politica, -Col. 

í) Padre Leonardo de Souza, tora. I, foi. 110 e 120, mes. 

m) As suas palavra», que se lêem nas actas do concilio, 
«âo : Sunila in Chrieíi rumine Civitatis Vesensis Eptacapus, 
tviathematimns hacresis Arianw dogmata mperittê damnata, 
filiem hnvc Sanrtam. ("itJíwlicnm. ipcan in Kcl/miam Cutholi- 
chm vciiicna cralidi, inanu mea de loto corde subneripsi. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Ora, não se conhecendo era Hespanha ne- 
nhuma egreja com esta denominação, intenderam 
I^yasa e outros escriptores, por aqueíle nome, a 
egreja Valeriense. 

Porem Flores (n), notando que 'entre os no- 
mes Velense e Vesense ha mais conformidade que 
entre Velense e Valeriense, por differirem apenas 
numa letra, diflerença que podia resultar de des- 
cuido dos copistas, e attendendo á círcurastancia 
de muitas egrejas, taes como Porto, Tuy, Valência, 
Lugo e Tortosa, terem dois bispos, um catholico e 
outro ariano, conjectura ser João o bispo catholi- 
co de Vizeu, e Sunila o ariano. 

Se assim foi, aquelíe era mais antigo, porque 
subscreve em primeiro logar as actas do concilio, 
e se Sunila foi nomeado logo no anno 585, em que 
Leuwigildo subjugou o reino dos Suevos, o que 
affirmam alguns auctores (oj e não contestam os 
que assentam a sua existência em 589 (pj, João já 
naquelle anno occupava a Sé de Vizeu. 

Durante o episcopado de Sunila presidiram á 
Egreja universal os papas Pelagio II, S. Gregório 
Magno, Sabiríieno, Bonifácio III e Bonifácio IV, e 
foram reis de Hespanha Leuwigildo, Recaredo, Lui- 
vn. r Witerico (q). 

Ignora-se a epocha da sua morte, mas sabe-se 



v> Hesp. Sagr . tom. XIV, paff. 324. 

o) Cardoso, Agiol. Luait.-Aguirre, Collecçflas, D. Tho- 
maz da Encarnação, Hiut. Eccles. d» Lusitânia. -Na tal Ale- 
xandra, HlSt. Eocles. 

p) Abreu, Gonvêa, e Botelho noa mas,— Colt, Castro, Cu 
nha a Pinto n.-s Gualogos, « Brito na Morurch. Lusit. 

q) La Clede-IIiat. de Port. tom. II, pag. 85, 86 e 89. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



que já no anno 610 Gundemaro occupava a egre- 
ja de Vjzeti, e até ha quem diga que já no anno 
600 era prelado d'esta diocese Vulpeciano, cujo 
nome é referido por Castro, Abreu e Gouveia, mas 
que Golt apresenta entre os bispos duvidosos. 

Por morte de Witerico succede em 610 no 
throno dos Godos Flávio Gundemaro. 

Para celebrarem a sua exaltação, concorrem a 
corte de Toledo, capital do reino, vinte e seis bis- 
pos, e entre elles o de Vizeu, Gundemaro, que, 
segundo indica o seu nome, idêntico ao do rei, era 
godo de nação (rj. 

O rei e os bispos presentes assignani ahi um 
decrefo, em que, na conformidade da decisão do 
segundo concilio de Toledo em 527, se eleva aquel- 
la egreja á dignidade de primacial (s), e entre as 
assignaturas occupa o 19.° Jogar a do bispo de Vi- 
zeu {í)- 

No sentir de D. Thomaz da Encarnação (uj, 
governou Gundemaro a diocese até 625, mas nada 
mais se sabe da sua vida (o). 

Viveu sob os pontificados de Bonifácio IV, 
Dieudonne I, Bonifácio V e Honório 1, que falleceu 
em 638. 



r) Abreu, Gouvéa, Botelho, nos mas.— Pinto, no Catalo- 
go.— Brito, na Monarch. Luslt— e padre Leonardo de Sousa, 
tom. I, folh. 134, mas. 

s) La Clodo-HiBt. de Port., tom. II, pag 79 a99-Frei 
João da Marúmna, tom. I, pag. 254. 

ti Aattigna pela seguinte forma : "Ego Gundemarus, Ec- 
elesiaj VeaenalH Épiacoptis, subsscripsi,,. 

uj Hisi. Ect-I. d;i Lubít. 

c) Ploren-Hesp. Sagr. tom. XIV, pag. 333 a 320. 



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Ao quarto concilio de Toledo (633 ou 634), a 
que presidiu S. Isidoro, arcebispo de Sevilha, con- 
correu o bispo de Vizeu Lauso, ou Launso, ou 
Laucus (ha variedade nos códices), que assigna 
entre os menos antigos (a;). 

Assistiu também ao synodo de Merida (633), se 
dermos credito a Faria e Souza (y). 

Viveu até 637, sob os reinados de Sisenando 
e de Chinthila ou Chintila, sendo papa Honório I. 

O nome do successor de Lauso lê-se varia- 
mente nos códices e escriptores (z) Firmo, Far- 
mo, Furmo, Farnio, Parino, Farino, Earnio, Far- 
mus, Farnus, e Furmus. 

Os nomes de Farmus, adoptado por Loyasa e 
Aguirre, e o de Earnio por Ambrósio de Morales, 
quando falia do sexto concilio de Toledo, pois 
quando falia do sétimo diz Parino, não se auctori- 
sam pelos manuscriptos. 

No códice do Escuriat lè-se Firmo, e noutros 
Farmus e Furmus. 

Viveu Firmo no tempo dos papas João IV e 
Tlieodoro I, e assistiu ao sexto concilio de Toledo 
(637 ou 638) (ab), convocado pelo rei Chintila, e 

D Colt, Castro e Cunha, nos Catálogos.— Brito, Pinto, Car- 
rilh",oD. Thomaz da Eniai nação, nas suas Historias. — Abreu, 
Boii Hm e dourou, noa mss. — Karianna tom. I, pag. 261— La 
CleU... Hist dePort. tom. ti, pag. í».-Fluros, Hesp. Sngr., 
tom. XIV. 

y> Manuel de Faria u honsa, Eur. Port. tom. I, pag. 346. 

2j Brito Botelho, Abreu, Oouvea, e padre Leonardo de 
Souaa. 

ab) Cunha o Pinto, Catai. Jls bispo* do Torto, Natal Alo- 
xandre, Hist. E^t.. Carrilho. An na es, Marianmi. Hi< de Nos- 
punha aseignaiii osso concilio no anuo 637; Colt e Castro, no 
Catai, dos bispos do Vizeu, o Bail, no de 638. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



ao sétimo (646), convocado pelo rei Chindasuín- 
do. 

E' o ultimo que assigna, sendo por isso o mais 
moderno, e, como este concilio, a que elle concor- 
reu em virtude de convocação, foi publicado a 9 de 
janeiro de 638, deve ter-se por certo que pelo me- 
nos foi sagrado no anno antecedente, e devemos 
considerar como não tendo existido antes d'elle o 
bispo Festino, que Castro no seu catalogo apresen- 
ta como duvidoso, mas que bem podia ser o mes- 
mo Firmo, provindo dos copistas o erro. 

No anno 616 assiste Firmo ao sétimo concilio 
de Toledo, presidido por Oroncio, arcebispo de 
Merida, e subscreve sob n.° 23. 

Como Ambrósio de Morales chamasse Parino 
o bispo de Vizeu que assistiu a este concilio, re- 
sultou d'ahi que alguns escriptores portuguezes 
(ac) de um bispo fizeram dois, chamando ao pri- 
meiro Farmo e ao segundo Parino. 

A' vista, porem, dos manuscriptos de Toledo, 
não pode duvidar-se de que foi o mesmo prelado, 
que assistiu aos doía concílios. 

O copista do códice Vigila, tomando a primei- 
ra haste do m por um i, nos actas dos dois con- 
cílios escreve Farinai, o que prova ainda que foi o 
mesmo bispo, que assistiu a ambos (ad). 

No anno 653 presidia já á Sé de Vizeu Wadil- 
la ou Unadilla, que subscreve (ae) o oitavo conci- 

ac) Abreu, Gouvea, Botelho, msa.-Colt, Castro, padre 
Leonardo de Soiisn e Morales nos logares citados. 

ad) Hist. de Port. por La Cledp, tom, II. pag. 105 e 106. 
Flores, Hesp. Sagr. tom. XIV. 

ae) Somente o amimam Brito Colt. 



>,sitizeot> v GoOgIe 



lio de Toledo, convocado pelo rei Recesuindo, sob 
n.° 32, precedendo a 20 bispos menos antigos, 
e por isso o devemos suppor sagrado cerca do 
anno 650. 

Alguns manuscriptos ' dão-lhe o cognome de 
João. D. Thomaz da Encarnação escreveu Wadila; 
Loy&sa, seguindo um códice de Toledo. Unadila, 
pondo a margem Ubadice. Deve, porem, preferir- 
se o de Vvadila ou Wadila, por ser mais harmó- 
nico com a índole da língua goda e mais geral- 
mente usado nos manuscriptos. 

Passados três annos este bispo voltou a Tole- 
do para assistir ao decimo concilio (656), que subs- 
creveu sob n.° 23. 

Ignora-se até quando viveu e quem foi o seu 
immedíato successor, por decorrerem alguns an- 
nos, sem se celebrarem concílios. 

' D. Thomaz da Encarnação (af) diz que consta 
ter vivido até 665. Wadila governou esta diocese 
sob o pontificado de Eugénio I e ainda talvez sob 
o de Vítalino (ay). 

No concilio de Merida (636) estiveram apenas 
doze bispos da Lusitânia. Não concorreu nem o 
de Vizeu nem o seu procurador, como era costu- 
me, talvez por se achar vaga esta egreja, o que D. 
Thomaz da Encarnação affirma categoricamente 
(ah). 

af) D. Thomaz da Eriçam. - Hiat. Eecl. Limitam». 

ag) Flores, Hosp. Sagr., toro. XIV. La Ciede, Hist do Port. 
tom. II, pag. 102. -Mariamu, tom. I, pag. 270. 

ah) Cit. auctor diz r "Aliquandiu po t. Vvadilas mortom 
Eeclesia Visenii.s Pastoro oaniit prassertim anno G6fi in quo 
concllium Emeritenso actum est.. 



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Entre os annos 640 e 656, Recesuindo, rei dos 
Godos, ordenou que se delimitassem os bispados 
da Lusitânia, e nessa divisão continuam a ficar ag- 
gregadas a Merida as egrejas comprehendidas en- 
tre Tejo e Douro : Egitania, Coimbra, Lamego e Vi- 
zeu. padre Leonardo de Souza (ai) diz que foi em 
666 que Vizeu se tornou suffraganea de Merida. 

Alguns annos depois, esta egreja perdeu a sua 
qualidade de metropolitana, que, em seu logar, 
assumiu a de S. Theago de Compostella. 

Entre o prelado de Compostella e o de Braga 
lerantou-se questão sobre a posse d'aquellas qua- 
tros uffraganeas. 

Chegaram a final a um accordo no tempo do 
papa Iooocencio III, ficando sob a jurisdicção de 
de Compostella Lamego e Egitania, e sob a de Bra- 
ga Coimbra e Vizeu (aj). 

Reparato (ak) ou Separato é o bispo de Vizeu 
que subscreve as actas dos duodécimo e decimo 
terceiro concílios de Toledo. O primeiro, convoca- 
do pelo rei Ervigio, celebrou-se em 681, e assisti- 
ram 35 prelados. Ao segundo, reunido em 683, 
estiveram presentes 48. 

Nenhum escriptor dá outra noticia d'este pre- 
lado, exceptuando D. Thomaz da Encarnação, que 



ali Padre Leonardo da Sousa, vol. I, pag. 8 v. 

aj) Flórea, Heap. Sagr. tom. IV, pag. 179 e seguintes, 
tom. XIV, pag. 318 e seguintes. 

ai) Abreu, Botelho, Gouvês, Castro, Cunha e Pinto nos 
Catai., e padre Leonardo dç Sousa, tom. T,.fl. 153 v. concordam 
no nome de Rnparato. Brito, porem, na Mun. Lusit. numa 
parte o chama Reparato e noutra Separato. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



diz fora eleito pelo clero e povo viziense e vivera 
no bispado doze annos pouco mais ou menos 
(ai). 

Parece-nos, porem, que não podia ser tão du- 
radoura a sua permanência na diocese, porque já 
no anuo de 6SS assistiu ao decimo concilio de To- 
ledo, convocado pelo rei Egica, o bispo de Vizeu 
Williefonso (ou Wilcifonso, Vocifredo ou Wicifre- 
do), que subscreve sob o n.° 44, sendo 61 o nume- 
ro dos bispos assistentes (am). 

O ultimo prelado, de que temos noticia certa 
que governará a egreja de Vizeu no tempo dos (io- 
dos, foi Theudofredo ou Theufredo, sob os ponti- 
ficados de João V, Sérgio I, João VI, João Vil e 
Constantino. 

Assiste ao decimo sexto concilio de Toledo 
(693), convocado por Egica, onde estiveram 60 bis- 
pos, assignando elle em panultimo togar, o que 
prova sei- muito moderno (an). 

E não falta quem affirme que, quando Affon- 
so Magno, segundo um antigo documento, distri- 
buiu as parochias das Austurjas peios bispos ali 
refugiados, para se sustentarem, ainda eia vivo 
Theudofredo, e que a elle se referiram as pala- 
vras, que se lêem naquelle documento, e eme, ver- 



<xi) D. Thoroaz da Encarnação, Hist. Bccl. Luait., onda 
diz: "Reparatus eleclua fitit.i Claro, et Populo : subs«rip-tit 
in actibus Conciliorum Toletani XII ot XIII : vixit in Episco- 
patu fera 12 ann.„ 

am) Flórea, Hosp. Sagr., vol. XIV. -Brito, Moii. Luait. O 
padro Leonardo do Sousa, vol. I, fl. 159 v., mas. 

«h) Colt, — D. TlimniiK d,\ Encarnação, Brito, Abreu. Omi 
vêa, Caalro e finto, eit.— e Justiniano, Anuo Hibtoiiuo. 



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tidas em vulgar, dizem : Ao bispo de Vizeu a Egrc- 
ja do Santa Maria de Nobelleto que está cm. Ro- 
cisen. 

Até ao armo 876 nenhum outro documento 
nos falia de bispos em Vizeu. 

Alguns escriptores (ao), porem, ainda assi- 
gnam por suecessor de Theudofredo, que, dizem, 
fora martyrisado pelos Sarracenos em 11 de mar- 
ço de 712 ou 715, a Hispano, o ermitão, que resi - 
dia oceulto na capella de S. Miguel do Fetal, on- 
de recebera por companheiro ao rei Rodrigo, 
depois da batalha do Guadalete, e que em dias 
determinados ali ministrava os sacramentos aos 
christãos, que se achavam dispersos e escondidos 
pelas serras, covas e mattos, para escaparem ao 
furor dos Mouros. 

Acerca desta narração, que Oliveira Berardo 
julga uma fabula, lillia antes da impostura que da 
credulidade (apy, encontramos algumas estancias 
no Viriato Trágico, de que apenas transcrevemos 
as duas seguintes : 

Aqui com o vosso exemplo passarei 

da vida os dias, horas e momentos, 

as minhas graves culpas chorarei 

que causam dentro em mim grandes tormentos. 

Os frios não temendo nem os ventos, 

se necessário for na serra fria, 

farei com os animaes companhia. 



ao) Botelho, Dial<:gos,-e o padre Leonardo de Sousa, vol, 
I, fl. ItiíJ v. e fl. ltifl dão conta d'estoa escriptoros. 
ap) Libei iil, I anno, n.° ti. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Entrão para a devota e santa ermida, 

agoa tomando, e feita oração, 

o rei dá conta de sua larga vida 

de joelhos ao devoto ermitão. 

rosto baixo, humilde e enternecido, 

a voz signal de grande contricção, 

lagrimas e soluços não faltarão 

que o sacramental acto acompanharão. 



INVASÃO DOS MOUROS. 
D. RODRIGO E SEU TUMULO 

Vencidos os Godos na batalha geralmente de- 
nominada do Xerés, que se feriu, segundo Al-Razy 
e outros historiadores árabes, nas margens do rio 
Barbate, e, segundo os historiadores christãos, nas 
do Chryssus ou Guadalete— (palavra derivada do 
árabe— de yuada — , rio — , e Letes), logo nesse mes- 
mo anno os Mouros conquistaram muitas terras da 
Península, e em 716 se lhes renderam Lisboa, 
Coimbra, Porto, Braga, Tuy, Orense e Vizeu. 

Apoiados na auctoridade do chronicon Se- 
bastian (attribuido ao bispo de Salamanca, que ti- 
nha este nome), Rodrigo de Toledo, Fr. Bernardo 
de Brito (aq), padre António de Carvalho (ar) e Fr. 
Agostinho de Santa Maria (as), Masdeu e outros his- 
toriadores christãos aulrmam que D. Rodrigo não 



aq) Mon. Lusit., tom. II, liv. VII, cap. III, pag. 446. 

ar) Chorograpbia Portiig. 

as) Sanctunrio Uariannu, tom. V. 



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morrera na batalha, mas que fora descoberto em 
Vizeu no século X o seu tumulo com o seguinte 
epitaphio : — Hic requiescit Rodericiis ultimus rex 
Gothorum. 

Alguns d'estes referem ainda que, perdida a 
batalha, D. Rodrigo, vestindo-se de trages de pas- 
tor, se pozera em fuga, e, depois de se ter confes- 
sado e commungado na mosteiro Cauliano, da Or- 
dem de S. Bento, junto de Merida, d'ahi se dirigira 
em companhia de um monge, Fr. Romano, para os 
rochedos que ficam junto da villa de Pederneira, 
districto de Leiria, onde chegou depois de uma 
viagem de vinte e seis dias, encontrando ahi um 
crucifixo esculpido de meio relevo ; que nesse lo- 
gar collocaram a imagem de Nossa Senhora, que 
da Nazareth tinha trazido um monge grego, por 
nome Ciriaco, e as relíquias de S. .Bartholomeu e 
de S. Braz, que haviam trazido comsigo, e edifica- 
ram uma pequena ermida; e que, decorrido pouco 
mais de um anno e tendo morrido o monge roma- 
no, D. Rodrigo passou, como pobre mendigo, a 
Vizeu, onde se recolheu á' ermida de S. Miguel— 
extra muros, vivendo em companhia'do ermitão e 
esmolando até ao seu fallecimento, sendo sepulta- 
do na mesma ermida. 

Se com o nosso antiquário José d'01iveira Be- 
rardo também classificamos de grosseira nouella, 
de fabula mal urdida, que não merece refutação, 
por não existir documento algum em que se ba- 
seie, a narrativa da occulta peregrinação de D. Ro- 
drigo pelo território portuguez e da sua vida de 
penitencia e de oração, egual classificação não po- 



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ciemos dar á que se refere á sepultura cTaquelle 
inonarcha em Vizeu, que, como acima deixamos 
dito, se apoia no testimimho do chronicon Sebas- 
tian, cuja authenticidade e valor adiante discutire- 
mos. 

E' uma questão, que julgamos hoje insolúvel, 
saber se D. Rodrigo morreu na batalha, ou se jaz 
em Vizeu, e, como tal, também a considerou o nos- 
so primeiro historiador, Alexandre Herculano — f 
dizendo : "A batailia do Guadatete ou Chryssus foi 
decisiva. Os Godos finaram completamente destroça- 
dos, e Rodrigo, segundo parece, pereceu no eonfli- 
cto. (atj. 

Todos os historiadores Árabes, nomeadamen- 
te Al-Makkari (1585-1631) na sua Historia tias Dy- 
nastias Mahometanas em Hespanha e Al-Razy ou 
Rases (888-961), dois historiadores christãos, qua- 
si coevos, Isidoro de Beja (Isidorus Pacensis) e o 
continuador anonymo do chronicon Biclarense, 
affirmam que D. Rodrigo foi morto no combate. 

Não estão, porem, de accordo sobre as cir- 
cumstancias da sua morte, pretendendo uns que 
elle morrera 1 na batalha, outros ás mãos de Ta- 
rik, e outros ainda que se aífogára quando ten- 
tava passar o rio a nado. 

Oliveira Berardo inclina-se a que se realisára 
a primeira d'estas hypotheses, nos seguintes ter- 
mos : Mas jd hoje documentos originaes e incontes- 
táveis ultimamente descobertos fizeram vèr que no 
anno 7ÍÕ entraram os Mouros a conquistar a Hes- 



at) Ilist. de Port., tom. t, pag. 50. 



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panha e que neste mesmo foi a batalha do Guada- 
lete, na qual ás mana de um mouro chamado Tarik 
foi morto o rei D. Rodrigo, cujo cavallo, armas, e 
vestido entraram no immenso despojo que colheram 
os Sarracenos. 

Cita em seguida Merino, Paleographia, pag. 12fi, 
e Fr. Manoel de Figueiredo na Dissertação Histó- 
rica Critica. 

Também o auctor de uma noticia publicada no 
Panorama (au) diz que a critica apurou o facto da 
morte de D. Rodrigo na fatal batalha do Guada- 
lete. 

Na Paleographia (ou, antas, Escuda Paleogra- 
phica) de Andres Merino, citada por Berardo, que 
compulsámos na Bibliotheca Publica de Lisboa, ne- 
nhuma referencia se faz a D. Rodrigo. 

Fr. Manoel de Figueiredo, mo.nge Cisterciense 
da congregação de Santa Maria de Alcobaça, chro- 
nista da mesma congregação, homem de luzes e 
fadigas, como lhe chama Fr. Joaquim de Santo 
Agostinho nas Memorias de LU. da Acad. Real das 
Seientias, tom. V, pag. 301 — K, falleceu entre 1792 
e 1794 e escreveu duas dissertações acerca de D. 
Rodrigo, com os seguintes títulos : 

1.» — Dissertando historico-critica em que clara- 
mente se mostram fabulosos os factos com que está 
enredada a vida de Rodrigo, rei dos Godos; que es- 
te monarcha na batalha do Guadaletc morreu ; que 
são apocriphas as peregrinações milagrosas da ima- 



au) Panorama, tom. V, pag. 27. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



gem de Nossa Senhora, venerada no termo da villa 
âa Pederneira ; que não é verdadeira a doação que 
muitos crêem fez á mesma Senhora D. Fuás Rou- 
pinho, governador de Porto de Moz. Lisboa, na 
Offic. de Filippe da Silva e Azevedo, Í786. 

Tem cento e onze paginas. 

2.» — Segunda dissertação histórica e crítica, em 
que se mostra morreu na batalha do Guadalete Ro- 
drigo, rei àos Godos, e ultimo dos que reinaram na 
Ifespanha. Lisboa, na Offic. Palriarchal, 1793, 4. a 

Tem quarenta e cinco paginas. 

Muito peso tem em nós o testemunho do nos- 
so illustre antiquário e dos historiadores que ficam 
nomeados. 

No entretanto, e em quanto ao nosso espirito 
não se apresentarem razões que tirem toda a som- 
bra de duvida, não acceitaremos como facto incon- 
testável a morte de D. Rodrigo na batalha. 

A opinião de que elle veio acabar seus dias 
em Vizeu abona-se não só com a tradicção atravez 
dos séculos, mas com o testemunho do chronicon 
Sebastian. 

Esse documento, que tomou o nome de Se- 
bastian, bispo de Salamanca, a quem por alguns é 
attribuido, sendo-o por outros a Affonso III, rei de 
Oviedo, acha-se publicado por Flores (av), e d'elle 
existem dois manuscriptos, um na Real Bibliothe- 
ca de Madrid, e outro na colleccão dos inéditos, re- 
colhida por João Baptista Lavanha, que se acha 
archivada na Egreja de Toledo. 

av) Jldsp. Siigr. wtl. XIII, pag. 4S0. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



O chronicon Sebastian narra factos succedi- 
dos desde 672 até 806; foi escripto, segundo Flo- 
res (av), aproximadamente pelo anno 88% e, na 
opinião de Fr. João Marianna, pouco mais ou me- 
nos no anno de 8G6. No § 7.°, que se refere á 
sepultura de D. Rodrigo, diz : «Por morte de Viti- 
za, Rodrigo é escolhido para rei dos Godos, mas, 
alem de não pôr fim aos crimes de seu antecessor, 
os ampliou. 

«Os filhos de Vitizã, porem, movidos pela in- 
veja de Rodrigo ter acceitado o reino de seu pae, 
desesperados, mandam legados á Africa a pedirem 
o auxilio dos Sarracenos, que, accedendo ao con- 
vite, embarcam e vem para a Hespanha. Elles, 
porem, que causaram a destruição da Pátria, tam- 
bém pereceram com muita gente as mãos dos Sar- 
racenos. 

«I-ogo que Rodrigo teve conhecimento da en- 
trada d'elles, saiu-Ihes ao encontro, para os com- 
bater, com um grande exercito de Godos. Mas, di- 
zendo a Escriptura «corre em vão aquelle a quem 
a iniquidade precede», opprimidos pelas censuras 
dos Sacerdotes, ou pelo peso dos seus peccados, 
ou descobertos pela fraude dos filhos de Vitiza, os 
(lodos ou fugiram ou foram passados á espada. 

«I)a morte de Rodrigo, porem, não ha nenhu- 
ma noticia : mas, sendo povoada por nós, nestes 
nossos tempos de ignorância, a cidade de Vlzeu e 
os seus subúrbios, numa certa basílica (egreja) se 
encontrou um monumento, onde estava esculpido 

ax) Obr. cit, vol. cit., pfig. 471. 



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116 



um epitaphio, que diz : Aqui dcscança Rodrigo rei 
dos Godos» (ay). 

Que valor terá o testemunho d' este documento? 

Alem dos ji\ citados historiadores Al-Razy e 
Isidoro de Beja e do chronicon Biclarense, as 
fontes mais antigas da historia de Hespanha depois 
da dominação árabe são os chronicons Albenden- 
se, Sebastian e Pacense. 

O primeiro, que deriva o seu nome do mos- 
teiro de Albelda, a que pertenceu, e que alguns 
denominam Emilianense, por se conservar num 
manuscripto do archivo de S. Millan, e outros de 
Dalcilio, por julgarem ser seu auctor um presby- 
tero toledano d'este nome, referido neste docu- 
mento, o que parece ser confirmado por Affonso 
III na carta a Sebastian, bispo de Salamanca, 
quando lhe diz : E' por ti bem conheeUia a Histo- 
ria dos Godos, que rtós conhecemos pelo Presbytero 



ay) Witiz;ine defuncto Rudericus a Gothis eligitur in Re 
gno. Isto nenipe i» peccatia Witizani ambulavir, et non 60 
Iiiiii zelo juatiliffi nrmatui huic sceleii finem non imposuit, 
sed mugis ampliavit. Filii vero Witizani invidia ductí, eo quod 
Ruderiuus regnum Fàtris eorum accepernt, cullide cogitantos, 
Mísmos ad Africíim mittunt, Sarracenos in auxilium petunt, 
eosque n.ivibus advcctos Hispaniam in Cio mittunt. Sed ipai 
qui Putrim excidiuin intulerunt, simul cnm gente Serraceno- 
m in gladúi periorunt. Ttaque cum Ritdericus ingressus eo- 
ruin cognovisset, cum omni agmine Gothorum eis pr&liaiu- 
niB ofMJurrit. Snd dicente Scriptura: In vamim currit quem 
iniquitaa praeedU; Sacerdotum, ve] suoruin peccatoruin mole 
oppreasi, vel filiorum Witi/jini fraude deteeti.cum omni agmi- 
ne Gothorum in fugam sunt verei, et gladio deleti. De Ru- 
derico vero Rege nulli cogníta manet causa interitue ejus : 
mdis namque nobia temporíbUB cnm Viseo Civitae, et subur- 
bana ojus a nobis populaU essont, in quadain Basílica mo 
ruimentum est invuntum, ubi desuper Epitapbium auulptiim 
sic Uioit : Hic requiescit Êudericm Rex Golhorum. 



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Dulcilio (az), presume-se ter sido principiado no 
anno 833 e continuado no de 976. 

Conserva-se nos afamados códices dos concí- 
lios do tescurial e acha-se publicado na Hespanka 
Sagrada, de Flores, tomo XIII, paginas 433 e se- 
guintes. 

O § 78 d'este chronicon refere a entrada de 
Tarik e Mousa na Hespanha, o fim do reino dos 
Godos, e conclue dizendo que se desconhecia ató 
aquelle dia a morte de Rodrigo (ba). 

O chronicon Sebastian é a continuação do Al- 
bendense e, como já fica dito, narra os factos suo 
cedidos desde 672 até 86o, opinando o padre João 
Marianna que fora escripío neste ultimo anno, ou 
proximamente, e Henrique Flores (66) que o fora 
em 883 pouco mais ou menos. 

Acerca do seu auctor divergem os escrlptores. 

D. Pelayo, bispo de Oviedo, Ocampo, Morales 
e Sandoval attribuem-no a Sebastian, bispo de Sa- 
lamanca. Juan Bautista Perez na Carta de los Con- 
cílios de Espana (6c), e, depois d'elle, Pellier, Mon- 
dejar, Pagi, Loyasa e outros auctores iilustres di- 
zem ter sido escripto pelo rei de Oviedo, AíTonso 



az) Notum sit tibi de Historia Qotliorum, pio qiin nobis 
per Dulciliura Presbyterum notuit. 

ba) Alio anno ingressas est Tarik. Tortio anno jam eodem 
Tarik prsollo «gente cura Ruderico, ingressus est Jduza íboii 
Muzeír, et periit Regnuui Gothoruin, et tuim munia deoor Uu- 
thkffi gentis pnvore i vel ferro periit. Rege quoque eodeui Uu- 
derico milli causa iríteiitus ejua coguita manot nsque in pire- 
aonteni diein. 

bb) Hesp. Sagr. tom. XII, pag. 471. 
fcc) Agoure, tom. I, pag. 12. 



>,„itize< ::; ; GOOglC 



III, fundando-se, alem d'outras, nas seguintes ra- 
zões: 

1.» Do exórdio d' este chronicon collige-se que 
o rei é quem escreve e se dirige ao bispo ; 

2." povoar a cidade de Vizeu, como o auctor 
afftrma que fizera, é próprio de rei e não de bis- 
po. 

Os defensores da primeira opinião adduzem 
em favor d'ella três ponderosos argumentos : 

l.° O bispo D. Pelayo, que escreveu no fim 
do século XI, expressamente o attribue ao bispo 
Sebastian, e não o faria se por aquelle tempo se 
soubera que outro era o seu auctor. 

2.° Não é de crer que um rei escrevesse para 
informar um bispo, e muito mais no presente ca- 
so, por isso que D. Affonso III, começando a rei- 
nar aos 14 annos de sua idade e occupando-se 
desde então nos negócios do estado, nas guerras 
de vassalos e mouros, o que não é escola propor- 
cionada para as letras, principalmente naquelle sé- 
culo de ignorância, pouco podia ter estudado. 

3.° O grande numero de textos da Sagrada 
Escriptura e de cânones dos concílios, espalhados 
neste documento, levam a presumir que o seu 
auctor fora um ecclesiastico. 

Conjectura Flores (bi) que Sebastian o escre- 
vera por ordem de Affonso ÍII e recebera d'este 
monarcha coramissão para povoar a cidade de Vi- 
zeu, facto de que ha exemplos análogos. 



Ml Hoap. Sngr. tom. XIIT, pag. 47], 



>,„itize< ::; ; GOOglC 



Fr. João Marianna sustenta que o bispo o es- 
crevera por ordem e em nome de AfTonso III, e, 
achando-se assim investido da auctoridade real, 
dissera que povoou a cidade de Vizeu. 

Quer o chronicon Sebastian fosse escripto pe- 
lo bispo d'este nome, quer pelo rei Affonso III, 
de cujo reinado já não faz menção, é certo que é 
um documento do século IX, e que a elle faz refe- 
rencia no século XI Pelayo, bispo de Oviedo. 

Ora, não havendo razão em vista da qual se 
deva pôr em duvida a sua authenticidade, e, se os 
restantes factos nelle referidos, ionge de serem 
contestados, sào confirmados pela historia, um es- 
pirito prudente, não obstante o que Al-Razy diz em 
contrario, não deve ter como fabulosa a sua narra- 
ção relativa á sepultura de 'Rodrigo. 

E mais valor dão ao seu testemunho as diver- 
gências dos escriptores, que referem a morte de 
Rodrigo no conflicto,' sobre as circumstancias ^es- 
te facto. Perecera no campo da batalha, dizem 
uns; ás mãos de Tarik, aflinnain outros; morrem 
afogado, asseguram ainda outros. 

Se Rodrigo, o comtnandante em chefe das 
foi-ças christàs, tivesse perecido na batalha, pode- 
ria acontecimento tão importante ter-se escondido 
ás vistas dos Christãos, que escaparam e se refugia- 
ram nas Astúrias, e haver-se riscado, em tão pouco 
tempo, da memoria dos descendentes d'estes, a 
ponto de o auctor do chronicon Albendense, es- 
cripto cento e vinte annos depois, aflirmar que em 
desconhecida a causa da sua morte ? ' 

Se neste documento não se faz referencia ao 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



invento do epitaphio na basílica de Vizeu, é por- 
que a parte em que se reteie a Rodrigo foi eseri- 
pta muitos annos antes da tomada d'esta cidade 
por Affonso III. 

A tradição oral e escripta vem em abono da 
opinião dos que afíirmam que Rodrigo jaz nas pro- 
ximidades de Vizeu. 

O Nobiliário, que se attribue ao conde D. Pe- 
dro (be), fallecido em 1354, diz que na batalha 
de Gagunera «foy perdido el Rey Rodrigo, e norn o 
acharam nem vivo nem morto : mas a tempos lon- 
gos despoes em Vizeu em nua horta acharam hu 
sepulcro, que dezião as letras, que erão escritas, 
que alli jazia Rey Rodrigo, o que foi perdido na ba- 
talha no tempo dos (iodos» (bfj. 

Acerca de D. Rodrigo existe lambem uma 
chronica ou antes um romance de cavallaria, obra 
de um actor anonymo do século XIV, onde se en- 
contra a tradicçáo, geralmente adoptada, sobre a 
conquista da Hespanlia pelos Árabes e uma multi- 
dão de novellas ridículas. 



be) Tit. III, § 16. 

bp Quando reynou Rey Rodrigo em Espanha, vierom de 
Africa Rey Avaly Alboazar. que era Rey de Marrocos, e Mi- 
ramainolirii, e entom veyo Tiinc em um ter a Hespanha ; e 
arribou a Gibraltar com muytos, e com grandes poderes, e 
vierom com Rey Rodrigo a batalha, o lidarom com el em o 
cainpo de Gagunora, em a primeyra fazenda forom maltritos 
dos Mouros, o forao arrancados os Climtâos o desbaratados ; 
em a quella batalha foy perdido el Rey Rodrigo, e nom o 
acharoro nem vivo, nem morto : mas ã tempos longos des 
pões em Vizeu em Ima horta acharoin hu sepulcro, que de- 
ziam as letras, quo eram escriptas, que alli jazia Rey Rodri- 
go, o que ibi perdndo na batalha, no tempo aos Godos. 

Nobiliário do Baptista Lavanha, rag. 1. 



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Impressa pela primeira vez em Toledo em 
1549, teve depois grande numero de edições. 

Outra, cheia de fabulas, acerca de Rodrigo e 
dos acontecimentos em que elle andou envolvido, 
foi escripta no meado do século XVI por um mou- 
ro convertido, por nome Luna, e impressa em 
Granada em 1592-in 4.°. 

A estes dois livros e a outros do mesmo gé- 
nero é que foram beber os romancistas e auctores 
' dramáticos, que tem escripto acerca da queda do 
domínio dos Wisigodos na Península. 

As obras mais notáveis de que Rodrigo é he- 
roe são as de Walter Scott, de Southey e de Ir- 
ving. 

O doutor Fr. Bernardo de Brito, tecendo a len- 
da de D. Rodrigo, dá noticia da inscripção que em 
1609, data em que escreveu, se achava na antiga 
capella de S. Miguel do Fetal, que foi demolida em 
1735. 

«Deixando, diz elle, no juízo dos curiosos uma 
pintura antiga, que inda dura junto a Viseo, na 
Igreja de S. Miguel sobre a sepultura do mesmo 
rei dõ Rodrigo, em que se vè a cobra pintada cô" 
duas cabeças, e no próprio sepulchro, que é de pe- 
dra lavrada, hú buraco redondo, por onde dizem, 
que a cobra entrava, as palavras — Hic jacet Iiodri- 
cus ultimus rex Gothorum» (bg). 



bg) Mon. Luait. part. II, fl. 274 v. A mesma narrativa se 
encontra em D, Rodrigo de Toledo, liv. III, cap. XIX- Mar - 
mol, liv. II, cap. X, Vaseita in Chron., tom. I, Moralea, liv. XII, 
cap. LXIX, Anaph. cap. XLIV. 



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Accrescenta que estas palavras estavam es- 
criptas de preto em um arco da parede que existia 
sobre a sepultura d'El-rei ; 

que a egreja era pequena e de fabrica muito 
antiga, principalmente a capella mor, junto da qual 
ficavam duas cellas, uma de cada lado, estreitas e 
escuras, por não terem mais luz do que a que lhe 
entrava por uma pequena fresta aberta do lado do 
nascente ; 

que na celta, que ficava do lado sul, se dizia 
que vivera o ermitão, cujos conselhos o rei seguiu 
no decurso da sua penitencia ; 

que, encostada á parede da capella da parte 
da Epistola, se via a sepultura do mesmo ermitão ; 

que na outra cella, que ficava para o noite, 
passou el-rei a sua vida, e, na parede da capella 
que coiTesponde á parte do Evangelho, ficava um 
arco onde se via a sepultura ein que estiveram 
seus ossos ; 

que debaixo do mesmo arco se viam pintados 
na parede o ermitão e el-rei, com a cobra de duas 
rabecas, e alii estava a referida inscripcão, já gas- 
tada do tempo, com signaes de muita antiguida- 
de, mas de modo que se podiam ler distincta- 
mente ; 

que o sepulchro era chão, de uma só pedia, 
e escassamente nelle podia caber um corpo hu- 
mano, já não tinha a pedra que lhe servira de co- 
bertura, e dentro não estavam os ossos de el-rei, 
que tinham sido levados para Castella, não podendo 



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elle descobrir, por mais diligencias que fez, nem 
o modo r.em á ordem de quem o foram (bh). 

Manoel Ribeiro Botelho Pereira nos seus Diá- 
logos, escriptos em 1G30, acredita que Rodrigo fora 
sepultado na egreja de S. Miguel e que o tumulo 
fora encontrado no tempo de Affonso I por Cares- 
tes, cujo testimunho invoca, reprodusindo as pró- 
prias palavras que attribue ao inventor : 

"Eu Carestes, vassallo d'etoei D. Affonso de 
Leão, genro do cavalleiro de Deus, Rei D: Pelaio, 
quando o dicto Snr. Rei D. Affonso ganhou Vizeu 
aos Mouros achei huma sepultura em Hum campo em 
a qual estavam escriptas palavras, que agora ouvi- 
rás em letras gothicas : 

Aqui jaze EURei Don Rodrigo El 
Postrimero de Los Godos, etc. 

Icemos os Diálogos de Botelho, e a impressão 
que a sua leitura nos deixou é que o auctor era 
um crédulo e ingénuo, mas incapaz de inventar. 

Por isso estamos certos de que copiou ou re- 
produziu o que encontrou em outros escriptores; 
mas, a falta de documentos, um espirito prudente 
não pode prestar fé a todas as circumstancias que 
refere quando narra o invento da sepultura de D. 
Rodrigo. 

Do que Ribeiro Botelho nos dá testimunho, e 
em que nós acreditamos, é que no templo de S. Mi- 
guel, em seus dias, existia a sepultura que se dizia 



bh) Mon. Lusif., part. II, fl. 275. 



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ser de D. Rodrigo, mettida na parede debaixo de «m 
arco, e pintado no vão o Santo Bispo (que julga ser 
Theudofredo), em habito de ermitão, e sobre a ca- 
. beceirá um letreiro, referido de muitos auctores 
(bi), que dizia assim : 

Hic jacet Roderícus ulUmus Rex Gothorum 
Maledictus furor impiús Jaliani qtii pertinax 
Indinalio ejus quia dura 

Vesanux furta, animosas indignatione, impetuosas furore, 
oblitus fidelitatis, immemor religionis, ciiidelis in se, 
homicida in dominum,hostis indome$ticos,vastator in 
patriam, réus in omnes, memoria ejus in omne ore 
amarescet, et nomen in seternum putrescet. 

Traduz este letreiro pela seguinte forma : 

«Aqui jaz Rodrigo ultimo rei dos Godos. 

Maldito seja o furor ímpio, que tão pertinaz e 
porfiado foi, maldita sua indignação, porque foi 
tão dura, louco e cruel o tornou a fúria, animoso a 
indignação, impetuoso o furor, esquecido da fideli- 
dade, desaccordo da religião, cruel para si mesmo, 
homicida contra o senhor, inimigo dos de sua ca- 
sa e nação, destruidor de sua pátria, culpado e 
malfeitor para com todos, amarga será em boccade 
todos sua memoria, para sempre se apodrecerá e 
corromperá seu nome». 

Aflirma ainda Ribeiro Botelho vogar como 
certo em Vizeu, no seu tempo, que o bispo D. Jor- 
ge de Athayde (que governou esta egreja pelos an- 



bi) Rodrigo de Toledo, liv. III, cap. XIX. Vaseusin Chron. 
tom. I. Moralea, liv. XII, cap. LXIX, Anaph. cap. XLIV. 



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nos de 1568 a 1578) mandara occultamente remo- 
ver da ermida para a Sé os restos mortaes de D. 
Rodrigo, (assim como removeu para novas sepul- 
turas os restos mortaes de muitos prelados vizien- 
ses) por estarem mais decentes ou por temer que 
que os reis de Castella, a cujo domínio Portugal 
estava sujeito, os levassem para aquelle reino, o 
que o mesmo bispo parecia confirmar com o si- 
lencio, sorrindo-se, quando se lhe fallava n'aquel- 
la sepultura, e o que era sabido, segundo se dizia, 
de dois cónegos, mais antigos, do seu tempo. 

Limitamo-nos a reproduzir as narrações des- 
tes dois auctores. Brito e Botelho. 

Os commentarios deixamo-los para o critério 
dos leitores. 

O Sanctuario Marianno {bj}, publicado em 
1716, de que é auotor Fr. Agostinho de Santa Ma- 
ria, dá testimunho de existir na egreja de S. Mi- 
guel do Fetal o mesmo letreiro, que deixamos co- 
piado, sem nenhuma discrepância. 

O dr. Fr. Manoel da Rocha (bkj, inclinando-se 
para a opinião de Ferreras (bl), que põe era duvida 
aestada de D. Rodrigo na villa de Pederneira, con- 
jectura que, perdida a batalha, o afflicto rei ae reti- 
rara para Merida, d'ahi para a Idanha e, atraves- 
sando a serra de Estrella, passara a Vizeu. 

Quando em 1733 (1740, dizem outros) foi reedi- 



to! Tom. V, pás- 139 a 140. 

bk) Port. Renascido nas Metn. da Aead. Real da Hiat.' 
tom. X, n. XXIII, de 1730. 
W) Anno.713, u. (j. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



íi carta, á custa do cabido, sede vazante, a egreja de 
S. Miguel, que então foi benzida pelo cónego I>ean- 
dro d'Altneida Bandeira, aquelle letreiro foi subs- 
tituído pelo actual, que se acha numa lapide, que 
fica para o lado da Epistola, e diz : 

Hic jacet aut jacuit postremas in ordinc regum 
Gottorum, ut nobis nuntia fama referi. 
(Aqui jaz ou jazeu o ultimo, na ordem, dos 
reis godos, como nos refere a mensageira fama). 

Quando e porque razões foi substituído o le- 
treiro de que" o chroninon Sebastian nos dá noti- ■ 
cia, se existiu ? e que motivos levariam os cónegos 
a substituir o anterior letreiro, referido por Bote- 
lho e pelo Sanctuario Mariarmo ? 

Quanto a primeira pergunta nada se pode res- 
ponder, a falta de documentos. 

A resposta ã segunda só podem ser conjectu- 
ras. 

Oliveira Berardo dá como razão não terem os 
cónegos encontrado o epitaphio, mencionado no 
chronicon, e quererem poupar tradições. 

A nosso ver, porem, foi outra a razão. 

O século XVIII, assim como o antecedente, era 
um século de crédulos, e, por isso, com fundamento 
se pode conjecturar que os cónegos substuíram o le- 
treiro em que se affirmava categoricamente a jazida 
de I). Rodrigo naquelte templo por outro em que 
a pozeram em duvida, por acreditarem ou que os 
ossos foram levados para Castella, segundo Brito, 
ou quo D. Jorge d.Uhuirte os removera para a Se, 
segundo Botelho. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Fossem quaes fossem os motivos que impera- 
ram no animo dos cónegos, não approvarnos a 
substituição que fizeram. 

Tradição, ou verdadeira ou fabulosa, deviam 
conseiva-la, como a encontraram. 



Quando em 1868 se abria o leito do lanço da 
estrada de macadam de Vizêu á ponte de Fagilde,, 
não longe da egreja de S. Miguel do Fetal, na 
matta de S. Miguel, que faz parte da quinta do 
mesmo nome, pertencente á família Cardoso, e que 
foi atravessada por aquella estrada, encontrou-se, 
envolto nas raizes de um carvalho, um tumulo de 
pedra, de que os trabalhadores com as enxadas 
quebraram alguns pedaços. 

Tomou conta d'elle o dono da quinta José 
Cardoso de Mello e Lemos. 

Mostrava ter pertencido a pessoa notável, e 
logo a imaginação popular affíanooti que era o tu- 
mulo de D. Rodrigo. 

Frequentávamos então o lyceu de Vizeu, e, 
chegando também até nós a noticia da descoberta 
que circulou rapidamente em toda a cidade, fomos 
ao local, onde ainda se encontrava o sarcophago, 
que vimos e examinámos, e por isso podemos as- 
segurar que nelle não existia cousa alguma, que 
podesse revelar o nome da pessoa, que ali havia 
sido sepultada. 

E' fácil de ver que, sob o ponto de vista his- 
tórico, pouco importa que D. Rodrigo perecesse 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



no conflicto ou viesse terminar seus dias em Vi- 
zeu. facto importante foi a perda da batalha, que 
entregou a Hespanha ao dominio dos Mouros, que 
o. conservaram, mas diminuindo progressivamen- 
te, durante sete séculos, até que nos fins do sécu- 
lo XV, sendo reis de Leão, Castella e Aragão Fer- 
nando e Isabel — os reis catholicos — , os Christãos. 
tomaram Granada, o ultimo reducto mourisco. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



CAPITULO IV 



Vizeu desde a fundação da mpnarchia das Astúrias 
até á fundação da monarchia portugueza 



Depois da sanguinolenta batalha do Guadalete 
ou do Barbate, conquistaram os Mouros toda a Hes- 
panha, com excepção das montanhas das Astúrias, 
paiz inhospito e miserável, onde Pelayo, primo 
■ coirmão do rei Rodrigo, a cujo lado havia combati- 
do, se refugiou com alguns Christãos que poderam 
escapar ao captiveiro, entre os quaes Urbano, ar- 
cebispo de Toledo. 

Não existem documentos históricos que nos 
digam qual o anno em que Vizeu caiu em poder 
dos Mouros (a). 

Egitania e Ossonoba (Idanha e Faro) foram 
das primeiras cidades que elles conquistaram e 
destruíram ; e, para evitarem semelhante desola- 



a) Alex. Herc, Uist. de Port., tora. I, pag. 13*. 



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ção, se lhes renderam atemorisadas Évora, Lisboa, 
Vizeu e Lamego (b). 

Pelayo, alevantando o estandarte da guerra de 
religião e independência, que devia durar por mais 
de sele séculos, desbarata os infiéis na batalha de 
Cangas de Onis, em que é acclamado rei, e erige 
esta povoação em capital do reino das Astúrias, o 
qual mais tarde, em consequência de novas con- 
quistas, se chamou de Oviedo e de Leão. 

O seu successor Eavila, que apenas governou 
dois annos e meio, não se tornou celebre. 

Succedeu-lhe Affonso I, filho de D. Pedro, du- 
que de Biscaia, e genro de Pelayo .por ter casado 
com sua filha Ermezinda. 

Recebeu do papa Zacharias I o titulo de rei 
catkolico, que até ao presente os reis de Hespanha 
teem conservado. 

No anno 731 restaura do poder dos Mouros 
as cidades de Lugo, Tuy, Braga, Porto, Eminio 
(Águeda), Flavia (Chaves), Astoi^ e Vizeu. 

Alguns auctores dè catálogos (c), afflrmam que 
eram bispos de Vizeu em 740 Galindo, não dando 
acerca d'elle outra informação (d), e em 790 Pe- 
layo e João, que, segundo G-ouvèa, pouco viveu no 
bispado, e, na opinião de Colt, foi intruso. 

Nos reinados seguintes é esta cidade disputa- 
da por Mouros e Christãos e dominada ora por 
uns ora por outros. 



6) Ferreras— , dr. Fr. Manoel da Rói ha, Fort. renascida 
a Mera. da Acad. Real da Hist, tom. X, num. XXIII. 

c) Cult, Castro e (Jonvõa. 

d) Padre Leonardo de Souza, tom. I, fl. 18!). 



>,Sitizeot>vGoOgIe 



Lemos que fora tomada por Fruella, imme- 
diato successor~de seu pae Afibnso 1 ; por Mau- 
regato, irmão bastardo de Fruella, que na sua con- 
quista (795) foi auxiliado pelo rei mouro de Córdo- 
va e a possuiu até ao anno de 803; por AfTonso II, 
auxiliado por seu cunhado Carlos Magno e por seu 
sobrinho Bernardo dei Carpio. 

Retomada em 811 por Aliatan, rei de Cordq- 
va,",qué a possue alguns annos, Ramiro I torna tri- 
butário o seu rei ou governador mouro Tarif Iben 
Rages, que nessa qualidade assigna com seu filho 
Taiich, em março de 848, uma.; doação feita pelo 
mesmo Ramiro ao abbade João, de Lorvão, seu tio, 
da quat dá noticia' Brito na Monarchia Lusitana e 
oa Chronica de Cister. 

Ramiro volta victorioso para Oviedo; mas, 
pouco depois da sua chegada, sabendo que Rages 
fizera liga com alguns alcaides mouros, para sub- 
trahirem ao seu domínio varias terras e presídios, 
mandou fezer-lhe guerra por seus capitães, que 
ganharam Vizeu, e a destruíram, passando os seus 
moradores pelo fio da espada. 

Asseveram* Colt, Castro e Gouvêa que eram 
bispo*s d'esta diocese Probo em 709, e Clemente em 
747, mas; não indicam"as fontes d'esta noticia [ej. 

Os chronicons Albendense, Lusitanum, e,de 
Sampiro //"/..referem que, no tempo de AfTonso III, 
cognominado o Magno, e também o Sancto & o 



e) Padre Leonardo de Souza, tnm. I, (I. 199 e 201 v, 
[) Flores, Hesp. Sagr., tom. XIII, pag. 433 o seguintes 
n. 63, e tom. XIV, png. 415 e seguintes e 452. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Monge, é Ampliado o reino de Oviedo e povoadas 
por Christâos varias cidades, como Braga, Porto, 
Eminio, Lamego e Vizeu. 

Este monarcha, para pôr um dique as corre- 
rias dos Mouros, fundou em íogar elevado a cida- 
de de Warda ou Garda, nome que pelo andar do 
tempo se mudou em Guarda, e, vindo a Vizeu, fez 
accrescentar os seus muros, que haviam sido des- 
truídos no tempo de Ramiro I, e que Sebastian, 
bispo de Salamanca, com auctorisação sua, já ha- 
via reedificado. 

Depois de se ter retirado, os Mouros da fron- 
teira, receiosos de que, com o engrandecimento 
d'esta e d'outras povoações, se extinguisse o seu 
império na Lusitânia, dirigiram solicitações, para 
vir combater os Christâos, a Almoudir, rei de Cór- 
dova, que, tendo accedido a elias, morreu, quando 
se preparava para partir. 

Esse plano foi executado por Abdala, irmão e 
successor d'aquelle monarcha, que, marchando 
com um poderoso exercito sobre Vizeu, aqui che- 
gou, quando ainda os seus habitantes andavam oc- 
cnpados em a fortificar. . 

Apesar de serem poucos, resistiram com valo- 
roso esforço durante alguns dias até que tiveram 
de render-se. 

Abdala dirigiu-se a Salamanca, que saqueou, e 
regressou a Córdova carregado de despojos. 

Logo que estes factos chegam ao conhecimen- 
to de D. AJTonso, entra elle indignado pelo reino 
de Toledo, onde faz guerra cni^I aos Mouros; dali 
volta â cidade de Vizeu, que reconquista, manda 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



povoar (g), e dota com mais fortes muralhas e com 
presidio, e entrega-a, para a defender, a Odoario, a 
quem dá o titulo de Conde de Vizeu, marchando 
d'aqui para Lamego (gf, cujos muros também le- 
vantou, e para Chaves, que tomou. - 

Nomeia a Theudomiro bispo de Vizeu, que, 
segundo se crê, estava sem prelado desde a oc- 
cupação da Hespanha pelos Mouros, visto como o 
Dome de Theudemiro, que se lê no chronicon de 
Sampiro, bispo de Astorga, publicado por Sando- 
ral, é o primeiro que depois d'aquella epocha se 
eacontra com o titulo de bispo Visense (hj. 

D. Rodrigo, arcebispo de Toledo, Fr. João 
de Marianna e Cunha no catalogo dos bispos do 
Porto mencionam Theudemirus Vesenm entre os 
dezesete bispos que assistiram á sagração do tem- 
plo de S. Theago de Compostella, mandado reedi- 
ficar desde os fundamentos pelo mesmo rei D. Af- 
fònso. Sampiro escreve que essa sagração se fez 
em uma segunda feira, 7 de maio, na Lua undéci- 
ma, e a 3 do áureo numero, e todas estas circums- 
tancias concorrem no anno de 886, como notou 
Sandoval, e depois Pagi na Critica dos Annaes de 
Baronia. O mesmo Theudemiro com Odoario, con- 
de de Vizeu, assigna em certo privilegio concedido 
em 899, como relata o catalogo dos bispos do Por- 
to. 

Parece que ainda foi Theudemiro o bispo de 



g) Chronica Qothorum, na Mon. Lusit., part. III, pag. 366. 
Rocha, Port. renascido, nas Mem. da Acad. Bani da Hitst. tom, 
X, n. XXIII, pag. 9 a seguintes n. 16, 19 o 64. D. Rodrigo; 
arceb. de Toledo, e Ferreras. 



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Vizeu que assistiu ao concilio de Oviedo (870 ou 
877), em que essa egreja é erecta em metropolita- 
na (h), e ao qual estiveram presentes Aflbnso 111, 
sua família e os grandes da corte, assignando, en- 
tre outros condes, o de Vizeu por nome Pe- 
layo (i). 

No concilio de Oviedo também se determina- 
ram egrejas para subsistência dos prelados que es- 
tavam ausentes das suas diocases, destruídas pe- 
los Sarracenos : Braga, Porto, Dume, Iria, Vizeu e 
Coimbra, como o affirmam Àrgot nas Memorias de 
Braga e Bail na Summa dos Concílios, não enume- 
rando este as egrejas, mas dando somente conta 
do facto. 

Teve por successor, ainda no tempo de Aflbn- 
so Magno, a Gundemiro (jj, que governava a dio- 
cese na era de 943 (anno de 905). 

Sandoval (kj e Brito na Monarch. Lusit. trans- 
crevem uma escriptura de doação, fçita ao mostei- 
ro de Sahagum aos 21 de novembro da era de 943 
(anno 905), que se acha confirmada, alem d'outros, 
pelo bispo de Vizeu, nestes termos : Gattdeminu 
Visem, sedis episcopus conf. 



h) Uhron. Sampiro; Co!t no catalogo nas Mom. da Ae.id. 
Rea) da Hist., toin. II. 

í) Pinto e Cunha nos catalagos; Botelho nos Diálogos, e 
pndru Leonardo de Souza, tom. I, fl. 205 e 200. 

j") Biito. Mon. Lusit. -Rocha, Port. renascido; D.Thomaz 
da Encarnação. Hist. Eccl. Lusit., Colt, Castro, (louvo* o Bu- 
telho, ern sons catálogos; padre Leonardo de Sousa, tom. Ij 
fl. 216; Fr. Prudencio de Sandoval na Obra doa Cinco Bispos. 

k) Obra das FundaçOoa, fl. 48. 



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Note-se que Sandoval ne obra das Fundações 
lhe dá o nome de Gundemiro, e na dos Cinco Bis- 
. pos de Gaudemiro. 

doutor Fr. Manoel da Rocha opina que não 
houve em Vizeu o bispo Theudemiro, e que fora 
Gundemiro quem assistira á sagração do templo 
de S. Theago (l). 

Affonso, o Monge, repartiu o reino por seus 
quatro filhos; e um (Telles, Ordonho II, estabele- 
ceu a sua corte em Vizeu, onde socegava das guer- 
ras com os Mowos (m}, contra os quaes fez duas 
expedições : uma pela Extremadura até ao Alem te- 
jo, onde conquista Nejel ou Regei (Beja), então a 
cidade mais opulenta e populosa do occidente da 
Península, voltando carregado de despojos e com 
muitos captivos (n}, outra até Talavera, onde lhes 
deu batalha, em que ficou victorioso, passando a 
guarnição ao fio de espada. 

Em 914 é chamado para succeder a seu irmão 
Garcia, que fallece nesse anno. Dirige-se a Leão, 
onde manda edificar a cathedral, e, estabelecendo 
ahi a sua corte, é o primeiro que se intitula rei de 
Leão. 



I) Port. renascido, nas Mem. da Acad. Real da Hist. tom. 
X,n. 269. 

w) Ibi-n. XXIII, paj{. 179. 

n) O chromcon Tudonisô diz que conquistara Vogol ou 
Regei e aiwettuenta ; Ad Visensem írbem victor revereus eet 
(voltou vencedor parti a cidade áo VJzeu),oquen>ostiaque Vi 
leu era a corte de Ordonho e a cidnde d*onde tinba saído pa 
rase pôr em campo, e isto parece confirmar se pela líiliuiis 
tanciFk de sor também a residência de seu filho Ramiro II o 
deseu neto Ordonho III. Bocha, Port. renascido nas Mem. 
da Acad. Real da Hist. tomo X, n. XIII, pajc. 208 e «g. 



w Google 



Sandoval e Morales transcrevem uma escr- 
ptura de 30 de janeiro de 915, pela qual Ordo- 
nho concedeu aos prelados de Lamego e Tuy o 
que estas egrejas possuíam antes da occupação da 
Hespanha pelos Mouros. Para confirmar essa con- 
cessão, fez celebrar concilio em que, entre outros 
bispos, assigna o de Vizeu, Anserico, immediato 
successor de Gundemjro (o). 

Não falta quem assevere que Anserico assisti- 
ra ao concilio de Oviedo em 914, assignando em 
decimo primeiro e ultimo logar (p), e que em 898 
assignára já diversas escripturas (q), mas opina o 
padre Leonardo de Souza (r) que a este tempo se- 
ria ainda bispo de Tuy, ou de Orense, ou de outra 
qualquer diocese, e como tal as assignára. 

Encontra-se também a assignatura de Anseri- 
co como bispo de Vizen na carta de privilegio e 
dotação feita por Ordonho II a S. Pedro de Mon- 
tes, a qual se lè em Sandoval. 

Succede-lhe Sabarico, que é um dos prelados 
que em 922 confirma o privilegio, publicado por Flo- 
res ($), ao mosteiro de Samos, com o titulo de bis- 
po Usense, que intendemos Visense por lhe faltar 
uma só letra e-nâo haver bispado com aquella de- 
nominação. 



o) Flores, Heap. Sagr. tom. XVr, pag. 330; D. Thomaz da 
Encarn.; Colt; Botelho; Rocha. 

p) Cunha e Pinto nos catálogos dos bispo do Porto ; Ro- 
cha, Port. renascido; Yepes e Romano, nas suas Historias. 

q) Castro, Gourea e Colt nos catálogos. 

r) Tomo I, fl. 219 v. e 220. 

s) Hesp. Sagr., tora. XV, pag. 379 e seg. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



í era conde de Vizeu e tinha a seu car- 

d'esta comarca ou circumscripção Ufo 
ai, casado com a condessa D. Thareja, 
rocedem varias famílias nobres, como 
íobiiiario do conde D. Pedro (tj. 

do curto reinado de Froila occupa o 
Leão Affonso IV, que, passado pouco 
ma ãquella cidade a seu irmão Ramiro 

fronteiro de Vizeu e governador das 
iccidente, sujeitas aos Christãos, e lhe 
)oder e a dignidade real. 
reinado dura até 950, mas acerca do 
ue principiou divergem os auctores, nos 
s 901, 905, 927 e 931. 
las as versões, porem, a que merece 
sentimento é a de Ambrósio de Mora- 
a Chronica Geral de Hespanha, esciipta 
cuidado e severa critica, assigna o an- 

aftrmando que no anno antecedente 
iro ou Ranemiro habitava e era gover- 
rtzeu, então cidade fronteira dos mou- 
rmára, não como rei, mas como princi- 
o da quinta Creximir a Hermegildo e a 

ou Dona Muma, como se vè no livro 
jelo nome d'esta mulher, nos seguintes 
memtíTis hanc donationem manu mea 

guida vem as «assignaturas de outras 



Mon. Ltisit., pavt, II. 



;g1,7 5t ::; ; GOOglC 



pessoas, que enchem duas columnas sendo a da 
ultima : 

Atauf ^ f « 9° S'epSit * civitate Viseo 

et ^> teste in m 8 t— , 

o que significa Ataulfo, monge, que escrevi esta 

doação na cidade de Vizeu e como testemunha a 

confirmo por minha mão /«/. 

No tempo de Ramiro II foram bispos de Vi- 
zeu Salomão, cujo nome se encontra num privile- 
gio concedido ao Tumulo de S. Theago, ém da tados 
Idos de novembro da era de 970 (anno 933), e Dul- 
cio (Dulcidio ou Dulcilio — dizem alguns auctores), 
que occupa a sede antes do anno 937 até depois 
de 950 (o). 

Este prelado confirma, com outros, uma escri- 
ptura da era de 975 (anno de 937), que existia no 
mosteiro de S. Pedro de Montes e é transcripta 
por Sandoval (as). 

E' curioso o modo como os prelados a assig- 
nam. O primeiro considera-se sob a mizericordia de 
Deus ; o segundo sujeito ao seu divino poder ; o 
terceiro rendido ao seu especial império; o quarto, 
Dulcidio, protegido com a divina graoa; e o quinto 
amparado com a suprema virtude (y). 



u) Gaspar Estaco— Varias antiguidades de Portugal, png. 
7e8. 

tf) Rocha, Fort. rena scid o#ias cit. Mem., tom. X, n. 270, 
diz que já era bispo no tempo de Ordonho, como consta de 
uma doação feita polo mesmo rei a Lu&to, abbado de Lorvão, 
que já exerciaesta dignidade em 920. 

x) Chron. Geral de Hesp., fl. 26. Cunha e Pinto nos catá- 
logos dos bispos do Porto iissignam a esta doação o anno 939. 

y) Padre Leonardo de Sonsa, tom. I, fl. 223 e v. 



>,Sitizeot>vGoOgIe 



No catalogo dos bispos do Porto vem uma es- 
criptura de 46 de maio de 939, pela qual el-rei Ra- 
miro da a vilía de Melares, junto ao rio Douro, a 
sua colaça Mumadona. E' assignada pelo rei Rami- 
ro, rainha D. Urraca, Ordonho, D. Elvira, Sancho, 
Bermudo, infantes, e pelos bispos Hermenegildo 
de Iria, Rosendo de Dume, Oveco de Leão, Dulci- 
dio de Vizeu, Gimdisalvo de Lugoi 

O nome de Dulcilio ou Dulcio, como bispo de 
Vizeu, é também mencionado nos seguintes docu- 
mentos : doação de S. Rosendo em 942 ao seu 
mosteiro de Celanova, da Ordem dos Benedictmos, 
na diocese de Orense (z) ; doação do rei Ramiro 
em 26 de janeiro de 9-13 ao mosteiro de Lorvão 
não só da villa de Alyalat e do monte próximo ate 
onde parte com a Fonte Dourada, mas de metade 
da Predulha, tudo nas proximidades de Coimbra 
(aa); doação, feita em 945 á Se de Braga, que se 
acha no respectivo cartório ; doação ao mosteiro 
de Sahagum em 947, que também é assignada por 
Dulcilio, bispo de Zamora; varias doações do an- 
no 950 ao mosteiro S. Pedro das Águias, também . 



e) Esta doação é trasladada por Yepos no Appentjice do 
tom, V, fl. 423. A data, que ahi se lô, Cera 9M— que foi o an- 
no 892), está errada, porque S. Rosendo nasceu no anno de 
907. Coll; Sandoval no catalogo dos bispos dt» Braga, tom. T, 
fl. 448— Aguirru, collecção máxima dos concílios, tom. III, con- 
jectura ter sido feita essa doação nu atino do 935. 

aa) Mon. Lusit., II parte. Nesta doação assigna se Dul- 
cio. Acerca da data d esta escriptura divergem os escripto- 
res. Yepes, Chron. eeral de S. Bento, assigna lhe o anno de 
930; Sandoval na "Vida doa Raia das Astúrias,, o de 975; As 
Antiguidades da Tuy o de 980. Preferimos a cpiniâo que lhe 
assigna o anno 943. Padre Leonardo de Sousa, tom. I, fl. 224, 



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do governo e- jurisdtcção dos monges Benedictinos 
(ab); doação da quinta de Melares, junto ao Dou- 
ro, feita em 18 de maio de 951 por el-rei Ramiro, 
em honra de sua collaça Mumadona, á egreja de S. 
Salvador e de Santa Maria de Guimarães, para am- 
paro e sustentação dos frades e freiras (ac). 

Yepes (ad) apresenta uma escriptura de Rami- 
ro II da era de 953 (anno de 915), na qual se lê 
o nome de Dulãlio Visense. Mas evidentemente ha 
erro na data, porque Ramiro só começou a gover- 
nar no anno de 931, e no de 915 era bispo de Vi- 
zeu Anserico. 

Residiu algum tempo em Vizeu o rei de Leão 
Ramiro II, e ao seu nome anda ligada a lenda das 

ARMAS DE VIZEU 

que inspirou a b/ra de Garrei, dando-lhe assumpto 
para a sua formosa poesia Miragaia, que se tor- 
nou popular. 

O brasão d'armas d'esta cidade é uma tone 
ou castello com três baluartes ; um caudaloso rio, 
banhando seus alicerces ; um homem vestido de 
trago pobre em suas ameias tocando uma busina; 
e ao lado um pinheiro manso (ac). 

O castello é o de Gaia; o rio é o Douro; o ho- 
mem é Ramiro II ; o pinheiro representa o bos- 
que, onde se esconderam os que acompanharam 



ab) Fr. Lofto do S. Thomaz, na Benedictina Lusitana, 
aBsigriR o anno 988, que ae deve intender pela era de César. 
Padre Leonardo de Sousa, tom. I, 125. 

ac) Gaspar Estaco — Varias Ant. de Port-, cap. II, pag. 11. 

ad) Tom. III, n. 8.". 

ae) Padre Leonardo de Sousa, tom. I, pag. 15. 



>,sitizeot> v GoOgIe 



e auxiliaram este rei no rapto da moura Zahara ou 
Aldora. 

conde D. Pedro em seii Nobiliário recolheu 
a lenda, mas não a relaciona com Vizeu, como fi- 
zeram muitos que escreveram depois d'elle e àex- 
pozeram com variantes, que seria enfadonho re- 
produzir. 

Vamos apresentar essa lenda, extractada do 
Nobiliário, adaptando-a a Vizeu, em harmonia com 
a tradição recolhida por muitos escriptores. 

Ramiro II, que reinou em Leão desde o anno 
931 até 950, ouviu fallar da formosura e bondade 
da moura Zahara, irmã de Alboazar Albucadão, fi- 
lha de D. Çadão Cada, e bisneta do rei Aboalli, 
que viveu no tempo de D. Rodrigo. 

Alboazar era senhor de todas as terras desde 
Gaia, onde tinha o seu castello, até Santarém. 

Sem respeito pelos laços que o uniam a D. 
Aldonça ou D. Thereza Florentina, Ramiro II in- 
tenta possuir a moura. 

Para conseguir o seu fim, contrahe estreita 
amisade com Alboazar, a quem manda dizer que, 
para essa reciproca amisade se se tornar mais fir- 
me, o queria ver e conhecer. 

Respondeu-lhe o chefe mouro que fosse a 
Gaia, onde se veriam. 

Ahi se dirige Ramiro, acompanhado de mui- 



Na entrevista pede-lhe em casamento sua ir- 
mã, mas Alboazar observa-lhe : tu que tens mu- 
lher e filhos d'ella e és christão como iwrtes casar 
duas vezes "í 



I 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



E' verdade, responde Ramiro; mas, sendo eu 
parente muito próximo da rainha D. Aldonça, a 
-egreja nos separará. 

O mouro jura pela lei de Mafamede que lhe 
não dava a irmã, por a haver "desposado com o rei 
de Marrocos. 

Desesperado com a recusa, e seguindo os con- 
_ sejhos do astrólogo Amão, que o acompanhava, 
Ramiro premedita e executa o rapto de Zahara. 

Com alguns de seus vassallos, embarcados em 
galés, aproveitando-se da calada e da escuridão de 
uma noite, sobe o rio Douro, entra no castello e _ 
traz a moura para uma das embarcações. 

Alboazar vae em seu seguimento e trava ba- 
talha, em que pereceram muitos dos seus, e vinte 
e dois companheiros de Ramiro. 

Este, victorioso, levou para Minhor e dali pa- 
ra Vízeu a Moura, que fez baptisar com o nome 
de Ortiga, que naquelles tempos queria dizer cas- 
ti/jaia, ensinaia, comprida de todos os bens, isto é, 
perfeição. 

Julgando-se aviltado e dashonrado com estes 
factos, Alboazar maquina vingança. 

Tendo ouvido dizer que a rainha D. Aldonça 
estava em Minhor, preparou o melhor que poude 
as suas nãos e encobertamente se dirigiu áquella 
.villa para se apoderar d'ella, o que consegue, le- 
vando-a, acompanhada de muitas damas e donzel- 
las, para o castello de Gaia, que naquella epocha 
era de grandes edifícios e nobres paços. 

Muito triste ficou Ramiro, logo que soube d'es- 
te feito, o durante doze dias esteve louco. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Porem, recuperando o intendimento, metteu-se 
com seu. filho e outros fidalgos em cinco galés, 
remadas por estes, e, cobrindo^as de panno verde, 
para se não distinguirem das arvores que orlavam 
uma das margens do Bouro, entrou por S. João de 
Furada, que agora chamam S. João da Foz. 

Chegada a noite, desembarcou com todos os 
seus, a quem ordenou o esconderem-se, preveniu* 
do-os de que o deveriam ir soccorrer a toda a 
pressa, logo que ouvissem o som da sua buzina. 

Vestido de pobre, foi Ramiro deitar-se junto 
de uma fonte, próxima do castello. 

Pela manhã uma creada da rainha, de nome 
Perona, natural de França, foi buscar agua, como 
de costume, para sua ama lavar as mãos. 

Ramiro, pretextando não poder levantar-se, 
pediu-lhe o deixasse beber pelo seu aceter. 

O pedido foi satisfeito, mas o rei que tinha na 
bocca metade de um camafeu, de que sua mulher 
tinha a outra metade, lançou-o dentro do vaso. 

Logo que a rainha viu e reconheceu o cama- 
feu, perguntou á creada quem encontrara no ca- 
minho. Depois de alguma hesitação, confessou es- 
ta que encontrara um mouro doente e lazerado, 
que lhe pediu agua, e ella lh'a dera. 

Ordenou D. Aldonca á sua creada fosse por 
elle e o trouxesse encobertamente para o castello. 

Cumprida a ordem, e introdusido no castello 
o rei Ramiro, logo sua esposa o reconheceu e tra- 
va-se entre elles o seguinte dialogo : 

— Rei Ramiro, que te trouxe aqui ? 

— O teu amor, respondeu elle. 



: o v Goo^lc 



—Não sabes que vieste entregar-te á morte ? 

—Pequena maravilha, pois o faço pelo teu 
amor. 

Não me has tu amor, pois daqui levaste Orti- 
ga, que mais prezas que a mim, mas entretanto 
esconde-te naquelle quarto, onde irei ter comtigo 
mal que me desembarace d' estas damas e donzel- 
las. 

O quarto era de abobada, e, logo que Ramiro 
entrou, D. Aldonça fechou a porta com um gran- 
de cadeado. 

Alboazar não estava em casa; corria monte 
contra Alafons. 

Quando chegou, a Rainha lhe disse : Se aqui 
tiveras rei Ramiro, que lhe farias ? 

— O que elle me faria a mim : mata-lo-ia com 
grandes tormentos. 

—Ali o tens fechado naquelle quarto ; podes 
agora vingar-te d'elle á tua vontade 

Rei Ramiro, que estava ouvindo, conheceu a 
traição de sua mulher, e, intendendo que só por 
alguma arte podia escapar-se d'ali, disse em alta 
voz : Alboazar Albucadão, sabe que eu te tratei 
mal ; mostrando-te' amizade, levei d'esta casa tua 
irmã, que não era da minha lei; que, confessando- 
me d'esíe peccado ao meu Abbade, elle me impoz 
a penitencia de vir entregar-me ao teu poder o mais 
vilmente que. podesse, e, se, me tu matar quizes- 
ses, te pedisse que, como eu commettera tão gran- 
de peccado ante a tua pessoa e ante os teus ein 
roubar tua irmã, mostrando-te bom amor, me des- 
ses em praça morte vergonhosa; e, porque o pec- 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



cado por mim commettido foi em longes terras 
soado, fosse a minha morte também soada por 
uma buzina, deante de todos os teus ; e por isso 
te peço que, antes de eu morrer, facas chamai" 
teus filhos e filhas e teus parentes e a gente d'es- 
ta villa e me deixes ir áquellas ameias, que são de 
grande ouvida, por estarem em logar alto, tanger a 
minha buzina, que trago para esse fim, tanto tem- 
po, até que me saia o fôlego e alma do corpo; com 
isto tirarás Vingança de mímj teus filhos e paren- 
tes haverão prazer; e minha alma será salva. Não 
me deves negar o que te peço para salvamento de 
minha alma, porque tua lei te manda salvar, se po- 
deres, as almas de todas as leis». 

Alboazar teve compaixão d'elle e disse a Rai- 
nha: este homem está arrependido do seu pecca- 
do; se elle me ultrajou a mim, também eu o ultra- 
jei a elle; grande injustiça eommetteria se o ma- 
tasse, vindo elle entregar-se-me. 

A Rainha observou : Alboazar, fraco de co- 
ração, eu sei quem é rei Ramiro, e sei de cer- 
to que, se o salvas da morte, lhe não escaparás, 
porque é arteiroso e vingador, como tu sabes. E 
não ouviste tu dizer como elle tirou os olhos a Or- 
donho, seu irmão mais velho, para o desherdar do 
reino? e não te recordas das lides que com elle 
tiveste e em que te venceu e matou e captivou 
muitos bons'? e já te esqueceu a violência que fez 
a tua irmã 7 Não' és homem; para nada serves; se 
te não vingas. Dá-Ilie a morte que te pede, pois já 
vem aconselhado do seu Abbade. Grande peccado 
commetterias, se lha perdoasses. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Alboazar meditou nas palavras da Rainha e 
disse em seu coração : Malaventurado é o homem 
que se (ia em mulheres ; ê esta sua legitima mu- 
lher, que tem d'elle filhos e filhas, e quer a sua 
morte deshonrada. Mas pensando, como a Rainha 
lhe dizia, que o rei Ramiro era arterroso e vinga- 
dor, receiou-se d'elle, se o não matasse. Mandon 
chamar todos os que viviam naquelle logar, e, na 
presença d'elles, voltando-se para o rei, diz-Ihe : 
Praticaste grande loucura em aqui vir, e, porque 
sei qite, se me tivesses em teu poder, não escapa- 
ria da morte, consinto no que me pedes para sal- 
vação da tua alma. 

Mandou-o tirar do quarto e conduzi-lo ás 
ameias, e, fazendo-o subir a um grande padrão que 
ahí estava, ordenou que tangasse sua buzina até 
que lhe sahisse o fôlego. 

Para os poder matar a todos, Ramiro pediu e 
conseguiu de Alboazar que chamasse para ali a Rai- 
nha, as damas e donzellas, todos os seus filhos, 
parentes e cidadãos. 

Ramiro tangeu a buzina com toda a força. 

Ordonho, seu filho, togo que o ouviu, correu 
com todos os seusvassallos ao castello, que entra- 
ram. 

Ramiro desce-se do padrão, onde estava, e, 
dirigindo-se ao infante, diz-lhe : meu tilho, vossa 
uiâfi não morra, nem as damas e donzellas, que 
com elia vieram; merece outra morte; e, tirando 
a espada da bainha, deu com ella na cabeça de Al- 
boazar e o tendeu até aos peitos ! Mataram tam- 
bém os quatro filhos e três filhas de Alboazar Al- 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



147 



bucadào e todos os mouros e mouras que estavam 
nas.ameias; e na rilla de Gaia não deixaram pedra 
sobre pedra. 

Levando comsigo a Rainha e as damas e.don- 
zellas que com ella estavam, recolheu-se Ramiro 
ás galés com seu filho e os seus fidalgos, a quem 
contou o que se tinha passado. Todos ouviram e 
exljanharam tamanha maldade de mulher, e o in- 
fante Ordonho, com as lagrimas nos olhos, disse 
para seu pae : Senhor, não me compete a mim 
fallar nisto, porque é minha mãe; só vos digo que 
olheis por vossa honra. 

Chegados a foz do Ancora, amarraram as ga- 
lés para descançarem das fadigas d'aquelles dias. 
Nessa occasiào vieram dizer a el-rei que a Rainha 
ia chorando. Foi-a ver, e, perguntando-lhe porque 
chorava, ella respondeu : porque mataste aquelle 
momo, que era melhor que tu. 

E' um demónio; que quereis d' ella; pode ser 
que vos fuja; disse o infante para seu pae. 

Então, este mandou amarra-la a uma pedra e 
lança-la ao mar. 

Acabado o feito, recolheu-se Ramiro á cidade 
de Vizeu, e, porque esta era a sua residência vali- 
da, deu-lhe por armas, para perpetuar a memoria 
do successo, as que acima ficam descriptas. 

Pelo livro do Tombo da Camará Municipal a 
pag. 13 sabe-se que esta usara essas armas no seu 
estandarte, o qual provavelmente veio a perecer, 
juntamente com o sinete onde se achavam tam- 
bém gravadas, no incêndio de 6 d'agosto de 1796, 
que consummiu os paços do concelho e a cadeia 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



velha, situados próximo da praça da cidade {hojo 
praça de Camões). 

Oliveira Berardò, Francisco Manoel Correia is 
Vilhena Barbosa affirmam que a Camará de Vizeu 
usara das armas pintadas no seu estandarte até ú 
data do incêndio que devorou os paços do conce- 
lho em 8 de agosto de 1790, e que desde esse tem- 
po adoptou o escudo real, talvez porque alguns dii 
governança, duvidando da origem fabulosa das 
primeiras armas, persuadiram a que se fizesse es- 
sa mudança. 

E' certo porem que o senado viziense já em 
4743 usava no seu pendão das armas reaes, cora» 
o attesta o padre Leonardo de Sousa no Epitonu: 
Carmelitano e no 3.° tomo do Catalogo dos Prela- 
dos de Vizeu (ms), quando descreve como testemu- 
nha occular as grandes festas que se fizeram em 
Vizeu por occasião da entrada solemne do bispo J). 
Júlio Francisco ddiveira, dizendo : 

«Continuava a procissão na forma seguinte : 
«adeante de todos hião os criados de pé de sua Ex- 
«cellencia, aos quaes seguiam os Alcaides da cidadi; 
«a cavallo, logo o Estandarte Real da Camará, o 
«qual ê de damasco branco com as Armas reaes bor- 
ndaãas de ouro e matizes». 

.Não pode todavia assignar-se a época em qui- 
no estandarte começaram a ser usadas as armai 
reaes. 

Sendo necessário fazer novo estandarte e no- 
vo sinete depois do incêndio, nelles se adoptaram 
apenas os escudos das armas reaes. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Ila poucos annos, porem, voltou a camará de 
Vizeu a usar no seu sinete do antigo brazão ao 
lado das armas reaes,o que foi devido à iniciativa 
do seu escrivão sr. Manoel Alexandre de Campos, 
que acaba de ser aposentado. 

Nos fins do século passado ou principio do 
presente, a confraria da Santa Casa da Mizericor- 
dia, intendendo que não devia perder-se a memo- 
lia das antigas armas, mandou colloca-las no an- 
gulo que fica para o lado oriental do frontespicio 
do Hospital Nooo. 



A interessante lenda de Ramiro, de que o No- 
biliário, sua fonte primitiva, nos da outra versão 
alem da que deixamos exposta, é contada e can- 
tada em diversos romances, em prosa e verso, mas 
com muitas variantes e contradicções. 

Assim lemos com variedade : 

que o chefe-mouro eia um rei muito podero- 
so, a quem outros reis obedeciam, e se chamava 
Alboazar Albucadão ; 

que era um simples alcaide mór e se chama- 
va Al-manssor ; 

que o heroe da lenda fora Ramiro I; 

que esse heroe fora Ramiro II; 

que a mulher de Ramiro, raptada pelo chefe 
mouro se chamara Aldonça, Gaia, Aldora, Alda, 
Aldara, Urraca, Artida, Artiya, Ortiga ; 

que o nome de Artida, Artiya, Ortiga, era o da 
creada da Rainha, que Ramiro encontrou na fonte, e 
que alguns dizem chamar-se Perona ou Peronella ; 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



150 



que essa creada era moura e nào franceza ; 

que, para levar a efleito os seus intentos, Ra- 
miro fizera duas expedições por mar, navegando 
de norte a sul ; 

que partira de Vizeu directamente para Gaia, 
por terra de Mouros, acompanhado por seus va- 
lentes e dedicados visienses, o que explica o facto 
de Vizeu ter tomado por armas os symbdlos da 
lenda; 

que o rei Ramiro raptara Zahara e o chefe 
mouro a mulher de Ramiro, seduzindo-as transfi- 
gurados em trovadores ; 

que Ramiro empregara no rapto a arte magi- 
ca do bruxo Amào, e o chefe mouro a surpreza e 
a violência â mão armada, em quanto a Rainha es- 
tava, segundo uns, em Minhor, segundo outros, 
em Leào; 

que Ramiro, quando tomou o castello, trucidou 
logo ali o rei mouro, toda a família d'este e toda a 
gente de Gaia, levando só com vida a mulher ; 

que também levou o rei mouro e o matou bar- 
baramente em Monte-Dor, ao N. de Vianna ; 

que a Rainha fora morta na foz de um rio, 
que desde então se ficou chamando Ancora, pelo 
facto de a lançar nelle com uma mó presa ao pes- 
coço; 

que fóra degolada e lançada ao Douro, em 
frente e junto da margem opposta á do castello de 
Gaia, ainda em chamas, quando mirando o incên- 
dio se lastimava e mostrava dor, dando-se por este 
facto o nome de Miragaia a margem do rio, onde 
aportou o barco. 



w Google 



Era presença d' esta diversidade de licções, 
diz o sr. dr. Pedro A. Ferreira (af). 

(A lenda de Ramiro anda tão desfigurada que 
não sabsmos extremar d'ella a parte histórica. O 
que sabemos é que, sobre a margem esquerda do 
Douro e quasi a prumo sobre elle, em frente de 
Miragaya e do Porto se ergue um grande morro de 
forma- cónica, ainda hoje denominado Castello de 
Gaia, com um vistoso plató, onde em tempos re- 
motíssimos porapeou um castro ou castello roma- 
no, depois castello árabe, — e por ultimo ainda em 
nossos dias, durante o cerco do Porto (4832-1833), 
ali teve D. Miguel uma medonha bateria, da qual 
fez parte a peca Paulo Cordeiro, dada pelo capita- 
lista d"este nome e que ao tempo era a peça de 
maior calibre que tinha Portugal. 

«O dicto morro denomina-se Castello de Gaia, 
mas na minha humilde opinião, e na coirirnum dos 
auctores, tomou o nome — não da Gaia da lenda, 
mas do castro romano da povoação de Cale, indi- 
cada no roteiro de Antonino Pio. 

tSuppomos que o dito casti-o romano eslava 
no sitio do Castello de Gaia, ao sul ou na margem 
esquerda do Douro, e que a povoação de Cale, nú- 
cleo do Porto, estava no sitio hoje denominado 
Miragaya em frente do castello na margem N. do 
Douro; julgo porem fora de duvida que por ali, no 
castello de Gaia e suas immediações, andou e vi- 
veu um dos reis de Leão com o nome de Ramiro, 
talvez o da lenda,— porque assim o affirma ainda 



afj Port. Antigo e Moderno, tom. XII, pstg. 1 



i;g1,7 5t ::; v GOOglC 



hoje a tradição e porque )á se conserva ainda uma 
rua com o nome de D. Ramiro e nella a Fonte 
de D. Ramiro e uma hella quinta com arvoredo 
secular e um palacete com uma torre muito anti- 
ga, denominados Paço do Rei Ramiro, ou quinta 
de Campo Bello*. 

Contam a lenda, alem do Nobiliário, o di\ Fr. 
Bernardo de Brito na Monarehia Lusitana, o dr. 
Botelho nos Diálogos, a sabia poetisa portuense 
Bernarda Ferreira de Lacerda (1505-1644) no seu 
lindíssimo poema em língua castelhana Hespana 
Libertada, o seu contemporâneo eboiense João 
Vaz na introdiicção ao seu poema, publicado pela 
primeira vez em 1601; lgnacio Vilhena Barbosa 
nas Culades e Villas de Portugal; o visconde d' Al- 
meida Garrett; e o Portugal Antigo e Moderno, nas 
palavras Ancora e Vizeu. 

Garrett, evocando a tradição e as reminiscên- 
cias locaes, com o seu inspirado estro deu novos 
cambiantes a lenda no seu lindo romance Mira- 
gaia, publicado pela primeira vez no Jornal dm 
Relias Artes, Lisboa, 1845, tomo 1.°, e depois no 
Bonianceiro {na 3." ediccào — Lisboa, 1853, tomo 1.° 
pag. 199-264). 

Como elle diz na introducção, este romance, 
que foi uma das suas primeiras producções da in- 
fância, é a reconstmcção dum monumento antigo, 
sendo textualmente conservados da tradicção po- 
pular algumas coplas, que se cantam no meio da 
historia rezada, ainda hoje repetida por velhas e 
barbeiros do logar, e nelie seguiu muito pontual- 
mente a narrativa oral do povo, sendo sobretudo 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



fie! ao estylo, modos e tora de contar e de con- 
tar. 

Nesses varsos tão bellos e tão mimosos buri- 
lou o glande génio de Garrett a tradicoão popular 
acerca da lenda. 

Transcreve-los, pensamos, é proporcionar aos 
leitores alguns momentos deleitosos e suavisar- 
lhes o pesado da narração histórica. 

Por isso lhes ofíerecemos em seguida todo o 
romance. 

CANTIGA PRIMEIRA 



Noite escura tiun formosa 
Linda noite sem luar, 
As tuas estrellas ilo oiro 
Quem nus poderá condir 1 



A Milhor, que o terra sua 
E está na beira do mar, 
Se acolheu com mia dama... 
Do mais não sabe cuidar. 



Quantas folhas ha no bosque, Chora a tri.sto da rainha, 

Areias quantas no mar ?.. Nao i-e pode consolar: 

Em tantas lettras se escrove Deixa la por essa moira, 

U que Deus mandou guardar. Deixa la com tal dezar 1 

Mas puai do homem quo se fia E a noite é escura cerrada, 

N'essaa lotlrns deeiphrar Noite negra sem luar... 

Que h ler no livro de Deus Ella sósinha ao balcão 

Nem nnjo pode atinar. Assim se estava a queixar .■ 



Bem iedo está Doi» Ramiro 
C«m si.a dama a folgai : 
Dm perro bruxo judio 
Fui causa de elle a roubar. 



"Rei Ramiro, rei Ramiro, 
Rei do muito mau pezar, 

Que fiz para tal penar ? 



Dísso lha que pelos astros "Diz que e formosa essa moira 

Bem lhe podia nfflnnnr Que to soube infeitiçar... 

Quu Zatiara, a flor da bellc-za, Ma- tu dizias me dantes 

Lhe devia de tocar. Que eu era bella som par. 



E o rei veio de cilada 
D alem do D;:iro passar, 
K fui tona linda moira, 
A írman d'Alboazar. 



"Que ó moça, na flor da vida... 
Eu, se ainda bem sei contar. 
Ha três que tinha vinte annos, 
Ví los depois de casar. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



"Diz que tom os olhos pretos, **• *""• °* moirw q» miraram, 

D'estes que sabem mandar... Sette os estão a aguardar; 

Os meus são azues, coitados ! sua i.n.m cm »n> n-m m, fl . ., 

Nilo eabcm senão chorar, E prestes a cavalgar 1 

Znhara.que é flor, lho chamam Só um, que de nrção a toma, 

A mim, Gaia. ..Que aceitai' ! Parece aos outros mandar... 

Eu fiquei sem alegria, Junctosjunutos, curtos certos, 

Elta a flor não torna a achar. Galopa a bom galopar 1 

"Oh! quem podéra ser hoinom, Toda a n ito, toda a noite 

Vestir armas, cavalgar, Vão correndo som cessar. 

Que eu me fora já direita Pelos montes troto largo, 

A esse moiro Alboazar,. „ Por valles a desfilar. 



Palavras não eram dittas, 
03 olhos foi a abaixar, 
Muitos vultos acercados 
Ao palácio viu estar: 

"Peronella, Peronella. 
Criada do meu mandar, 
Quo vultos serão aquelles 
Que por allí vejo andar '.'„ 

Peronella não responde ; 
Que havia de ella faltar ? 
Kiccas peitas de oiro o jóias 
A tinham feito ca liar. 



Nos ribeiros— peito n'agua. 
Chape, chapo, a vadear! 
Nas dofezas dos vallados 
Up! salto— o a galgar 1 

Vai o dia alvorecendo. 

Estão a boira do mar. 
Que rio é ei-te tam fundo 
Quo n'o!le vem desaguar ? 

A bocca já tinha livre, 
Msb nao acerta a fatiar 
A pasmada da rainha... 
Cuida ainda do sonhar ! 



A rainha que so erguia 
Por sua gente a bradar, 
Sette moiros cavalleiros 
A foram logo cercar; 



"Rio Doiro, rio Doiro, 
Rio de mau navegar, 
Dizo-me, essas tuas ag"as 
Adondo as toste basear ; 



Soltam pregas do um turbante "Dir te-hei n. pérola fina 

A bocca lhe vão tapar : Aonde cu a fui loubar, 

Três a tomaram nos braços... Ribeiras correm ao rio 

Nem mais um ai pôde dar. O rio cone a la mar, 



Criados da sua casa 
Nenhum veio a seu clinrui 

Ou peitados ou cuptivoB 
Não n'a podem resgatar. 



"Quem me roubou minha jóia. 
Sua jóia lhe fui roubar..., 
O moiro que assim cantava. 
Gaia que o estava a mirar... 



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Quanto o mais mirares, Gaia, 'Barcos quo nos vóom buscar.„ 

Mais formoso o hasde iichnr. "Que lindo castullo aquolle !„ 

"Quede barcos quo ali véom! °E' o do moiro Albonzar.,, 

CANTIGA SEGUNDA 

Rei Ramiro, rei Ramiro. Na incosta do castoilo 

Rei de muito mau pezar, Uma fonte está a manar: 

Ruins fadas te fadaram, Donzella que ostá na fonte 

Má sina te foram dar. Pòs-se o romeiro a escutar. 

Do que tens não fazer conta, A donzelta está na fonte, 

O que nao tens cubicar L A jarra cheia a doitar : 

Zahara,a flor de teus cuidados, "Bemditto sejais, romeiro. 

Já te nao dá que pensar. E o vosso doce cantar ! 

A rainha, que ora tua, "Por estas terras de moiros 

Que nao soubeste guardar, E' maravilha de azar. 

Agora morto de zelos Ouvir cantigas tam sane tas, 

Do moiro a queres cobrar. Cantigas do meu criar. 

OhL que barcos são aquelles "Sette padres as cantavam 

Doiro acima a navegar ? A' roda de um bento altar; 

A noite escura cerrada, Outros sette respondiam 

£ otles mansinho a reinar ! No coro do ealmear. 



Cozòrani-se com a terra. 
Lá se foram incostur; 
Entre os ramos dos salguem 
Mal se podem divisar. 

Um homem saltou na praia 
Onde irá n'aquollo andar ? 
Leva bordão o esdavina, 
Nas contas vai a rezar. 

Inda a névoa tolda o rio, 



"Vai um romeiro a cantar ; 

"Sanctiago do Oalliza, 
Longe fica o vosso altar : 
Peregrino, que lá chegue 
Nflo sabe so hado voltar.. 



'Entre véspera e completas, 
E os sinos a repicar. 
i Ai triste da minha vida 
Que os náo oiço já tocar 1 

"E aa rezas (lestes moiros 
Ao demo as quizera eu dar.„ 
Ouvireis ora o romeiro 

a que lhe foi dar; 



"Deus vos mantenha.donzella, 
E o vosso cortez foliar : 
Por estas terras de moiros 
Quem tai soubera de achar 1 

"Por vossa tenção, donzolla B 
Uma rosui heido rezar 
Aqui aopo desta fonte, 
Que não posso mais andar. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



dõtí 



"Oh ! qtio fresca está a fonte 
Oh! que sede de matar I 
Que Deus vos salve, donzella, 
So ac ui me deixam sentar., 

"Sente so o bom do romeiro, 
Assento so a descansar. 
Fresca è a fonte, doce a agua, 
■Tom virtude singular: 

"D'outra não beb > a rainha, 
Quo aqui m'n manda buscar 
For manhanzinha bem cedo, 
Antes de o sol aquentar,,. 

"Doce agua deve de ser, 
De virtude singular: 
Dae-me vós uma vez d'ella. 
Que me quoro consolar., 

"Beba o peregrino, beba 
For esta fonte real. 
Cântara de prata virgem 
Tem mais valor que oiro tal., 

"Dona Gaia que diria, 
Que faria AJboazar 
Se visse o pobre mineiro 
Beber da foate real I..., 

"Inda ora noite fechada 
Meu senhor foi a caçar : 
Maus javardos o doteniiam, 
Que é bem ruim de aturar ! 

"Minha senhora, coitada, 
Essa nilo tem que faltar : 
Quem jã teve fontes de oiro 
Prata não sabe zelar. . 

"Pois um recado, donzella, 
Agora lho liersde levar. 
Que o romeiro eh listão 
Lhe dosoja do íallar. 



Da parte do um quo é jã morto 
Que meneu por seu pezar. 
Que á hora da sua morte 
Este aunei lho quiz mandar. 

Tirou o annel do (lodo 
Ií na jarra o foi deitar : 
"Quando ella beber da agua 
No aunei nade attentar.. 

Foi so d'alli a donzella. 
Ia morta por fali ar... 
"Anda cá, d Peronella, 
Criada de mau mandar., 

"Tua ama morrendo á eôdo 
E tu na fonte a folgar ?„ 
Folgar não folguei, senhora. 
Mas deixei me adormentar. 

"Que a moira viria q^ie eu lovo 
Jà não n'n posso aturar. 
Ai terra da minha torra, 
At Milhor da boira mar! 

"Aquella sim que ora vida, 

Aquillo que era folgar! 

E em sancto temor do Deus • 

Não aqui n'este peccarl 

"Cal te. cal to, Peronella, 
Nâo me queiras attentar; 
Que cu a vivor entre moiros 
Mo nao vim por meu gostar. 

"Mas jã tenho perdoado 
A quem lá me foi roubar; 
Que antos escrava contento. 
Do que rainha a chorar. 

"Forte christanduds aquella, 

Bom ora aquelle reinar 1 
Viver só. desemperada. 
Ver a moiía em ir. eu lagar L., 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Lembrava lho n eu» offensa, "Senhora, coesses feitiços 

Bstá-lho o sangue a queimar. Me tomara eu imbruxar ! 

Na agua fria da fonte Foi um bemdilto romeiro 

A sede (juiz apagar. Que ã fonte fui incontrar,,. 

A fonte de prata virgem "Quo ahi deitou esse annel 

A* boíoa foi a levar. Para prova singular 

As riccas pedras do annel Do uin recado que vos trouxe, 

No fundo viu a brilhar. Com que muito heisde folgar, 

"Jesus seja co'a minha alma! "Venha já esse romeiro, 

Feiíiços mo querem dar... Que lhe quero já fsllar : 

O fi-go a arder dentro n agua. Embaixador deve ser 

E ella fria do nevar !„ Quem traz presente real„. 

CANTIGA TERCEIRA 

"Por Deus vos digo, romeiro, "Romeiro, não tomeis cuita 

Que vos queirais levantar ; Por quem se não quer editar : 

Minhas mãos não são relíquias Do que fui já me não lembro, 

Basta de tanto bojar !, O que sou não me é dezar. 

O romeiro não se erguia, "Deus terá dó da minha alma, 

An mãos não lhe quer largar; Que meu não foi o peccar; 

Os bejos uns sobre os outros, E a esse traidor Ramiro 

Que era um nunca acabar. As contas lhe nade tomar,. 

Ia a enfadarão a rainha. Pois não espereis, senhora. 

Viu quo entrava a soluçar. Por Deus, que podo tardar: 

E as lagryiuas.quatro o qaatre Dom Ramiro aqui o tendes. 

Nas mãos sentia rollar : Mandae o já castigar. 

"Que tem o bom do romeiro. Em pé ostã Dom Ramiro, 

Que lho dá lauto pezar ? Ja não ha que disfarçar : 

Diframe las suas penas Aquollas barbas tatu brancas 

Si» lhas posso alliviar,. Ganiram do um impuxar. 

Minhas penas nãos&o minhas, O bordão e a esclaviua 

Que aos morto» morre o penar A terra foram parar : 

Mas a vida que eu perdi Não ha ver mais gontilezas 

Em vós podia incontrar. Do meneio o do trajar. 

Minhas penas não sao minhas, Quem viu olhos como aquellea 

Senão vossas, ma) peaar! Com que o ella ostã ú mirar! 

Que uma rainha christan Quo 1 " puas ou já trames u"alma 

Feita moira vim achar». Como ella está a passar ? 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Um tremor que não é medo, Protesta a bòcca a verdade: 

Um sorriso de inflar, "Que não liado perdoar.... 

Vergonha que nao é pejo, lias a verdade dos lábios 

Facos que ardem sem corar... Os olhos querem negar. 

Tudo isso tem no semblante, De joelhos Dom liam iro 

Tudo lhe está a assomar Alli so estava a humilhar. 

Como ondas que vão o vêotn Suppiica, roga, promettu... 

Na travestia do mar. Ella parece hesitar. 

a vi UK «in» è o praier dt> hamcin. Senão quando, uma bosina 

Da mulher é o seu manjar : Se ouviu ao longe tocar... 

Assim perdoa elle e vive, A rainha mal podia 

Ella não— que era acabar. O aeu prazer disfarçar: 

Vingar-se foi o primeiro "Escondei -vos. Dom Ramiro, 

E o derradeiro pensar Que é chegado Alboazar. 

Que entre Untos pensamentos Depressa n'eslo aposento... 

Em Qaia estão a pui lar : Ou já me vereis mattar„. 



Logo depois a vaidade, 
O gosto de triumphar 
N'um coração que foi seu. 
Que seu lhe torna a voltar. 

E o rei moiro estava longe 
Cos seus no monte a caçar, 
Ella só n'aquella torre... 
Prudência o dissimular ! 



Mal a chave deu três voltas, 
Na manga a foi resguardar; 
Mal tirou a rnâo da coita, 
Que o rei moiro vinha a entrar 

'Tristes novas, minha Gaia, 
Novas de muito pesar 1 
Primeira vez em três annos 
Que mo succede este azar I... 



Abre a bocca a um sorriso "Toquei a minha bozina 

Doce e triste— de mattar! Ás portas, antoa de entrar. 

Tempera a chamma dos olhos E nAo correste as ameias 

Abafa-a por mais queimar. Para me ver e saudar I 

Pôs na voz aquelle incauto "Muito mal fizeste, amiga, 

Que, ou minta ou não, é fatal; Em tam mal mo costumar: 

E, com o inferno no seio. Não sei agora o que fazes 

Falia o coo no seu faltar. Em me querer emendar.. .„ 

J.i os amargos queixumes No coração da rainha 

Se imbrandecem no chorar, Batalha se estão a dar 

E em sua própria justiça Os mais estranhos affectos 

Com arte finge affrou&ir. Que nunca se bãode incontrar: 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



w? 



O que foi, o quo é agora... "Eu iiiio vim a tau castello 

E a ambição de reinar... Senfto só por me intregar, 

O amor que tem ao moiro. Para, receber a morte 

E o gosto de se vingar... Que tu me quizeres dar : 

Venceu amor o vingança : Que assim me foi ordenado 

Deviam de triumphar, Fará minha alma salvar 

Quo era em peito de mulher For um sancto confessor 

Que a batalha se foi dar. A quem me fui confessar. 

Novas tenho o grandes novas, "E maia me disso o mandou. 

Amigo, para vos dar : E assim t'o quero rogar, 

Tomae esta chavo e abride, Que, pois foi publica a offonsa, 

Vereis so são do pezar- Público seja o penar : 



Com w 1 . inrift etle abriu a parti, 

Vista que foi incontrar I.. 
Palavras que alli disseram 
Nao nas saberei contar : 

Que fui um bramir de ventos, 
Um bater d'aguas no mar, 
Um confundir ceo e terra. 
Querer so o mundo acabar... 

Vereis porfini o rei moiro 
Que sentença veio a dar : 
"Perdeste a honra, chiisiao ; 
Vida, quero t'a deixar. 



■Que ahi n'essa praça d armas 
Tua gente faças junctar ; 
Ahi doante do todos 
A vida quero acabar. 

"Tangendo n'esta bosina, 
Tangendo até rebentar ; 
Que digam os que isto virem, 
E lhes fique de alembrar: 

■Grande foi o sou peccado, 
No inundo andou a soar ; 
Mas a sua penitoncia 
Mais alto som veio a dar„. 



De uma vez, que me roubaste, Quizonvlhe o bom do moiro 

Muito bom me fiz pagar: Por força alli perdoar: 

Cesta, basta-mo a vergonha Mas se a perra da rainha 

Para de ti me vingar. Jurou de á morte o lovar !.. 

Rentia-se elrei Ramiro Veio na praça do castello, 

Do despeito devorar : Toda a molrama a a junctar : 

Com ar contricto e afrtígido Em pé no meio da turba 

Assim lhe foi a faltar: Ramiro se foi alçar. 

Grandes foram meus peccados Tange que lho tangerás. 

Poderoso Alboazar; Toca rijo a bom tocar; 

E taes quo a morcé da vida Por muitas léguas a roda 

D« ti não posso acceitar : Reboava o bozinar, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



So o ouvirão nas galés 
Qno deixou a beira mar ? 

CANTIGA QUARTA 

"Sanctiago !... Cerra, cerra 1 A' poppa vai Dom Ramiro 

Sanctiago, e a mal Ur !„ De sua galé real. 

Abertas estão as portas Leva a rainha á direita, 

Da torro de par em par. Como quem a quer honrar: 

Nem atalaias nos muros, Ella, muda, os olhos baixos 

Nem roídas para as velar... Leva n'agua...sem olhar, 

Os moiros despercebidos E como quem de outra» vistas 

Sun tem se logo aportar. So quer só desaftVontar. 

Do um tropel de loonezes Ou Dom Ramii o fingia 

Já portas a dont.ro a entrar Ou nao vem n'isso a attentar: 

Ddxa a bonina Ramiro, Ja vao a meia corrente, 

Mão á espada foi lançar, Sem um para outro fallar. 

E de um só golpe fendente. Ainda arde, inda fumega 

Sem mais pôr nem mais tirar, alcaçar de Alboazar; 

P. rte a cabeça até aos peitos Gaia alovantou os olhos, 

Ao rei moiro Alboazar... Triste se pós a mirar ; 

Ja tudo é morto ou captivo. As lagrymas, uma o uma, 

Ja o castcllo está a queimar; Lhe estavam a desfiar, 

Ás galés com <i seu despojo Ao longo, longo das faces 

Sc foram logo a imbarcar. Correm. ..sem ella as chorar. 



"Voga, rema ! d'alèm Doiro 
Á pressa á pressa a passar, 
Qmo j.i oiço alli na praia 
Cavailos a relinchar. 

"Bandeiras são de Leão 
Que lá vejo tremular. 
Voga, voga, que além Doiro 
E' terra nossa !.. A remar ! 

•rVaqjii ó moirama cerrada 
A'à Coimbra e Thomar. 
Voga, rema, o d'além Doiro I 
Daqnem nao ha que fiar*. 



Olhou olrei para Gaia, 
Não se pôde mais callnr : 
Cuidava o bom do marido 
Que ora remorso e pezar. 



Do mau termo atraiçoado 
Que com elle fora usar 
Quando o intregou ao moiro 
Tam só para so vingar. 

Com a voz intornocida 
Assim lhe foi a fallar: 
"Qua tuns,(íain.„niiMlia Gaia? 
Ora pois ! não mais chorar B . 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



"Se eti fui alli tam ditosa. 
Se alli sonha o que era amar, 
09 Se alli me fica alma e vida... 



Pois mira, Oaial £, dizendo, 
Da espada foi arrancar : 
Mim, Gata, que esses olhos 
Não terão mais que mirar. 

Foi lhe a cabeça de um talho' 
E com o pé, sem olhar. 
Borda fora impuxa o corpo... 
' Doiro que os leve ao mar. 

Do estranho caso inda agora 
Memoria está a durar : 
Gaia è o nome do castello 
Que alli Gaia fea queimar ; 

. E d'alem Doiro, essa praia 
Onde o baico ia a aproar 
Quando bradou — Mira, Oaia! 
U rei que a vai degollar. 

Ainda hoje está dizendo 
Na tradição popular. 
Que o nome tem-MiHAQAiA 
D'aquello fatal mirar. 



deu seu filho Ordonho III, 
Ma e cftrde era Vizeu (ag) e 
i 955, occupando depois o 
;ho I, que, passado pouco 
, segundo dizem alguns es- 
3onçalo Moniz, governador 
mbra, propinando-lhe o ve- 
Ihe offerecera. 

em. da Acad. Real da Hist., tom. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Referem que, havendo-se rebellqdo os Galle- 
goa contra o poder de D. Sancho, esle sairá de 
Leão com um numeroso exercito e os obrigara 
a submetterem-se, ficando por este modo a sua 
auctoridade restabelecida de Compostella até ao 
Douro ; e que, quando se dispunha a passar este 
rio, lhe oppozera ainda resistência o conde Gon- 
çalo Moniz, governador de toda a Beira, que logo 
depois também tivera de submetter-se, mas que, 
traidor, infiel, ambicioso, tyranno e homicida, pro- 
jectara tirar a vida ao rei leonez o que algum tem- 
po depois fizera, envenenando-o. 

Teera outros como fabulosa esta narração, e 
fundam o seu juizo no antigo chronicon de Sainpi- 
ro, escripto poucos annos depois. 

Ferreras, auctor muito antigo, referindo os 
acontecimentos do anno 967, diz : "El Conde D. 
Gonçalo, que gobernaba em Portugal las Ciudaies de 
Lamego, Viseo, y Coimbra, se solevo contra EIRey 
D. Sancho de Leon ; no sabe/tios si lo movia a tan 
detestable rebelion la ambicion sola, 6 si tambien el 
parentesco de Sisnando, Obispo de Compostella, a 
qtiicn havia quitado de aquelía silla, g tenia preso 
en un Castillo,,. 

A Ramiro III, filho e successor de Sancho I, 
moveu guerra Bermudo II, filho de Ordonho III. 

E' nesta occasião que o conde Vella se volta 
para o partido dos Mouros, que tinham por chefe 
Hixam, kalifa de Córdova, de quem eia principal 
valido e secretario o celebre Mahammed-AIi-Ami- 
Almaaferi. 

Pondo este em practica vários estratagemas, 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



tirou a Hixara toda a ingerência nos negócios, e, 
pelas muitas victorias alcançadas sobre os Chris- 
tãos, de quem foi o mais terrível açoute, tomou o 
titulo de hajib Al-manssor (ministro victorioso). 

Depois ter vencido ao norte os Cata!5es e Na- 
varros, Al-manssor reduz os estados do sul e meio 
dia á derradeira extremidade, tomando varias ci- 
dades. Caíram em seu poder as terras da Galliza, 
cujas fronteiras se estendiam até ao Mondego. 

Alem de Coimbra, — a Medina Colimria dos 
Árabes — , que destroe, Al-manssor, entrando fu- 
riosamente pelas terras da Beira e praticando em 
seus habitantes as mais horríveis crueldades, entre 
ellas a de degolar todas as freiras do mosteiro de 
Arcas, junto de Lamego, de matar algumas de De- 
cermillo, levando outras captivas, toma Lamego, 
Trancoso e Vizeu. 

Esta nossa cidade é destruída completamen- 
te. Do furor dos Mouros escapam apenas as tor- 
res romanas. 

Mas, em breve, elles próprios a reedificam e 
aqui se estabelecem até ao anno de 1058, em que 
é conquistada por Fernando, rei de Leão, cogno- 
minado o Magno' e também o Sancto, continuando 
desde então até hoje em poder dos Ghristaos. 

Conta-se qne Al-manssor dera de comer ao 
seu cavallo em uma pia de agua benta que havia 
na egrej.i de S. Theago de Compostella e fizera le- 
var para a mesquita de Córdova, as costas dos 
Christãos, as portas e os sinos d'essa egrejá, que 
mais tarde Fernando, o Magno, para ali fizera vol- 
tar as costas dos Mouros. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Na primavera de 1002 o hajib fez passar da 
Africa para a Península algumas levas de solda- 
dos, com os quaes se dispunha a continuar as suas 
invasões. 

Saindo-lhe, porem, ao encontro as tropas 
enristas, trava-se batalha, em que morre Al-mans- 
sor, e cujo resultado fica duvidoso. 

Não obstante ter estado Vizeu por muito tem- 
po em poder dos Mouros, não deixaram os Chris- 
tãos de nomear bispo para esta egreja, á similhan- 
ca do que ainda hoje suecede com as egrejas do 
Oriente, que estão em poder dos infiéis. 

Depois de Dulcilio, alguns auetores mencio- 
nam como bispo de Vizeu a Romualdo, que antes 
fora cónego do mosteiro de S. Rufo, de cónegos 
regrantes de S. Agostinho, cuja regra copiada por 
determinação de S. Theotonio pelo cónego de San- 
ta Cruz de Coimbra, de nome Domingos, varão de 
reconhecida santidade, foi adoptada neste mostei- 
ro; e fundam-se em um livro antigo de óbitos do 
mosteiro de Nandim, onde se lê : A 9 de janeiro 
morreu D. Romualdo, bispo de Vizeu e cónego de 
S. Rufo» {ah). 

Outros, porem, indicam-no, mas como duvido- 
so (ai). 

Desde o anno 961 até ao de 98 1 encontram-se 
em vários documentos, como bispos de Vizeu, l£r- 



ah) Botelho nos Dialogo»; padre Leonardo de Souza, tom. 
0.229. 

-nos Ciitiiííigon; padre 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



migildo e Iquila, que outros chamam Iquilano, Iki- 
liani e Julião. 

Ermegildo confirma duas doações feitas ao 
mosteiro de Lorvão por Idarquina ou Inderquina 
Pala, mulher de Sandinio Suario, senhora nobre e 
rica; uma em 961 de varias terras e entre ellas a 
villa de Sabugosa com seus logares e termos anti- 
gos, Lourosa, Ferronhe, e vinhas que estão emi- 
nentes ao Pavia, e a villa de Santa Eulália com to- 
das as suas pertenças; outra em 968 da villa de Mi- 
dões com seu districto, do logar de Theodoriz com 
suas egrejas, do rendimento e senhorio da barca 
de MidÕes, da villa Framial, fundada sobre a ribei- 
ra do Alva, e de um mosteiro no mesmo sitio com 
seus ornamentos, livraria, e mais cousas tocantes 
ao serviço da casa (o/). 

O mesmo bispo confirma também duas doa- 
ções feitas ao mosteiro Urbanense de Coimbra 
uma em 961 (a/;)*e outra em 968 (aí). 

Seguiu-se Iquila, que no dia 22 de dezem- 
bro da era de 1019 (anno 981) confirma duas 
doações ao convento de Lorvão, uma feita pelo 
conde Gonçalo Mendes, (filho de Mumadona, que 
era filha do rei Bermudo), da villa de Paios (hoje 
Paus), sita junto do rio Vouga, que partia com as 



aj) Colt-Catalog. dos Bispos <ls Vizeu— nas Mem. da 
Acad. Heal da Hist., tom. II— Vejam-se também tom. X, n. 
XXIII, pag. 39 ; D. Thomaz da Bnoarnaçíío, Hist. Eccl. Lusit., 
Brandão e Brito; padre Leonardo de Souza, tom. I, fl- 230 a 
232. 

ak) Rocha— Portugal Renascido na nota 84 transcrevo ea 
ta oscriptura. 

ai) Brito— Alon. Lusit., Liv. 7.°, cap.XXII, dá noticiados 
ta oscriptura. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



villas de Palaciolo, Padasanes (hoje Pedaçaens), 
Belíi, Christovalaens, Hanni, (a qual diz ser de D. 
Pala), e outra feita pelo conde Gonçalo Moniz e por 
sua mulher a referida Mumadona, governadores 
de muitas terras, para sustentação dos monges, 
que então eram Benedictinos, (mais tarde foram 
Bernardos), para lume dos altares e esmolas dos 
pobres, e tudo para remédio de suas almas e das' 
■ de seus parentes, da villa de Treixedo com um 
mosteiro edificado em seu termo, sendo o seu li- 
mite o ribeiro Addon, da egreja de Treixedo de 
Cima, da villa de Genestosa, da villa de Nagosella, 
limitada por Arcas, Paradella até ao ribeiro Ad- 
don, e, alem do ribeiro, das villas de Oiibaria de 
de Currellos, com seu mosteiro, de Silvares, com 
seus termos antigos, de S. João de Telhada, de 
Rugolfe, e de Papizenos (am). 

O conde Gonçalo Moniz também doa ao mos- 
teiro de Lorvão a villa de Serpins. 

Mencionam alguns auctores como bispo de Vi- 
zeu no anno de 1020 a D. Gomes, asseverando que 
elle subscrevera as actas do concilio de Coyaza ou 
Coyanza, celebrado n'aquelle anno (a/t), que ahi 
lhe fora permittido pelos monarchas usar o título 
honorifico de Dom; e que gosára a dignidade epis- 
copal por trinta e um annos. 



am) Portugal Ronaecido nus Mem. da Acad. Real da Hiat, 
tora. X, n. XXIII, pag. 113 e 114;— padre Leonardo de Souza, 
tom. I, fl. 236 e 236. 

an) Carrilho nos Annales e Metn. dei Mundo traz o so- 
guinte documento : Ego Fernandus Kex LegionisUt uxor'mea 
Sancha ''Regina per restauration de la Chriatandad faciemw 
coneyo en Castro Ceyaça general eu Io Ohispado de Oviedo con 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Fr. Manoel Risco tem esta opinião como filha 
de um equivoco, e diz que a esse concilio assisti- 
ram dois prelados de nome D. Gomes, um de 
Calahorra e outro de Occa, e que, tendo este as- 
sinado Episc. Oceensis, esta palavra, lida com pou- 
ca attencão, foi tomada por Vesensis, o que clara- 
mente se vê do Livro Gothico da Sé de Oviedo, 
onde se lê a assignatura Episcopus Oceensis, e não 
Visensis (ao). 

Os que pensam que D. Gomes, que assistira ao 
concilio de Coyaça (Coyanza), não era bispo de 
Vizeu, ainda adduzem mais o seguinte argumento. 

Aguirre (ap), publicando as actas d'esse conci- 
lio, diz estai- errado o texto latino por trazer Go- 
mes Ep. Visocensis em logar de Ep. Visensis. 

Esta observação leva a crer que no códice, 
donde foram copiadas aquellas actas, estava escri- 
pta de um modo pouco intelligivel a palavra Oc- 
eensis, e que o copista escrevera erradamente, em 
seu logar, Visocensis, o que era fácil. 

Embora faltem documentos que nesta epocha 
mencionem bispos de Vizeu, não é de crer que, 
havendo voltado esta importante cidade ao poder 
dos Christãos, deixasse de os ter; e tanto mais que 



obispos, y con los Abbades e con los arcebispos de nuestro Re- 
gno, en lo qual conceyo estubioron prestes el obispo D. Froila, 
de Oviedo, el obispo Don Cebrian, de Leon, el obispo D. Diego, 
de Âstorga, el obispo D. Miro, de Falência, el obispo D. Gomes, 
de Viseu, el obispo D. Gomes, de Calahorra, el obispo D. Joan, 
dt Pamplona, el obispo D. Pedro, de Lugo, el obispo D. Grego- 
no, áe O) ense. Padre Leonardo de Souza, tom. I, fl. 241 a 244, 

ao) O Liberal— I anno, n.° 8. 

ap) Aguirre, tom. III, pag. 212. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



durante o tempo em que esteve sob o poder dos 
Mouros os teve titulares, como deixamos dito. 

A Bennudo II, fallecido no anuo. de 999, suc- 
cede no throno de Leão seu filho Aflbnso V, que 
tinha apenas três ou cinco annos de idade, toman- 
do, por isso, o leme do governo Menendo Gonçal- 
ves, conde de Galliza, e Sancho Garcez, conde de 
Castella e tio do joven monarcha. 

Sabe-se que em 10-27 Affonso V passara o 
Douro e que, depois de ter feito discursòes pelo 
norte do Gharb, viera pôr cerco a Vizeu, onde os 
Mouros, em cujo poder esta cidade se achava, tal- 
vez desde o tempo de Al-manssor, tinham as mais 
consideráveis forças e offereciam a maior resis- 
tência. 

Depois de alguns dias de assedio, quando 
Affonso discorria em volta dos muros inimigos, 
uma besta (aq), partida das ameias, fere-o mortal- 
mente e o derriba do cavallo. 

Levado para" a sua tenda brevemente expirou, 
contando pouco mais de trinta annos de idade e 
quasi outros tantos de reinado. 

Não damos credito a Luiz Marmol, que em 
suas Historias Africanas (ar) diz que não morrera 
logo, mas que, retirando-se mal ferido jtara o Por- 
to, ali dera o ultimo suspiro, porque esta opinião 
contradiz a de historiadores de boa nota, como Mo- 



as) Tarafa diz lança. Valério, seita, Alexandre Hercula- 
no, virote, e os antigos chromcons, besta, sendo esla a opinião 
mais geralmente seguida. A besta naquelle tempo era do pau 
e não de aço. 

ar) Botelho-Dialogos, pag. 315. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



rales (as) e Alexandre Herculano (at), e o teste- 
munho do antigo chronicon de D. Pelayo, publi- 
cado por Flore ; (rt«), que são contestes em af fir- 
mar que AÍTouso V faltecera na sua tenda junto 
de Vizeu. 

chronicon Silense (av) descreve minuciosa- 
mente as cÍL-cumstancias do cerco e da morte d'es- 
te monarcha, e com esta narração está em perfei- 
ta conformidade a de Alexandre Herculano, que 
diz : «Foi durante o assedio que a morte o salteou 
no vigor da idade. Era no estio; intensa a calma. 
Despida ; as armas e trajando apenas uma túnica 
de linho, o rei discorria em volta dos muros ini- 
migos : um virote partiu das ameias, e, ferindo-o 
mortalmente, o derribou do cavallo. Levado á sua 
tenda, Affonso V expirou brevemente, contando 
pouco mais de trinta annos e quasi outros tantos 
de reinado (ax)í>. 

Li»go se levantou o cerco, e o cadáver de 
Affon » V foi conduzido para Leâoe ahi sepultado 
na e;-reja de S. João, junto de sua mulher Geloi- 
ra (ay). 

Na sua sepultura pozeram-lhe o seguinte epi- 
tap'.iio : Bíc jacet rex Adefonsus (az) qui populavit 



<w> Morales, Liv. XVII, cap. XXXVIII. 

at) Aiex. Hera— Hist. de Fort., tom. I, pag. 156. 

aw) Flores, Hesp. Sagr., tom. XIV, pag. 475. 

av) Publicado por Flores, Hesp. Sagr., tom. XVII, pag. 
313. 

ax) Alex. Hercul., Hist. de Port, tom. I, pag. 156. 

ay) CH ronícon de D. Pelayo em Flores, Hesp. Sagr., tom. 
ÍUV, pag. 475. 

az) Alfonsus, diz Botelho ; Adfonstix, escreveu o padre 
Leonardo de Souza. 



>,sitizeot> v GoOgIe 



Legionem post destrttctionem Almanzor, et dedit ei 
bonos foros, et fecit ecclesíam hanc de luto et late- 
re. Habuit prelia cum Sarracenis, et interfectus 
est sagitta aputt Veseum in Portugal. Fuit filiws 
Veremundi Ordonii. Obiit Era MLXVIII. Non. 
Maii (ha). 

Traduzido em vulgar diz : Aqui jaz el-rei Af- 
fonso V, que povoou a cidade de Leão depois da 
destruição de Al-manssor; não só deu bons foros 
a esta egreja mas construiu-a de ladrilho e barro. 
Teve guerras com os Sarracenos e foi morto com 
uma seta junto de Vízeu, em Portugal. Foi filho 
de Bermudo Ordonho. Mon-eu na era de 1068. A 
7 de maio. 

Oliveira Berardo, seguindo outros escriptores, 
affirma que na lapide está a era de 1065, porque 
desligou os três últimos algarismos romanos dos 
antecedentes, para os antepor à palavra seguinte, 
por esta forma : Obiit. MLXV — III Non.; mas, co- 
• mo alguns sábios paleographos mostraram por mui- 
tas escripturas não só da egreja de Leão, como do 
mosteiro de Sahagum, que este rei ainda vivia em 
junho da era de 1066, concluiu que está errada a 
data que se encontra na lapide (bí>). 

Não assentimos a esta opinião, mas á de ou- 
tros escriptores, que assignam a era de MLXVIII 
— Non. Maii. 



ba) Moralea-Liv. XVII, cap. XXXVIII -Flórea, Hesp. 
Safir., tom. XIV, piíg. *76j padre Leonardo de Souza, tom. I, 



bb) O Liberal, I anno, n.° ! 



;g1,7 5t ::; ; GOOglC 



Deste modo harmonisamos a inscripção que 
se encontra na lapide com o testemunho das es- 
cripturas. 

A Aflbnso V succedeu no throno seu fiího Ber- 
mudo III, que foi morto numa batalha em 1037 por 
seu cunhado Fernando, rei de Navarra e conde 
de CasteUa. 

Com a sua morte terminou a dynastia leoneza, 
e a coroa passou para o mesmo Fernando, a quem 
pertencia pdr sua mulher Sancha, irmã e herdeira 
de Bermudo. 

Logo no principio do seu reinado teve de sus- 
tentar guerra com seu irmão Garcia, a quem ven- 
ceu e matou junto de Burgos. 

Já senhor de uma grande parte da Península, 
e vendo que o império de Córdova se dilacerava 
por atrozes e longas guerras civis e se desmen- 
bravaeaj tantos estados quantas eram as suas pro- 
víncias ou districtos, Fernando resolveu 'aproveitai* 
a conjunctura para dilatar os seus domínios á cus- 
ta dos sectários do koran. 

Sisnando ou Sisenando, rico mosarabe, natu- 
ral de Coimbra ou das suas proximidades, que 
pelos seus talentos e serviços importantes, presta- 
dos ao príncipe mouro de Sevilha Ibn Abbad, ha- 
via chegado a occupar no diwan o cargo de wisir, 
isto é, de primeiro ministro do supremo conselho 
do amir, movido talvez por alguma offensa que re- 
cebera dos Sarracenos, foi offerecer os seus servi- 
ços a Fernando, a quem convence das vantagens 
a auferir invadindo o occidente da antiga Lusitâ- 
nia. 



>,Sitizeot> V GoOgIç 



As previsões de Sisnando foram justificadas 
pelos resultados (6c). 

Apasiguadas as desordens ecclesiasticas e as 
perturbações do seu reino, Fernando atravessa o 
Douro, junto de Zamora, e passa da terra de Cam- 
pos á nossa moderna província da Beira, cujos 
castellos tantas vezes tinham sido ja tomados por 
Christâos e Sarracenos. 

Apodera-se da villa e fortaleza de Seia (Sena), 
tala os seus arredores, e reduz outros f^stellos vi- 
sinhos menos importantes (1054), e, segundo o 
chronicon Silense, intenta logo fazer suas as cida- 
des que haviam sido episcopaes. 

Para isso continua a guerra por todas as pri- 
maveras seguintes e conquista successivamente, 
alem de Tarouca e outros logares fortes, Vizeu e 
Lamego (bd). 

A conquista de Vizeu eftectuou-se em 25 de 
julho do anno de 1058, dia de S. Cucufate, como 
attestam os chronicons Lusitano e Conimbricense, 
seguidos por Flores (be). 

O chronicon de D. Pelayo, referindo-se a Fer- 
nando, exprime-se assim : aEste, batalhando, to- 



bc) Alex. Hercul., Hlst. do Port., tom. I, pag. 189. Dia 
set. Chiou., tom. IV, part. l.«, pag. 28, Liv. Preto, D. 137 e 
149— Jofto Pinto Ribeiro— Injustas auiicessõea dos reis do Leão 
e Caatella, pag. 63. 

bd) Alex. Herc , Hist. de Portug., tom. I, pag. 161, 162 
e 163. 

be) O académico J. P. Ribeiro combate sobre esle ponta 
a opinião de Flores. A* restauração de Vizeu pelos Christaos 
aasignam uma historia antiga, que foi do erudito André de 
Rezende, aojruida por Brito na Mon. Luait., part. II, liv. VIII, 
cap. XXVIII, a era de 1076 (anno 1088), Ferreraa o anno de 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



mou Lamego, Vizeu, Coimba, Seia e outras mui- 
tas cidades e casteilos dos Agarenos ; e o chroni- 
con Silense, desde o n.° 85, refere minuciosamen- 
te a tomada de Vizeu e a vingança que Fernando 
tirou da morte de seu sogro Affotiso V, tractando 
com crueldade os mouros que aqui residiam, e man- 
dando cortar as mãos ãquelle que havia despedido 
a seta. que o matou. 

Julgamos interessante essa narração e por isso 
a apresentamos em linguagem vulgar. E' como se- 
gue: 

«Depois de ter ganho a cidade de Seia, apres- 
sa-se a conquistar a de Vizeu com a intenção de, 
no caso de alcançar victoria, castigar os Bárbaros, 
aqui residentes, que mataram AÍTonso, seu sogro. 

«Mas nesta mesma cidade havia um fortisslmo 
corpo de seteiros, com cujo ímpeto, se quizessem 
escalar os muros, não podiam arrostar sem que as 
setas atravessassem os escudos e a tríplice coura- 
ça, a não sobreporem aos escudos taboas ou ou- 
tros obstáculos mais fortes. 

«Por isso, conhecidas todas as entradas da ci- 
dade, e assentados os arraiaes, o rei manda que 
a llôr dos seus soldados e com elles os Balearios se 
dirijam á mesma cidade e cerquem as suas por- 
tas. Depois de alguns dias de combate, consegue 



1044, o chronicon Tndense o 16." anno do reinado de Fernan- 
do, e se este principiou a reinar em 1033, como diz Ferreras, 
í o anno de 1048, assignado polo dr. Manoel dn Rocha no Por- 
tugal renascido, a Historia doa Godos, que se lê na Mon. Lu- 
sii., de BrandAo, Terceira parte, png. 3(17 e seguintes, h i^ra 
de 1095 fanno líMiv), e é esta a opinião seguida por A. Hercu- 
lano, Hist. de Portugal, tom. I, pag. 163. 



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toma-la, e, encontrando o seleiro que tinha morto 
o rei Aflbnso, mandou que lhe cortassem ambas 
tis mãos. Os restantes mouros foram captivos, e 
Fernando, levantando os arraiaes, dirigiu-se a La- 
mego» (bf). 

O padre Leonardo de Souza (bg) narra os 
acontecimentos do mesmo modo, mas, fundado ein 
llríto, accrescenta que Fernando mandara cortar 
o pé esquerdo d'aquelle séteiro, tirar-Ihe os olhos 
e depois assétea-lo. 

Foi este manarcha quem resgatou e firmou 
l>ara sempre na fé christà a cidade de Vizeu, e 
quem, com a tomada de Tarouca, Lamego e outros 
togares fortes, expulsou os Sarracenos de todo o 
];aiz comprehendido entre o Douro e o Mondego. 

Retribuiu o bom seiTiço que o mosarabe (bh) 
Tisnando lhe fizera, dando-lhe o governo de um 
{listricto, constituído pelas novas conquistas e pela 
tsrraportugalense ao sul do rio Douro, ao qual 
sorvia de limite, pelo oriente, a linha de Lamego, 
'Vizeu eSeia, e de fronteira, pelo sudeste, o pendor 
setentrional da serra de Estrella. Estes dilatados 
territórios estavam sujeitos á sua soberania livre e 



bf) FIoros-Hesp.Sagr., tom. XIV pag. 332 «seguintes o 
487,6 tom XVII, pag. 310. 

bg) Padre Leonardo do Souza. tom. I, fl. 249 e 2-50. 

bh) Os inosarabes eram os Cbristâoa, descendentes doa 
< lodos, que depois da batalha do Uuadalote se entregaram 
aos Mouros por pactos, conservando a sua loligiao. a j era reli ia 
{eclesiástica o suas antigas leis godas no meio da oppreesao 
tnahometana Os territórios sujeitos aos Sarracenos, diz Ter- 
i eros, ficaram povoados por cinco classes úa gentes, t&itzara 
í es, CatttlfanoH, Francos, Moro» de Paz, y Judios, Veja se a 
Dscuela Pa) eog rap nica, de Andrés Merino. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



independente. Alem de os poder doar a seu arbí- 
trio, tinha também a faculdade de lhes ajuntar os 
togares circumvisinhos que conquistasse aos Mou- 
ros (fri). 

Depois da tucta, Vizeu, alem de despovoada, 
fica arruinada e sem muros, tendo escapado ape- 
nas as duas torres e o castello. 

A Sé, que estava dentro do castello e por mui- 
tos an nos serviu de mesquita, foi restaurada (bj),e 
Fernando em seu testamento declara-a episcopal e 
lhe deixa tudo o que ficava dentro do muro velho 
entre a 'rua de S. Miguel, a da Regueira e a estra- 
da {rua publica) — intiis murum vetus, in loco pran- 
nominato in illam viam de S. Michaele, et de illa 
Regaria, et concludit cum via publica (6/i). 

Muitos auctores de catálogos nào mencionam 
bispo algum de Vizeu no tempo d'este monarcha ; 
porem o chronicon Conimbricense e uma memo- 
ria que existia no mosteiro de Alcobaça, seguida 
pelo cisterciense Rocha (6/) e por Fr. Leão de S. 
Thomaz<bm)dizem,que arainha D.Sancha, os bis- 



bi) Alex. Herc.-Hist. de Port, tom. I, piig. 189. Dissert. 
Chronol. tom. IV, part. I, pag. 2a Livro Preto fl. 137 o 149. 
João Pinto Ribeiro, Injustas successões dos reis de Leão e de 
Custella pag. 63. 

bj) Padre Leonardo de Souza, tom. I, fl. 156 v. 

bk) Testamento do conde D. Henrique o de sua mulher 
D. Thernsa em Vitorbo— Elucidário, verb. Fazenda Real, e em 
piídre Leonardo de bouza, tom. I, fl. 2õ6 o 2õ7. 

bl) Rocha- PortiiRalReniiscido n. 238, nau Mem. da Acad. 
Real da Hist. tom. X, n. XXIII, pag. 118. Monarch. Lusit. 
3.» parto. 

bm) Benedíctina Lusitana, tom. I, pag. 330— padre Antó- 
nio dos Reis e Colt, na* Mem. da Acad. Real d* Historia, tom. 
VI, n. XXVII. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



pos de S. Theago, Cresconio, de Iria, cujo nome 
não menciona, de Lugo, Vestruario, de Viseu, Sis- 
nando, ede Mindunaou Dume, Suares, acompanha- 
ram Fernando durante o cerco á cidade de Coim- 
bra, que tomou, reduzindo ao captiveiro os cinco 
mil sarracenos, que ahi se encontravam. 

O chronicon Complutense diz que o bispo de 
Vizen que acompanhara el-rei Fernando ao cerco 
de Coimbra fora Sueiro. 

Segundo memorias que existiam no cartório 
de Alcobaça a conquista de Coimbra effectuou-se 
na era de 1102 (anno de 1064), e, por isso, Sisnan- 
do ou Sueiro, foi nomeado bispo pouco depois de 
ser tomada Vizeu (1058), se já antes o não era ti- 
tular (bn). 

Alguns auctores (6o) que admittem a existên- 
cia do bispo Gomes affirmam que depois da sua 
morte o bispado de Vizeu ficou sujeito ao de Coim- 
bra e governado por priores, sendo o primeiro D. 
Tlieotonio que falleceu em 1112. 

Flores (bp), porem, sustenta que se continuou 
a serie dos bispos, fundando-se nas seguintes ra- 
zões : 

l. a o testemunho do citado chronicon Conim- 
bricense ; 

2. a se antes da conquista de Vizeu pelos chris- 
tãos havia bispos, com mais razão deveria de havê- 
los depois d'esse facto ; 



bn) Padre Leonardo de Soiif», tom. 1, 11. 250 v. n 
bo) D. Thonw. da Encarnação, Hist. Eccl. Lylh. 
bp) Floies-Hesp. Sagr., tom. XIV, pug. 38Õ. - 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



3.» pelo chronicon Silense sabe-se que fora 
principal intenção do rei Fernando, na sua expe- 
dição ao occidente da Península, fazer suas as ci- 
dades que haviam sido episcopaes, e não é de pre- 
sumir que elle denegasse esta honra ás que ante- 
riormente a haviam gosado. 

Mas, para harmonisar o seu parecer com o 
de Brandão, accrescenta que as egrejas de Vizeu 
e Lamego perseveraram com o titulo de episco- 
paes durante toda a vida d'aquelle monarcha, não 
chegando os prelados a estabelecer nellas as suas 
residências, por temerem novas invasões de Mou- 
ros e haver pouca gente para as defender ; e que, 
em consequência das graves perturbações que se- 
guiram a morte de Fernando, cessou a solicitu- 
de pelas egrejas, ficando aquellas duas ao cuidado 
da de Coimbra, cidade mais fortificada. 

Em vista das contradições, em que laboram os 
códices e documentos do tempo, acerca da exis- 
tência ou não existência de prelados, dos seus no- 
mes e datas em que viveram, não podemos tirar 
uma conclusão seguiu. 

Conta-se que Fernando, temendo nova incur- 
são dos Árabes, transferira a cidade para dentro 
dos muros da Cava, mas que em breve os mora- 
dores voltaram ás antigas habitações que foram 
reedificadas no mesmo loca!, ficando ali uma es- 
pécie de colónia, que por muito tempo conservou 
o nome de cidade velha (bqj. 



bq) Vilhena Barbosn — Ab cidadoa e Vil tas de Portugal, 
<juo Lnii bruzúus d'<tnnas, pag. 184, O Liberal, I anuo, n.° 2. 



>,sitizeot> v GoOgIe 



Não conhecemos documento ou historiador 
antigo em que se baseie esta narrativa. 

Sendo ura facto incontroverso que os Mouros 
e Árabes estiveram por muito tempo senhores de 
Vizeu, é certo não terem elles deixado aqui monu- 
mentos, ou, se os houve, já d'elles não existirem 
vestígios. 

Apenas alguns logares e povoações das proxi- 
midades conservam a denominação árabe, como 
são Barbeito, que significa Campo da Casa, e Alge- 
riz, corrupção de Alderiz, que quer dizer Logar 
da eira [br). 

A lenda acerca da Origem do nome de Alafões 
prendesse com o reinado de Fernando Magno. 

Fr. Bernardo de Brito (6s), não dando por 
iiador mais que a sua palavra, deriva o nome Ala- 
fões do do mouro Alahum (bt), que governava Vi- 
zeu quando foi conquistada por Fernando Magno; 
e a sua narração encontrou dentro e fora do reino 
sequazes, que a accrescen taram e a expozeram a 
seu modo. 

Aproximando e comparando as diversas ver- 
soes, parece-nos que podemos tirar a seguinte re- 
sultante. 

Os Mouros de Vizeu, temendo vingança da 
morte de Aflbnso V, haviam fortificado muito bem 



br) Fr. Bernardo de Brito, Mon. Lus., tom. II, cap. XVIII, 
!>a) Padre Leonardo de Souza diz Alafum. 
W) O Liberal, I anno, n.° 1, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



esta cidade, e inunirara-se de mantimentos que 
chegavam para dez annos. 

A estas condições de resistência accrescia o 
grande esforço, valor e experiência de um alcaide 
africano chamado Cid Alahum ou Alafum, a cujo 
cargo estava o governo da cidade, o qual animava 
os seus moradores, affiançando-lhes que elles não 
se renderiam por maiores que fossem as forças 
enristas e embora o cerco durasse dez annos. 

Todas estas difficuldades foram vencidas pelo 
valor de Fernando, que, sitiando a cidade por 
todos Os lados com o seu numeroso exercito bem 
exercitado na guerra e acostumado a vencer, e 
combatendo com denonado esforço a resistência 
dos Mouros, conseguiu entrar nella, depois de de- 
zoito dias de cerco. 

Os vencedores só concederam a vida a mu- 
lheres e creanças, mas o alcaide e alguns dos 
seus retiraram-se ao castello, que estava no sitio 
onde hoje se vè a cathedral, e d'ahi se defende- 
ram até á hora de terça do dia seguinte, em que 
se renderam e entregaram, salvas as vidas. 

Alafum, alem de se render e entregar, fez-se 
christão, e D. Fernando consignou-lhe para sua 
subsistência as terras que constituem o valte em 
que agora assentara Vouzella, S. Pedro do Sul, 
Trapa, Fataunoos, Ventosa, Destriz, S. Miguel de 
Matto, Muçadaens (Mossamedes), nome derivado 
do de um capitão mouro, Muça, que ahi residiu. 

O antigo alcaide foi estabelecer-se nessas ter- 
ras, que do seu nome derivaram o de Alafões, por 
que ainda hoje são conhecidas. A mesma origem 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



tem o nome de monte Alafão, onde 'ha claros ves- 
tígios de fortaleza e povoação antiga (ím). 

Viterbo (í»i>), porem, julga arbitraria a etymo- 
logia dada á palavra Alafões por Fr. Bernardo de 
Brito e seus sequazes. 

Baseia o seu parecer numa escriptura de doa- 
ção do anno 865, que se encontra na II parte da 
Bened. Lusit. trat. I, cap. VII, e na qual se diz 
que Paio Ortiz dera a seu irmão Paio Ortiz a villa 
de Ortiz em troca da parte que este tinha no mos- 
teiro de S. Christovão de Alafões, da ordem dos 
Negros de S. Benedicto— pro parte mea de monas- 
terio S. Cfiristofori de Alafoins, Ordinii Nigrorum 
S. Benedicti; e commenta do seguinte modo : 

«Quando este documento fora legitimo, diría- 
mos, que sobre as ruinas do primeiro fundou João 
Peculiar o segundo Mosteiro, e ficaríamos certos, 
que já no Século IX se chamava Alafões esta por- 
ção do bispado de Viseu». 

Ainda accrescenta : «Se de nomes que tem 
alguma semilhanoa hayemos'de buscar as Etyrao- 
logias de outros nomes ; muito antes da conquista 
de Viseu, (que os nossos GhronicÕes datão no de 
1058, e Flores demonstra que foi no de 1057) le- 
mos em uma devoção do Mosteiro de Gete, que 
hoje se acha no Collegio da Graça de Coimbra, 
entre outras muitas testemunhas, que neila assi- 
gnárão no de 985, Alfum Augadiz—ts.= E não pa- 



ira) Sanctuario Marianno de Fr. Agostinho de Santa Ha 
ria tom. V, pag. 163 a 165. Padre Leonardo de Souza, tom. I, 
fl. 349 e 260. 

òv) Viterbo-Elucidario, verb. Alahaeeinis. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



rece verosímil que havendo entre nós Christãos 
chamados Alafums no Século X, quasl um Século 
depois tomasse aquella terra o nome de um Mou- 
ro. Alem disto: aquella terra não estava antes sem 
nome : se mudou por honra do seu novo possui- 
dor, que nos digão como d"antes se chamavas. 

Fernando Magno falleceu em fins de dezem- 
bro- de 1065. De sua mulher D. Sancha, irmã de 
Bermudo III, deixou duas filhas D. Urraca e D. 
Elvira ou Geloisa, e três filhos, pelos quaes em seu 
testamento divide o reino, destinando a Sancho 
Castella, a AfTonso Leão, e a Garcia a Galliza e o 
território que já então se denominava Portugal e 
abrangia a província entre Minho e Douro e o dis- 
tricto que ao sul do Mondego tinha sido conquis- 
tado aos Sarracenos (bx). 

D'aqui se vê que, quando Fernando fez testa- 
mento, ou já era faliecido Sisnando ou o seu gover- 
no e jurisdíccão, embora ampla, estava subordina- 
do ao do inonarcha leonez. 

No anno de 1074 AfTonso, também denomina- 
do o Magno, e VI do nome na serie dos reis de 
Oviedo e Leão, estava na posse pacifica de todo o 
reino, que seu pae Fernando havia distribuído por 
elle e seus irmãos. 

Dividiu-o em largos tractos de terra (conda- 
dos). Entregou o governo da Galliza, que contituia 
um grande senhorio, a um membro de sua família, 
Raimundo, (Reimondo ou Raymond), filho de Gui- 



ta) Alex. Horcul. Híst. do Port., tom. I, pag. 165 a 1 
194. Flórea, Hesp. Sagr., tom. XIV, pag. 334. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Iherme, conde de Borgonha, com quem havia des- 
posado sua filha Urraca no anno de 1094. 

Nos fins d'este anno ou princípios de 1005 
desmembrou dos domínios do conde Raymundo, 
pelo menos, os districtos de Braga para os entre-' 
gar ao conde Henrique, com quem casou sua filha 
bastarda Tareja ou Thereza, e que os ficou gover- 
nando como dependente de seu primo. 

Mas em breve foi desmembrada definitiva- 
mente, para constituir um vasto districto indepen- 
dente regido pelo conde Henrique, a pontão dos 
domínios de Raimundo desde as margens do Mi- 
nho para o sul (by). 

Duarte Galvão {&:), fallando de Affonso VI, 
diz : «Otra (filha) chamada D. Tareja deu por mo- 
Iher ha D. Anrique, sobrinho do Conde de Tolo- 
sa, dítncto-lhe com ella em casamento Coimbra, 
com toda ha terra até ho Castello de Lobeyra,hee 
úa legnoa alem de Ponte Vedra, em Gualiza, e 
com toda ha terra de Vizeu e Lamego, que seu 
pae EIRey D. Fernando e elíe guanharSo nas co- 
marquas da Beyra. E de tudo o que lhe deu fez 
condado de Portugal, com a condição do Conde 
D. Anrique o servir e ir ás suas cortes, ou no ca- 
so de doença ou legitimo impedimento para lá não 
poder ir mandar um dos príncipaes da sua terra 
com tresentos cavalleiros». 



by) Àlex. Hera, Hist de Port., tum. I, pag. 102 a 104. 
bz) Duarte Galvão— Clirou. do D. Affonuo Henriques, ed. 
1727, pag. 2. 



>,Sitizeot> V GoOgJe 



Duarte Nunes de Leão (ea) expressa-se assim : 
«lhe deu el-Rei D. Affonso em dote com sua filha 
a Infante D. Tareja o stado de Portugal, com titu- 
lo de Conde, como dera o de Galliza a seu primo 
Raymundo .s, o que stava ganhado dos Mouros, 
em que en travão as cidades de Coimbra, Lamego, 
Viseu, Porto, Braga, e Guimarães e as terras de 
entre Douro e Minho, a Beira e Traslosmontes. . . 
£ tudo o que ganhassem dos Mouros até ao reina 
do Algarve». * 

Em presença da narração d'estes chronistas 
não pode haver duvida de que Vizeu foi uma das 
terras que fez parte do condado de Portugal, doa- 
do ao conde Henrique por seu sogro. 

Temos por verdadeira a asserção de que no 
tempo de Affonso VI governaram Vizeu com o ti- 
tulo de condes ou cônsules, primeiro, Munio Vella, 
e, depois, Ayres Peres ou Pires, que viveu ainda 
no tempo do conde Henrique, ambos muito esti- 
mados do rei leonez (cb), mas eram governadores 
ou capitães subordinados aos condes Raimundo c 
Henrique. 

Ayres' Peres ou Pires nssigna a doação feita 
em Guimarães no anno de 1102 pelo conde Hen- 
rique a Echa Martim ou Martinho, ultimo rei mou- 
ro de Lamego, que se fez christão e se obiigou a pa- 
gar em cada anno a 40.* parte do que rendessem 
os seus estados (cc). 

cai Ohron. do conde D. Henrique eij. de 1774, vol. I, pag. 
32. 

cb) Padro Leonardo de Souto, tom. I, fl. 208. 
te) Mun. LhdíI.i tom. III, piíg. 66. 



>,sitizeot> v GoOgIe 



Em 1097 Henrique, conde de Portugal, de Bo- 
lonha e de totaringia, e sua mulher D. Thereza 
dominavam desde o Minho até ao Tejo (ai), e no 
ànno de 1114 (era de 1152) reinavam em Portugal 
e na Estremadura, Coimbra, Vizeu e Seia, como 
se vê do foral de 'f halavares, dado por elles em 
março d'este anno, o qual se conserva no Archivo 
Nacional (oe) e diz : Iiegnantes in Portugal et in 
Stremadura, CoUmbria, Vise* et Sena. 

Lemos em D. Rodrigo, arcebispo de Toledo, 
que D. Henrique restabelecera os bispados de Vi- 
zeu e Lamego, que se acharam incorporados no de 
Coimbra, e em Brito (cf) e Flores (cg) que os de 
Vizeu, não levando a bem a sua subordinação 
ao bispo de Coimbra, elegeram para seu bispo o 
prior D. Odorio, mas que voltaram em breve (1120) 
a reconhecer o bispo de Coimbra D. Gonçalo, con- 
tinuando sujeitos a jurisdicção dos prelados d'aquel- 
la diocese até que D. Aflbnso Henriques restabe- 
leceu sedes episcopaes permanentes em Vizeu e 
Lamego depois do anno de 1143. 

A sujeição aos bispos de Coimbra da egreja 
de Vizeu é um facto que não oITerece duvida em 
vista de uma bulia do papa Paschoal II, do anno 
de 1102, pela qual entrega a Maurício, bispo d'a- 
quella diocese, a administração das egrejas de Vi- 
zeu e Lamego, nos seguintes termos : Secando 



cd) Alei. Horc, Hiat. ó"e Port.. tom. f. n. 4, pag. 477. Dia 
Bert. Chronol.. tom. III, p. I, pag. 33, n. 34. 

ce) Gav. 15, M. 13, n. 9. 

c/j Mon. Lut.it., Ilv. IX. cap. X. 

cg) Hesp. Sagr., tom. XIV, pag. 336. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



prxterea Episcopalium qumtdam Cathedralium Ec- 
clesias, Lameaim et Viseum, lux, taorumque soe- 
cessorum provisioni, curxque comittimus,doriec r dis- 
ponente Domino, aitt Colimbrix Diocesi rcstituatur, 
aut iUm Parochiis próprias restitutx, Cardinales epis- 
copos habere nequive-rint {eh). 

Mas, se d'esta bulia se pode inferir que a 
egreja de Vizeu perdeu a dignidade episcopal — 
Episcopaliu/n quondam Cathedralium — , conclue-se 
o contrario do testamento (et) do conde D. Henri- 
que e de sua mulher D. Thereza em que confir- 
mam a Egreja de Santa Maria da Sé Episcopal de 
Vizeu e aos clérigos que habitam no mesmo lagar o 
que o rei Fernando testou e confirmou d sobredita 
Sé, e vem a ser 

Tivesse ou não a dignidade de Episcopal desde 
Fernando Magno até D. AíTonso Henriques, é certo 
que durante esse intervallo não deixou de ter in- 
signes eollegialas e priores (cjj, e ha quem (c/c) con- 
jecture que o conde D. Henrique e sua mulher lhe 
attribuiram aquelía dignidade pela esperança de 
verem em breve restabelecidos os seus bispos. 



ck) Euta bulia vem copiada na Mon. Lus., part. III, png. 
389. 

ei) Ente tostai non to lo so no Elucidário de Viterbo, v, 
Fazenda Real, e no livro valho da catliedra) a ti. 53. Padre 
LeuriHRlo de Souza, tom. I. fl. 256 o 257. 

çj) Elucidário, da Viterbo, v. Gorda. D. José do Miranel 
y Chmhs Elgran Dicc. Hint. v. Viseu. 

ck) Jorge Cardoso— Agiologio Lusit., tom. II, png. 65 le- 
tra b— diz "D. Fernando vendo que a Sé de Vizeu nao eslava 
capuz do bispo a proveu de prior, com sujeição á de Coimbra. 
Porem as inmnorias do mosteiro de Santa Cruz aflirmão que 
a erigiu o conde D. Henrique, e a sagrou o arcebispo de Tole- 
do D. Bernardo, Legado então em Hegpanha„. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



No testamento a que acima nos referimos, 
alem de confirmarem a disposição testamentária, 
feita à Se de Vizeu por el-rei Fernando Magno, de 
tudo o que ficava dentro do muro velho da mes- 
ma cidade e era limitado pela rua de S. Miguel, 
rua da Regueira e rua publica (via publica), pa- 
ra ahi poder edificar, plantar trabalhar* livremen- 
te, sob graves penas impostas aos que perturbas- 
sem a sua posse, D. Henrique e D. Thereza isen- 
tavam os que aqui habitavam ou tinham habitado 
do poder ou jurisdicção de toda a pessoa, prohi- 
bindo a inquirição sobre qualquer censo que com- 
petisse ao domínio real, e impunham a todos aquel- 
les que subtrahissem alguma cousa á mesma egre- 
ja a obrigação de restituírem o quádruplo, declaran- 
do-os fora do grémio d'ella (excommungados) em 
quanto conservassem o furto em seu poder e con- 
demnando-os a fazerem companhia ao diabo se 
morressem nessa occasiào. 

Parece-rios documento interessante, do qual 
os eruditos poderão tirar noticias importantes para 
a historia da epocha, e por isso o publicamos na 
integra. 

In nomine Sanctx, et individuai TiHnitatis, 
Pátria, et FUU, et Spiritus Sanctt, Haec est Carta 
Testamenti, quam ego Henricits Comea, simul eum 
uxore mea Tarasia, D. Regia Affonsi filia, sana 
mente, et pidona voluntate facimus Ecclesise S. Ma- 
rix Episcopalis Sedis Visiensiá, et ejusdem loci de- 
vida, ibidem commemorantibm, de ipso Testamento, 
quod Fernandus Rex (aui sit beata requies) jam 
multo tempore est, quod testavit in supradicta sede, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



in konore illius Viryinis S. Mariat, Testamentum 
illud est intus muram vetas, in loco prxnominato 
in itlam viam de S. Michaele, et de illa Regaria, 
et concludit cum via publica. Et hoc testamos pro 
reiemptione Parentum nostrorum, et nostrarum 
animaram; ita ut nultus homo habeat protestatem, 
neque licentiam super illos homines, qui ibi popula- 
verint, aut populantw, mittendi, neque movendi, 
neque alio Censu, quod liegali Domino oonvenit, 
omnino ab eis inquirat (cl). 

Similiter facere concedimus de omni, quod de 
hodie die in antea plantare, aedificare, vel laborare 
potuerit servientes supraiictx Sedis ; tali pacto, ■ ut 
illud, quod sursum resonat, supraiictx Sedi possi- 
dendum permaneat. Et hoc faeimus in nostri me- 
moriam, atquc Nostrorum Antecessor um, ut eorum 
orationibus, atque Sanctorum precibus, quorum ibi 
Reliquice, et Nomina continental; aijuti quod nos- 
tris meritis nequimus, valeamus aipisci. Hoc deni- 
que pro contestatione Omnipote7itissim& Deitatis dis- 
cirnas, quod huic nostro facto non erimus contrarii. 
Quod si forte, quod absit, contigerit; liceat Ecclesix 
Rectoribus coercere nos seoerissime, Leyali Censura, 
semoto omni blandimento. Si autem alius quislibet, 
vir, aut foemina, inde aliquid euettere, vel auferre 
temptaverint, non sit ei Ucitum per ullam assertio- 
nem eujuscumque ingeniosie caliditatis; sed pro sola 



cl} Os soberanos, umas vezo* cun cediam, como atjni, 
tudo o mie pertonda aos direitos reaes. outra» vc.zea só os iíi- 
rui uw ou renus nu tlscaea uu servis. António Caetano do A m» 
i-al-Mom. da Auad. Real da» Scieneiaa, tom. VI, pug. 143 e 



tanfzMbyGoogle 



temmtate, de sais proprits facultatibus restitiiat in 
quadraplum eidcm Ecolesiae omnia, quae auferre 
tewptaverint ; et quanidiu in hac pertinácia manse- 
rit, sit excommunicatas a societale Fidetium Chris- 
tianorum. Qui in fiac audatia ab hoc satculo obie- 
nt, sit iili perpetua citm diabulo mansio in aeterna 
dampnatione : et hoc nostntm Testamentwtn perpe- 
tam obtineat vigorem. Facta Carto, Testamenti Xtí 
Kal. Augustas. E.M.C.X.VHI. Nos sapradicti Hen- 
rieus, et Tarasia hoc, quod prompto animo fierit de- 
crevimus, in honore S. Mariae coram idoneis testi-' 
bus propríis manibus roboramus. 

Depois dos coníirmantes e testimunhas se- 
gtie-se este signal. 



Theodonius Prior 



O conde D. Henrique, em honra de S. Theo- 
tonio, fez couto a maior parte de Vizeu, e é por 
isso que os seus bispos por mais de quatro sécu- 
los aqui tiveram jurisdicção ecclesiastica e secular, 
nomeando os juizes e ouvidores, que conheciam 
por acção nova e dos quaes se appellava somente 
para a Relação da corte. 

Assim se le na verba de uma carta de infor- 
f mação que o dr. João da Videira deu a el-rei D. 
João III a respeito dos coutos que havia no mes- 
mo bispado e que Botelho transcreveu na sua Re- 
publica Politica. 

Nas mas que faziam parte do couto os bispos 



;g1,7 5t ::; ; GOOglC 



podiam exigir aposentadoria, camas e roupas gra- 
tuitamente (cm). 

conde D. Henrique falleceu no i.° de maio 
de 1114 (cn). Depois da sua morte a rainha (co) 
D. Thereza por vezes residiu em Vizeu. O seu pa- 
lácio conjecturamos ser o mesmo em que habita- 
ram os reis de Leão, e ser situado onde hoje se 
acham os claustros da Sê, entre a torre do relógio 
e a capella de Santo António (cp). Sendo o local da 
cidade onde havia maior segurança, por estar en- 
cerrado dentro das fortificações, muralhas e cas- 
tello, é natural que os reis o escolhessem para sua 
residência. 

Em 1123 deu D. Thereza aos habitantes de 
Vizeu um foral cheio de franquias, que é referido 
por vários eserjptores (cq) e foi publicado no Por- 
tugalix Monumenta Histórica (cr) com a declara- 
ção de que o autographo existiu no cartório da Sé 
de Vizeu e hoje se guarda no Archivo Nacional 
(Torre do Tombo). 

Como todos os documentos públicos anterio- 
res a D. Diniz, foi escripto em latim. 

Exporemos em linguagem vernácula as suas dis- 
posições, mas, sendo possível que acerca d'alguma 



cm) Padre Leonardo Sousa, tom. I, fl. 268. 
cn) Alex. Remi],, Hist. de Fort., tora. I, pag. 230. 
co) As filhas de reis tinham naquelle tempo o titulo de 
rainhas. 



cq) Viterbo— Elucidário, verbis— Asto, Osas, Cavalleiro, 
cr) Portugália Monumenta HiaL— pag. 380 o 301. 



;gi,7 5t !S , Google 



d'ellas não seja exacta a nossa interpretarão, e vis 
to como nem todos tem facilidade de haver ás 
mãos o precioso livro, onde se acham recolhidos 
estes e outros documentos similares de superior 
valia, resolvemos transcreve-lo na linpua em que 
se acha. D'este modo o estudo dos eruditos poderá 
emendar, com mais facilidade, os nossos erros. 

Antes, porem, de o fazermos, julgamos con- 
veniente apresentar algumas noções acercada ori- 
gem e natureza dos foraes' antigos, aproveitando 
os trabalhos dos que estudaram profundamente o 
assumpto (es). 

As tradições wisigothicas, incarnadas na nos- 
sa sociedade nascente, embargaram que o feuda- 
lismo penetrasse na essência d'esta, e apenas o 
deixaram passar incompleto no accidcntal das ins- 
tituições : assim entre nós os crimas, as tyrannias, 
as luetas civis foram mais ténues, e antes filhas da 
barbaria que da feudalidade; mas em compensação 
faltou-nos o que nesta havia de boa organisação ; 
faltou-nos essa vasta rede de obrigações mutuas, 
moraes e inateriaes, entre os senhores e os vassal- 
tos por todos os graus complicados da jerarchia 
feudal, que era um poderoso elemento de ordem 
no meio das trevas e da incerteza de instituições 
e costumes. 

Mas, se a classe popular entre nós não caiu 
em tão completa servidão como nos paizes de feu- 



esl Ántonin Caetano do Amaral Slom. da Acnd.. Dwem- 
bargador Alborto Carlos da Menezes, Plano do Reforma* de 
Fumes, o sobretudo Ales. Hercul. nu Panorama, tom. VII e 

na Hiat. de Por!., tom. IV. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



dalismo, todavia distinguiu-se sempre das classes 
nobres ou privilegiadas. 

O imposto foi o marco divisório dos dois cam- 
pos. A villania resumia-se no tributo ; a nobreza 
na exempção. 

Os tributos eram de dois géneros : 1.* os de 
sangue; 2.° os de productos, numerário, ou traba- 
lho, que rigorosamente são idênticos. Quatro ex- 
pressões os abrangiam a todos : hoste e fossado, 
serviço militar ; foro, contribuições em dinheiro ou 
géneros, peita, penas pecuniárias ou calumpnias. 
Todas elles recaíam exclusivamente sobre a clas- 
se popular, e nesta sobre uma parte só : sobre 
aquetles que não habitavam dentro dos limites dos 
coutos e honras. Esses na verdade pagavam mil 
espécies de foros, pensões e foragens (directurx}, 
mas tudo revertia em proveito do senhor da ter- 
ra. 

Junto aos padrões que marcavam o âmbito do 
território honrado expirava a acção dos exactores 
e officiaes do rei : passa-los era correr o risco dn 
mutilação ou da morte. 

Estevão Pires de Molues, cavalleiro do julgado 
de Faria, entrando-lhe o mordomo d'el-rei na sua 
honra, enforcou-o; e, indo o alcaide fazer ali uma 
penhora, decepou-lhe as mãos e depois matou-o. 

Os castellos e senhorios, coutados e honrados, 
eram possuídos pelo alto clero e pela nobreza — , 
classes idênticas quanto aos privelegios e á pro- 
priedade, o que forçosamente as aproximava, para 
mutuamente se fortalecerem. 

A' coroa ou ao estado restavam as terras con- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



quistad&s aos Mouros, agora vencidos, e que se 
achavam deshabitadas, as que por crimes ou mo- 
tivos análogos os particulares perdiam para o fis- 
co, e as que caíam no domínio do estado pelo di- 
reito de maninhadego, ou maneria, — pelo qual a 
coroa nas terras que não pertenciam a senhorio 
particular herdava os bens dos villões que mor- 
riam sem Alhos. 

elemento aristocrático embaraçava o, pro- 
gresso da unidade monarcliica ; entre a coroa e 
as classes nobres fere-se unia lucta atroz e te- 
naz, suscitada pelas questões de jurisdição e tribu- 
tos. 

Para sustentarem este duro combate, os reis, 
por instincto da própria existência e desejo de 
predomínio, acharam no povo, cujos interesses 
oppostos o levava a odiar as classes aristocráticas, 
o seu natural alliado. 

Mas, para opporem uma resistência eflicaz, 
reconheceram a necessidade de crear unidades 
moraes, activas e fortes, estabelecendo concelhos 
e dotando-os com foraes. 

Nem sempre, porem, elles foram devidos a li- 
beralidade dos reis. Alguns, como o de Coimbra, 
foram obtidos por violência, arrancados á forca, 
pelas conjurações ou ligas de burguezos, chamadas 
entre nós irmandades {(jermanitatesj, e depois de 
uma lucta em que a auctoridade soberana não le- 
vou a melhoria. 

Os foraes produziram os seguintes resultados : 

1.° creaçào de uma milicia quasi feudal, que 
possuía as terras privilegiadas por foro, com a 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



obrigação tio serviço pessoal militar feito ao rei co- 
mo suzerano commum ; 

2.° o estab3lecimento de uma certa somma de 
tributos, recaindo principalmente sobre os homens 
do povo, que não pagavam essoutro tributo de 
sangue ; 

H.o a união dos villões que dispersos ou desu- 
nidos nada valeriam contra os nobres, mas que, 
ligados por direitos, privilégios e obrigaçõas com- 
niuns, constituíam entidades moraes fortes e acti- 
vas, que podiam luctar com as classes aristocráti- 
cas. 

Alguns escriptores, definindo os foraes, redu- 
ziram-nos a uma única formula, caindo assim num 
erro grave. 

Firam de differentas espécies. 

A principal e mais numerosa eram as cartas 
rie povoação em que se estabeleceram a existência 
e as relações d'essas sociedades elementares, cha- 
madas cmcelhos, com a sociedade complexa e ge- 
ral, chamada nação, ou. com os seus agentes, in- 
cluindo sob esta denominação o próprio rei. Era o 
pacto social, a constituição politica dos municí- 
pios. 

A segunda, menos vulgar, era a d'aquelles que 
eram verdadeiras leis, civis ou criminaas, dadas a 
um concelho, que jã existia ou se formava de no- 
vo, e a que faltavam costumes ou leis consuetudi- 
nárias, que regulassem as relações entre indiví- 
duos, ou que fossem taes que a sua reforma se 
tornasse precisa para estabelecer a ordem e a paz 
dentro do município. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



A terceira, mais frequente que a antecedente, 
era a dos simples aforamentos, feitos coilectivame fi- 
te ou por titulo genérico a um numero de indivíduos, 
determinado ou não, em que se estipulava o foro 
ou pensão que cada morador devia pagar ao se- 
nhor do terreno, quer esta fosse do estado (terra* 
da coroa}, quer do rei (reguengos), quer particular 
(herdamentos). 

Havia ainda outra espécie de foraes, que abran- 
gia todas aquellas, predominando a primeira e se- 
gunda. 

Nem só os reis os concederam. Os bispos e 
cabidos também deram foraes tanto em terras da 
coroa como de património particular, em que ti- 
nham jurisdicção (honras, coutos e behetrias} a dif- 
ferentes povoações, taes como Coimbra e Vizeu {et). 

No commum dos foraes achamos consignada 
a existência de três classes sociaes distinctas : os 
cavalleiros (milites, cabalariij, os clérigos (cleiicij, 
os peões (pedones, peditesj, e estabelecidos separa- 
damente os privilégios e encargos de cada uma 
d'ellas. 

Uma denominação commum as une e nivella; 
uma palavra recorda a estas três jerarchias que a 
face da nobreza e do alto clero são uma só. ViU 
Iões (villani) é o nome escripto indistinctamente 
nas frontes de toda essa plebe, que a nobreza de 
sangue olhou sempre com altivo sobrecenho, não 



cí) Veja se no Archivo Nacional o Corpo Chrono)"KÍ<v>. 
pait. I, Maço I, Documento 2, e na Gav, '20 o Maço 12, II. '•£) o 
o Livro dos Foraes Novos da Beira, pag. 110. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



obstante ser, como ella, egual perante os magis- 
trados, e o rei ter honrado as suas herdades com 
cartas de foro. 

Os cavnlleiros plebeus (milites uillani} tinham 
os seguintes principaes privilégios, que os distin- 
guiam dos outros villões : 

1." exempção das jugadas ; 

2.° não serem obrigados a dar hospedagem 
aos cavalleiros nobres, officiaes do rei, etc, que 
passavam pelo concelho, o que eia um dos grava- 
mes mais duros nesse tempo de rapina e ^inso- 
lência ; 

3.° o receberem parte das multas criminaes 
nos casos em que os culpados eram mancebos, ou 
inalados das suas aldeias, granjas ou quintaãs ; 

4.° n liberdade de irem servir como homens 
cTannas os senhores e nobres, sem que perdes- 
sem por isso os seus privilégios municipaes ; 

5.° o pertencerem-lhe, por via de regra, os 
montados ou os direitos d*elles, nos concelhos on- 
de não eram livres ; 

6.° a exempção de alguns direitos de porta- 
gem; 

7.° em não serem tomados para o fisco os 
bens daquelles que morriam sem fllhos, pagando 
apenas uma ceita somma, a que se chamava nucio 
ou núncio, e ficando exemptos do maninhego que 
sc't recaía sobre os bens dos peões. 

Cumpre advertir que em bom numere de fo- 
raes são abolidos um ou outro d*estes direitos. 

As prerogativas do clero inferior, isto é, dos 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



clérigos que visinhavaiu nos concelhos, e que por 
isso ficavam virtualmente contidos no grémio dos 
villões, são apenas comummente indicadas nas 
cartas de foral pelas palavras — os clérigos ten!iam 
os costumes dos cauallriros (clcrici similiter). 

Os peões, embora não tivessem metade das 
garantias que hoje gosa qualquer cidadão, ainda 
sob um governo absoluto, eram muito favorecidos 
por estas cartas de commum. 

As vantagens que ellas lhes concediam eram 
verdadeiros privilégios relativamente aos habitan- 
tes das terras não municipaes. 

Estavam livres da prepotência e bruteza dos 
poderosos, das suas oppressões e vexames, a que 
a auctoridade publica não jrodia oppor outra bar- 
reira senão o muitas vezes impossível direito de 
resistência, e dos pesados encargos que a ardente 
imaginação da cubica dos poderosos impunha aos 
cultivadores das suas terras. 

Muitas eram as denominações que nos lomes 
se davam aos tributos. 

A jugada, pode considerar-se como o princi- 
pal do paiz, era regulado pela extensão da lavou- 
ra de cada proprietário, tomando-se por b:ise u 
numero de jugo de bois que cada um possuir.. 

A quota variou, segundo os tempos, qualidade 
e local dos terrenos, eera em fructos ou em mo3- 
da. 

D'este tributo estavam isentos, como dito fica, 
os cavallrtiros villões, a quem, em logar d'ell<;. si! 
pedia o tributo de sangue, o fossado, cuja falta tra- 
zia uma pena pecuniária — a fosmidra. 



>,Sitizeot> V GoOg[e 



Se o cavalleiro perdia o cavallo e não compra- 
va outro dentro de um certo praso, descia para & 
classe de peão; as suas jugadas ficavam reduzidas 
á classe de jiigadeiras e todos os seus privilégios 
desappareciam. 

Em alguns concelhos o cavalleiro que perdia 
o cavallo em batalha (in lide) ou ainda num peque- 
no recontro {in alijara) recebia outro do rei. Final- 
ni ite ao que envelhecia e não podia servir por 
essa causa se guardavam os privilégios de classe 
que por morte se transmittiam á sua viuva em 
quanto se conservava em viuvez. 

Outros tributos, que constituíam as dilferentes 
variedades do seiviço militar, eram as hostes, as 
atalaias, as guardas, e ainda as aduas, ou annu- 
duas, ouadnubas, ou aniiduvas, que consistiam na 
obrigação de trabalhar nas obras dos castellos e 
muralhas. 

Alem d'estis, encontramos a portagem, a alca- 
valki, a dizima de penhores, salaios, montados, ma- 
ninhm, moinhos, assougaye, pescado, ijado do ven- 
to, prissagem, pena de arma, mordomatlo, alcaida- 
rin, anaíaria, poios, talha foreira, direitos da etjre- 
ja, luctuosa, direitos de tabelliães, barcas, coimas, 
e collieitas d'el-rei, puçaes de vinho, gallinhas, sol- 
dos, propinas de avençaes, cultura das vinhas do 
senhorio etc. 

A portagem, (pie se pagava dos géneros trans- 
portados de um para outro logar, era o mais am- 
plo e geral. 

A alcaualla, que com este nome se conser- 
vou por muito tempo em Castello e Portugal, 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



passou a chamar-se , siza. Era, diz Arguelles 
(Dicc. de hadenda ad verb. Alcavalla) un derecho 
que se cobra sobre cl valor de todas las cosas mue- 
bles, immuebles y semomentes que se uenden ó yer- 
mutan. Corresponcia ao nosso actual imposto de 
registo ou transmissão, que tem sido regulado e 
ampliado por varias leis e decretos. 

A açougagem correspondia ao que hoje cha- 
mamos real d'agua. 

Alguns dos referidos tributos encontram-se 
nos foraes de Vizeu, principalmente no de D. Ma- 
noel. 



D. Thereza, depois de invocar as pessoas da 
Sanctissima Trindade, diz que, estando em seu 
perfeito juizo, e tendo em attenção a fidelidade e 
os bons serviços da gente de Vizeu, sem coacção 
mas espontaneamente lhe firmava para sempre a 
escriptura de foral (de bano foro et de bona con- 
sueíudina}, em que concedia os seguintes privilé- 
gios. 

O filho menor do militar fallecido possuiria a 
herança de seu pae livre de tributos (in pacej, até 
que chegasse á edade de pegar em armas para ser- 
vir o senhor da terra (domino terre). 

A viuva do militar, fallecido sem filhos, pos- 
suiria também livre de tributos a sua herança, se 
guardasse castidade durante a viuvez. 

O militar que chegasse á velhice gosaria, livres 
de tributos, os seus bens. 

Embora o cidadão tivesse militado uma só vez 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



possuiria, livres de tributos, os seus bens, onde 
quer que fossem situados (cu) 

Os clérigos moradores na cidade possuiriam 
os seus bens em razão da sua qualidade de cléri- 
gos, do mesmo modo que os militares em razão da 
sua milícia. 

O representante da rainha (uicarius meus} só 
poderia julgar as questões que os cidadãos não po- 
dassem ou não quizessem resolver, independente- 
mente da sua intervenção. 

O que contrahisse casamento não seria obri- 
gado a dar qualquer offerta. 

O militar que perdesse o cavallo não seria 
obrigado a apresentar outro dentro de um anno, 
mas se, findo o anno, o não tivesse, seria obriga- 
do á jugada. 

Os que não estivessem isentos da jugada 0uga- 
rios} que viessem aqui habitar ficariam sujeitos ac 
foro da jugada noua. 

Todos os mais privilégios (bonos foros} que os 
habitantes de Vizeu tinham até aquetle dia forarr 
ratificados e confirmados em favor d'elles e doí 
seus descendentes. 

Os mercadores, moradores de Vizeu, pagarian 
o censo, sem obrigação de qualquer outro tributo 

Conclue dizendo que fazia a concessão con- 
tada a firmeza e para sempre e que se alguém di 
sua descendência, filho ou neto, ou parente, 01 



cu} A milícia nesse tempo ora constituída por levas fida! 
goa u concelhos, que eram chamados ás anima Miqunndu er 
preciso. Foi NunaWaree Pereira que concebeu o plano cl 
priínuro exercito real permanente. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



ainda extranho cpiizesse revogar estes privilé- 
gios não lhe seria licito faze-lo e permaneceria 
excommungado e desligado do consorcio da Santa 
Egreja de Deus em quanto perseverasse no mal, 
indo por fim sofírer as penas do inferno «m com- 
panhia de Judas traidor. 



texto latino deste docimiento é : 
In nomine patris et filii et spiritus sancti Ego 
reyina tarisia ildefonsi regis filia uidens et coynos- 
cens fidelitatem et bonum seruicium in komines de . 
viseo. Placuit michi ut facercm itlis firmitatis scri- 
pturam de bona foro et de bona consuetudine quod 
semper inter Ulos sit nullo me cogente sed ex própria 
mea uolumptate alque cum sane mente. In primis 
uos qui estis cines milites istam consuetudinem fir- 
miter dono et uobis usque in perpetuum concedo. Si 
aliquis vestrum mortuus fuerit et filium paruulum 
post se reliquerit teneat hereiitatem suam in pace 
usque dum puer ipse crescat et apprehendat arma 
cum quibas domino terre seruiat. Si filium non lia- 
buerit uxor sua si bonam cmtinentiam in uiduitate 
habuerit obtineat suam hereditatem etiam in pace. 

Et si aliquis miles iam in senectutem deuenerit 
teneat suam hervditatem bene defensam in pace. In 
qualicumque uero parte in tota mea terra heredita- 
tes uestras kabueritis, per unam solumodo miliciam 
illas defendalis ubi nos meauox inuenerit. Et qua/i- 
tam' hereditatem habueritis in Mo arraualde ues- 
tram propriam plantatam uel de hominibus popula- 
tam illam semper defensam habeatis sine aliquo vi' 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



cario. Cleríci autem qui in ciuitatc morauerint co- 
dem modo habeant suas hereditates per suum cleri- 
catum sicut et milites per suam miliciam. Si aliquod 
malurn ortum fuerit inter nos et per nos ipsos emen- 
dare potueritis emendate, et uicariíis meus non 
transeat ad uos sed si nolueritis inter nos cmenda- 
re tunc uicanus meus iudicet uos ad direotum. 

Si aliquam uxorem diicere uoluerit aiiquis n«í- 
lam offrecionem reddat. Ipsi milites qtti in uillas 
morant si aiiquis illorum caualhim suum perdiderit 
nondemandent ilhim usque tn plcnum annum. Con- 
pleto atino si caualhim non habuerit det sua iuga- 
da. Et illas uiganos qui uenerint populare meam 
terram veniant ad fórum de iugada nona. 

Super hec omnia quantos bonos foros uestros 
habuistis usque in istum tempus eciam ex hac die 
Mos firmiter habeatis uos et omnis posteritas ues- 
tra. Et mercatores mei qui morauerint in uiseo 
dent suum censum et Mis nullam iniuriam faciant. 
Totum autem quod superius resonat ego regina ta- 
risia concedo et concessum semper esse firmiter man- 
do. Quisquis uero ex mea proienie filius uel nepos 
tam de víeis projnnquis quam de extraneis hanç fir- 
mitudinem irrumpere uoluerit non ei si-t licitum sed 
pro sola temptacione quandiu in maio perseuerauerit 
excomunicatus permaneat et a liminibus atque con- 
sortio sancte dei eclesie deiectus existat, insuper cum 
iuda proditore in profundum penas perpetim lugeat. 
Facta est firmitatis seriptura mense magii. Era 
M.C.XX.a í." (co). 



cv) Guardou se por muito* séculos no archivo do Cubido 
da Sé de Vizou o uiitograplio d'oste (oral, que Alexandre Hor- 

= 01,-1 ::; ; GOOglC 



No anuo de 1127 ja a rainha T>. Thereza se 
achava ligada a Fernando Peres, conde de Trans- 
tamara, ou como amante (cx) ou como esposa em 
em segimdas núpcias (cy), pois em uma inquirição 
original, ([ue se encontra no Archivo Publico, es- 
cripta em letra gothica-toletana, e que teve por 
objecto os casaes reguengos e outros direitos reaes 
na terra de Vizeu no sobredito anno, se diz que 
entre os enqueredores se achou Monio Mendes 
Maiordomo d' illa regina et d' illo comité, qui ex- 
quisierunt temam de Viseo per mandado d' illa re- 
qina, et d' illo comité domus Fernandiis. 

Neste documento faz-se menção de um terre- 
no, que jaz ad illas incrustladas de Snarva et est 
inde a media d' illa regina (c:). 

No anno de 1128 dominava Vizeu Bermudo 
Peres, irmão mais velho do conde Fernando Pe- 
res (da). 

PRIORES DA SÉ DE VIZEU 
O BISPO UERMEGILDO OU ERMEGILDO 

Deixamos dito que desde Fernando Magno até 
D. Affonso Henriques a Sé de Vizeu foi governade 
por priores, subordinados ao bispo de Coimbra. 



cuhno lis vou com outros documentos para a Torre do Tom- 
bo, d publicou a paginas 360 e 361 do Portugália; monumento 
Matança. 

cx) Documento do Arouca na Mon. Las., puit. III; App. 
Eecrit. n. 12 Alexandre Herculano— Hist. de Poit., tom. I, 
pag. 285. 

cy) Pedmlvos Sete o. tom. I das Escripturaa de Thomur, 
liv. I, fl. 5 Viterbo — Elucidado, veib.- Tempreiros. 

cz) Viterbo, Elucidário, veib. Cruzilada. 

da) Dociim. de Arouca cit.— Alex. Heic. cit. 



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A. acreditarmos o testemunho de muitos escri- 
ptores (db), o primeiro foi D. Teodonio ou D. Theo- 
tonio (1080), devendo ter-se por fabulosa a asseve- 
ração feita por D. Thomaz da Encarnação (de) de 
que Theodorico fora o immediato suecessor do 
bispo Gomes com o titulo de prior. 

D. Theodonio, já com o titulo de prior de Vi- 
zeu, assignou o testamento, que acima transcreve- 
mos, de D. Henrique e de D. Thereza, de quem 
foi muito estimado ; em 1110 lhe fez o mesmo conde 
doação da egreja e passaes de S. Miguel do Fetal, 
como se lè na Chronica de Santa Cruz, por D. Ni- 
colau de Santa Maria (dd). 

Fallecendo em 1112, suecedeu-lhe, quando ti- 
nha 30 annos de idade, seu sobrinho Theotonio, 
que em 4098 havia sido admittido no grémio dos 
cónegos vizienses. 

O padre Leonardo de Souza (de) reproduz a in- 
formação, encontrada noutros escriptores, de que 
de documentos authenticos extraídos do antiquís- 
simo cartório de Lorvão consta que se achava o 
bispo de Vizeu Ermegildo entre os vários prelados 
que assistiram e confirmaram a notável doação, que 
em 19 de março de 1154 o conde D. Henrique e 
sua mulher I). Thereza fizeram ãquelle mosteiro, 
e traduz da lingua latina, em que diz fora escripta, 



db) Co], Castro, D. Nicolau de Santa Maria, Abreu, Bote- 
lho, Gouvea e Fr. Leão do S. Thomaz. 

ác) D. Thomaz da Encarnação na Hist. Ecci. Lyth. 
dd\ Padre Leonardo de Sousa, tom. í, fl. 268. 
lie) O mesmo, fl. 261 a 264. 



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pêra a portugueza, a seguinte parte da mesma doa- 
ção : 

«Inspirando a divina clemência aprouve ao 
conde D. Henrique e a sua mulher D. Thereza fi- 
lha d'el-rei D. Afíbnso fazer graça e testamento 
para sempre ao mosteiro de Lorvão, que é edifica- 
do á honra de S. Mamede e á honra da Bemaven- 
turada Santa Maria, no senhor Eusébio, Abbade e 
nos successores d'elle e nos frades do dito mos- 
teiro juntamente moradores, com todos os testa- 
mentos do dito mosteiro, e porque era trazido de- 
baixo do poder real aprouve a elles lhes 

doam primeiramente tudo quanto ha no circuito 
do dito mosteiro, com estes acrescentamentos abai- 
xo nomeados 

No território de Vizeu a villa de Treixedo com sua 
egreja, e Negozella; e a egreja de Oliveira de Cor- 
rellos, e a villa de Sabugosa, com suas egrejas e 
com o mosteiro de Esperandei (são os sitios dos 
Coitos de Baixo e de Cima) com sua villa e com 
suas terras, e Santa Eulália com suas vinhas e 

com suas egrejas aos quatorze das kalen- 

das dabril era de 1154». 

Devemos ou ter como falsa a informação ou 
como apocripho o documento. 

Quer a sua data designe o anno de Christo, 
(pois era vulgar em muitos auctores escrevera era 
em logar de anno), quer signilique a era de César, 
que correspondia ao anno 1116 de Christo, não 
podia esse documento ser feito naquelia epocha; 
primeiro porque o conde I). Henrique falleceu a 1 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



de maio de 1114; segundo porque na era de 1154 
(anno de Christo 1116) a egreja de Vizeu estava e 
continuou a estar sujeita por alguns annos á de 
Coimbra, succedendo até o bispo d'aquella diocese 
não consentir na eleição que o povo e clero de Vi- 
zeu em 1120 fizeram de D. Odorio para seu bispo, 
e obrigar este a desistir d'essa dignidade; terceiro 
porque no anno de Christo 1154 já era bispo de 
Vizeu D. Odorio, que annos antes havia sido pro- 
movido a essa dignidade por D. Aflbnso Henri- 
ques, continuando a se-Io até ao anno de 1165 em 
que morreu; e quarto, finalmente, porque nos di- 
versos catálogos só descobrimos um bispo de Vi- 
zeu com o nome de Ermegildo, no anno de 981. 

A vida de S. Theotonto foi logo escripta em la- 
tim por um seu discípulo, que não quiz manifestar 
o nome, mas que se julga ser o Mestre D. Pedro 
Alfardo. 

Existiu na livraria do mosteiro de Santa Cruz 
de Coimbra o original authentico desta obra, que 
foi additada por D. José de Christo, vigário e de- 
pois prior de S. Cruz e vigário geral dos cónegos 
regulares, no seu livro intitulado Escada do Cai. 

Tamhem escreveram de S. Theotonio Bollan- 
do no Acta Sanctorum, tomo III, Salazar Tamayo 
no Martyrologio Hispânico, tomo I, D. Jerónimo 
Mascarenhas, bispo eleito de Leiria, O Breviário de 
Évora, impresso em 1548, Ferrario no Catalogo 
Geral, a 18 de fevereiro, Constantino Ghinio, Jor- 
ge Cardoso no Agiologio Lusitano e Martyrologio 
Romano, impresso, em portuguez, em 1591, San- 
doval na Hixtoria da Egreja de Twj, Marietta na 



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Historia de Hexpanha, liv. VI, cap. XLII, Tnigillo 
no Tkesouro dos Pregaiores, tomo II, Fr. Diogo do 
Rosário no Fios Sanctontm, D. Nicolau de Santa 
Maria na Chrnnici dos Cónegos Regrantes de Santa 
Cruz, Vilhegas, Vasconcellos e outros muitos. 

A vida de S. Theotonio, attribuida a Pedro Al- 
iarão, foi traduzida em portuguez por D. Joaquim 
da Encarnação e publicada em Coimbra no anno 
de 1855. 

Nasceu S. Theotonio na quinta de Tartinhade, 
freguezia de G-anfei, junto á villa e praça de Valen- 
ça do Minho, mui próximo da cidade de Tuy, que 
nesse tempo pertencia a Portugal, no anno de 
de 1082, sendo papa Gregório VII e rei de Castel- 
la e Leão Affonso VI. 

Foram seus pães D. Oveco Mogueimes e [). 
Eugenia, que se achavam aparentados com muitos 
reis e nobres da Europa catholica. 

Aos dez annos de idade (1002) é levado para 
Coimbra por sen tio D. Cresconio, bispo d'aquelln 
cidade, e ahi teve por mestre o arcediago Tello, 
que tinha a seu cargo a educação dos mancebos 
nobres. 

Em 1098 morre D. Cresconio, e S. Theotonio 
vem para a Sé de Vizeu, onde se professava o ins- 
tituto canónico de Santo Agostinho, e onde era 
ainda prior outro seu tio, D. Teodonio, a quem por 
sua morte (1112), a instancias do bispo de Coim- 
bra, suecede nesta dignidade. 

Residiu muitos annos em Vizeu, na salla jun- 
to á Sé, onde hoje está o cartório do cabido, pela 
jwrte superior da capelia de Jesus. 



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Em 29 de outubro da era de 4452 (anno de 
1114) assigna com Paio Mendes, procurador de Vi- 
zeu, uma doação (df). 

A sua casa era um abrigo de peregrinos e por 
isso a denominavam o seio de Abrataao. 

Tinha o costume de celebrar aos sabbados a 
missa de Nossa Senhora, e ás sextas feiras de ir 
dizer missa por todos os fieis defuntos na egreja 
de S. Miguel do Fetal, extra-muros, junto ao cemi- 
tério; e a tília assistia quasi toda a população da 
cidade. 

Escrevem Pedro Alfardo e Fr. Diogo do Rosá- 
rio que S. Theotonio fundou o mosteiro de Santa 
Cruz de Coimbra, de que foi primeiro prior, com 
doze companheiros, a saber : 

O B. Tello, cónego regular e arcediago da Sé 
de Coimbra; o venerável João Peculiar, cónego e 
mestre escola da Sé de Coimbra, e reformador do 
mosteiro de Grijú ; o venerável 1). Ayres ou Árias 
ou Alyres Forjaz, cónego regular da Sé de Coim- 
bra; o venerável D. Mendo; o venerável Pedro Al- 
fardo, cónego regular, e depois Preposto ou Pre- 
posito de Santa Cruz, e auctor do Livro Sancto; o 
venerável I). Zalamé Godinho, abbade de S. Tho- 
mé, Senhor de Mira ; o venerável D. Odorio, Pro- 
pósito, abbade ou prior de SancCIago de Coimbra, 
que é o mesmo D. Odorio de Vizeu ; o venerável 
f>. Oveco; D. Theotonio, sobrinho de S. Theoto- 
nio, cónego regular, e depois seu coadjutor no go- 



Uf) Ribeiro Botelho. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



verno do mosteiro, e segundo prior de Santa 
Cruz; o venerável D. Pedro Mendes, cónego regu- 
lar da Sé; o venerável D. Sesnando, de Montemor- 
o-Velho, e cónego regular. 

Fr. Diogo do Rosário assigna a esta fundação 
o anno de 1132, sendo por isso inadmissível que 
S. Theotonio assignasse em 1123 como prior de 
Santa Cruz de Coimbra com os restantes cónegos 
uma carta de venda de certas propriedades, sitas 
no Barreiro, ao bispo de Vizeu D. Odorio, por cin- 
coenta maravedis (dg). 

O prior S. Theotonio fez duas peregrinações a 
Jerusalém. Antes de partir pela primeira vez, re- 
nunciou o priorado da Sé de Vizeu em D. Onorio 
(dli), e, quando voltou não quiz reassumir a digni- 
dade, apesar das reiteradas instancias do mesmo 
D. Onorio, com quem ficou vivendo em fraternal 
união e concórdia. 

Fez por mar uma parte da segunda viagem, e 
esteve a ponto de naufragar junto do promontório 
de Malea na Moreu (Greda). 

Ordenou a alguns dos seus cónegos de Santa 
Cruz de Coimbra que pregassem a doutrina enris- 
ta por todo o reino, e elles, no desempenho da 



dg) Ribeiro Botelho, Dialogo IV, cap. T; png, 335. 

dh) Breviário do Santo Agostinho dos cónegos Re- 
grantes, o Livro dos Óbitos do mosteiro de grijõ de cónegos 
Regrantes e Fr. Diogo do Rosário dizem Onorio, e Honório, 
o que levou alguns e com razão a acrodifnruui que o priorado 
foi renunciado em D. Onorio, a quem suecedeu outro prior 
por nome Odorio, qun depois foi bispo. Botelho.DialogoR. png. 
351 o padre Col. nas Mein. da Ac. R. da Hisl., tomo II. 



>,Sitizeot>vGoOgIe 



sua missão, fundaram os mosteiros e os seminá- 
rios apostólicos de l^irja para a província da Es- 
tremadura, de Seia para a da Beira, e de Arron- 
ches para a do Alemtejo. 

O conde D. Henrique com sua mulher D. The- 
reza, ou só esta, segundo opinião que adoptamos, 
querendo erigir o bispado de Vízeu, oíTereceu ao 
prior S. Tlieotonio a dignidade episcopal que elle re- 
jeitou. 

Gon'.a-se que a rainha D. Thereza costumava 
ir todos os dias ouvir missa ú Sé (pois não havia 
nesse tempo privilégios de oratórios parti calares, 
que s--j comeoaram a ser concedidos quadro sécu- 
los depois pelo papa Clemente VII), e que em cer- 
to dia, mandando pedir pelo seu pagem ao prior S. 
Theotonio que abreviasse a missa, porque necessi- 
tava do tempo para outros negócios, elle dera a 
seguinte resposta : 

«Dizei ã Rainha que no e.su ha outro Rainha 
muito mais excedente a (piem eu determino offe- 
recer esta missa com sumiria veneração e pausa e 
que, se Sua Alteza tem necessidade de tempo, em 
sua mão está o ausentar-se quando for servida». 
A Rainha, terminada a missa, foi á sacristia pedir- 
llie perdão (di). 

E' tradiorjão qiii prógando elle um dia na Só 
d.; Vizeu, reprehendera, amaldiçoara e excommun- 
gára a mesma rainha, então viuva, e o conde Fer- 
nando, por ser sea contubernal -e não marido legi- 



I.ponardn ilo Soujm, tono. I, fl. í 



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timo, e que elles, cobertos os rostos de vergonha, 
saíram á pressa da egreja. 

A este acontecimento faz referencia o sr. Oli- 
veira Martins na Historia de Portugal, attribuin- 
do-o ao Bispo de Vizeu, mas é fácil de ver que er- 
radamente, por não existir então esta dignidade. 

O prior S. Theotonio foi muito estimado por D. 
Affonso Henriques, que aos 29 de outubro de 1152 
prestou o juramento perante elle, os bispos de Bra- 
ga e Coimbra, e, alem d'outras pessoas, os procu- 
radores de Lisboa Affonso Mendes, de Entre-Dou- 
ro e Minho Gonçalo de Sousa, de Coimbra Soeiro 
Martins,^ie Vizeu Pelagius Menendus (Paio Men- 
des) (dj). 

S. Theotonio falleceu em 28 de fevereiro de 
1162, na provecta edade de 84 annos, com testa- 
mento (como era permittido aos religiosos antes 
do concilio de Trento), em que distribuiu os seus 
bens pelos pobres, pela egreja de Vizeu e peia fa- 
brica do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. 

Aos seus funeraes assistiram D. Affonso Hen- 
riques, com toda a sua corte, D. Miguel Paes, bis- 
po de Coimbra, com todo o seu cabido, D. João 
Theodonio, seu sobrinho, e muitos cónegos re- 
grantes. 

Passado um anno depois da sua morte, foi ca- 
nonisado no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, 
reuni n dose ahi para esse fim os bispos do Porto 
D. Pedro Rabaldez, de Coimbra D. Miguel, de Vi- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



211 



zeu D. Odorio, e de Lamego D. Mendo, o arcebis- 
po primaz de Braga D. João Peculiar, e todos os 
cónegos regrantes, que formaram o processo da 
vida e virtudes de seu primeiro prior. 

Esta canonisação foi declarada pelo arcebispo 
de Braga aos 18 de fevereiro de 1163 e confirma- 
da pelo papa Alexandre III. 

Na primitiva egreja, para canonisar, bastava 
o consentimento do bispo, do clero e do povo da 
diocese, mas a canonisação só ahi produzia effei- 
tos. Essa faculdade foi assumida pelos pontífices 
desde Innocencio J1I (ált). 

O clero e o povo de Vizeu elegeram a S. Theo- 
tonio por padroeiro da cidade e de todo o bispa- 
do, sendo esta eleição approvada pelo papa Cle- 
mente VIII. 

Na cathedral celebra se a sua festa de primei- 
ra classe com oitava e dia sancto de guarda. 

Aos 3 de fevereiro de 1603, sendo bispo de 
Vizeu D.João de Bragança, recebeu-se n'esta cida- 
de um braço de S. Theotonio, cujo corpo se con- 
serva em caixão de prata na egreja de Santa Cruz 
de Coimbra, onde egualmente se guarda, separada 
do corpo, em uma urna também de prata, a sua 
cabeça que se põe em exposição n'aquella egreja 
no dia da sua festividade. 

Outras relíquias do mesmo sancto se distri- 
buíram no século XVII por diversas egrejas. A de 



dk) Bellarmlno— Controvérsias. Welilense— Sacraiiian- 
laes. Suai es - Matéria da fé. Benedict XIII— Beatificação e 
Canonisacíic doa Santos. Padre Leonardo de Sousa tom I. 
11.296. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Vianna do Castello recebeu-as em liiiti e reeonlie- 
ce-o e venera-o como seu padroeiro. 

Em Campo de Ourique erigiram-lhe uma egre- 
ja, por se acreditar que as suas orações e conse- 
lhos foi devida a victoria ali alcançada por D. Af- 
íonso Henriques contra os Mouros. 

Desde tempos remotos celebram a sua festa 
as egrejas de Braga, Évora, Coimbra, Leiria, La- 
raego e Algarve, e, fora do reino, as de Tuy, 
Orense e Osma. 

Pio V na bulia — Licel Ecclesía Dei — , pela qual 
concedeu officio e resit própria a todos os cóne- 
gos regulares, qualifica S. Tbeotonio como um dos 
mais insignes mnetos da ordem canónica, por cujos 
merecimentos esta se dilatou por todo o mando c foi 
prodigiosamente illustrada. 

Em Salazar Tamayo podem ler-se varias com- 
posições poéticas, escriptas pelo padre Manoel Pi- 
menta, em louvor de S. Theotonio, e entre ellas 
uma que se refere á trasladação do braço de S. 
Theotonio para Vizeu. 

Na vida de í>. Theotonio, acima referida, vem 
os seguintes dois sonetos, que manifestam a dero- 
ção dos povos por aquelle sancto e a crença no 
auxilio que elle dispensou aos Portuguezes. 

Gloria sois da pátria, Protector 
nosso, c advogado mui singular 
para Viseu e Coimbra se presar 
na posse do vosso mais terno amor, 

I)c todas as felicidade: riuct'ir 
agradecidos vos devem confessar 



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os portttguczes vencendo sem cessar 
aos inimigos da fé com valor, 

O patrocínio continuai', ' 

sol benéfico, para que floresça 

na vossa terra o bem, e nol-o doe. 

Venham de vós as bênçãos e conheça 
vosso poder o mundo, e lã louvae 
por tolos a Deus,- que nos favoreça. 

Vizeu. para exprimir seu jubilo, respondeu : 

Admirae séculos, eelebrae gentes 
tanta gloria que hei recebido 
no braço do pae mais ennobrecido 
canal de bênçãos para os presentes 

Nem já Viseu reputará ausentes 
'>& cidadãos do ccit, pois ê sabido 
ser aqui Theotonio ouvido, 
do qual se queres muita benção sentes. 

Alegre triampho nas viciarias 
(Veste braço, em que a mão direita 

de Deus manifesta suas glorias 

E não vos parece outra t<ez feita 
a maravilha que as historias 
nos ossos de José contam perfeita. 

Corno deixamos dito, o prior S. Theotonio, pou- 
co antes da sua primeira peregrinação aos lagares 
sa netos, renunciou o priorado da Sé de Vizeu em 
1>. Onorio, um dos mais antifíos e virtuosos cóne- 
gos d'esta Sé, que continuou a vivei' em uouimum 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



com os outros cónegos até que falleceu em 7 de 
agosto de 1110 (dl). 

Para o substituir foi escolhido D. Odorio (dm), 
que em 1120 é eleito bispo de Vizeu pelo povo e 
clero d'esta cidade, sem consentimento do bispo 
de Coimbra, que então era D. Gonçalo, ao qiial 
havia sido confiado pelo papa Pascboal II, como 
dito fica, o governo d'esta egreja. 

Com o fim de defender a sua jurisdicnSo veio 
].). Gonçalo a Vizeu e por meio de censuras obriga, 
em presença da rainha D. Thereza e da corte, o 
clero e o povo a obedecerern-lhe e D. Odorio a re- 
nunciar á eleição com a promessa de não consen : 
Ur em que etle ou outro qualquer sacerdote fosse 
novamente nomeado sem seu consentimento, em 
quanto se conservasse leal vassallo de D. Thereza 
e lhe guardasse fidelidade (ti«), assignando a renun- 



dl) Livro da Óbitos do mosteiro do Grijó de Cónegos Re- 
grantes. D. Nicolau de Santa Maria— Chronicados Cónegos Re- 
grantes, diz -Sétimo idus Augusti obíit D. Honorius Praes- 
byter Prior Visiensis - Era MCLV1I,— Botelho, Gouvéa, Col e 
Castro nos Catálogos. 

dm) Col, Castro, Botelho, Gouveia, em seus catálogos, D. 
Nicolau de Santa Maria— Chronica dos Cónegos Regrantes — 
Costa, Geogr. Port., Brandão — Mon Lusit., Brito— CAron. de 
Cister. 

dn) Ribeiro Botelho— Diálogos — pag. 349, padre Leonar- 
do de Sousa— tom. I, pag. 280 v.. Na carta de sujeição doa 
clericos de Vizeu ao bispo de Coimbra (que se lê na Mon. Lu- 
sit. liv. IX cap. I e na Nov. Hist. de Malta part, I § 8.°, e a 
que faz referencia António Caetano do Amaral — Mera da 
Acad. das sciencias, tom VI, pag. 9) diz-se: Vieensis Clerici co 
ram Regina Domna Tarasia, et buis Baronibue... ipso perma- 
nente iti fidelitate lieginae Domnae Tarasiae, sicut Episcopus 
fldelis debet esso suo Regi ot Domino Lerrae. Ve-se daqui 
que a Rainha governava bó. 



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cia os sacerdotes Thedom, Diogo e Estevão, e em 
seguida os ricos homens. 

Faz-se menção de D. Odorio como prior da 
Sé de Vizeu em duas escriptoras existentes no car- 
tório do cabido, uma da era de 1450 (anno de 1121), 
pela qual elle, os seus cónegos, diáconos e subdia- 
conos compram uma propriedade no logar de Ju- 
gueiros.e outra da era de 1160 (anno de 1122), pe- 
la qual lhes foram doadas uma vinha por PaioGo- 
mariz e algumas terras por Pêro Paes. 

Foi o mesmo prior D. Odorio que em 1124 
benzeu e entregou o báculo abbacial ao primei- 
ro abbade do mosteiro de S. Ghristovam de Ala- 
fões por nome Adalberto, por lho haver supplica- 
do por carta o venerável Fr. João Cirita, da ordem 
cisterciense, primeiro abbade que teve o mosteiro 
de S. João de Tarouca (do). 

Ainda assigna como prior a doação de Fraguas, 
feita na era de 1166 (anno de 1128), pela rainha 
D. Thereza a Garcia Garcez (dp). 

Se em todos estes documentos D. Odorio se 
intitula Prior, na escriptura de venda, que já refe- 
rimos, feita, segundo alguns pensam, na era de 
1161 (anno de 1127) pelo prior S. Theotonio e pe- 
los demais cónegos da Sé de Coimbra a D. Od-o 
rio e á Sé de Vizeu, attribue-se-lhe a qualidade de 
bispo de Vizeu. 

Vertida para linguagem vulgar, diz esta escri- 
ptura: «Em nome do Padre, e do Filho e do Espi- 



do) Padre Leonardo de Sousa— tom I, png. '. 
dp) Ribeiro Botelho— Diálogos— pag. 3^8. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



rito Santo, .-Yinen. Esta e u carta do venda e lir- 
meza que eu Theotonio, Prior de Santa Cruz man- 
dei fazer com os mais cxmegos a vós I). Odorio, 
por graça de Dens,6ispo ife Ytzett, e ã Sé deSantt 
Maria de Yizeu daqnella herança qne foi de Men- 
do Vermudo, mie nós temos em o território de Vi- 
zeu na quinta de Barreiros 

nom seus limites antigos, casas, vinhas, terras cul- 
tivadas, e por cullivar, com passaes, montes, fon- 
tes, entradas e saidas, casas de moinhos, e com 
todas as suas pertenças, por preço que de vós re- 
cebamos, convém a sab:ir cincoenta maravedis 
de ouro (dq), porqiip assim aprouve a nós e a 
vós e do preço nos damos por pagos, por não de- 
verdes nada. Feita no mez de setembro Era MCLXI. 
E eu sobredito Theotonio Prior de Santa Cniz. 
com os mais conexos da mesma egr.ya tpie man- 
dámos fazer esta carta deante de testemunhas idó- 
neas, a Qrmamos e assinamos com nossas mãos 
e fazemos este signal (In. 

< lonio explicar a divergência entre este e aquel- 
les documentos quant» às dignidade de Prior e 
de liixpt * 

Conjecturam alguns que o prior S. Theotonio 
chamara bispo a li. Odorio, por considerar canóni- 
ca a sua eleição e nulla a desistência que este fez 
por ter sido extorquida |ior coacção. 

dq) O inar.tve.lt viln oti ii-ii ro il -iii IS ' reh ••» s=n<ln ilc 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Adoptamos antes a opinião dos que sustentam 
que a data do documento é a era não de 1161 mas 
de 1191, (anno de 1153), em que D. Odorio já era 
bispo de Vizeu. O signal A collocado sobre o X 
alterou-lhe o valor, para ficar representando 40 em 
logar de 10. 

Esta interpretação tem em seu favor o teste- 
munho de Fr. Diogo do Rosário que assigna o an- 
no de 1132 á fundação do Mosteiro de Santa Cruz, 
de Coimbra, não podendo por isso haver priores 
naquelle mosteiro em 1123. 

Por outro lado não é de crer que S. Theoto- 
nio quizesse contrariar o bispo de Coimbra, a que 
estava sujeito, e a rainha D. Thereza, que assistiu 
e tomou parte na desistência, nem que attribuisse 
a D. Odorio uma dignidade de que este não usava 
nos documentos em que intervinha. 

Consta que D. Odorio se retirara em 1131 de 
de Vizeu para Santa Cruz de Coimbra e ali fora 
depois Cónego Regular e Prior. Para o substituir 
em Vizeu nomeou o bispo de Coimbra, D. Bernar- 
do, a D. Sueiro Tedom. 

Viveu este em commum com seus cónegos e 
com grande parcimonia, o que era notado pelos ha- 
bitantes da cidade. PayoDias e sua mulher Susana 
Mendes, moradores em Vizeu, para bem das suas 
almas e utilidade dos cónegos, fazem-lhes doação 
de certas propriedades, que tinham no logar de 
Travanca, da mesma diocese. Esta escriptura foi 
assignada pelos doantes, conserva-se no cartório 
do cabido, e é referida por Col no seu catalogo e 
por llrandâo na Monarchia Lusitana. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



D. Sueiío Tedom falieceu no sinno de UB, 
mas a dignidade de Prior na Sé de Vizeu, não obs- 
tante serem restabelecidos os seus bispos, conti- 
nua ainda por alguns annos. 

No cartório do cabido está uma escriptura da 
era de 1190 (anuo de \iò% pela qual Mendo Alvi- 
to e mulher Gontina, Garcia Travesso e mulher 
Madruana. doam á Sé de Vizeu e ao seu Prior Pe- 
dro Godins os prédios que compraram a Pelogio 
Garcia, sitos no Ribeiro e no Carvalho^Moscoso (<k). 
Em 4171 ainda conservava esta dignidade Pedro 
lombardo (dt). 

Pela exlincção dos Priores as suas prerogati- 
vas e obrigações passaram para os Deàes. 



(ia) Piidro Leonardo do Sousa tomo 1 11. 130 v. 
dí) Viturbo— Elutiiliirin— tf. Prestimonio padre Leonardo 
o Sousa— tomo 1—11. 322 v. o 323. 



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r 



VIZEU 

ilfOITUESTOS KISIORIHJS. 



Maximiano Pereira da Fonseca e Aragão 

[[AliEL EM TMKOLOOIA R BACHAREL FORMADO EM DIREITO 
PELA UNIVERSIDADE DE COIMBRA, 
NOS AUDITÓRIOS DE YlZCU, PROFESSOR DE 

opuiA no Lychu Nacional da mesma cidade f, 

IO CORRESPONttKNTIÍ DA REAL ASSOCIAÇÃO DOS 

iiitectos Civis e A bcheolooos Portucukziís 



TOMO II 



Tjirçnpkii "MIMS,, li Mn(i! rratisn li Leni). 

MlffiilRi— CwiMii Ml» (e (Hlveira i Juí Mn Garcia 

Impressores —mm filiem t Mstlno fímu. 

Concliiiu-BB ji impreas.lo d'este Tomo II, âm 6 di 
ngosto de 18W. 



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Desde a fundação da monarchia portugueza 
até ao fim do reinado de D. Fernando 



D. AFFONSO HENRIQUES, quer como conde, 
quer depois de acctamado rei de Portugal, domi- 
nado pelo espirito da epocha, continua a guerra 
contra os Mouros, e, ao passo que lhes vae conquis- 
tando novas e importantes terras, não se esquece 
de fortificar, defender e engrandecer as que cons- 
tituíram a sua herança paterna. 

A cidade de Vizeu, residência favorita de sua 
mãe a rainha D. Thereza, mereceu-lhe especial 
attencâo e cuidado. 

Concedeu-lhe foral, que não teve execução no 
seu reinado, mas que foi confirmado e expedido 
por seu filho e successor D. Sancho I. 

Em alguns escrjptores 1) encontramos a afflr- 



Panorama— Tom. V, pag. 99. 

Co], Castro e Gouvfia nos Catalogou. 

D. Nicolau de Santa Maria, na Chronica da Ordem do» 

Cónegos Regrantes. 

Costa, Corographia Portugueza. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



mativa de que, em consequência das desavenças 
que tivera com sua mSe, D. Aflbnso Henriques 
declarara irrito e nullo o foral por ella dado á ci- 
dade de Vizeu e, em substituição, lhe concedera 
outro. 

Embora não devamos acceitar como incontes- 
tável, por falta de documentos, a primeira parte 
d'esta asserção, não podemos duvidar da segunda. 

E' o próprio foral de D. Sancho que diz: Dou 
t concedo a todos os habitantes de Vizeu jtresentes e 
futuros aquelle foral ou privilegio (boniui fórum) 
que meu pae lhes deu. 

A guerra contra os Mouros da Peniusula não 
tinha por único movei, posto que fosse o principal, 
a conquista. fervor religioso era outro factor 
importante. Restaurada uma povoação, em breve 
ahi se restabelecia o culto catholico, e os monar- 
chas, para remédio de suas almas e das de seus pa- 
rentes e para eternisarem a sua memoria, dotavam 
a respectiva egreja com bens e privilégios, que, para 
abater o poder do clero, por vezes lhe retiravam. 

A Sé de Vizeu foi largamente dotada por D. 
Aflbnso Henriques e sua mulher a rainha I). Ma- 
falda. 

Em 1147 confirmam a mesma Sé na posse de 
todos os bens que estava usufruindo e houvesse 
adquirido por qualquer titulo justo, terminando o 
documento de confirmação por estas palavras e 
signaes: Ego Alfonsus Réx Portugalensis, etuxor 
mea Regina Mahalda, manu nostra hoc scribtum 
subter fir/namus. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



■ Rax 

I tuga 



. ma halda . 
I Re , Bina I 



Magiater Albertua Cancelloríus notavit 1). 

E' assignado por D. Fernando Pirez (que era 
D. Fernando o captiro), mordomo-:nór, do seguinte 
modo: Dão Fernando, cariae Regis Dapifero, hoc 
confirmante 2). 

Em 30 de abril de 1150 doam e restituem ao 
bispo de Vizeu e seus successores todas as herda- 
des compradas, adquiridas, cultivadas e não culti- 
vadas, casas e vinhas, que se continham no ter- 
mo -de Vizeu e pertenciam á dita Sé, assignando 
como testtmuQha, entre outros, Pedro Gombina, 
de Vizeu. 

Encontra-se no cartório do cabido o respectivo 
documento, que, vertido em portuguez, diz: 

Eu Affonso, Rei dos Portuguezes, filho do Con- 
de D. Henrique e da Rainha Thereza, e neto do 
grande Rei D. Affonso, de meu consentimento e vo- 
luntariamente por concessão de minha mulher a 



1) Viterbo— Elucidário— veib. Cruz. 

2) Ibi-Monioma da Curitt. 



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Rainha Mafalda, faço carta de restituição, e eseri- 
ptura de doação e firmeza á Santa e Venerável Sé 
de Santa Maria de Vizeu, e a D. Odorio, bispo da 
mesma Sé, e a todos os seus successores, das herda- 
des compradas, adquiridas, cultivadas $ par culti- 
var, casas e vinhas, que se conteem no termo de 
Vizeu, que pertencem d dita Sé e aos que a ser- 
vem, convém a saber: aquellas que, até ao presente 
dia, o mesmo bispo, ou seus antecessores, ou os clé- 
rigos da própria Sé, ou leigos, compraram ou ganha- 
ram assim por posse militar, como pedestre, e isto 
fazemos tanto para remédio de nossas aliwts, como 
por dadiva e preço de trinta maravedis, que recebe- 
mos; nem se ha de passar por alto que todas estas 
cousas vos Unhamos tirado indevidamente, e também 
retivemos por algum tempo, convém a saber, pedindo 
direitos reaes d'ellas; mas desde este dia nem nós, 
nem nosso filho ou neto, nem algum descendente de 
nossa geração ousará inquietar, perturbar, tirar ou 
diminuir aquellas herdades; e para que isto fique 
firme e valioso api w ouve-nos que se consignasse em 
letras para que assim se conservasse na memoria 1). 
São dignas de notar-se duas clausulas d'esta 



1) O texto latino remata assim : Nec eat procmittendum, 
quod hotc omma vobis colupníali fuimus, et etiam aiiquantu 
per relírúmue, nottra in eis jura Regalia scilicet exigentes, 
Sed ab hae die negue nos, neque filius, negue netos , . . sií 
autua htredítates ilias inquietare, conturbare, ele. 

Daqui se vê que a palavra Calupnia designava as multa* 
que pertenciam ao real fisco. 

António Caetano do Amaral - nas Mem, da Academia R. 
daa Sdenciaa, tom. YI, pag. 36, 146 e 147. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



escriptura: -1.» declarar o monarcha que restituía 
as cousas que havia tirado indevidamente e retido 
por algum tempo, o que indica nào só que elle se 
achara revestido de poder absoluto, mas que já se 
observava um determinado direito, embora fosse 
consuetudinário, quanto aos bens das egrejas; — 
2.* que doava não só para remédio de suas almas, 
mas por dadiva e preço de trinta maravedis, o que 
se costumava fazer n'aquella epocha para maior 
firmeza da doação 1). 

Em 1152 doam os mesmos monarchas á Sé de 
Vizeu o couto de S. Pedro de Mouraz, para remédio 
de suas almas e das de seus parentes, e para á'eUes 
haver n'esta Sé uma sempiterna lembrança, e em 
recompensa de uma mula, avaliada em sessenta 
maravedis, e de mais cincoenta maravedis, que os 
clérigos lhes haviam dado. 

Pro remédio animarum nostrarum, et parentum 
nostrorum, et ut memoiia nostri apud eandem Se- 
dem habeatur sempiterna Dedistis etiam nobis 

unam mulam in sexaginta morabitinos adpreciatam, 
nec non et quinquaginta morabitinos 2). 

Depois do nome dos reis encontra-se o seguinte: 
FernandusPetrÍ,curiaeDapifer, RegisVexiUifer gf. 

E ainda depois: Menendus Alphonsi Sub-Dapi- 
ferOÍ. 

Em 1183 doam ao bispo D. João Pires as her- 
dades de Travanca, sendo a escriptura subscripta 
pelo governador das terras de Vizeu Pedro Rodri- 



1) Padre Leonardo de Sauna. Tom. I, fla. 809 e 810. 

2) lnijiiirico.il de D. Affonao III, no Ardi. Nacional. 
Viterbo - Elucidário — verbis - Itcbora, Mordomo da 

Curía, Podestates. 



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guês — Ego Petrus Roieriã Terrae Visei Praeti- 
dens 1). 

Encontramos em 1152 como juiz das províncias 
de Vizeu e Seia a Monio Mendes — Provinàarum 
Vistensis et Senae Judex 2) , e em 1173 como se- 
nhor de Vizeu e Zurara ao conde Fernando— Co- 
mes Fernandus tenent Terram Vitei, et Zurara 3). 

Por morte de D. Sueiro Tedom, D. Affonso 
Henriques tira a Sé de Vizeu da sujeição dos bis- 
pos de Coimbra, que, durante todo o tempo d'essa 
sujeição, foram D. Paterno, D. Martinho Simões, 
D. Cresconio, D. Maurício, D. Gonçalo II e D. Ber- 
nardo, e em 1144 restitue-lhe a dignidade episco- 
pal e nomeia seu bispo o antigo prior D. Odorio 4), 
que foi sagrado na egreja de Santa Cruz de Coim- 
bra pelo bispo de Coimbra D. Bernardo, monge 

1) Viterbo Elucidário- vereis PodestaUs, Pretor, 

2) InqulriçOeB de D. Affonso III, no Ãrch. Nacional. 

3} Vitorbo-Eíwcidarfo verbis PodestaU*. Parece-nos 
que este conde Fernando não era o contubernal »n segundo 
marido de D. Theresa. 

4) Padre Leonardo de Sousa, - Tom.I, fia. 307 v., 308,511 
o 284.- -Ribeiro Botelho,— Diálogos -pag. 346 e í!47-Doeu- 
mento do Cabido. Mon. Lusit. Part. III, pag. 240. Nomeando 
D. Odorio bispo de Vizeu, D. Affonso Henriques chamou a si 
a attribuiçao que antes era exercida pelo clero e povo da dio- 
cese.-D. Nicolau de Santa Maria, na Chron. da Ordem dos Có- 
negos Regrantes, 1.* parte, fia. 308, rofore-so a uma escripta- 
ra do anno de 1140, na qual, diz, asslgnou D. Odorio, bispo de 
Vííeu.-0 padre Cot, porém, (Mem. da Acud. Ro.il da Hiut, 
tom. II), entendo que o-chania bispo n&o porque então o fos- 
se, mas porque o foi posteriormente, pois d'outra surte D. Ni- 
colau estaria em contmdiucâo coiusigo mesmo em vista do 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



benedictino, chamado o bispo negro, em razão 
do habito que trazia, desistindo este dos direitos 
e posse que tinha a egreja de Vizeu. 

D. Odorio trouxe para seu confessor e chantre a 
D. Gonçalo Garcia, que presidia aos cónegos no cabi- 
do, presidin do- lhes no coro D. Pedro Lombardo. 

Faz menção d'este prelado o foral, dado por D. 
Affonso Henriques ao concelho de Alafôes, que se 
encontra no Archivo Nacional no livro dos foraes 
velhos a fis. 64. Ainda encontramos acerca de D. 
Odorio, como bispo de Vizeu, as noticias seguintes: 

Em 1148 assiste ao synodo de Braga, presidido 
por o arcebispo primaz D. João Peculiar, em que 
esteve presente Boson, legado do Papa Eugénio III, 
que se diz ter rindo á Hespanha convidar os pre- 
lados para o concilio de Rheims 1), e em 1155 com 
seu cabido exime o mosteiro de S. Chrlstovão de 
Alafôes de todos os direitos que pagava á mitra, 
não só porque esta doação era remédio para suas 
almas, mas, principalmente, porque o mosteiro lhes 
havia dado uma peca ou apparelho de meza no va- 
lor de trinta maravedis. Pro remédio animarum 

nostrarum Pro eo quod dedistis nobis ,unam 

luram mensalem obtimam, apreãatam triginta mo^ 
rabitinis 2). 



que diz noutros logares. padre Co), no seu catalogo -(Hem. 
da Acad. Real da Hist., tom. II), diz que uma escriptura do 
convento lie Roíoios dá a D. Odorio o titulo de bispo em 1140, 
o que contradiz todos os outros documentos. 

1) Este synodo foi publicado por Brandão, - Hon. Lusit. 
Liv. X, cap. XXX Historia Eccl. Lusit., secção XII, cap. 3.", 
§ 6.°, que citn o Libtr fiãrí do archivo de Braga. Obras com- 
pletas «o Cu de»! Snrsiva publicadas por António Corrêa Cal- 
deira, Tom. I, pag. 164 (ediç. de 1872). 

2) Viterbo- Elucidário— verb. -Ríbvra. 



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No anno de 1149, cora consentimento do seu 
cabido, compra D. Odorfo a Exemena (Ximena) 
Mendes e a seus filhos Pedro Eriz e João Eríz, 
que ella tivera de D. Ero, a quinta de Fontello por 
25 maravedis, que, segundo os melhores cálculos 
numismáticos, podem ser avaliados em 12)9500 réis 
da presente moeda. 

Assim consta da carta original do archivo de 
Fontello, pela qual ainda hoje se podem verificar 
algumas confrontações 1). 

Desde logo foi esta quinta (assim como Ferro- 
cinto e Santa Eugenia) a residência ordinária dos 
bispos de Vizeu 2), que continuou sem fausto até 
ao tempo do bispo D. João Homem. 

Em fevereiro de 1159 confirma a doação do 
castello de Cera e de todos os seus termos, a qual 
D. Affonso Henriques fez aos Templários para o 
povoarem 3). 

Em 1162 com o seu cabido liberta a egreja de 
Muimenta de Frades (que era e continuou a ser a 
egreja do mosteiro até ao anno de 1168, em que 
o abbade Soeiro Theodoniz a mudou para Macel- 
radão) de todos os tributos ou direitos, de dízimos, 
de luctuosas e de oblatas.— Habeatis igitur vos et 
omnes vestros successores supradictum locam de cae- 



1) Esta carta é feita em pequeno pergaminho e em «stylo 
eommnm d*nquelle tempo. — Padre Leonardo do Sousa, tom. 
I, ti». 308, v,— Oliveira Burnido,— memoriíi* msa., que doou á 
camará municipal de Vizeu. 

2) Tombo velho do Cartório do cabido, fie. 17, 33, 61 e 63. 
Oliveira Bsrardo.-citartan memorias mas. 

3) Vitorbo -Elucidário - verb.— Tempreiros. 



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tero tíberum, et absolutum, et ab omni debito, et 
jure Decimarum, Mortuarinrum, et oblationum, om- 
nino de omnibus rasum. Verumlamen, ad exce&sua 
corrigendos, vocati a vobis, venire tenemur \), 

No mesmo anno (1162), também com consen- 
timento do sen cabido, empraza, com foro de sex- 
to, e nada mais, um campo entre Fontello e Gu- 
mirães a Gonçalo Fernandes, pelos bons serviços 
que lhe tinha feito, mandando de sua casa quem 
o acompanhasse já por três vezes na expedição 
do Fossado, bem como a sua besta. Consta este fa- 
cto do Tombo Velho da Sé que diz assim : In No- 
mine Dni. Amen. Haec est Carta Donationis, et fir- 
mitudinis, quam Ego Odorius Visens. Eps., una 
cum Petrq. Lombardo, S. Mariae Priori, et Cano- 
nicorum consensu, feci Ubi Gonsalvo Fernandi, jtro 
bono aervitio, quod mihi fecisti per novem annos, 
et de tua casa jussisti mecum in Fossado tribus vi- 
àbus cum bestia tua, de Uio Cawpo, etc. 

O Fossado consistia am :iair com mão poderosa 
e armada a talar ou colher as novidades e fructos 
que os inimigos haviam agricultado. Apoderados 
do campo, entrincheira vam-se ligeiramente em val- 
les ou fossos, contendo-se unicamente na defen- 
siva e guardando as costas aos que se óccupavam 
na extracção dos frtictos e forragens. 

Esta palavra deriva talvez de Fmánagar, que 
na linguagem Longobarda significava campo culti- 
vado e cheio de pastos e renovos. Compunha-se o 
fossado não só de cavalleiros, escudeiros, tropa 



1) Ibi-Terb.-jiW><KÍe it<*r/i<aU; uut. ' 



>,„itize< ::; ; GOOglC 



regular, mas também de peões, aldeanos, e gente 
de lavoura para colherem ou conduzirem a preza 
ou tomadia. Os príncipes e bispos também iam a 
estas expedições, que se faziam de improviso, o 
que" se nào julgava desairoso. 1) 

D. Odorio concede ao mosteiro de S. Christo- 
vão de Alafões a egreja da villa de Valtadares, co- 
mo se via de uma bulia do papa Alexandre III de 
1163, que existia no dito mosteiro (Liberal n,» 7/, 
e que, provavelmente, se queimou com outros pa- 
peis no incêndio do Seminário de Vizeu em 1841. 

Ern 1163 assiste, como já deixámos dito, com 
outros prelados do reino, á canonisação de S. Theo- 
tonio no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, e 
desde então tté que falleceu nào se encontram 
mais noticias suas. Alguns àuctores dizem que fal- 
lecera em 7 de dezembro de 1169—2); outros, po* 
rém, em 5 de dezembro de 1166— 3). Adoptamos esta - 
ultima opinião, já porque se baseia no assento dos 
óbitos e na Chronica da Ordem dos Cónegos Regran- 
tes, já porque em 1168 era bispo de Vizeu D. Frei 
Gonçalo e não consta que D. Odorio tivesse re- 
nunciado o cargo. 

D. Odorio, pelas suas liberalidades e virtudes, foi 
cognominado o Bispo Santo 4), e as memorias da 
sua vida não passam do anno de 1166 — 5). 

1) Viterbo - Elucidário - verb.- Fossado. 

2) Chronica da Conceição em Portugal-maa, -Oliveira 
Berardo,— cit. memorias. 

3) Padre Leonatdo de Sousa.-Tom. I, Os- 312. 

4) Ibi.-fls. 811. 

6) Mon. Lusit. Part. III, pag. 311. 



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Succedeu-lhe D. Fr. Gonçalo, monge do mos- 
teiro d' Alcobaça, então da Ordem de S. Bento 1). 

E' aqui logar próprio para notar o equivoco de 
Ribeiro Botelho que o diz Chantre da Sé de Vizeu, 
confundindo-o com Gonçalo Garcia 2). 

nome do bispo D. Gonçalo acha-se em uma 
escriptura de compra do Casal de Magarellas, de 
junho de 1168—3). 

Em outubro de 1169 confirma com outros pre- 
lados do reino a doação dos castellos de Cardiga 
e Thoraar, feita aos Templários por D. Affonso 
Henriques, seu filho D. Sancho e suas filhas 4). 

Aos 18 de maio do mesmo anno assiste, com os 
bispos do Porto e Lamego e com o arcebispo pri- 
maz de Braga D. João Peculiar, á sagração da egreja 
de S. João de Tarouca 5), como o attesta a inscri- 
pção d'uma lapide collocada sobre a porta princi- 
pal d'esse templo, que diz: 

E. MCCVII—XV /calendas junii dedicata fuit 
ecclesia ista per manus Joanis Bracharensis Archie- 
piscapi, et Petri III Portugalensis; et Menendt La- 
mecentis, et GundisaXvi Visensis Episcoporum 6). 

Também era 1169 esteve no arcyprestado de 
AlafOes onde confirmou o foral que D. Affonso 



1) Cit, Col • Brito. Branda», -Mon. Lusit, Part. III, p. 310. 
D. Thomaz da Encarnação. D. Nicolau de Santa Maria. 

2) Padre Leonardo de Sousa. -Tom. I, fia. 319. 

S) Mas. da continuação da Chron. da Conceição em Por- 
tugal e padre Col. 

*) Viterbo - Elucidário - verb, - Tempretro». 

5) Padre Leonardo, -Tom. I-fls. 319, v. 

6) Mon. Lusit. -Part. 111, u. :til. 



>,sitizeot> v GoOgIe 



Henriques deu á villa de Unhares. Os bispos n'a- 
quelle tempo acompanhavam a corte e assignavam 
as mercês i; doações que os reis faziam 1). 

Dizem que ha memoria (Teste prelado, por ou- 
tras escripturas, Brandão nn Monarchia Lusita- 
na 2) até 1174, Ck>l no seu Catalogo até 1176, Ma- 
chado nos Fastos da Lusitânia até 1177, mas deve 
ter-se pt certo que ha erro de data e que elle 
renunciara o bispado em 1170, recolhendo-se ao 
seu convento de Alcobaça, visto como por outros 
documentos se prova que entre 1169 e 1176 hou- 
ve em Vizeu dois bispos: D. Marcos e D. Godi- 
nho 3). 

No livro dos óbitos de Santa Cruz de Coimbra 
diz-se : Idibus Januarii obiit Donnus Gonçalvus Vi- 
sensis Episcopus, Síonachus Sanctae Marias de Al- 
cobatia 4). 

O único documento que nos testimunha a exis- 
tência de D. Marcos como bispo de Vizeu é a bulia 
da beatificação de S. Rosendo, natural do Porto e 
bispo de Mendonhedo e de Dume, passada a ins- 
tancias de D. AfTonso Henriques, dos reisdeHcs- 
panha e de muitos prelados, entre os quaes D. 
Marcos 3), a qual Yepes, tomo V, cap. 11, trans- 
creve, sem data, af firmando ter sido passada em 
1170, pouco mais ou menos. 

Para essa solemnidade juntaram-se os prelados 

1) Brito— Chronka de Cister.— Padre Leonardo de Sousa, 
-Tom. I, Ah. 319, v. 

2) Mon. LubU., Parte III, pag. 311. 

3) Padre Leonardo de Sonsa,— Tom. I, fls. 320, v. 

4) Ibi,-fla. 321, v.- Brandão -Mon. iwsií.Part. m, p. 310. 



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13 

com o cardeal, legado apostólico do Papa Alexan- 
dre III, por nome Jacintho, no mosteiro de Cella 
Nova, da Ordem benedictína, que ficava junto da 
foz do rio Lima 1). 

Q BullaHum Magnum de Cherubiuo não tracta 
d'esta beatificação, mas d'ella fazem menção os au- 
ctores que citamos na nota 1), e, além d'elles, 
Cunha no Catalogo dos bispos do Porto e Fr. Dio- 
go do Rosário. 

O bispo D. Godinho, a quem chamavam— O Fi- 
dalgo — , com consentimento do prior da Sé, Pedro 
Lombardo, e de todos os seus cónegos, vendo que 
D. Domingos Annes Ruxverda (ou João de Res- 
verda) estava já entrado na velhice, sem beneficio 
ecclesiastico e sem retribuição alguma d'aquelles 
a quem mui fielmente havia servido, reconhecen- 
do-o por um sujeito cheio de piedade e arrojado aos 
braços da pobreza, e lembrando-.se que d'elle Unha 
recebido noventa maravedis, que mandou para a 
egreja de Santa Maria de Trancoso, que de novo 
se edificava, e empregou na compra d'algumas her- 
dades e de outras cousas de utilidade para a Ca- 
thedral de Vizeu, á qual tinha egualmente doado 
uma herdade em Silvares para seu anniversarlo, 
admittiu-o em 1171 a uma conezia, dando-lhe em 
prestimonio o couto de Mouraz com a sua egreja, as 



1) Ool,- Catalogo (nas Memor. da Acad. Real da Hist.- 
Tom. II)— Gouveia e Castro— Catalogou.- -D. Bernardo da An- 
nunclaçao na Colkcção Académica Litúrgica. D. Tnomaz da 
Encarnação,— Bist. EccL— Padre Leonardo de Sousa, tom. I 
fia. 322. 



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14 



villas de S. Miguel, de Castello e Cernada com o seu 
couto e com todas as suas pertenças emquanto fosse 
vivo, com a condição de ficarem á egreja de Vizeu, 
por sua alma, todos os bens licitamente adquiri- 
dos, que por sua morte lhe fossem encontrados 1). 

Ignora-se a data em que falleceu D. Godinho, 
mas por varias escripturas ha noticias suas até ao 
anuo de 1179-2). 

Em 1180 já era bispo D. João Pires, pois n 'es- 
se anno D. Àflbnso Henriques poz termo a uma 
demanda que corria entre elle, o mosteiro de Se- 
ver e outros, por causa da herdade de Rocas ou 
Rochas, em terras de Sever, determinando que 
ficassem siiis casaes para a Cathedral de Vizeu, e 
os seis restantes para as outras partes litigantes 3). 

Foi a este prelado que, como acima dissemos, 
D. ÃfTonso Henriques doou a herdade de Travanca. 

D. João Pires, com outros bispos, confirma 
duas doações feitas por este monarcha em 1185, 
uma á Sé de Évora 4) e ao seu bispo eleito D. Paio, 



1) Existe o documento no archivo do Cabido.— Oliveira 
Borardo, cit. tneinoriatt.— Viterbo— £ít«:f(íario—vérb.—Prea- 
tiraonio.-J. Co\,— Catalogo (nas Memorias da Academia Real 
da HiatJ-Tom. II. -D. Nicolau de Santa Maria, na Chronica 
da Oídem dos Cónegos Regrantes — Usa. da continuação da 
Chronica da Conceição. Padre Leonardo de Sousa,- Tom. I, 
As. 822 v. e 828. 

2) J. Col, olt,- Mon. Luait.-Tom, IV. fia. 16.-Car»alho, 
Coroar. Port.—D. Bernardo da Annunciuç&o,- CoU, Aead. 
JAturg.—D. Thoinaz da Encarnação,— Hisl. Eeci.- Botelho, 
Qouvea e Castro nos Catálogos. 

3) Yiterbo.-Elucidario-verb. Exquisa. 

i) Brandão,- Mi.n. Lusit. Part. III, pag. 359. 



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tò 



e outra ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra d), 
e n'esse mesmo anno consagra a egreja de Silguei- 
ros, como consta do primeiro livro das doações 
do Cabido 2), do qual se vê que Deganil e sua mu- 
lher D. Sancha Gonsalves em setembro de 1185 fize- 
ram escriptura, onde se diz: que fundam a egreja de 
Santa Maria de Sírgueiros n'uma sua quinta com 
a condição de ser nomeado sempre prelado ou 
abbade da sua geração ; que fizeram consagra-la 
pelo reverendo padre D. João, por mercê de Deus, 
Bispo Visense; e que por essa consagração lhe 
ofterecom e dão um casal, etc. 

tFundamus Ecdesiam S. Marie in una nostra 
quintana. . . tali pacto. . . quod sempre in ipsa Ec- 

clesia sit PrelatuSfSeu Abbas, de nostro genere 

Et fadmus eam oonsecrari per Reuerendwm, Pairem 
D. Joannem Dei gratia Episcopum Vi&emem. Et 
pro ipsa consecratione offerimus et damus ipsi Epi$- 
copo umtm casalem, etc. 3). 

D. Affonso Henriques falleceu em 6 de dezem- 
bro de 1185, deixando um codicillo, feito em 1179, 
que se guarda no Cartório do cabido de Vizeu 4). 

Seu filho D. Sancho, ao terceiro dia da sua 
morte, chegou a Coimbra para subir ao throno que 
havia sido firmado á custa de tantas fadigas. 

Nos dois primeiros annos do seu reinado não 

1) Ribeiro Botelho, - Diálogos - png. 364 e 366— lion. 
Liiait., 8.* parte. Padre Leonardo de Sousa, Tom. I, fia. 327. 

2) Padre Leonardo de Sousa.-Tom. I, fls. 327. 

3) Memorias da Acadora. Boal da IlisL-Tom. VI, p. 49. 

4) Viterbo--- ÈZucíiíat-io-Azirnela, Uozmodia, Rocas. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



houve perturbações de gravidade, quer internas, 
quer externas. Dedicou-se por isso a prover acti- 
vamente ás necessidades internas do paiz, restau- 
rando ruinas de antigas povoações, desertas ou 
quasi desertas, fundando novos castellos e villas, 
e dando a muitos concelhos foraes, que são outros 
tantos padrões de liberdade popular, a cuja som- 
bra resurgem, engrandecem-se e progridem mui- 
tas localidades. 

Nos districtos da Beira, foram dotados com fo- 
raes os concelhos de Gouvêa, Covilhã, Avô, Fel- 
gosinho, Valhelhas e Vizeu 1). 

O foral de Vizeu, expedido de Santarém em ja- 
neiro de 1187, concedido ein nome de D. Sancho, 
de sua mulher D. Dulce, de seu filho D. AfTonso, 
de suas lilhas D. Sancha e D. Theresa, a todos os 
habitantes presentes e futuros de Vizeu, com a 
declaração de ser o mesmo que lhes havia dado 
D. AfTonso Henriques, foi confirmado em 1187 pelo 
Bispo D. João Pires. Conserva-se copiado no Ar- 
chivo Nacional no Livro dos Foraes Antigos de San- 
ta Cruz de Coimbra e no Livro dos Registos de 
Affonso II. Também no mesmo Archivo lá se en- 
contra um exemplar do século XIV. 

Fazem referencia a este documento e citam al- 
guns dos seus trechos Alexandre Herculano — Hist. 
de Port., Tom. IV, pag. 108. — Viterbo, Elucidário, 
verbis Caualleiros e Fazenda Real, e António Cae- 



1) Ditiaert. Chronol. de J. P. Ribeiro, Tom. III, Part. I, 
,«■ 567, 569, 674, 677, 681, 582 e 591. 
Alex. Rorc.-Híst. de Port., Tom. II, pag. 13. 
Ruy de Pim-Ckron. de D. Affimao Henrique», cap. XVIII, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



tano de Amaral,- Memorias da A 
Historia, Tom. VI, pag. 37, e acha-; 
inteiro no Portugaliae Monumento 
460, d'onde o transcrevemos. 

Contém as seguintes notáveis i 

Impõe uma multa pesada (VI 
qualquer extranho que nas terras 
acompanhado de três ou mais hor 
na mão. 

Divide a população em classes, 
clérigos, cavalleiros, peões e mercadi 
te os cavalleiros e os clérigos e os % 
dores e as mulheres não sejam pve 
modo nem expoliados dentro ou 
e mais adeante : 

«0 cavalleiro ou clérigo e eguat 
dores e peões que possuírem casas 
tenham-nas isentas da obrigação a 
ao rei. 

Declara não poder ser exigido 
dois annos ao morador da cidad< 
mas, se, findo esse praso, não o ti 
sendo peão, até que o adquira. 

Concede ao militar de Vizeu, q 
pobreza não possa ter cavallo, e á 



1) Os mercadores eram a classe mi 
aos homens da rua, aos habitantes dos t 
com mareia es. Leis posteriores aos fora» 
de nobres aos negociantes d« grosso trac 
sem ao retalho e pelo meurto em lojus, t 
Lobão, -NoUs a Mello, tom. I, pag. 332, 



>,sitizeot> v GoOgIe 



ià 



que possuam seus bens livres como óVantes eram. 

Faculta aos militares venderem livremente a 
sua herança a outros militares e garante-lhes a 
posse das suas terras, onde quer que sejam situa- 
das, embora tenham militado uma só vez. 

Obriga o peão que vender a sua herança a ou- 
tro pefio a dar a decima parte do preço 1) ao Senhor 
da terra, salvo vendendo por urgente necessi- 
dade, mas o militar poderá vender sem pagar cou- 
sa alguma. 

Impõe a multa de sessenta soldos a todo aquelte 
que, irado, usar ou puxar por arma contra o seu 
risinho; de quinhentos, matando-o dentro da cida- 
de; e de trezentos, fora d'ella. 

Isenta do pagamento de qualquer indemnisação 
pelos prejuízos causados por seus filhos, parentes, 
familiares ou extranhos, o dono de cuja casa tive- 
rem saido, quando a ella não voltem. 

Exime do pagamento do tributo real as casas 
sitas em Vizeu e possuídas pelos militares, cléri- 
gos, mercadores e peões. 

Probibe que os cavallos reaes entrem nas ca- 
sas dos cavalleiros contra sua vontade. 

Impõe a multa de cinco soldos em favor do 
Senhor da terra ao que roubai- violentamente car- 
ne de azaria 2) alheia, ou ferir o carniceiro; e ap- 

1) Kr» o laudemio, que depois encontramos em quasi to- 
dos os emprazamento?. 

2) Azaria, n'este logar, parece significar açougue, posto 
que Viterbo no Elucidário diga que eram as sortidas das pra- 
ças quê os Ctiristâos, acompanhados de guardas que os defen- 
dessem dos Mouros, faziam para irem buscar lenha. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



plica a mesma multa aos que procederem egual- 
mente para com os sapateiros, padeiros e merca- 
dores. 

Eguala a medida do celleiro de Vizeu á do de 
Coimbra. 

Determina que, se fallecac algu;n tributário (ren- 
deiro, foreiro ou pensionario), deixando doi8 ou 
mais fdhos, deverão estas escolher d'entre si um 
que pague a pensão de todo o casal, — sexta parte 
do vinho e sexta parte do linho — , ficando seus 
irmãos responsáveis para com elle pela sua quota 
parte i). 

Estabelece que, se algum tributário, assim ho- 
mem como viuva, cair em pobreza, e o mordomo 
entregar a outrem o casal para o cultivar, essa tri- 
butário receba metade da ra-jão (ou fructos), e o 
novo cultivador a outra metade. 

Substitue a obrigação do tributo da jugada ao 
celleiro {real, já se vê) pelo pagamento de uma 
taleiga em cada moio. 

Concede aosclerigos de Santa Maria da Sê hon- 
ras e privilégios, quanto a bsns, eguaes aos dos 
cavalleiros ds Vizeu, e prohibe-lhes fazerem preces 
pela família real ou pur todo o povo r;nristão a não 
ser no altar da bemaventurada Virgem Maria. 

Impõe a multa de sessenta soldos áquelie que 



1) E' a instituição do encargo de cabecel, que se generii- 
liaou em todo o paiz. ainda nos contractos particulares do cm- 
prazamento.e cuja existência, depois da promulgação do cudigo 
civil, 6 muito discutida, mesmo pelo que respeita ais contra- 
ctos anteriores. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



entrar violentamente, com armas na mão, em casa 
alheia. 

Liberta os mesteiraes ou operários da obriga- 
ção de trabalharem gratuitamente para qualquer 
pessoa, salvo nas aniiduvas para os reparos dos 
muros do próprio castello, mas, n'este caso, ao Se- 
nhor incumbe apromptar as ferramentas, não de- 
vendo os villões contribuir senão com o trabalho 
braçal. 

Prohibe que o prestameiro ou tenente da cida- 
de exija dos visinhos gado, aves ou outras quaes- 
quer victualhas, e ainda hortaliças, que deve ir co- 
lher nas hortas da coroa para elle reservadas; e 
que, sob qualquer pretexto, se apodere das caval- 
gaduras particulares, ainda no caso de expedição 
militar. 

Dispõe que, se qualquer mulher violentada não 
apresentar em juizo a sua queixa, o delinquente 
não será obrigado a pagai' indemnisacão pela vio- 
lência. 

Auctorisa os moradores da cidade a venderem 
os seus prédios, quando d'ella se ausentarem para 
irem viver noutra terra. 

Declara não poder ser encerrado na alcáçova 
o visinho culpada, qae tenha bens sufficientes 
para garantia da respectiva multa ou der liador. 

Não admitte aposentadorias no recinto da ci- 
dade. 

Quanto a magistraturas e demais cargos deter- 
mina: 

que os moradores de Vizeu, cavalleiros e cléri- 
gos, peões, mercadores e mulheres que commet- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



21 



terem delicto, punido com multa, sejam citados da 
parte do juiz e venham ao tribunal para serem jul- 
gados por elle e por os homens bons ; 

que não se nomeie alguém por mordomo, juiz 
ou serviçal da cidade, contra a vontade de seus 
moradores ; 

que os cavalíeiros ou peões que mutuamente 
se espancarem e quizerem sujeitar-se ao julga- 
mento de seus visinhos não paguem multa, mas 
dêem reparação uns aos outros, conforme a deci- 
são dos homens bons; 

que o saião e o mordomo não ponham caritel 1) 
sem irem acompanhados do auctor e de testimu- 
nhas, e levem só cinco soldos de o pôr. 

Vemos, por tanto, em Vizeu um juiz, que pare- 
ce nomeado pelo rei, ou talvez pelo rico homem do 
districto, e que julgava com uma espécie de jury: 
o dos homens bons. 

Estes mesmos podiam constituir por si sós tri- 
bunal, como juizes árbitros. 

Havia, porém, acima tanto d'elles como do juiz 
municipal um magistrado juiisdiccionat, visto que 
nas querellas os litigantes podiam appellar das suas 
sentenças, sujeitando-se ás multas judiciaes. Este 
magistrado era evidentemente o juiz real da co- 
marca ou districto (judex regis vel terraé), dele- 
gado do poder central, do rei como chefe da jus- 
tiça, e devia residir na cabeça do districto. 

Esta entidade saía por isso da orbita municipal. 



1) Caritel parece significar aqui a marca posta no objecto 
penhorado por execução da divida. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Não assim o mordomo ou executor particular da 
villa (ou cidade), o saião ou official de justiça, e o 
serviçal ou servente do mordomo, cujos diversos 
ministérios deviam ser exercidos por índividuos da 
povoação, e por isso exclusivamente no âmbito da 
municipalidade, embora nao fossem eleitos por 
elia 1). 

A fim de que os eruditos possam apreciar me- 
lhor o foral dado a Vizeu por D.' Sancho I, para 
aqui o trasladamos tal como se encontra no Por- 
tugaliae Monumento, Histórica. 

V I Z li V 

1187 

Forate Viseense altcrum in Publico Archivo serva- 
tur descnptum in Lib. Foral. Antiquor. S. Cru- 
éis et tn Ltb. Regestor. Alphonsi II. Aliud exem- 
plar ibi invenitur initii saeculi XIV. Ex primo 
exemplari textum decerpsimus, ex aliis lectiones 
varias 2). 

In Dei nomine. Ego Sandia dei gratia Port. 
Rex magni Regis dotnni Alfonsi et Regina domne 
Mahalde fitius una cum uxore mea Regina domna 
Dulcia, et filio meo Rege domno Alfonso, et filiabus 
méis Regine domna Saneia, et Regina domna Ta- 



1) Alexandre Herculano — ffisf. de Portugal — Tom. IV, 
pag. 108 e 109, e 308 e 309. 

2) Para não avolumarmos este nosso trabalho, auppri- 
mimos as varina licçõee de muitas palavrus de que nos da 
noticia o Portngaliae Momim. Hi»t. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



rema: do atque concedo omnibus populatoribus de 
Viseo presentibus et futuris illud bonum fórum quod 
eis pater meus dedit, sicut in subsequentibus conti- 
netur. Maniamus atque concedimus terre de Uiseo 
ut si aliquis extraneus terram de uiseo cum armis 
eurrerit cum tribus nominibus et supra pectet VI 
mille modios: et cabalarit et eleriei et pedones et 
mercatores et mulieres non sint capti aXiquo modo 
neque raubati intus uiseum neque foris. Sed si ali- 
quam fecerint calumpniam detur eis sigitlum iudi- 
cis, et veniant aí concilium et iuiicentur a bonis 
hominibus et a iudice: et nullus homo neque domi- 
nus terre per uim hominibus terre de viseo suum 
caballum accipiat. Et si miles militi hereditatem 
uendere noluerit sit libera. Et m quacumque parte 
tocius regni mei milites de uiseo hereditates habue- 
rint per unam solummodo militiam, illas deffendant. 
Et de militibus qui in uilla morantur mandamus 
ut si aliquis eorum caballum suum perdiderit, non 
exigatur ab eo cabcUlus per duos annos. 

Completisque 11.'"'* annis si caballum non ha- 
buerit, sit peies quousqus caballum htbeat. Et mi- 
lites et eleriei qui in ueten civitate de viseo casas 
habuerint, possideant eas sine regali faoienda. Et 
mei'catores et peãones similiter. Èt in casas da ca- 
ballarius non intrent c&balli domni Rcgis per for- 
niam. Et si miles de civitate iiisei in paupertate de- 
uenerit, aut mulier alicuius illorum uidauerit, et 
cmalariam facere non potuerit, eorum hereditates 
sicut prius erant sint libere. 

Et si pedes pediti hereditatem suam uendere no- 
luerit, det X. 1 partem precii domino terre: et quan- 



;gi,7 5t ::; ; GOOglC 



dam partem hereditatis prapter argentem inopiam 
uenderit nichil det de ília. Et si miles suam uende- 
rit hereditatem similiter nisi det de illa: et si aliquis 
de alia azaria carnem per mm rapaerit aut in eam 
carnificem percusserit domino terre sólidos pectet. 
Et de zapatariis, et de panetariis, et de mercatori- 
bus similiter mandamus. Et milites et pedites qui 
in civitate visei habitauerint, si se ad inuicem per- 
cusserint et in iudicio uicinorum saorum adquiescere 
uoluerit nichil pectet sed sibi ai inuicem iudicio bo- 
norum hominum satisfaciant. Si autem iudicio suo- 
rum uicinorum uel sui iudicis adquiescere noluerit 
pectet calupniam quam fecerit. Et quicumque in ci- 
vitate uisei arma abstraxerit per iram contra uici- 
num suum pectet LX* solidas. Et qui ibi hominem 
occiderit pectet D sólidos: et pra ro.vo CCC sólidos 
et totum illud pectet per apreciamentum sine alie 
terno. Et si extra ciuitatem hominem occiderit pe- 
ctet CCC sólidos. Et si mulier rausata usque novem 
dies in concilio querimoniam suam non monstraue- 
rit, nemo pro rauso Mo aliquid pectet. Et rausum 
antea sít exquisitum per idirectum et postea iudica- 
tum. Et si de casa alicuius uestrum filius aut pa- 
rentes aut mancipum aut aliquis extraneus exierit 
et aliquam calupniam fecerit et ad domum unde 
exierit reversus non fiterit ille de cuius casa exierit 
nichil pectet p~o illo. Et maioriomus nec iudex nec 
seruiãarius non ponatnr in terra nisi ille qui gra- 
tuito ibi esse uoluerit neque dent X» nist ex quo 
fuerit caupti. Et mensuram de cellario uisei tahs sit 
qualis fuerit de colimbi'ia: et sit sine ulla defensio- 
ne. Et dent heiradigam de uino,de tribus mod : is 



;gi,7 5t ::; ; GOOglC 



puzalem, et non plus. Et s- homo tribittarius mor- 
tutu fuerit, et habuerit duos filios aut plures, filii 
cus inter se unum eligant qui Mum censum adim- 
pleat qttod pater eontm dare solebat de suo casale, 
et fratrei sui respondent e>. De mil : tibm simUiter 
mandamus. De uino sextam partem tribuant: de li- 
no simU-ter: de prova de porra XV sólidos. Et de 
càballariis et de cabaltos XXX sólidos. Et si aliquis 
cum aliquo vsstrum altercatus fuerit, et ad iura- 
mentum deuenerit, de iuramento de X bracalibus 
det unum indicato, et de quinque médium et non 
plus. Et si aliquis ex illis qui tributarii sum inpau- 
pertate deuenerit tam homo quam uidua in suam 
hereditatem alteri ad laborandum dederit maiordo- 
mus accipiat medwtatem racionis, et domnus here- 
ditatis aliam medietatem. Et mandamus ut illi qui 
Hgna solebant ducere ad patacium nunquam illam 
ibi ducant. Et iugadarii qui in céllario dant iuga- 
dam. dent de uno modio unam talegam, et pro Mo 
aluara unum denanum et non plus. Et sagion et 
maiordomus non ponant caritcl nisi cum auctoi-e et 
cum testibus: et non sit ille caritei nisi de V.* soli- 
dis. Mandamus eixim ut cleiici sancte mane ha- 
beunt suas hereditates atque suos honores sicut mili- 
tes de uiseo eam melius habucrint. Et neminis pro 
eis seruiet nisi coram altare beate utrginis marie, 
pro nobis supratcriptis et pro omni populo christia- 
no preces fundando : et qui casam cum armis uiolen- 
ter intrauerit pectet LX sólidos et si habuerint qui 
vocem det de Mo. Quicumque hoc nostrum factum 
roborauerit et roboratum consei-uaueril sit benedi- 
clus a deo amen. Facta carta mense Januário apud 



;gi,7 5t ::; ; GOOglC 



Sanclaren Era .1/.* CC. a XX.* V. a Nos stipranomi- 
nali Reges qui pro remissione peccalorum noslro- 
rum hanc cartam (acere iussimus coram testibus ro- 
boraoimus. Qui presentes fuerunt, Godinus broca- 
rensis archiepiscopus conf. Johannes tunc lempori- 
bus oisiensis episcopus conf. Fernandus vinensium 
decanas conf. Gunsalaus eiusdem ioci cantor conf. 
Garsia frater canónicas conf. Snarius menendi ca- 
nonicus conf. Suarias Uenegas conf. Nicholaus ro- 
derici conf. Didacus pelagii maiordomus lerre conf. 
Didacus pelagii mercaior lest. Fernandus Menendi 
mercaior [est. Didacus portarius test. Menendus 
gunsalui maiordomus curie conf. Petrus alfonsi si- 
gnifer regis conf. Petrus gomei qui tunc terram te- 
nebat conf. íler/nigius conf. Suarius venegas conf. 
Pelvus fernandi conf. Johannes fernandi dapifer 
regis conf. Egeas 2>dagii test. Fernauius bispo tesl. 
Ego Alfov;-is tf.'" dei gratia port. Rex una cu m 
uxore mea Regina domna Vrraca et fiUis noslris 
infarilibns domno S. cl domno A. et dona Alionor 
concedo et confirmo uobis popuiatoribus de viseo is- 
tam cartam saprascriptam et istttd fórum quod uo- 
bis ãedil pater meus e.ccetlcntissime memone Rex 
domnus S. El ut hoc mcam facttim in pei-peluum 
firmissimum robur obtineal. precepi istam meam 
cariai» fieri cl cam feci me» sigillo plumbes com- 
muniri. Fada cartam apud Golimbiiam Mensem 
Oclobri Era M* CC'. a £.* F." Nos supranominali 
Reges qui hanc cartam fieri precepimus coram $«b- 
scriplís eam roboravimus et in ea hec signa fecimus 
4-)-+ Qui affuerunt, Domnus S. biacarensis ar- 
chiepiscopus conf. Domnus M. port. episcopus. Dom- 



;gi,7 5t ::; ; GOOglC 



nus P. Colimbríensis episcopus Domnus S. V. lis- 
bonensis episcopus. D.mnus S. elborensis episcopus 
Dominus P. lamecemds episcopus. Domnus B. Vi- 
sensis Episcopus. Domnus M. egitanensis episcopus. 
Domnus M. iohannis signifer domni Iiegis. Domnus 
P. io. maiordomus cutie conf. Domnus Laurencius 
Suarii. Domnus Johannes fernandi. Domnus F. 
fernandi. Domnus do. suarii. Domnus Gil ualas- 
qniz. Domnus Ro. me tendi. Domnus Po n. alfonsi. 
Domnus Lopus alfonsi, conf. Mayister Pelagitis 
cantor Pari. lest. Petrus game lest. Vincensius 
menendi test. Mar. pelri testi. Petrus peiri test. Joan- 
ninus test. Gunsalvus menendi canceUarius carie. 

As dioceses mais importantes da egreja portu- 
gueza, no tempo de D. Sancho I, eram Braga, Por- 
to e Coimbra; a primeira como metropolitana da 
G-alliza; a segunda como restaurada, havia peito de 
um século, e abrangendo os districtos mais popu- 
losos do paiz; a terceira como sendo aquella a que 
pertencia a capital e dilatando-se até ao Douro por 
territórios talvez não menos férteis e povoados que 
o Minho. 

As Sés de Lamego e Vizeu, mais circumscriptas, 
abrangendo districtos menos favorecidos da natu- 
reza e, sobre tudo, da industria, sujeitas ainda 
durante boa parte do reinado antecedente aos pre- 
lados do Porto e Coimbra, e regidas n'esse tempo 
por delegados d'elles, estavam longe de poder oom- 
detjr em forca e explendor com essoutras 1). 



-) Alexandre Herculano -J/isí. di Port., Tjin. II, p. 122. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Mereceu, porém, ao monarcha attenrão espe- 
cial a Sé de Vizeu. 

Além de conceder aos seus clérigos as honras 
e privilégios constantes do foral, em 1186 dôa »n 
perpetibus ao bispo D. João Pires, para a sua egreja, 
o couto de Canas de Senhorim e seu termo, em 
que entravam dezesete logares, com todos os di- 
reitos reaes e portagens, incluindo quinhentos sol- 
dos quando ahi entrasse 1). 

Esta escriptura, vertida para linguagem vulgar, 
diz: 

«Saibam quantos esta carta ouvirem lèr que eu 
«D. Sancho, por graça de Deus, Rei de Portugal, 
«juntamente com minha mulher a Rainha D. Dulce 

te meus filhos Fazemos a vós D. João, 

«Bispo de Vizeu, carta de Couto, porque vos en- 
«coutamos aquella vi lia, que se chama Canas, e 
«vo-la confirmamos com pedras levantadas em ti- 
«tulo e signal de Couto, a qual está na terra e li- 
«mite de Senhorim, e assim também vos concede- 
«mos todas as multas assim pequenas como 
«grandes que estiverem feitas na dita villa, e seu 
«limite, e as que fizerem nossos súbditos ou ou- 
«tros quaesquer, e todas as portagens, d'onde quer 
«vierem alli, e, para dizermos mais brevemente, 
«todos os direitos reaes, que nos pertenciam, para 
«sempre, a vós e a todos os que depois da vossa 



1) Padre Col, — {nas Mamor. da Acad. Real da Hist.- 
Tom. II. 

Viterbo- Elucidário -verb.- Mordomo da Cúria, 
Oliveira Berardo - Memorias mss. 



>,Sitizeot>vGoOgIe 



«morte quizerdes nomear e instituir por herdeiros, 
«e vós encoutamos a mesma villa com seus limites 
«em quinhentos soldos » 

Foi feita esta escríptura na era de 1224, e acha- 
se assignada por D. Sancho. Rainha D. Dulce, In- 
fantes, muitos Fidalgos e Prelados, que se acha- 
vam presentes. 

D'ella constam os limites e demarcações do 
Couto e logares annexos, que eram os seguintes: 

Travanca, Barbeita, Mozellos, Prime, Pinheiro, 
Villa Meà, Nogueiras, Barreiros, Aviujes, Villa No- 
va, Casal Fernando, Maizovellos, Regueiros (Ju- 
gueiros?), Alagôa, Cabanòes de Cima, Ferrocinto, 
Magarellas 1). 

Aos territórios e povoações comprehendidas 
n'este couto mandavam depois os bispos de Vizeu, 
quando lhes era preciso, buscar lenha, palha, car- 
neiros, galinhas e ovos, e exigiam dos seus mora- 
dores, que para esse fim apenavam, geiras, que 
lhes pagavam pelo preço da terra, e roupas em- 
prestadas para as camas de seus creados. 

Parece-nos ser aqui logar próprio para notar, 
embora não saibamos quando principiaram essas 
prorogativas, que a jurisdicçào dos mesmos prela- 
dos no eivei e no crime, pondo, nos coutos ouvi- 
dor e fazendo a escolha de seus olTiciaes, se es- 
tendia a Canas de Sabugosa, Mouraz e >S. João 
d' Areias; e que os moradores de cada couto lhes 



1) Esta carta os tá no cartório do Cabido, e parte delU 
adia se tranStripU ora liiboiru Butelho, Diálogos, pag. 3tX) e 
361 e no Padm Leonardo do Sousa, Tom. I, fia, 327 o i." 



>,S[tizeot>vGoOgIe 



pagavam todos os annos, com applicncâo ao con- 
certo do aljube ecclesiastico, a quantia de 600 rs., 
repartida por todos, e geiras (serviço de bois) em 
determinados dias, ficando por essa razão isen- 
tos das cizas, talhas e mais encargos do concelho 
e da cidade. 

O juiz privativo dos coutos conhecia de todas 
as causas com appellação para o ouvidor, e d' este 
competia aggravo para a corte, que eia a ultima 
instancia. 

Depois da fuga para Roma do bispo D. Miguel 
da Silva, de que adeante nos occuparemos, el-rei 
D. João III, tomando nella pretexto, mandou em 
1558 tirar inquirição pelo dr. João Videira sobre 
os coutos do bispo no termo de Vizeu e sobre a 
jurisdicção eivei e crime que este tinha em Canas 
de Sabugosa, Mouraz e S. João d' Areias, e de tudo 
o mesmo rei se apossou. 

Nunca mais voltaram ao poder dos prelados 
nem os coutos nem a jurisdicção sobre aqnelles 
togares 1). 

Outras mercês rlzeram D. Sancho e sua mulher 
D. Dulce, condessa de Flandres e de Borgonha, á 
egreja de Vizeu. 

O bispo D. João Pires em 1183 cedeu ao mos- 
teiro de cónegos de Aguas Sanctas (os do Santo 
Sepulchro) a terçados mortuorios 2) e a luctuosaS) 



1) Ribeiro Botelho, Politica inurtil, pag. 3t>3. 

2) Murtuaiius, mortimis, mortalhas, 

3) Huc etiiiin, quod a nobis postul&stis, niiiiectimiis, ut 
nmuquam do vestro sacerdote jam dictam regente, ac tonen- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



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e elle e seu calado deram em 1187 carta de po- 
voação aos que povoassem de casos o seu Campo 
do Soai; dizendo : os moradores que ahi tiverem 
duas casas pagarão dois soldos (si quis de ibi mo- 
rantibus duna casas ibi habtterint, duos persolvat 
soldos 1). 

Sendo certo que estes terrenos não se compre' 
hendiam nos limites designados nos testamentos 
de D. Fernando e de D. Theresa, porque ficavam 
fora da rua publica (que era a que circuitava os 
muros), é evidente que outra doação regia de terre- 
nos adjacentes á cidade bavia sido feita á Sé de 
Vizeu, e essa doação devia de ser a de D. Affonso 
Henriques. 

D. João Pires morreu em Vizeu aos 7 ou 8 de 
julho do anno de 1192 como consta de um letrei- 
ro que existe na parede da capella de S. João Ba- 
ptista da Sé, do lado do Evangelho, e alli mandado 
pôr muitos séculos dejiois pelo bispo D. Jorge de 
Athaide quando trasladou seus ossos cio logar em 

te Eccleaiam, et inoiluo ibi, alque defuncto aliquid pio mor- 
tuária exigamus, »el dono. [.Cartório da Sé do Vizeu). 

Nos três pi imeiros séculos da monarcliia, os Pastores as 
salariados o min sempre aosislidos de uma côngrua susten- 
tação ou introduziram ou resuseilaiam usos ou pensões nada 
favoráveis ã sepultura doa Ireguezes, Daqui os innumeravoia 
contractos ou «meordiaa em feito de mortulhos, já doa bispos 
com os seus cabidos, já dos bispos e cabidos com as Ordena, 
mosteiros e conventos. 

(Autuiiiu Caetano do Amaral, nas Moirt. da Acad. Real das 
ScJencias, Tom VI, pag. Ti e 73. 

1) Docuuu do cartório do cabido. Viterbo— Elucidar io— 
verbo— Soidad i. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



que jaziam, que era ura monumento collocado na 
parede entre a pia de baptismo e a da agua benta. 
Diz esse letreiro: 

D. O. M. 
R. mo P. D. Joanni Petro, EpÕ Vise, 
qui obiit anno MCCXXX, die 
VII (ou VIII) Julii, Georgins, ejusdem Ec- 
clesiae Eps. anno MDLXXIII, 
XV Maii Posuit. 

e interpretrado em vulgar: 

A Deus óptimo máximo seja dado o louvor e 
ao Reverendíssimo Padre D. João Pires, bispo de 
Vizeu, que morreu no anno de 1230 no dia 7 de 
jutho. Jorge, bispo da mesma egreja, poz aqui seus 
ossos no anno de 1573 a 15 de maio. 

Não faça duvida dizer-se que falleceu no anno 
de 1230. Toma-se aqui o anno pela era, como vul- 
garmente se fazia naquelle tempo. 

Viveu 13 annos no bispado, onde se mostrou 
exemplar nos costumes, deixando de si perdurável 
memoria. 

Por sua alma se dizem annualmente na Sé 10 
missas, cantam-sj três officios de um nocturno, 
no mez de julho faz-se delíe commemoiação com 
um responso, e desd •■ quarta -feira de cinza até á 
de trevas cantam-se responsos com alguma solem- 
nidade. 

Ribeiro Botelho, fallando d'este bispo, a mmet- 
te dois erros : 

1.° dizendo-o faUecido em 1180; 2.° dando-lhe 



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como immediató antecessor outro D. João, quando 
é incontestável que fora D. Godinho 1). ' 

A D. João Pires succedeu D. Nicolau, eleito nos 
fins de 1193 e fallecido em í& de outubro de 1212. 
Era natural de Lisboa e de família nobre, filho de 
João Rodrigues Velho e de sua mulher Anna Ta- 
veira, moradores na freguezia de S. Vicente de Fo- 
ra, em cujo mosteiro tomou, no anoo de 1173, o 
habito de cónego de Santo Agostinho. 

Já sacerdote, foi mandado pelo prior D. Paio 
estudar artes e theologia á Universidade de Paris, 
onde também se achava estudando o súbdito 
portu c 'uez D. Paio Galvão, cónego no mosteiro 
da Costa, da Ordem de S. Jerónimo, na villa de 
Guimarães. 

Voltando ao reino, foi eleito thesoureiro-mór da 
Só de Coimbra, e em 1193 bispo de Vizeu. 

Em 1198, chegando a Portugal a noticia da elei- 
ção do cardeal Lothario, que e!le conhecia de Pa- 
ris, para Pontífice com o nome de Innocencio III, 
foi a Roma beijar-lhe o pã, sendo recebido beni- 
gnamente; e, porque D. Nicolau até aquelle tem- 
po era somente bispo eleito, o Pontífice o sagrou e 
confirmou no bispado, e, despsdindo-o para o reino, 
diz o Padre Col, o fez portador de uma carta para 
a rainha D. Dulce, em que lhe recommendava a 
pessoa do mesmo bispo, a quem attribuia os qua- 
lificativos de modesto, bom conselheiro, lettrado 



Ribeiro Botelho, Diálogos, pag. 363 e 334. 
Padre Leonardo de Sonsa, Tom I, fls. 326 v 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



34 



t circitmspecto tanto nas matérias temporaes como 
npirituaes i). 

O dr. Fr. António Brandão 2) refere que D. 
Sancho, no 1.° de mato de 118% fizera doação de 
Mafra ao mestre da Ordem, que depois se chamou 
Ordem de Àviz, por nome Gonçalo Viegas, e que 
na respectiva escriptura assignára D. Nicolau, bis- 
po de Vizeu. 

Mas ou esta escriptura é apocripha ou a data 
está errada ou mal interpretada, porque de docu- 
mentos irrefragaveis, até referidos pelo mesmo 
Brandão 3), consta que D. João Pires succedera a 
D. Godinho em 1179 e governara o bispado até 
1193, anno em que foi eleito D. Nicolau. 

O Padre Gol julga possível que no original d'a- 
quella escriptura, vista por Brandão com a era de 
MCGXXI, esteja apagada alguma lettra, e que, se 
esta for um X, a era será 1231, correspondente ao 
anno de Chrtsto 1193, primeiro do episcopado de 
D. Nicolau 4). 

; Este bispo confirmou os foraes dados por D. 
Sancho a Leiria (1195), a Castreicão (1196), á Guar- 
da (1199), a Benavente (1200), a Cezimbra (1211), 



1) Padre Col - nas Moui. da Acad., Tom. II.- Ribeiro 
Botelho, Diálogos, pag. 864. D. Nicolau de Santa Maria, 
Chronicada Ordem dos Cónegos Regrantes. D. Thomaz 
da Encarnação, Eist. Ecd. - Costa, Corògr. Port.- Pa- 
dre Leonardo de Sousa, tom. I, lis. 831 e sega.— Abreu, 
Botelho, GouTea e Caslro, noa Catálogos. 

2) Pr. António Brandão -.tfon. Luait, Part. III, pag. 360. 
8) Mon. Lusit,, Part. IV, pag. 16. 

4) Padre Col, nas Mem. da Acad. Real d» Hiat., Tom. II. 



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35 

a Santa Martha e Beduido (1202), a Montemór-o- 
Novo (1203), a Penamacor (1209), e a Favaios 
(1211)— 3). 

Escreve o padre Leonardo de Sousa 4) que, ten- 
do partido paia Roma em 1198, D. Nicolau só vol- 
tara ao reino cinco annos depois, chegando a Vizeu 
em 1204, e que a carta do Pontífice para a Rainha, 
de que elle foi portador, fora expedida de Leão em 
1203. Mas ou esta noticia é falsa ou D. Nicolau 
confirmou alguns d'aquelles foraes, não na data em 
que foram concedidos, mas muito depois. 

D. Nicolau assigna, como coníirmante, as se- 
guintes escripturas de doação feitas por D. San- 
cho, D. Dulce, seus filhos e filhas: a do couto de 
Gondomar a D. Martinho, bispo do Porto 5), e a 
do mosteiro de Ceiça, de juro e herdade, com o po- 
der de instituir ahi abbade e prior, e depo-los d sua 
discrição e vontade, ao mosteiro de Alcobaça em 
1195, estando em Leiria 1); e, achando-se em Bra- 
ga, confirma com outros prelados o couto que D. 
Sancho fez do logar de S. João de Longos Valles, 
termo da viila de Monção 2). 
Havia muitos annos que os bispos e cónegos da 



3) Portugalíae Monumento Histórica. 

4) Padre Leonani-, do Sousa. Tom. I, lia. 334 v. a 336. 
6) Cunha - Catalogo dos bispos do Porto. Ribeíio Bota 

lho, pag. 866 « 367. 

1) Ribeiro Botelho, Diálogos, pag. 366 o 307. 

Brito - Chrotiica de Cixter. Padro Leonardo <le S»usa. 
Tom. I, Os. 334 v. a 344. 

2) Jorgò Cura- -wi-Agiologio Lusitano, Padre Leonardo, 
log. cit. 



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36 



Sé de Vizeu litigavam sobre divisão de dízimos, lu- 
ctuosas, oblatas e outros rendimentos da diocese. 

Esta contenda terminou por uma composição, 
feita em 1194, por ordem de D. Sancho, em pre- 
sença do arcebispo de Hraga D. Martinho, entre o 
bispo eleito D. Nicolau, o deão e dois cónegos, 
como* representantes do cabido, 

D'esta concordata existiu no cartório do cabido 
um documento, que, vertido para a linguagem vul- 
gar (traducção livre), dizia: 

«Na era de 1232, reinando o illustre D. Sancho 
tRei de Portugal, em presença do reverendo Pa- 
tdre D. Martinho, arcebispo de Braga, por man- 
cdado do sobredito rei, se accordaram Nicolau bis- 
«po da Santa Sé de Vizeu, o Deão da mesma com 
«dois cónegos Mauriano e Fernando de Lagiosa, 
«por parte dos cónegos, em pôr termo á contro- 
cversia e demanda, nascida ha muito tempo entre 
tos mesmos cónegos e bispos sobre a divisão do 
«bispado, com uma amigável composição que con- 
«certasse as partes. Acabou a duvida e contenda 
«pela forma seguinte: Tenham os cónegos todas 
«aquellas cousas que ha muito lhes estão assigna- 
«das. Tenha o bispo a egreja de S. João do Hos- 
«pital em Trancoso, dois casaes em Travanca, a 
«egreja de Bordonhos, a de S. Pedro do Sul, com 
«sua vllla, a egreja de Mouraz com sua seara, ten- 
«do por limite o rio que corre abaixo d'ella, pois 
«tudo o mais será dos cónegos na forma da parti- 
«lha feita pelos deputados partidários- Tenha ain- 
«da o bispo todo o Ferrocinto, toda a Fontanella 



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37 



cDominicaria dos Clérigos e Soldados leigos e no- 
tbres, assim como caíra por sorte na justa com- 
«posição. 

nOs clérigos das egrejas dêem ao seu bispo os 
cdons e dadivas. Os clérigos das egrejas dos cone- 
cgos devem a estes na sua morte a Dominicarla. 

«As dadivas e offertas provenientes da escolha 
«de sepultaras feita pelos militares e mulheres no- 
«bres nas egrejas dos cónegos pertencem a estes, 
«nas egrejas que não forem nem dos cónegos nem 
«do bispo serão repartidas de modo que o bispo 
«tenha duas partes e os cónegos uma, e na cathe- 
tdral serão divididas como os mortuários e offer- 
«tas dos defunctos á mesma egreja. Mas os cone- 
«gos concedem ao bispo Nicolau, em sua vida, a 
«parte que lhes compete no3 ditos dons e offer- 
«tas, revertendo para elles depois da morte do 
«mesmo bispo.» 

Esta escriptura é roburada e firmada com o 
sello do arcebispo 1). 

O bispo D. Nicolau teve graves contendas com 
os abbades de Maceiradão corno testimunhavam 
documentos existentes em Alcobaça, referidos por 
chronistas da Ordem dos Bernardos. 

Na cathedral de Vizeu houve ■ um bellissimo 
pergaminho original por ordem alphabetica, sem 
data nem assignaturas, com letra, orthographia e 
latim do século XII, escripto no tempo de D. Ni- 
colau. 



1) Padre Leonardo do Sousa.— Tora. I, fts. 334 v. a 344. 



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D'elle constava que Goina Pires, viuva, da villa 
de Cambra, doou á egreja de Vizeu, para ser sepul- 
tada e nella permanecer sempre memoria de si, 
um casal junto d'aquella villa, e lhe deixou por 
sua morte todo o dinheiro e bens que tivesse; o 
que o bispo e cabido, attendendo a esta doação e 
herança e á obediência que a doadora lhes pro- 
metteu, concederam-lhe o viver religiosamente na 
egreja de S. Juliào de Cambra, com as seguintes 
clausulas: ficarem salvos os direitos da egreja de 
Vizeu, á qual se obrigou a pagar as Terças, assim 
como as pagavam- os clérigos das egrejas visinhas; 
ser obrigada a apresentar em cada anno um sacer- 
dote a quem o bispo e cabido dariam o poder de 
administrar a egreja e ministrar os sacramentos 
ao povo; não poderem os irmãos e successores da 
doadora, sem consentimento do mesmo bispo e 
cabido, viver como eila na mesma egreja, sob pena 
de pagar quinhentos soldos e julgar-se*a egreja 
vaga no caso de ser transgredida esta clausula e 
desobedecidas três admoestações, sendo fiadores 
dos quinhentos soldos Sueiro Pin;s Pacheka, Pe- 
dro Pires de Cambia e Nuno Pires de Cambra. 

O texto d'este documento é o seguinte : 

Notum sit omntbus, quod ego Goina Petri de 
Cambar, lebera. et spontanea vólnntate, eligo sepul- 
taram in Ecclesia Vixiensi, el nffero me Altari fí- 
Virgínia in manibus Domini Nicholai Episcopi, «' 
::cmper permancam in viduitate, et sim serviens, et 
vassalam ejusdem loci omnibus diebus vitae meae. 
Et do, et testar ibidem unum Casale infra Villam 



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de Cambar, illud videlicet, in quo moratur Dna Go- 
do; ut memoria mei semper in eadem Ecclesia ha- 
beatur. ; 

Promitto etiam. quod in obitu meo de rebus méis, 
peamia,et possessionejam diciae Viiáensi Eccleside 
continentiam bonam, qualem deceat, habeat. 

Nos quoque Episcopus scilicet, et Capituluni, 
quia te (ut supra scriptum est} sedi nostrie aUigastl, 
et semper obedientem (ore prommsti; tibi praefatae 
Goinae, Ecdesiam S. Jutiani de Cainhar, ut in ipsa 
vivas, concedimus; salvo tamen ecclesiae nostrae jurè t 
et tenearis legi, qua Clerici vicinarum Ecclesiarutn', 
Tertias persolventium, tenentur; et eidem Ecclesiae, 
in qua vinis, bene provideas, et in obitu tuo de boni« 
tuis Testamentum factos. 

Et nunquam Fratres tui, qui Patroni dicuntur 
dictae Ecclesiae de Cambar, aut successores tui, a 
nobis exigant, ut aliqua de género tuo, sine beneplá- 
cito nostro, in ipsa Ecclesia vivat, sicut et tu. 

Si autem forte aliquod Ístorum,Jquae~praedicta 
sunt, transgressum fuerit, et íej* piius monita recipi- 
cere nolueris, quingentos sólidos nobis persolvas, et 
ab Ecclesia vácua recedas. 

Isti sunt fideijnssores in quingentis soUdis: Suc- 
rius Petri Pacheka: Petrus Petri de Cambar: Nu- 
no Petri de Cambar. * 

Et quolibet anno nobis Sacerdotem ostendas, ali 
(de beneplácito nostro et Parochianorum} ministran- 
di 8-piritualia Ecclesiae, et populo, potestatem co- 
mittamus. 



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O bispo D. Nicolau era aíTavel, virtuoso, es- 
moler; pregava, confessava, doutrinava e minis- 
trava os sacramentos. 

Falleceu aos 18 d'ontubro da era de 1250 (anno 
de 1212), como consta do livro dos óbitos dos mos- 
teiros de Santa Cruz de Coimbra e de S. Vicente 
de Lisboa, onde se diz: quarto decimo kalendas 
Novembvis obíit Doiltis Nicolaus Visiensis Ejrisco- 
piis Canónicas Sancti Vicentis. Era MCCL 1). 

Em seu testamento deixou á Sé de Vizeu várias 
terras no logar de Santa Olaia, arcyprestado de 
Besteiros, a partirem coin o coulo de Jugueiros, 
pertencente á mesma Sé 2), e por esse motivo o 
cabido celebrava á sua custa no século passado o 
anniversario do seu passamento. 

Ignora-se onde foi sepultado. 

Por vários documentos sabemos que D. San- 
cho I residira suecessivamente em Gestaco, Lou- 
rinhã, Guimarães, Idanha, Porto, Trancoso, Bos- 
tello, Lamego, etc. 3). 

Conjecturamos que também residisse algum 
tempo em Vizeu, porque no archivo da Sé se guar- 
dava o seu testamento (feito em 1188 ou 1189, quan- 
do se preparava para a conquista do Algarve) e o 
respectivo codicillo, documentos que Alexandre 
Herculano levou para a Torre do Tombo. 

1) D. Nicolau de Santa Maria— Chronica da Urdem doa 
Cónegos Regrantes. 

Padre Leonardo de Sousa, Tom. I, fls. 334 v. a 3«. 

2) Padre Leonardo de Sousa— log. cit. 

8) Alex. Horculano-Hist. de Port., Tom. II, pag. 110. 



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No testamento nomeia as pessoas que lhe hão 
de succeder na coroa, caso morra na expedição 1), 
e deixa a cada uma das Sés do reino mil marave- 
dis, com excepção das de Braga e Évora, ás quaes 
deixa dois mil 2). 

Da primeira d'estas disposições se tira mais um 
argumento contra a existência dos cartes de La- 
mego. Se a ordem da successão á coroa estivesse 
estabelecida, escusada ou inútil era aqutilla dispo- 
sição testamentária. 

No codicillo dispõe de vários bens em favor 
dos pobres, incumbindo da distribuição sua mu- 
lher rainha D. Dulce, D. João, bispo de Vizeu, 
o abbade de Alcobaça, o prior de Santa Cruz, 
o conde Martinho Gonçalves, e D. Pedro Af- 
fonso 3). 

Este monarcha falleceu nos fins de março de 
1211. 

D. Afíbnso II subiu ao throno por morte de seu 
pae D. Sancho I. Não foi como elle educado 
nos campos de batalha e no tracto das armas, 
mas desde o principio do seu reinado mostrou-se 
dominado pelo desejo, commum e natural nos prín- 
cipes, de augmentar os recursos da coroa e a 
influencia do poder real. 

Declara explicitamente que as doações das ter- 



1) Viterbo— Elucidário — verbia— Âzimda, Mozmodis, Ri- 
boro. Reposteiro. 

2) Ruy de Pina, Chron. de D. Sancho I, cap. XVIII. 

3) Viterbo-£(uci<iario-log. cit, 



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ras, quer aos nobres, quer ao clero, quer aos con- 
celhos, feitas pelos reis anteriores, constituíam 
uma serie de actos, senão illegaes, ao menos tran- 
sitórios e dependentes da vontade do successor da 
coroa, que por essas mercês se podia dizer de- 
fraudado. 

A este principio, adoptado pelo rei, se devem 
attribuir dois factos: um que os monumentos nos 
apresentam pela primeira vez — o das Confirmações 
geraes, que consistiram em chamar perante o rei 
os títulos paios quaes as corporações e os Indiví- 
duos possuíam propriedades outr'ora publicas; e 
outro — o das inquirições geraes, que tinham por 
objecto a origem, posse e condições de cada uma 
das propriedades dos vários indivíduos e egrejas. 

D'estemodo podia examinar-se se os herdamen- 
tos se continham ou não nas concessões anterio- 
res, e ao mesmo tempo fazia-se reconhecer que 
dependia do chefe do Estado a prorogação da 
mercê. 

Achamos Affonso II, quer na capital, quer dis- 
correndo pelas províncias, exclusivamente entre- 
tido etn confirmar as mercês feitas pelos seus an- 
tepassados, entrando n'astas confirmações, que 
são numerosas, não só os titulos dos nobres e do 
clero, mas até os foros da.s povoações 1). 

Assim se explica a confirmação do foral dado 
a Vizeu por D. Sancho I, nos seguintes termos: 

«Eu Affonso II, rei por graça deDeus, junta- 



1) Alex. Herc. Hiat. de Port., tom. II, llv. IV, p. Hl a 188. 



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J 



«mente com minha mulher a rainha D. Urraca e 
«com meus filhos os infantes D. Sancho e D. Af- 
ffonso, concedo e confirmo a vós habitantes de 
cViseo esta carta acima escripta e este foro que 
evos deu meu pae de excellentissima memoria, o 
trei D. Sancho. E para que este meu facto obte- 
cnha para sempre uma força firmíssima ordtmel 
cque se fizesse esta minha carta e a fiz sellar com 
«o meu sello de chumbo. Feita em Coimbra no 
«mez de outubro da Era 1255. Nós os Reis acima 
«nomeados que determinamos se fizesse esta car- 
ita a corroboramos em presença dos que a sub- 
«screvem e fizemos nella estes signaes +-f- f 4— h». 

Seguem-se as assignaturas dos assistentes, o, 
entre elles, o arcebispo de Braga, os bispos do 
Porto, Coimbra, Lisboa, Évora, Lamego, Vizeu, 
(cujo nome era Bartholomeu, mas que assigna só 
com a inicial B.) e o da Egitania, o chancelier (si- 
gnifer) do rei, e o mordomo-mór da cúria 2). 

No Real Archivo acham-se cinco Livros de Lei- 
tura nova, para onde se transcreveram, no tempo 
de D. Manoel, os livros mais antigos. O Livro I 
contém as Inquirições de D. Affonso II, principia- 
das em agosto da era de 1258 na província do Mi- 
nho, e em parte das de Traz-os-Montes e Beira, 
achando-se ahi também, desde lis. 126 v. a 130, in- 
quirições de Affonso IH em Basto na era de 1299. 

O Liv. II contornas mesmas inquirições do Liv-I. 
Desde fl. 118 v., col. 1.», até o fim do Livro se- 



2) Vld. o texto latino a pag. 22 (Teste tomo. 



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guem-se Inquirições na província da Beira (então 
Estremadura) principiando em Coimbra, e acaban- 
do em terras de Cèa, freguezia de Bobadella. Fo- 
ram feitas por inquiridoras diversos dos da 1,', e 
não vèm no referido Liv. I, nem no V das doi- 
rei D. Diniz. E' análogo a estas segundas o fra- 
gmento na Gav. 8, Maço 2 N." 3—1). 

Por morte do bispo D. Nicolau em 7 de outu- 
bro de 1212 succedeu no bispado D. Fernando 
Raymundo, do qual se sabe pelo Necrológio anti- 
go da Cathedral que falleceu no 1." de fevereiro 
de 1214—2). 

Fez este Prelado na era de 1251 (annodel213) 
uma concordata com o seu cabido sobre as terças 
das egrejas e mais propriedades do domínio da Sé, 
que não eram poucas, e que depois foram crescen- 
do muito mais a ponto de não haver no século XVII 
palmo de terra em volta da cidade em que não 
estivesse imposto foro ou censo em favor da mitra 
ou do cabido. 

E isto porque não era tido por christão o que 
não deixasse alguma missa á Senhora do Altar-Mór 
e á egreja alguns bens. 

Essa concordata, em que se determinaram as 
rendas que ficariam competindo a cada uma das 
dignidades, principia assim (traducção): 

«Attendendo a que é mais de divindade que de 
humanidade conservar tudo em lembrança, sem 



1) Memoria para a Hisi. das Confirmações geraa neste 
'eino— Additamentos e retoques, pag. 3. 
•J) Viterbo — EíMcidario-Tempreiros. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



omittir cousa alguma, para, pelo decorrer do tem- 
po, não tornar a haver.duvidas para nós e nossos 
successores acerca dos benefícios que pertencem 
as dignidades da nossa Egreja, nós Fernando 
Raymundo, bispo eleito e confirmado, G-onçallo, 
deão, Egas, cantor, e João, thesoureiro, com todo 
o Cabido Viziense determinamos consignar n'este 
livro tudo o que pertence a cada uma das digni- 
dades. Portanto, etc 

•Era de 1251.— 1). 

Egrejas que ficaram pertencendo ao Bispo: 
Vizeu, Fornos, Matança, Algodres, Tavares, Pe- 
nalva, Povolide, Rivolo Molendenorum (Rio de 
Moinhos), Villa Boa, S. Pedro de France, Caver- 
nães, SepÕes, Lordosa, S. João d'Areias, Santar, 
Alcafache, Senhorim, Pinheiro, Papizios, Cabanas, 
Parada, Tonda, Travanca, Castelão, Beijoz, Dor- 
davaz, Barrarias (Barreiro), Santa Maria de Ca- 
nas, Lobão, S. Cypriano, Lageosa, Caparrosa, S. 
Theago, Fraguas, Ovoa, Touriz, Litaiiario, Villa 
Nova, Jó, Anfias, Cumbar, Arcozello, Pinheiro, S. 
Vicente, Souto, Vouzella, Folgosa, Queira, Santo 
Adrião, Reiriz, Pepim, Amarante, Pindello, Villar, 
Mamouros, Carvathaes, Junqueiras, Baiões, Mões, 
Várzea, S. Miguel de Matto, Pinho, Moledo, Santa 
Maiia da Silva Escura. Da herdade de Sever duas 
partes. 

Egrejas que ficaram pertencendo ao Cabido: 
Carapito, Ferreira, Catão, Gulfar, Píndo, Còtta, S. 
Julião, Fornos, Cassuiràes, Oliveira, Espinho, San- 



1) Ribeiro Botelho,— Dia! o gos. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



ta Eulália, S. Miguel do Outeiro, "Tondella, Sirguei- 
ros, Villa do Souto, Bodiosa, Ribafeita, Cannas de 
Senhorim, Alcofra, Sigiães, Oliveira, Ventosa, Sar- 
razes, Villa Maior. Gafanhão, Poco-Santo, Repolhos, 
Santa Cruz, Bordonhos, S. Martinho, S. Pedro 
do Sul. Da herdade de Sever, uma parte. 

Esta concordata conclue, dizendo : 

Adiimits vobis totatn Ecclesiam Sancti Pelei de 
Sul. Testes, qui praesentes faerint, Alfonsus Petri, 
Petrus Vicentii, Canonici, Dominus Gundisalin re- 
dor Ecclesiae de Espino, etc. 1). 

José d'0liveira Berardo n'um inanuscripto, que 
vi, afftrma que, cpor um documento transcripto 
nos Estatutos da Sé, sabemos que no mesmo anno 
de 1213 já era bispo de Vizeu D. Bartholomeu, 
que na capella de Santa Eugenia repartiu pelo Deão, 
Chantre e Thesoureíro, certas terras e casaes. 
(Estat. 1, fls. 1, *.)». 

Se D. Fernando Raymundo não renunciou o 
bispado, ou ha erro na data do Necrológio ou na 
do documento citado por Berardo, ou este o inter- 
pretou mal. 

Seja o que fôr, o que é certo é que D. Bartho- 
lomeu, juntamente com D. Martinho bispo da Guar- 
da e outros Prelados, confirma a doação feita aos 
Templários por D. Affonso II, sua mulher D. Ur- 
raca, seus filhos D. Sancho e D. Affonso, e sua 
sua (Ilha D. Leonor, cuja escriptura foi roborada 
com o real sello de chumbo na Covilhã no 1.° de 
novembro de 1214 — 1) e que o seu nome se en- 



1) Viterto-£YM£tf<IarK>-verb.-TempreiroB. 



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contra nas confirmações dos foraes, feitas por Af- 
fonso II'l) e em várias doações e escripturas des- 
de 1215 a 1222. 

D. Bartholomeu assistia também com outros 
Prelados a confirmação por D. Alíonso II, (.innodo 
1218), da doação que D. Sancho II havia feito rio 
convento de Gondomar no bispo do Porto D. Mar- 
tinho 2), e elle e outros Prelados foram testemu- 
nhas do foral d^do p>.' aqnslle monircha a 
Proença-a-Velha com os foros e costumes de Idn- 
nha-a-Nova 3). 

Em 11 de janeiro do 1218 o Papa Honório III 
confirmava D. Affonso II na posse da cotôi, e eu 
13 de abril seguinte fazia este aos bispos do reino 
uma concessão magnifiai— os dízimos sobre os 
rendimentos reaes que nunca tinham estado su- 
jeitos áquella contribuição religiosa. 

Como nma prova da s;ia piedade, submeíteu a 
solução do dizimo as rendas que percebia nas dio- 
ceses de Braga, Porto, Lisboa, Vizeu, Lamego, 'Ida- 
nha e na parte da diocese de Tuy que se achava 
internada em Portugal 4). 

Desde 1222 que D. Affonso II se achava inhi- 
bldo, por doença, de pôr o signal de seu punho 
nos diplomas régios, e é esta a razão porque se 

1) Portugaliao Monumonta histórica- Foraes de Guima- 
rães, Azurara da Beira, Satto, Feneira d Avon, Lisboa, 
Coimbra, Valdigem, Trancoso, Aguiar, Celorico, etc., etc. 

2) Hss. de Oliveira Berardo. 

3) Yilerbu — Elucidário- verb. Tempreiros. 

4) Alexandre Herculano — Hist. de Portugal - Tom. II, 
pag. 216, 



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acham confirmados, em seu logar, por dois juizes 
e terminam pelas palavras: — Datum. . . per meum 
mandatum, em vez õVesfoutras: coram sitbscnptis 
eam roboravi, ou equivalentes; e expirou a 25 de 
marco de 1223—1), tendo 37 annos de edade. 

Posto que estabelecida de facto a ordem da 
successão, elle a fixara de novo no testamento 
exarado ha mais de um anno antes do seu falleci- 
merxto (novembro de 1221), chamando Sancho ao 
throno e apoz elle na falta de successão directa, 
os outros seus filhos ou filhas 2). 

Quando falleceu, seu filho e successor D. Sau- 
cho II apenas poderia contar treze annos de eda- 
de, ficando por isso revestidos da suprema aucto- 
ridade, que só em nome pertencia ao príncipe, os 
que no tempo do monarcha defuncto exerciam os 
principaes cargos do estado. 

Nos primeiros annos do seu reinado cuida-se 
na pacificação definitiva com os ecclesiasticos e 
em se fixarem por uma vez os direitos respectivos 
da coroa e das infantas, as duas questões que qua- 
si absorveram o reinado anterior. 

Essa pacificação, porém, foi momentânea. 

Em breve renascem as antigas contendas, que, 
talvez por annos, aflligiram o reino, notando-se prin- 
cipalmente a acção e reacção do poder secular con- 
tra a classe sacerdotal, o que provocou a interven- 
ção do Papa Gregório IX, determinando-o a expe- 
dir varias bulias tendentes a reprimir os abuas 



1) Ibi, pajr. 253 
2} Ibi pag. 253 e 254 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



4!» 



e os actos contrários aos legítimos interesses do 
clero. 

Depois de D. Sancho II ter chegado á maiori- 
dade, continúa-se a lucta entre a coroa e o clero, 
b qual nos últimos annos do seu reinado toma por 
chefe o infante D. Aflbnso, que a esse tempo es- 
tava em Franca, onde tinha casado com a con- 
dessa de Bolonha D. Mathllde. 

Os conspiradores enviaram ao Pontífice Inno- 
cencio IV uma queixa contra D. Sancho, em que 
concluíam por pedir a sua deposição, e alguns 
d'elles dirlgirara-se a Paris para assentarem com o 
conde de Bolonha as condições a que mutuamen- 
te, elle e o clero, ficariam adstrictos no caso de 
obterem o diploma da deposição. 

Effectivamente ahl se redigiram essas estipula- 
ções, que foram juradas pelo infante, e de que a 
maior è melhor parte aproveitava no clero. 

Feitos estes jactos, o conde de Bolonha saiu 
da sua pátria adoptiva para vir dar calor á guerra 
civil na terra onde nasceu. 

Sabemos que ellè chegou a Portugal nos fins 
do anno de 1245 ou no principio do seguinte, to- 
mando logo o titulo de visitador e curador do rei- 
no. 

Trava-se a lucta entre os dois irmãos. Alguuii» 
cidades e castellos seguem o partido de D. AfTon- 
so, outros conservam-se fieis ao monarcba legiti- 
mo. N'este numero entraram Coimbra e, segundo 
parece, a maior parte da Beira. 

Não era, porém, só nos seculares que esse ho- 
mem, cujo governo os prelados- descreviam coma 



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60 



i 



intolerável, achava quem por elle quizesse morrer. 
Entro o clero e, o que mais é, entre os próprios 
bispos, encontrava também D. Sancho quem não 
fraqueasse ante o stygma espiritual das censuras. 

Ao menos, D, Gil ou Egídio, bispo de Vizeu, 
ainda depois da vinda do infante, reconhecia a au- 
ctoridade do rei e buscava remediar, no que lhe 
cumpria, como primeiro pastor da sua diocese, os 
tristes efleitos dos males que affligiam o reino, 
comb se vé da Encommendacâo da egreja de S. 
Pedro do Sul, a 12 das kalendas de fevereiro da 
era de 1284 {Liv. 1.° dos Padroados, fls. 56 e Liv. 
2.", fls. 100 onde assigna por extenso com o nome 
Egidius i). 

Ribeiro Botelho 2) diz chamar-se este Prelado 
D. Egas e ter achado uma memoria por elle assi- 
gnada em 1221; mas nenhum d'estes factos é ver- 
dadeiro. 

O nome de D. Gil ou D. Egidioencontra-ss em 
várias escrípturas dos annos de 1225 a 1240 e ha 
noticias d'elle por todo o tempo de EI-Rei D. San- 
cho II 3). 

No tombo do Cabido encontra-se uma escri- 
ptura de 1226, que, vertida do latim, diz : 

«Em nome do Padre, Filho e Espirito Santo, 
amen. 

Saibam todos os homens que lerem esta carta 
ou a ouvirem Iêr que eu Mendo Sanches d'01iveira, 



1) Alèx. Hercul., Hiut. tie Fort.-Tom. II, Liv. 6, pag. 204 

a m. 

2) Diálogos. 

3) X Col-Uam. dá Acad. Real da Htst.-Tom. II. 



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51 



para remissão de todos os meus peccados, e por 
ametade da Villa de Parada, que é da egreja de 
Santa Maria de Vizeu, e por ametade da Villa de 
Oliveira, que também é da mesma Egreja, as quaes 
- ametades eu tenho pelalmesma Egreja ha 30 an- 
nos e devo possuir em minha vida, e por dOO ma- 
ravedis de ouro, que recebi da mesma Egreja, dou 
e concedo a vós, senhor Bispo (D. Egas, diz Ri- 
beiro Botelho, mas deve ser D. Egídio) e ao cabi- 
do de Vizeu todo o meu direito que tenho em a 
villa de Parada, toda a quarta parte que tenho da 
mesma villa, com tal condição que eu tenha a 
mesma villa em minha vida e a possua em vosso 
nome, assim como a outra acima dita que tenho 
por vós e tive por vossos antecessores; e depois 
da minha morte ametade d'aquelias villas, que por 
vós tenho e devo ter em minha vida, vos fique 
livre com todo o meu direito que tenho na villa de 
Parada, etc. Foi feita esta carta no mez de marco 
da era de 1264. 

Nós o Bispo acima djto, o cabido de Vizeu e 
eu Mendo Sanches, mandámos fazer esta escri- 
ptura. 

Foi sellada com o selio do Bispo e cabido, e 
Mendo Sanches diz que, por não ter armas nem 
sinete, se limitava a approvar e confirmar 1).» 

No anno de 1230 D. Egídio fez composição com 
o mosteiro de Lorvão sobre as egrejas de S. Mar- 
tinho e Santa Eulália, (que eram dos Coutos de 



1) Ribeiro Botelho -Diálogos. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Vlzeu), reconhecendo-as como do padroado d*a- 
quelte mosteiro, e contenlando-se annualmente 
com três áureos de cada uma pelas terças, deci- 
mas e procurações; com pena de 500 áureos a 
quem contraviesse 1). 

No mesmo anno, elle e o seu cabido fez outra 
composição cora D. Estevão de Belmonte, Grâo- 
Mestre da Ordem dos Templários em Portugal, 
Leão e Castella, pela qual lhe ficou competindo 8 
jurisdiccâo de conferir a collação ao abbade de S. 
Theago de Trancoso, e accordaram acerca dos dí- 
zimos das terras que aquella Ordem possuía na 
mesma vi) la e seu termo 2). 

No anno de 4233 o Papa Gregório IX por um 
Breve encarregou D. Egídio, o bispo de Lamego e 
o prior de Guimarães da missão de porem termo 
ás dissensões entre os cónegos de Santa Cruz de 
Coimbra e os Franciscanos, as quaes provinham 
de só aquelles quererem soiemnisar a crmonisaç-ào 
de Santo António 3). 

E' no tempo d'esíe prelado, se o não foi já no 
tempo de D- Bartholomeu, seu antecessor, que se 
levantou contenda entre a Sé de Vizeu e a da Egl- 
tania, de que era bispo o turbulento D. Martinho 
Paes, por causa das egrejas da Guarda, Germello 
e Castello Mendo. 

Os bispos de Vizeu estavam de posse d'estas 



1) ViLerbo -.Elucidário -vero. Teropreiros. 

2) Viterbo- Elucidário — varb. -Tempreiros. 

3) Mas. de Oliveira Berardo. 

Memorias da Acad. R. da Hiat., Tom. VI, n.° XXVII, 

png. 22. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



egrejas, mas D. Martinho, que então residia em 
Penamacor, pretendia faze-las suas, mesmo á forca 
de armas. 

Para sustentarem a posse da Só de Vizeu, mar- 
charam para a vil la da Guarda o abbade do Mos- 
teiro de S. Christovam, o parocho de S. Miguel de 
Ribeiradio, d'AIafões, e o bispo D. ("Hl, acompanha- 
dos dos seus cónegos e de urm jrande comitiva 
de clérigos. 

Sahe-lhes ao encontro junto do Mondego, mas 
fura do termo da villa da Guarda, o bispo da Egi- 
tania com uma grande multidão de clérigos e leigos 
armados, e os intima, em voz fortemente levanta- 
da, a não proseguirem, se não quizessem morrer. 

E, agarrando com as próprias mãos o freio do 
cavallo do bispo de Vizeu, o lmpelle para traz com 
desdém. 

Como este mostrasse propósito de proseguir 
seu caminho, o bispo da Egitania, puxando-lhe 
violentamente pela capa em que ia embrulhado, 
faz-lhe dar uma volta e obriga-o a retrogi-adar. 

Mas, ainda não satisfeito com isto, não só lança 
a mão e puxa pelos freios dos cavallos, em que os 
executores se achavam montados, com tanta forca 
que salta das suas boccas sangue, que vae man- 
char o fato dos cavai leiras, mas também fustiga 
fuiinsamsnte as alimárias e determina que sejam 
deitadas abaixo o bispo e os executores. 

Este exemplo é seguido e a ordem é cumprida 
pelos clérigos e leigos- armados que o acompanha- 
vam, que ferem e maltractam os do séquito do 
prelado viziense. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Aos vencidos restou apenas usarem das armas 
espirituaas contra os vencedores, fulminando-os 
com a excommunhão. 

A narração de todos estes factos encontra-se 
n'um documento original que se conserva em Vi- 
zeu 1). 

Estas discórdias e contendas chegam ao conhe- 
cimento do Papa Innocencio IV, que por um Bre- 
ve nomeia o Bispo do Porto e o seu Deão comnris- 
saríos apostólicos pani que summariamente e d 
vista da verdaie, ouvidas as partes, sentenciassem, 
compozessem e definissem o que lhes parecesse justo 
sobre as egrejas, objecto da contestação, pondo fim, 
por essa forma, a tão prolongadas discórdias e 
contendas. 

Em setembro de 1239 ou 1249 foram chamados 
os dois bispos á presença de seus julgadores, e os 
respectivos cabidos mandaram procuradores bas- 
tantes, como consta de um pergaminho original, 
que também se guarda em Vizeu, sellado com o 
sello dos ditos bispos e com o do cabido do Porto 
por parte dos procuradores, que não Unham sello 
próprio, não constando d'este documento qual o 
Am da demanda. 

O que se sabe é que a egreja da Guarda e Ger- 
mello Acaram pertencendo ao bispo da Egitania e 
a de Castello Mendo ao de Vizeu e seu cabido 2). 

O bispo D. Egidlo deixou para o seu anniver- 

1) Viterbo -Elucidário -y. Garda-Mss. de Oliveira Be- 
rardo. 

2) Yiteibo- Elucidario-v. (Jarda. Msh. de Oliv. Berardo. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



55 

sario seis maravedis e toda a sua herdade de Tra 
vassós e Carragozella 1). 

Sabe-se pela historia geral que, tendo D. San 
cho perdido o poder e as- esperanças de. o recupí 
rar, preferiu o desterro a Yiver obscuro na patrfe 
debaixo do jugo de seu, irmão, e que, escolhend 
Toledo para residir, ahi, veiu a fallecer em janein 
de 1248, como attesta o obituário de Santa Cm; 
de Coimbra 2). .. 

A noticia da morte de D. Sancho II, trazida i 
Portugal, cotlocando a coroa na cabeça do bolonhez 
completava e legitimava a auctoridade que .elli 
exercia desde os principios d& 1246, e, em ; flm 
tranquillUava-o na posse do poder que tanto am 
bicionára e obtivera á custa de concessões e pro 
messas humilhantes. . 

Tomou por isso im mediatamente o titulo de re 
de Portugal, sem comtudo deixar o de conde d 
Bolonha, que devora ao consorcio com D. Mathilde 

No seu reinado apparecem também as inquiri 
ções geraes, cujo objecto era o mesmo das ante 
riores, isto é, o inventariar os reguengos, as her 
dades foreiras ao rei, os padroados da coroa, 
quaesquer. honras e coutos de nobres ou de or 
dens, em cuja instituição de algum modo se hou 
vesse defraudado a propriedade tributaria 3). 

As inquirições estenderam-se também ás ter 
ras de Cèa, Gouveia, Trancoso e bispados de La 

1) Ribeiro B.itolho-DmloffOs. 

2) Al«. Herc. - Hiat. de Port., tom. II, n. XXX. 

3) Alaz. Herculano, Hiat! de Port., tom. III, pag. 62. 
Mon. Lusit., liv. XIV, «tp. 32. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



mego e Vizeu. Começaram estas em 23 de maio 
de 1258 e foram nomeados inquiridores Simão Pe- 
dro ou Pires de Espinho, Pedro Martins, de Porta 
de Guardiã, Pedro Arteyro, juiz de Bancls, e como 
escrivão Fernando Sueiro, outrora juiz de Vauga d). 

No Real Archivo acham-se cinco livros de Lei- 
tura nova , para onde se transcreveram, no tempo 
de D. Manoel, os livros mais antigos. O Livro I 
contém as inquirições de D. Affbnso II, principia- 
das em agosto da era da 1258 na provinda do Mi- 
nho, e parte das de Traz-os-Monles e Beira, achan- 
do-se ahi também, desde fls. 126 v.» a 130, inquiri- 
ções de D- Affbnso IIÍ em Basto da era de 1299. 

O Liv. II contém as mesmas inquirições do 
Liv. I. A fls. 118 v.°, col. 1.* ate o fim do Livro 



1) Viterbo-íJíuciíiario- v. Sepnlchro. O LI». I (las Inquiri- 
ções de D. Affonso III, fis. 1 1 Alá «o fim, e o tlv. III, fli. 1 • se- 
guintes contém a 3." Alçada das Inquirições (Testo reinado da 
era de 1296, comprehendendo as terras de Ce*, Gouveia, bis- 
pados de Lamego e Vizeu ale ao Douro.- Mem. para a Hlst. 
das Conf. regia» a'eete reino. Apontamentos e retoque*, pag, 
10 e 17. António Caetano do Amaral- liem. da Àcad. R. daa 
Soienclss, tom. VI, pag. lei, onde diz : "As sétimas inquiri 
coes ou quarta commiss&o de ABpnso III começou a 22 de 
maio de 1258, vigésima secunda die Maij .n E." M.» CC." I.X ■ 
vj.* (como se acha no L- 1.* dae InqqiriçCei do dito Rei, (la. 
II, e no liv. 3.", fls, I). A estas foram por inquiridores Simõ 
petrí de Spiuo, et Petrus martinl d'Porta d'6uardiit. et Petrus 
Arteyro Judex de Baucts. et Ffernandu» Suierij quondft Ju - 
diix do Vauga Scríbanus dní Regia, per man latum, etc, ad 
inquirenduta . . . omnss buob Regalengoa, et omnes auos di 
rectos in omni terra d'3ene. et de Gouvea . . . et in Eplaco- 
patu d'Lam«co. et dTiseo usq. ad Trancosum. et d Trancoso 
eurJde directo ao! Dorfiim., 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



seguem-se inquirições na Província da Beira (en- 
tão Extre madura) principiando em Coimbra e aca- 
bando em terra de Côa, freguezia de Bobadela. É' 
por enquereiores diversos dos da l. a , e não vem 
no Liv. I d'este reinado, nem no V, das del-rei 
D. Diniz. E' análogo a estas segundas o fragmento 
na Gav. 8 Maço 2, n.° 3.— 1) 

Devemos mencionar n'este logar a Provisão de 
2 de abril da era de 1303 (anno de 1255) pela qual 
se commetteu ao Rico Homem, Juizo, Tabellião, e 
Porteiro de Vizeu, recobrassem para El-Rey as 
suas Herdades, foreiras, e Reguengas d'este julga- 
do, que tivessem sido testadas, doadas, ou vendi- 
das a Cavalleiros, Ordens, ou outras pessoas defe- 
zas, ou eraprazadas aos foreiros que as tivessem 
desamparado, indo morar nas terras das Ordens, 
ou as deixassem incultas: mandando-as aforar todas 
novamente a outros, e regulando acercadas herda- 
des, possuídas de Cavallaria por Cavalleiros, ou 
Ordens, desde o tempo d'EI-Rey, seu Avô, e Pay, 
e sobre as obrigações dos mesmos possuidores de 
contribuirem como os Vilãos, não privilegiados, 
com os direitos devidos. Esta Provisão (que parece 
ter sido repetida para os outros districtos), tendo o 
mesmo objecto das inquirições, mal podia ser exe- 
cutada, sem os Commissarios inquirirem sobre 
aquelle assumpto 2). 



1) Mem. para a fliat. d;is Conf. Regina netle reino— Ad- 
dlUimontOB e retoques, pag. IH. 

2) Memoria para a HM. das Confirmações Rugias n 'este 
reino— Additameo too e retoques, pag. 4. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



D. Afibnso III commetteu, ignora-se em que 
data, duas Inquirições a Martim Perez, juiz de Vi- 
zeu, sobre a herdade de Porreeko e outra sobre 
a herdade de Veexro, em Porto de Parada, perten- 
cente á Caballaría de Paa<x>s 1). 

Até 16 de fevereiro de 1270, em que falleceu 
Afíbnso III, cujo reinado é uma epocha de verda- 
deiro progresso social, em que se dilatou a civili- 
sação e a classe popular fez importantes conquis- 
tas, além do que deixamos dito acerca das inqui- 
rições nas terras de Vizeu, só sabemos mais o 
seguinte : 

D. Afiunso III dirigiu à camará de Vizeu uma 
carta, dada em Coimbra em 28 di> julho de 1263, 
que depois foi reproduzida nas cortes de Santarém 
de 27 de janeiro de 1284, que remata assim: 

Dat. Santarém 27 die Januarii, quando Domi- 
nus Rex f<icit Uri Cartam suam super mandato Dni 
Papae, quod recipit Reye, mandante per suos Ricos 
Homines, et per alios de Concilio sito, quibus crnii- 
sit factum correctionis 2). 



1) LIv. I de Inquirições de D. Affonso III, lia. 45prope 
finem, no Arch. Nacional. 

Mero. para a hist. das confirmações regias neste reino. 
Addi (amentos e retoques, pag. 10. 

2) Pergaminho da Sé de Vizeu fls. 42.-03 ricos noimini 
Bram ob grandes de primeira classe, que tomavam cavallei- 
ros e tinham vassallos com que contribuíam para a guerra, 
e pelas insígnias que usavam em suas bandeiras se Hw* dava 
o nome de senhores de pendão e caldeira. Eram os conselhei- 
ros natos dos soberanos. António Caetano do Amaral. — Mem. 
du Acad. Real das Sciencias, tom. VI, p. 177 n. (a). 



>,Sitizeot>vGoOgIe 



Pedro Gonçalves já era bispo em 4250. Encon- 
tramos o seu nome firmando n'este anno a doa- 
ção do Castello de Albufeira no Algarve, feita por 
D. Affonso III ao mestre e cavalleiro da Ordem de 
Aviz 1). 

Em 1251 elle e o seu Cabido deram foral aos 
moradores do Couto da cidade de Vizeu, em que 
lhes permiltem vender as suas propriedades a quem 
lhes pague o seu laudemio =. Et qui dent nobis 
nostram vendam. 2). 

Em 1253 fez concordata com a abbadessa e 
Mosteiro de Lorvão sobre o quantum a egreja de 
Treixedo devia pagar de reconhecenç.a (reconheci- 
mento, agradecimento) á cathedral, de quem havia 
recebido a mercê de ser isenta da terça pontifi- 
cal. 3). (Doe.» de Lorvão.) 

A memoria d'este Prelado dura até 1254 — 4). 

Neste mesmo anno foi eleito bispo de Vizeu 
D. Matheus, primeiro d'este nome, que assistiu ás 
cortes celebradas em Leiria por D. Affonso III e 
assignou o foral que o mesmo monarcha conce- 
deu em 1255 aos moradores de Vllla Nova do Por- 
to, que elle fundou e povoou, e denominou Villa 
Nova para a differençar de Villa Velha de Gaia, que 
fica um pouco mais abaixo 5). 

1) J. Col- Mero. da Acad. R. da Hist, tom. li, n. XVII, 
pag. 94. Mas. de Berardo. 

2) Viterbo— Elucidário— v. Venda. 

8) Viterbo— Elucidário —v. Reconhecença, 
4) J. 001, M B m. da Acad. R. da Hist., Tom. II, png. 94. 
ltss.de Berardo. 

D) Catalogo doa bispos do Porto. Ribeiro Botelho, Diá- 
logos. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Esteve alguns annos sem alcançar confirmação 
do bispado e tanto qtie o foral dado a Monção por 
D. Affonso Hl em 4'26i ainda o nomeia bispo elei- 
to i). 

Foi um dos Prelados que supplicaram ao Pon- 
tífice Urbano IV em 4292 a legitimação dos filhos 
havidos do casamento do rei D. Affonso com D. 
Brites, estando ainda viva a condessa de Bolo- 
nha. Na representação feita ao papa acha-se ape- 
nas a letra inicial do nome de Matheus, d'onde 
nasceu lerem alguns auctores Martinho, e outros 
umas vezas Matheus e outras Martinho, contradi- 
zendo-se a si mesmos. 

Defendeu zelosamente a immunidade eccle- 
siastica nas vivas e trabalhosas contendas que n'a- 
quelle tempo se suscitaram em Portugal entre o 
clero e a coroa e que deram causa a tantos inter- 
dictos. 

Apezar de ter sido elevado á dignidade epis- 
copal, depois de ter entrado na administração do 
reino o conde de Bolonha, D. Matheus e os outros 
Prelados do reino guardaram intactas as tradições 
de inflexibilidade em matéria de interesses e pri- 
vilégios ecclesiasticos, em que eram offendidos e 
maltractados pelo rei. 

Por isso collocaram-se com elle em plena 
hostilidade, e, deixando posto interdição no reino, 
todos elles, com excepção dos bispos de Lisboa e 
de Silves, resolveram fugir e apresentar-se na cúria 



X) Ribeiro Botelho. Col - nas cit. Mera., tom. II, n. XVII, 
pag. 94. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



romana, talvez com o intuito de darem uma terrí- 
vel licção á monarchia. 

Cingia naquella conjuntura a thiarn papal Cle- 
mente IV, que por anisa dos tumultos de Itália se 
achava em Viterbo. 

Ahi lhe apresentaram uma extensa memoria em 
que expunham miudamente as cousas que os ha- 
viam compellido a dar aquells passo extraordinário 
1) e que se reduziam a duas: deter o rei os bens 
das egrejase obrigar as clérigos a responderem pe- 
rante as suas justiças em causas ecclesi&sticas 2). 
O Pontífice resolveu enviar a Portugal como 
núncio o seu capellãi Guilherme Folquini, deão 
de Narbona, pòm largas instruocões sobre o modo 
como havia de proceder na questão do clero. Como, 
porém, a missão acarretava delongas antes de pro- 
duzir resultado, o papa enviou nos fins de 12 >8 a 
Aftonso III um decreto, em que, entre outras de- 
terminações, se esta>3leciam tréguas de quinze 
ânuos entre o rei e o reino de uma parte e os pre- 
lados da outra. 

Pouco depois da partida do núncio para Por- 
tugal fallece inesperadamente Clemente IV em 2Í) 
de novembro d'aque!le anno e este acontecimen- 
to fez suspender a viagem do mesmo núncio, por 
ser revocado á cúria. 

Durante três annos a Egreja, em virtude do ciu- 



1) Alexandre Herculano — HM. de Portugal -Tom. Ill, 
png. 96 a 98. 

2) António Caetano d' Amar.il, nas Mem. da Acad. R. das 
Sciencias, tom. 6, pug, 92, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



me e enredos entre os cardeaes, conservou-se or- 
phã do supremo pastor, ate que afinal foi eleito 
Gregório X. 

A este tempo tinham já fallecido os prelados 
da Guarda, de Braga e o de Coimbra Egas Fafe, 
que havia sido elevado a metropolita de Compos- 
tella, restando apenas o do Porto e o de Vizeu, 
transferido por Clemente IV para a sé de Coimbra 
depois da promoção de Egas Fafe ; mas, apezar de 
reduzidos a tão pequeno numero, nem por isso de- 
sistiram do seu empenho, instaurando novamente 
as suas reclamações perante o novo papa. 

D. Matheus, transferido nominalmente para 
Coimbra, não foi reconhecido em Portugal como 
prelado d^aquella diocese, de cuja administra- 
ção pareça ter tomado conta interinamente o de 
Lisboa. 

N'um documento de setembro de 1273 — 1) e 
uoutro do anno seguinte 2), declara-se vaga a só 
de Coimbra, e todavia do contexto da bulia De re- 
gno Portugaliae se conhece que o bispo de Vizeu, 
transferido para aquetla diocese, vivia ainda em 
1275. 

Esta situação ambígua do bispo de Vizeu en- 
fraqueceu moralmente o seu partido, e a diutur- 
nidade da contenda e o excesso das accusacôes, 
feitas ao papa, exacerbaram os rancores e conver- 
teram o ciúme da auctoridade em Ímpeto de tyran- 
nia. O rei apodera-se dos bens e rendas da egre- 

1) Acha-ae na Torre du Tombo Q. 15 M. n.° 49. 

2) Citado na Monarchia Lusitana, L. XV, cap. XXXVI. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



ja de Vizeu, bem como dos bens e rendas das i!e 
Braga, Coimbra e Lamego. 

Não consta que os prófugos prelados ousassem 
voltar ao reino. 1). 

. Depois do Bispo 0. Matheus, dá Ribeiro Koie- 
lho 2) noticia de terem occupado a sè de Xusa. 
D. Pelagio.fmorto em 1231, D. Martinho, que em 
1262 assigna uma carta dirigida ao papa Urbano 
IV, em que se lhe pedia levantasse o Intardicto 
que estava posto em Portugal pelo motivo de el-rei 
ter casado com I). Beatriz sendo viva a condessa 
ds Bolonha, os declarasse legitimamente casados, 
e considerasse a seus lilhos como legítimos e aptos 
para succederem no reino; e, alem dos dois, D. 
Álvaro, fallecido em 1272. 

A noticia relativa a D. Pelagio e a D. Álvaro 
baseia-a Ribeiro Botalho na informação que d'elles 
dá Francisco d'Abreu no seu catalogo dos bispos 
de Vizeu, escripto por ordem do bispo D. João 
Manoel, mas tem em pouca conta o testemunho 
d'este auctor, que omitte D. Martinho, de que fal- 
ia o catalogo dos bispos do Porto. 

Do que dissemos acerca de D. Matheus, e que 
consta de documentos irrefragaveis, podemos con- 
cluir com certeza que D. Pelagio não existiu; 
que o Prelado que o catalogo dos bispos do 
Porto chama D. Martinho era D. Matheus, resul- 
tando a confusão, talvez, de ter assignado a sobre- 
dita carta só com a inicial M., como muitas vezes 



1) Alei. Herc-Hist. de Port, Toro. III, pag. 121 a 149, 

2) Diálogos. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



era costume em documentos óVaquelIa natureza; 
e finalmente que D. Álvaro podia ter existido ou 
depois da morte de D. Matheus ou depois da sua 
transferencia para a Sé de Coimbra, o que não po- 
demos affirmar por falta de documentos. 

A D. Affonso III, que expirava salteido pelos 
remorsos e pelos terrores do fanatismo, succedeu 
seu filho D. Diniz, que nasceu em Lisboa a 9 de 
outubro de 4251, tendo por isso apenas 18 annos 
quando tomou o pesado encargo do governo do 
reino. 

Todos os nossos historiadores se accordam um 
louvar altamente as suas qualidades e dotes e em 
collocar o seu penetrante espirito ao nivel dos 
mais esclarecidos da sua epocha. Nos seus alva- 
rás e decretos intitulou-ss rei da Beira 1). 

Foi o primeiro protector das letras em Portu- 
gal, e. segundo a phrase do nosso sentencioso 
poeta António Ferreira nos dois versos, que ser- 
vem de remate ao epitaphio qus lhe d sdicou, 

Regeu, edificou, lavrou, venceu, 
Honrou as musas, poetou e leu. 

Como vimos, uma das características dos rei- 
nados anteriores foi a lucta entre a realeza e o po- 
dei' ecclesiastico. 

« A índole rude de Sancho I e Affonso II, 
diz o sr. Pinheiro Chagas, não se curvou deante 
das exigências da egreja ; combateram como guer- 



1) Padre Leonardo de Sousa, vi 1 I. pag. 21, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



reiros brutaes e crusaram a espada com o báculo, 
mas foram a final vencidos, porque a intelligencw 
ha de sempre domar a força bruta. D. Sancho II, 
o capitão heróico, expiou ainda mais duramente, 
com a perda do throno, a sua inexperiência nas 
luctas diplomáticas. D. Affonso III, ainda que já 
mais iniciado nos segredos da politica, era comtu- 
do ainda rude bastante para que podesse sustentar 
até ao fim uma iucta victoriosa com o clero. 

Com D. Diniz não succedia o mesmo; era ho- 
mem illustrado, n5o tosco guerreiro.» 

Posto que fosse profundamente religioso, como 
se era no se:t tempo, tinha a firmeza bastante para 
não confundir as exigências profanas da egreja com 
a influencia morat que legitimamente lha devia 
pertencer. 

Mal que subiu ao throno percebeu que a paz 
com o clero era indispensável, e por isso enviou 
logo embaixadores ao Papa Nicolau III, mas a 
morte d'este a 22 de agosto de 1280 impediu que 
se principiassem as negociações. 

A este Pontifica succedeu Martinho IV, perante 
quem se negociou a concórdia entre el-rei e os 
prelados. NSo se concluiu, comtudo,'porque o Pa- 
pa fez algumas objecções, que D. Diniz não accei- 
tou. Prolongou-S3 a discussão durante o governo 
de Honório IV, e só terminou no tempo de Nico- 
lau IV, sendo a concórdia assignada no dia 7 de 
março de 1289. 

Curvãra-se o rei à necessidade dos tempos, e, 
ancioso de obter a paz, prometteu tudo quanto os 
prelados quizeram, negando formalmente ser cul- 



MbyGoogk 



pado das cousas que os mesmos prelados lhe im- 
putavam. Assim, entre outras, accusavam-no de se 
ter apoderado dos bens das egrejas de Braga, Coim- 
bra, Vizeu e Lamego; de tomar para si um grande 
numero de parochias com seus rendimentos; de 
mandar fazer inquirições sobre os bens do clero ; 
de lançar impostas extraordinários sobre as egre- 
jas de que era padroeiro; de obrigar os ecclesias- 
ticos a pagar tributos; de ter ameaçado de morte 
o arcebispo e os bispos, etc. 

Eram as queixas que elles repetiam sempre nas 
suas contendas com a coroa. 

As que respeitavam ás inquirições eram verda- 
deiras. Se as restantes tinham ou não razão de ser 
é o que se não pode decidir. 

No livro velho das Inquirições de D. Diniz nas 
comarcas d'Atêm d'Ouro e Beira, a fls. 37, encon- 
tram-se as seguintes: 

cAldea de S. Miguel d'Outeiro he herdamento 
de Santa Cruz, e da Sé de Viseu e de homens, fi- 
lhos d'algo, e tragem-na por honra que nom entra 
hi mordomo. 

A quinta da Torre da Eita, que he da Sé de 
Viseu, tragem-na por honra com toda essa aldeã, 
que nom entra hi mordomo. 

Villa Cova do Casal he herdamento de filhos 
d'algo e do Bispo de Viseu. Tragem-na por honra 
que nom entra hi mordomo. 

Em Silvares ha dois casaes da Sé de Viseu, e 
dois de lavradores, dois de Sueiro Afies e Sueira 
Afies e Martim Geraldes. Tragem-na por honra, 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



que nom entra hi mordomo, e tragem hi seu che- 
gador. 

A quinta de Fernão Garcia Cavalleíro com toda 
essa aldeã que som quatorze casaes de Alhos d'al- 
go, dois da Sé de Viseu e dois do Mosteiro de Fer- 
reira. Tragem todos por honra, que nom entra hi 
mordomo. 

Aldeã de Ferro Cinto, dizem as testemunhas 
que a trage o Bispo de Viseu, por couto. Trage hi 
seu chegador, e leva o Bispo ende a vooz e coima 
e omizio: nom dão ende a El-Rei nada. 

A aldeã que chamam Teivas, ha cinco casaes 
de Pedre afies cónego de Vis3u e onze herdado- 
res, e he provado que no tempo de El-Rei D. San- 
cho prestumero entrava hi mordomo, e tira-rto 
ende por juízo, e dizem as testimunhas de ouvida 
que a honrou El-Rei D. Affonso O Velho a Diogo 
Neseis, e que hi ha ende hi carta, e tragem-na 
por honra. 

Teia o logar qi.13 chatwm Lo 1 irosa quatro ca- 
saes da Sé de Viseu, e toda a aldeã de Villa de 
Frades, que he outrosim sa herdade; tragem-na 
toda por honra. 

A aldeã que chamam Comieira, são cinco ca- 
saes de um mercador de Viseu e homens lavrado- 
res. Tragem-na por honra que nom entra hi mor- 
domo. 

A aldeã que chaunm de Travanca he 
herdamento de Santa Cruz e da Sé de Viseu, e 
tragem-na por honra, porque dizem as testemu- 
nhas, que ouviram que Cera de um Conde que a 
mandara á Sé, e leva ende o Bispo a vooz e coima. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



No logar de Travasso ha três casaes da Sé de 
Viseu e dois de Sueiro o Gavaileiro; he provado 
que entra hi mordomo, e ha quatro casaes de San- 
ta Cruz, e tragem-nos por honra que nom peitâo 
ende nada a El-rei, senão aquelles três rezes. 

A aldeã que chamam S. Theago, e o que cha- 
mam o Cabal são herdamentos de homens filhos 
d'algo; e os logares que chamam Barbeitae Prime 
e Pinheiro são herdamentos da Sé de Viseu, e a 
tragem todos por honras. 

Os logares que chamam Rio de Loba e Gumi- 
rães são herdamentos da Sé de Viseu, e he prova- 
do que sohia hi entrar o mordomo, e peitavão en- 
de a vooz e coima, e omizio, e hora novamente 
desde tempo de El-rei D. Affonso Padre d'este 
reino, flzerão ende honra e tiraram ende o mor- 
domo, e tragem hi seu chegador. 

Na vjlla de Viseu dizem as testemunhas que ha 
hum Couto da. Sé por padrões, que chamam o 
Couto Velho, e fora dos padrões ha huã rua que 
chamam o Soar; tnige-a ora a Sé por Couto.e dizem 
as testemunhas que ouvirão dizer a muitos homens 
velhos que sohia era essa terra penhorar o mor- 
domo. O couto velho pelos padrões, este como 
está por couto, e a rua que chamam o Soar seja 



No logar que chamam Musubellos trage-o o 
Bispo de Vizeu por honra, e a vooz e a Coima que 
devia ende levar El-rei, leva o Bispo, e dizem as 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



testemunhas que ouviram dizer que era Couto. 
Este como estâB 1). 

El-rei negou todas as queixas que contra elle 
faziam, mas prometteu providenciar para que não 
tivessem fundamento para o futuro. 

Ainda depois se levantaram novas queixas dos 
prelados ; mas a prudência e firmeza do sábio mo- 
narcha soube conter os queixosos. Se se oppunha 
com intrepidez ás excessivas pretensões da egreja 
e as reprimia, também a protegia efficazmente con- 
tra as violências dos nobres 2). 



1) Ribeiro Botelho— Diálogos, pag. 363 e 354. 

Muitas das palavras empregadas neste documento ou 
n&o são hoje usadas ou tem outra significação. 

Para sua intelligencia julgamos indispensável apresentar 
os esclarecimentos que seguem: 

Jlãêa (ou Aldaia, segundo os Árabes) n&o significava, mui- 
tas vezes, um povo ou freguesia, mas um insigni Acanto Ca- 
sal, Quinta, Herdade, Propriedade, Vtila, Qranja, CeUeiro, 
Alguaria, ou toda aquella fazenda, que rendia ou podia ren- 
der algum fructo e algumas vezes era só de uma casa. E nesta 
persuasão estavam os portuguezes que primeiro povoaram o 
Brazil, chamando, por exemplo, dez aldeai a dez palhoças. 
{Continua nas paginas seguintes) 

2) O prelado de Vizeu queixou-sa a D. Diniz (1279) de que 
lhe quebraram os Coutos (pedras levantadas) de Cannas de 
Senhorim, doados no tempo de D. Sancho I, e el rei mandou 
por provisão sua a Geraldo Lourenço, tabelliâo de Zurara e 
do Sunhorim, e a D. Fructuoso, juiz da terra de Oliveira do 
Conde, que demarcassem os Coutos, recommendando-lhes 
que guaidasBem a carta de el-rei D. Sancho, e o ruminando 
a pena de 500 soldos (500 cruzados) para el-rei a todos aquel- 
les que nelles entrassem.— Ribeiro Botelho, pag. 362. 



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70 



Por provisão assignada no Porto aos 20 d' agos- 
to de 1292 e copiada no livro dos Privilégios do 
Cabido de Vizeu, D. Diniz, a rainha Santa Isabel, 
sua esposa, e os infantes, seus filhos, D. Affonso e 
D. Constança concederam aos clérigos da cathe- 
dral vários privilégios, pela forma seguinte: 

cE, outro sim, mando e outhorgo que os cléri- 
gos do Santa Maria da Sé de Vizeu hajam sas her- 
dades, e sas honras, assim com'as os cavalleiros 
de Vizeu miíhor houverâo; e non sirvão por ellaa 



HtrdamctUo, que algumas vaza* era syaonirao de hardoât 
e de aldéa, designava os bens de raiz, vindos por successão 
legitima ou por testamento em que alguém era inatituido 
por herdeiro. 

Algo era palavra com muitos sentidos. Significava favor, 
beneficio, acolhimento, mercê, benfeitoria, aiigmsnto, utili- 
dade, proveito, fabrico, amanho, emolumento, donativo, luva* 
interesse, ganho, augmento de rendas ou pensões, trabalho, 
mortificação, angustia, pena, afflicçao, desvelo e alguma cou- 
sa. Algo era também um titulo muges toso com que antiga- 
mente se distinguiam em Hespanha e Portugal os homens 
que se en nobreciam pelos seus merecimento» ou esclarecida* 
acções (em vista das quaes eram alguma cousa que interes- 
sava grandemente i pátria), doe homens plebeus, que ficavam 
sepulta loa no pó do seu nascimento. Aoe descendentes ou 
imitadores dos algos chamaram se filhos dalgo, e depois jl 
dalgos. 

Honra. Desde o tempo dos reis godos, em Hespanha, e de- 
pois em Portugal, chamaram -se Aonras ou onrras cortas 
porções de terreno em que os nobres, bispos e com m unida- 
des tinham aeue palácios ou quintas com Juriedlcçao sobra 
os visinhoa, seus vassallns ou colonos, que, como faudata- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



71 



a negun quante por resom de cavalíaria; que an 
a dar por Maio se non teverem cavallo, mas sir- 
vâo por el!as ante Altar de Santa Maria. . . E nos 
sobredito Bispo e Cabido de Vizeu por esta graça 
e por esta mercê que vos Rey D. Diniz a nos e a 
nossa Igreja fazedes, vendo que he gram prol, e 
gran melhoria da nossa Igreja, partimonos e qui- 
tamonos de todalas contendas, que nos e a Igreja 
de Vizeu com vos athe aqui por qualquer maneira 
que, e renunciamos a ellas, e promettemos de nam 
vir em contra, etc. 1).» 



rios, os reconheciam como a Senhores, quo tinham obriga- 
ção de os amparar e defender de qualquer violência ou ez- 
toisão, ficando d'est» modo as ditas honras e os que nollas 
moravam livres e isentos de imposições ou tributos reaes. 

A instituição das honras só devia ser feita por Carta do 
Soberano, ou por marco» e balizas levantadas epostas por au- 
claridade real. 

Muitos fidalgos e outras pessoas que o não eram, as Or- 
dens militares e monásticas abusaram d'esta instituição, 
creando honras por auctorldade própria, o que determinou as 
rigorosas inquirições dos nossos primeiros reis. 

E que o abuso estava iuveterado prova-o o facto de os di- 
rectos senhorios fazerem consignar na investidura dos prazos 
a clausula prohibitiva de não se transmittir o domínio útil a 
quaesquer fidalgos, para esses prazos não ficarem honrados 
levantando-se com eilso, a titulo de honras, e negando, com 
esse pretexto, oe foros devidos. 



1) Encontra-se esta concordata no Liv. 2.° d'EI -rei D. Diniz, 
fis. 28, e tua d'e11a menção, além d'outros, António Caetano, 
do Amaral, nas Mem. da Acad. Real das Sei anciãs, tom. VI, 
pag. 170, n (a). Col nas Mem. da Acad. Real da Hiat, Tom. II. 
Duarte Nunes de Leão, Chron. de D. Diniz, Tom. II, pag. 74. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Ao elaborar esta provisão tiveram-3e sem duvi- 
da em vista as palavras dos foraes concedidos a 
Vizeu por D. Theresa e D. Sancho I. 

O nome de cavalldros que estes diplomas con- 
cederam aos clérigos de Santa Maria de Vizeu 
(cónegos ?) equivalia ao de fíialjos, que mais tarde 
se usou. 

auctor da Nobiliarchia Portugueza 1), citando 

Coutas. Tiveram este nomo oa logaros ou herdades 011 por- 
çôts do terreno, demarcado»! por autoridade do monarcha; e 
lambem se chamavam coutos oa marcos e padrões ou pedrõca 
quo lhes serviam de balizas. Eram frequentes; e na mesma 
cidade, vila ou aldôa se acharam dois, três e mais anitos, 
mas, sendo prejudiciais á boa administração da justiça po r 
Acurem impunes os malfeitores ladroes e assassinos que a et - 
les se acolhiam e ahj residiam durante determinado tempo, 
foram nu maior parle devassados, e por lei de 1790 foram 
abolidas todas as jurisdicções particulares que nellea havia. 

Além dos coutos de fidalgos, de senhores, de igreja» e de 
mosteiros, havia também coutos do reino, de que falia a Orden. 
Àffonsina, liv. V, Lit. 61 e 180, e a Filippina, Mv. V, tit. 133. 

A palavra conto deriva da latina cantam, supino do verbo 
cavere (acautelar), significando os padrões que limitavam oa 
terrenos em que toda a pessoa devia acautelar-se de entrar 
violentamente e de damnlfkar ou destruir por qualquor 
modo as cousas ou pessoas que dentro (Telles se achavam. 

Dahi veio a pbraae vulgar— "R quem o contrario fizer, me 
pagará os meus encoutos, isto é, a pena imposta ao que vio- 
lava alguma cousa coutada- 

Ainda hoje, em muitas localidades, dizem que fizeram uma 
coutada ou tomadia os que se apoderaram (i Ilegal mente, já 
se vô), de uma porção de baldio, que circuitaram de pedras 
ou parede. 

1) Cap. 17, an. 1." e seguintes. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



a Pedro Mariz, Dialog. 3.°, cap. 5.°, diz que o pri- 
meiro titulo de nobreza em Portuga! fora o de 
Escudeiros — tMandou ma- 
tar dois Esciuleiros de sua casa que eram os fidalgos 

d'aquelle tempo» «De Escudeiros passaram a 

Caualleirost [fls, 160} Pelo moio assim refe- 
rido foram continuando os títulos de Escudeiros e 
Caualleiros athe que El-Rei D. Affonso V escolheu 
de uns e outros os que lhe pareceu. . , deu principio 

aos filhamentos e titulo de Fidalgos D. Se- 

bastian no anno de 1572 no seu Regimento man- 
dou se chamassem Fidalgos Cavalleiros e Fidalgos 
Escudeiros, e não havia outros, (fls. 463, principio). 



Devassa, deitar em devasso, devassar, era o contrario de 
couto, de coutar. 

Os terrenos que se devassavam ficavam sendo públicos, 
sem privilegio algum de indemnidnde eexerapçfto, e consisti» 
o acto de devassar em tirar as sebes, portas, valladae, cancel - 
las ou ba'izas, que os resguardavam, para os tornar patentes 
a todos. 

D. Diniz mandou devassar todos os terrenos que muitas 
co mm unidades e nobres do reino tinham coutado sem per- 
missão regia. 

Alguns particulares, com animo malfazejo, devassa- 
ram por auctorldade própria o que estava coutado, mus esse 
facto constituía um crime, que era punido com o desagrado 
do príncipe e com a pena dos encoutos. 

Chama se hoje mulher devassa A mulher publica, & mere- 
triz, & fazenda devassa a que está exposta á invasão dos ani- 
ma es. 

No direito antigo devassa era a inquirição de testim unhas 
acorra do crime q\'e publicamente se commettia ou ae torna- 
va publico. 



>,Sitize0t> V GoOgIe 



Durante os primeiros oito annos do reinado de 
D. Diniz occupou a Sé de Vizeu o bispo D. Ma- 
theiís II, de que ha memoria por escripturas de 
1279 e 1280, e que falleceu em 16 de fevereiro do 
a n no de 1287. 

O bispo D. Jorge d'Athayde no anno de 1571 
fez trasladar seus ossos para uma sepultura que 
mandou fazer na capella-mór do lado do Evange- 
lho, com a seguinte inscripção: 

D. Mateoeo EpÕ Visen. qui obij anno 1325 die 
16 Februari. Georgins ejusdem Ecciesiae Epns An- 
no 1571. die 4. Aprilis. F. C. 



Hi e hy. K' frequente nos documentos antigos o emprego 
das palavras fií e hy por ahi, nesse logar. 

Hordomo. Havia o mordomo mór e mordomo menor da 
Casa Real, sendo, entre nós, aquelle titulo significado pelos 
nomes de Dapifer, Curiae Dapifer, Maiordomus, Maiordomiu 
Palatii, Dispehtator Domas Regiae, Princeps Curiae, Coma 
Palatii, etc, e este pelos de Subdapifer e Maiordomus Curiae. 

Oe mordomos mores, a principio, nfto só governavam na 
Casa Real, mas estendiam a sua inspecção a todo o governo 
da monarchia; pouco a pouco, porém, foram docnind» de seus 
poderes ate que chegaram a ser meramente titularia 011 ho- 
norários. 

Os mordomos menores foram sempre de exercício e ser 
ventia. Eram feitores da Casa Real, de cujos negochs cuida- 
vam, cobrando dividas, arrendando e fazendo tildo o que con 
vinha á boa administração dos bens e rendas de seu amo. 

Chegado*. A cada passo se encontra esta palavm nau in 
quirições de D. Diniz de 1290 no sentido de mordomo ou feitor. 
Os chegAdrres tinham a attribuiçao, e dahi lhes veio o nome, 
de fazerem comparecer em certo dia os que nao pagavam os 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Em togar de anno, deve entender-se era de 
1325, que corresponde ao anno de 1287, no que 
concordam Ribeiro Botelho, Col e Oliveira Iterarão. 

A D. Matheus II succedeu D. Egas, um dos bis- 
pos que assistiu á terceira concórdia, para pôr ter- 
mo às duvidas sobre matéria de jurisdicção eccle- 
siastica e privilégios pessoaes e reaes, feita no Por- 
to entre D. Diniz e alguns prelados do reino em 
23 d'agosto do anno 1290 (1292, diz Col), a qual se 
encontra na Torre do Tombo no Liv. de Affonso 
II 1), no Liv. das leis antigas, fls. 39 v. e 40, e 
nas Ordenações Affonsinas sob o tit. 3.". 



foro* ou rendas devidas, de arrecadarem as coimas e de faze- 
rem penhoras. 

No julgado de Cota, bispado de Vizeu, se achou que el rei 
D. Affonso II doara esta terra a D. Martlm Fernandes e que 
este a doara á Ordem do Hospital. 

E des tntom er trouxe o sempre per onrra, e tragem ky seu 
Jttie, e teu Chegador, e nom entra hy portejro, nem Moordoino 
(CElRei. 

Er era pronome pessoal e Indeclinável que correspondia 
a eu e elU no singular, e a nós, vós o ellet no plural, e foi mui- 
to usado nos séculos XIII e XIV. 

Fortejro era o príncipe de algum território, comarca ou 
logar, e synonimo dd Rico Homem, Potestade, Maiorino ou 
Tenente. 

1) As concorda tas de efcrei D. Diniz acham -se encorpora ■ 
das nas Ordenações d'el-rei D. Affonso II a fls. 97, 103, 107, • 
no lir. 2.» das Orden. d'el-Rel D. Affonso V, fls. l, 11 e 16. 
Gabriel Pereira de Castro. Monomachla sobre as concordfas 
que fizeram os reis com os prelados de Portugal. 

Catalogo dos Bispos do Porto. Ribeiro Botvlho, Diálo- 
gos. António Caetano do Amaral, nas Memorias da Acad. R. 
das Siiencia», Tom. VI, pag. 09 e 100. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Por uma carta dada em Coimbra aos 12 de fe- 
vereiro de 1291, a qual se acha copiada num dos 
livros do cabido, D. Diniz permitte a D. Egas que 
faça um muro com uma porta no Alcácer d'esta 
villa entre a Torre e a Sé, derribando-se para isso 
as casas precisas, cuja pedra, telha e madeira ca- 
da um poderá levar, com tanto que fique uma em 
que se recolha o alcaide 1). 



Ende. Significa ã'ahi, e também aki. Nas constituições do 
arcebispo D. Martinho de 1304 (Documento de Moncorvo) diz- 
no: "Nom sacadas ende as despesas,. Era termo frequentíssi- 
mo em documentos dos séculos XIII e XIV. 

Vooz ou Voz o Coima. Eram os direitos ou tributos de mor 
domado, portagem e tafolaría. 

Em alguns documentos, a palavra voz significa— Aqui 
d'Ei-liei, e Coima ou Calupnia a pena que correspondia ao 
dslicto, injuria ou affronta, de que o offendido se queixava ou 
quereliava; noutros, encontra se a phrase voz de caritello ou 
caritel (palavra esta que se transformou em gueretla, ou co- 
mo diz o vulgo creta), significando a chamada de el rei era al- 
guma violência ou oppressâo. 
. No Ãro de Lamego havia o costume, que D. Affonso IV 
extinguiu nas suas primeiras cortes, de, quando ae achava 
alguma pessoa morta, sem se descobrir o assassino ou a cau- 
sa da morte, ser obrigado o togar ou localidade mais visinha 
a pagar ao mordomo trinta maravedis, ou provar quem foi o 
auetor ou qual a causa da morte. Esta pena chamava-se Coi 
ma ou Omieio. 

Omizio. Multa grave ou perdi mento de bens impostos, em 
favor dos fidalgos ou senhor das terras, aos que prneticavam 
crimes graves, como o de homicidio. 

No principio da monarchia cada um podia acoimar a mor 

1) Ribeiro Botelho, Diálogos, transcreve esta carta. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Pela já citada provisão de 20 dagosto de 1290 
fez D. Diniz composição com o bispo e cabido de 
Vizeu, pela qual lhes dôa a egreja de S. Pedro do 
Sul e o padroado d'ella com díodos os direitos e 
pertenças, e as de Santa Maria e S. Pedro de Cas- 
tello Mendo, restitue-lhes o couto da rua do Soar 



te ou deshonra de seus parentes, e, como d'ahi resultassem 
gravíssimos inconvenientes, Affonso IV prohibiu este costu- 
me, determinando que se guardasse o direito conimum, sen- 
do os culpados castigados pelas justiças, segundo as leis, e 
nao por auctoridade particular. 

D, Affonso V extinguiu por uma vez todas as multas, coi- 
mas ou vindictas entre todos os seus vassallos, de qualquer 
estado ou condição, prescrevendo que todo o que se achasse 
nggravado ou offendido recorrosse a Elle ou ãs suas justiças 
para obter satisfação condigna. 

Htrdador. O successor nos herdam entoa. 

Juiso.- -Era o que o direito da edade média chamava juixo 
d: Deus, que consistia nas provas indirectas, quando o facto 
se nflo podia averiguar por testemunhas. Essas provas eram 
o duello, o ferro em braza, a agua fria, a agua quente, o jura- 
mento, etc. Também foram adoptadas em Portug.il. Os pon 
titicas, concílios s príncipes empregaram os maiores esforços 
para as extinguir. Quasi todos os foraes prescreviam que to- 
das as intenções fossem descobertas pela inquirição de no 
mens bons e nao por moio do juízo. 

Sa ou Ssa. Sas ou Ssas. Sua, suas, Acha-se este pronome 
no singular e plural cotn muita frequência nos documentos 
desde o principio da monarchia até ao século XV. A' imita 
çao dos Romanos, que primeiramente disseram sa o sas e ao 
depois tua e suas, diziam os portuguezes sa ou ssa herdade, 
sas ou asas herdades, e hoje sua ou suas herdades. 



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78 



e outras herdades e logares que lhes Unham sido 
devassadas pela inquirição sobre honras e jurisdi- 
ções a que havia mandado proceder por Pedro 
Martins, prior da Costa, Gonçalo Rodrigues Mo- 
reira e Domingos Paes.de Braga, ordenando que 
voltassem ao mesmo estado em que antes d'ella 
se achavam, concede-lhes as suas herdades e hon- 
ras, como os cavalleiros de Vizeu melhor as hou- 
vessem, e além d'isso desobriga-os do imposto do 
cavatlo de maio, que substitue pelo ónus de ser- 
virem no altar de Santa Maria, o que é uma mt-rce 
e privilegio especial, que não consta fosse conce- 
dido a cónegos de outra Sé. 

Em compensação d'esta grande mercê compro- 
metteram-se elles a terminar todas as demandas 
e contendas que tinham com D. Diniz 3). 

Em prova d'isto existe no archivo da camará 
de Trancoso um livro d'onde o nosso antigo ami- 
go e condiscípulo, major do exercito, Norberto 

Sohia ou soía. Pretérito imperfeito do verbo toktr ou soer, 
que ainda boje, como então, se emprega em vez de costumar. 

Peitavãc. Era o pretérito imperfeito do verbo peitar, em- 
pregado nos séculos XIII e XIV, tendo o mesmo sentido que 
litije satufater e pagar. 

Km muitos documentos encontra- a o pKtar, prettar e ptt- 
tar. 

Nfio snbcmos Interpretar o sentido da pbrase-e que hi ha 
tnde hi carta—, que se encontra nesta inquirição. 



1) Ibi — ondu se encontra o theor d'eeta composição - 
Vilerbo-£I«cií/arío-verb. Soar. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Amâncio d' Almeida Campos extraiu cópia, que fez 
favor enviar-nos, das seguintes documentos: 

«Os moradores de Fiães pediram certidão dos 
pievilegios que tinham por pertencerem ao cabido 
de Vizeu cuja certidão é do theor seguinte : 

Certifico eu Simão de Figueiredo de Castetlo 
Branco, Escrivão da Camará d' este Bispado de Vi- 
zeu, que é verdade que no cartório da Camará do 
dito Bispado, que ora está em meu poder, está um 
instrumento authentico, em que estão incertos os 
previlegios assim do logar de Villa Garcia e de seus 
moradores, como dos moradores de Fiães, termo 
de Villa de Trancozo, por razão de serem da Ca- 
mará do Bispo d'este Bispado, de que o treslado 
é o seguinte: Saibam quantos este instrumento 
dado em publica lbrma. . . . 

Dom Filippe por Graça de Deus, Rei de Portu- 
gal, dáquem dalém mar em Africa etc 

A quantos esta minha carta virem, faço saber 
que Dom Miguel de Castro, Bispo de Vizeu, me 
enviou a dizer por sua petição que a elle lhe era 
necessário da torre do tombo o treslado d'um con- 
tracto que se fez antigamente entre os Reis d'este 
Reino e os Bispos de Vizeu, sobre certos cazeiros 
e cazaes que o Bispo tem e Cameras de sua Meza 
Pontifical, nas Villas de Pinhel, Trancozo, Castel- 
lo Mendo, porque o contracto que está em poder 
dos ditos lavradores se perdeu me pedia lhe faça 
Mercê de lhe mandai 1 passar o dito treslado da 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



torre do tombo no livro se- 
gundo da leitura nova da Comarca da Beira a fo- 
lhas trezentas e sete do qual o treslado verbo ad- 
verbum é o seguinte: Dom Affonso pela Graça de 
Deus, Rei de Portugal e do Algarve, a vós João 

Dorainguos Mendes e a todas as outras 

Justiças dos meus Reinos que esta caria virdes, 
saúde, sabéde que Gonçalo Vasques Thezoureiro 
de Vizeu e Lourenço Esteves, Gonegj do dito 
logar, Procuradores do Bispo e Cabido da dita Vil- 
la em nome dos seu Bispo e Cabido mostraram 
eiles e les fizeram perante mim uma Carta do Se- 
nhor Rei Dom Diniz, Meu Padre, a que Deus per- 
doe selhda do seu sello pendente de chumbo e 
outro sim sellada com dois sellos de cera penden- 
tes, um de Dom Éguas, Bispo que foi da sobredita 
Vilia de Vizeu, outro do Cabido do dito logar, se- 
gundo em elias parecia, a qual carta não era 
borrada nem riscada, nem entrelinhada em ne- 
nhuma parte, em si suspeita, da qual carta o theor 
de verbo adverbum é o seguinte: Do.n Diniz pela 
Graça de Deus, Rei de Portugal e do Algarve a 
quantas estacar ta virem, faço sabar que como des 
grão tempo fosse contenda sobre muitas cousas 
entre os Reis de Portugal e a Egreja de Vizeu, aci- 
ma todalas contendas demandas que foram entre 
elles e são agora a feitura dada d'esta carta foram 
renunciadas e vazadas pelo honrado Dom Éguas, 
Bispo e pelo Cabido do dito logar de Vizeu e pe- 
diram a mim que por essas demandas que haviam 
contra mi de que se inquietavam e pela alma do 
meu Padre e pela minha em merecimento de nos- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



sos peccados fizesse a essa Egreja de Vizeu algu- 
ma mercê Eu Dom Diniz sobredito Hei em Coim- 
bra com a Rainha Dona Izabel minha mulher e 
com o Infante Dom Aflbnso e com a Infanta Dona 
Constança meus Filhos querendo fazer graça e 
mercê a esse Bispo e Cabido e á Egreja do susn- 
ditos Dou e outorgo para todo o sempre e a seus 
successores a minha Egreja de São Pedro do Sul 
d'esse Bispado e o padroado d'ella com todos di- 
reitos e pertenças que d'essa Egreja me perten- 
cem de direito e outro sim dou e outorgo ao dito 
Bispo e Cabido e Egrejas de Vizeu todo o meu 
direito nomear digo se ou de direito devo haver 
nas Egrejas de Santa Maria, de Castello Mendo, e 
de São Pedro, de Castello Mendo, d'esse Bispado 
e outro sim outorgo e mando que a Rua que cha- 
mam de João de Vizeu e das outras herdades e lo- 
gares d'essa egreja que foram deitadas em devas- 
sa pela inquirição que foi feita sobre as onrras 
por Pedro Martins, Ruy da (tosta, por Gonçalo Ro- 
drigues Moreira e por Domingos Paes de Bragua 
que foram e correram em aquelle estado em que 
eram antes que essa inquirição e eu approvo, outro 
sim mando e outorgo que os seus homens que 
moram nas suas aldeias do termo de Trancoso e 
de Pinhel, de Castello Mendo, sejam teudos e man- 
teudos aos foros d'essas Vidas e costumes e não 
sejam teudos de servil- a outrem senom ao Senhor 
em caso estas se verem segundo como mandam 
os foros e os costumes antigos d'essas Villas e ou- 
tro sim Mando e outorgo que os jurados que esse 
Bjsjio e Cabido metterein nas suas aldeias (pie são 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



82 

tios termos de Castello Mendo, de Pinhel e de 
Trancoso, que viverem nellas, segundo o foro da 
sé de Vizeu hajam as herdades e as honras assim 
como os cavalleiros de Vizeu melhor houverem e 
nom sirvam por etlas a nenhum couto por razora de 
cavallaría que hão a dar por maio mas sirvão p. 
digo se não tiverem cavallo mas sirvão por e|las 
ante o altar de Santa Maria, e nós sobreditos Bis- 
po e Cabido de Vizeu, por esta graça e por esta 
mercê, que nosso Rei Dom Diniz a nós e á nossa 
Egreja fezedes vendo que é grã prol e gloria 
de nossa Egreja partimonos e quitamanos de toda- 
las contendas e demandas que nas Egrejas de Vi- 
zeu havíamos contra vos ate aqui por qualquer 
maneira. Renunciamos e promettemos de não vir 
em outra. E se por ventura algumas cartas e ins- 
trumentos parecerem sobre as demandas e conten- 
das que contra vós havíamos até á data d'esta car- 
ta, nom valha nem nos possamos aj udar d'ellas 
contra vós em nenhuma maneira. Epor esta nom 
renunciamos as exposições que foram feitas em a 
corte de Roma ante nós e os Prelados de nossos 
reinos salvo de todas a aquellas cousas que a te 
aqui taogiãn especialmente a nós e à nossa Egreja 
de que fomos comvosco avindos de que nos temos 
por paguados. E eu El-Ilei Dom Diniz prometto 
aguardar e fazer cumpri]- todas estas cousas, e ca- 
da uma d'ellas e nom virem em outra, e por este 
nom vir em duvida mandamos em elie fazer duas 
cartas por ABC selladas de chumbo de mim Rei 
Dom Diniz, e dos sellos de nosso Bispo e Cabido 
do susuditos aos quaes eu Rei Dom Diniz devo a 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



ter uma, e vós Bispo o Cabido outra em testemu- 
nho, dante no Porto vinte dias d'Agosto.El-Rei o 
mandou. Affonso Martins, era de mil e trezentos 
e trinta annos. e quanto do que suso a esta carta 
diz que os Clérigos da Sé de Vizeu nom sirvam por 
as suas herdades a nenhum couto por rezom de 
cavallaria que hão a dar por maio meu entendi- 
mento o que assi se entenda se a hão a dar por 
São Juan ou em outro tempo do anno qualquer e 
eu Affonso Martins (Miz) Escrivão sobredito a es- 
crevi e isto por mandado d' El-Rei em o dito dia e 
em a dita hora, a qual carta mostrada e levarda 
perante mi aos ditos procuradores em nome dos 
ditos Bispo e Cabido nos disserom que vós João 
Domingues que eu mandei a essas Comarcas da 
Beira para devassar dos coutos e honras que hão 
jurdições salvo as que achasse de que pendiam 
feitos delias por dante mi por razão do edito que 
eu mandei fazer em esta rezom, ou em aquelles 
que mostrassem que as haviam por cartas ou pre- 
vilegios de mim ou dos Reis que ante mi foram 
e lhe queriades devassar estes togares conteúdos 
em esta carta sobredita e para vos mostrar a dita 
carta lhe nom queriades guardar a pediram por 
mercê em nome do seu Bispo e .Cabido que vos ' 
mandasse sobre isto meu recado, e que lhes man- 
dasse comprir e guardar a dita carta do dito meu 
Padre. E eu vendo que me pediam direito, tenho 
por bem e mando que vós João Domingues e to- 
das as outras minhas Justiças cumprades e faça- 
des cumprir e guardar a carta do dito meu Padre 
em tudo assi como em ella é contheudo, e lhes 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



iiorn vades contra ella onde ai não facndes em tes- 
temunho devidos a esses Bisp^ e Cabido esta mi- 
nha carta do theor da carta do dito meu Padre. 

, dante em Coimbra a seis dias d'outubro. El-Rei o 
mandou por Affonso Esteves e por Mestre Pedro 
das leis seu vassallo. Francisco Lourenço a fez era 

,de mil tresentos o sessenta e sete annos, e não 
dizia mais na dita carta a qual assi achada no dito 
tiuro do tombo por parte do dito Dom Miguel de 
Castro, Bispo de Vizeu, foi pedido ao guarda-mór 
da Torre do Tombo lhe fizesse dar o treslado por 
quanto lhe era necessário e este lhe fez dar nesta 
minha carta assi e da maneira que no dito livro 
está escripta e nesta faz inensão ã qual darão tanta 
e táo comprida fe como á própria do dito livro por 
quanto foi com ella consertado e dada em mui no- 
bre e sempre leal cidade de Lisboa aos quatro dias 
do mez de Junho de 1575. » 

(Segue-se a medição das tetras de Fiães). 

Ainda D. Diniz doou ao bispo de Vizeu o pa- 
droado da egreja de Penaverde 1). 

Também este monarcha em 6 dabril de 1300, 
estando no Sabugal, concedeu a D. Egas o privi- 
legio de os juizes não poderem obrigar a ir á 
guerra contra sua vontade os moradores do Couto 
da Sé 2). 

O bispo D. Egas instituiu a collegiada de cinco 

1) Chronica de D, Diniz p ir Duarte Nunes de Leão, >ol. 
2." das Chron., pag. 74 ed. de 1744. 

2) Ribeiro Bolelho — Diálogos. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Economos de Santo André de Ferreira d'Aves e 
uniu-lhe as duas egrejas ruraes de S. Miguel de : 
Lamas e Forles, que se haviam erigido no século . 
XIII 1). ! 

Confirmou o foral dado por D. Diniz e sua es-' 
posa a Rainha Dona Isabel á nova villa de Villa ' 
Real 2). ; 

Em 1297 com outros Prelados do reino confir- 
mou a doação dos padroados de Mogadouro e Pe- 
nas Royas feita aos Templários por D. Diniz, pela 
Rainha Dona Isabel e por seus filhos os infantes • 
D. AfTonso e D. Constança 3); e em 1304 a doação 
que os mesmos monarchas fizeram a D. Giraldo, 
bispo do Porto, do Mosteiro do Canedo com o en- 
cargo de uma missa cantada em cada dia 4). 

Estando na sua quinta de Ferrocinto em 18 de 
novembro de 1296 piometteu sob juramento não 
prover os canonicatos que vagassem na cathedral 
sem estar completo o numero de dez Porcionarios 
(meios-prebendados), creados por uma bulia do 
papa Bonifácio VIII 5). 

Em 1304, tendo em vista a concordata do seu 
antecessor D. Fernando Raymundo, elle e o Cabi- 
do fizeram entre si nova repartição das Preben- 
das, Casaes e Egrejas. 

Essa concordata estava esciipta com letra anti- 



1) Viterbo— Elucidário— verb.— Ferros. 

2) Viterbo- Elucidário— verb. Vieiro. 

3) Viterbo— Elucidário— verb. Temproiroa. 
í) Ribeiro Botelho — Diálogos. 

;"ti Mhh. de Oliveira Berardo. 



>,Sitizeo.t>vGoOgIe 



ga num livro com folhas de pergaminho, e d'ahi 
a mandou trasladar D. Egas, como consta das se- 
guintes palavras do respectivo traslado, que Ribei- 
ro Botelho afílnna estar na camará da meza Pon- 
tifical: 

Era de 1343 aos 6 dias do mez de março a 
par (?) de S. Eugenia na presença de mim Pêro Do- 
mingues publico notário da Sé de Vizeu e das teste- 
munhas abaixo, me foi mostrada uma escriptura 
pelo Revd." Padre Snr. D. Egas por graça de Deus, 
bispo de Viseu, a qual estava em um livro de Cou- 
ro, entre muitas cartas, que estavam em um cofre, de 
que Pêro Vicente, cónego de Viseu, tinha a chave 
por parte do Cabido de Viseu, o thcor da qual de 
verbo ad vtrbum, é 

Collige-se d'aqui que junto ou muito perto da 
capella de Santa Eugenia estava a casa dos bispos, 
talvez casa de quinta, como opina o citado auctor, 
que testemunha terem-se encontrado naquelle si- 
tio pedras lavradas e pedaços de columnas 1). 

Nos muros que alli existem ainda hoje se vêem 
pedras aperfeiçoadas, que evidentemente serviram 
noutras construcções. 

Falleceu D. Egas aos 16 de março do anno de 
1313, deixando um legado importante ao cabido, 
que do mesmo prelado deve fazer commemoraçao 
em suas orações no dia 15 de cada mez 2). 



1) Ribefro Botelho -Diálogos. 

2) J. Col, Mem. da Acad. R. da HisL, Tom. II. 

Estatutos da Sé. Beraidu — Memorias Msa. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



87 



Um dos seus successores, D. Jorge óVAthayde, 
mandou gravar sobre a sua sepultura, que está na 
capella-mór da Sé da parte da epistola, o seguinte 
letreiro : 

D. O. M. 
Egeae Eps Visen. qui obiit 
Anno 1351 die 16 Marti] 
Georgius ejusdem Ecclãe Eps 
Anno 1571 die 4 Maii. 

auctor do letreiro evidentemente escreveu o 
anno pela era 1). 

No sobredito anno de 1313 foi eleito bispo de 
Vizeu D. Martinho II, porque em julho d'esse mfis- 
mo anno assignou, nessa qualidade, uma escriptura 
de doação dos Coutos da Regueira, que, segundo 
o testemunho de Ribeiro Botelho, esta na camará 
da Meza Pontifical. 

Em outubro de 1315 achava-se em Lisboa, onde 
assignou outra doação, que El-Rei D. Diniz fez a 
sua sobrinha a infanta D. Isabel 2). 

Não ha noticia da data do fallecimento de D. 
Martinho, que um chronista diz ter sido em 1323. 
que é certo é que n'este anno encontramos já 
occupando a Se de Vizeu o bispo D. Gonçalo II 3). 

Ribeiro Itotelho diz saber que D. Martinho foi 
capellão-mór de El-Rei D. Affonso IV por constar 
duma determinação d'este prelado e cabido ácer- 

1) Ribeiro Botelho- Diálogos. 

2) Fr. Francisco Brandão- Monarch. Lusit, Tom. 6. 
8) J. Col-Mwn. da Acad. Real da Hiat.-Tom. II, 

Bei ardo - Mero. Usb. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



ca das obrigações do thesoureiro da Sé, logar que 
então estava vago. 

Ha evidentemente equivoco, porque, quando, 
depois da morte de seu pae D. Diniz — 7 de janeiro 
de 1325—, D. Affonso IV começou a reinar, já ti- 
nha fallecido D. Martinho e occupava o seu logar 
desde 1323 D. Gonçalo II. 

O mesmo auctor, não fazendo menção d'este 
prelado, apresenta a D. Egídio como immediato suc- 
cessor de D. Martinho. 

Não ha, porem, documento algum que nos 
auctorise a affirmar que a Sé de Vizeu foi occupa- 
da nesta epocha por um prelado com o nome de 
Egidio. 

D. Gonçalo II, natural do Algarve e filho legi- 
timo de Gonçalo Garcia de Figueiredo, aio do prín- 
cipe D. João, filho de D. Pedro, e fidalgo muito 
rico, e de D. Constança Rodrigues Pereira, foi 
casado antes de abraçar o estado ecclesiastico. 

No anno de 1323, em que já era eleito, foi a 
Braga com o bispo do Porto, D. João, e ambos, em 
virtude d'um breve apostólico do papa João XXII, 
privaram por sentença os coadjuctores doarcebispa- 
do e nomearam a D. Gonçalo Pereira, bispo de 
Lisboa, seu governador durante a vida do arce- 
bispo. 

Falleceu em 21 de maio de 1328 1). 

Para não omitirmos facto algum importante, 
do reinado de D. Diniz, de que temos conheci- 

1) J Col- Mem. da Kc.nA. R. da Ilist, tom. II. 
Bêrardo— Maa. Munuscriptiia. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



mento, referente a Vizen, concluímos com as se- 
guintes noticias: 

Em 10 de junho de 1294 Fernão Esteves, 
meirinho múr de Entre Douro, deu nesta cidade 
sentença, provocada por uma queixa, contra Mar- 
tins Durães, de S. João d' Areias (logar que era 
couto), que prendera e ferira a um Domingos Ta- 
veira e.o levara a Santa Comba. Foram testemu- 
nhas presentes Estevão Martins e Domingos Pas- 
coal, Juiz de Vizeu, e Durão Peres, escrivão de El- 
reí 1). 

Em 1304 foi feita uma interessante postura 
pelos juizes, homens bons, cabido, clérigos e lei- 
gos do concelho de Vizeu, sobre os carniceiros, 
padeiros, vendeiros e reyateiras, na qual se estabe- 
lecem disposições importantes quanto ao preço e 
peso d i carne, venda de peixe, medidas e pesos 
falsos, e distribuição das multas, e se põe termo 
ao abuso de vender carne de uns animaes pela de 
outros e de a encher de vento para illudir os sim- 
plices. 

Este documento, que transcrevemos de Viter- 
bo, Provas e Apontamentos da Historia Portugue- 
za, tomo II, fls. 105 v. e 107 (manuscripto do Se- 
minário), é do teor seguinte: 

«Era de 1342 annos. 28 dias de Novembro, em 
prez.» de mim Stevão Domingues, Tabelliom de 
Viseu, Gil Eanes, e Stevão Martins, Juizes dessa 
Villa, stando no Soar per concelho apregoado, 



1) Ribeiro Botelho— pag. - 



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stando hi presentes Pere Ermiges, Girai Domin- 
gues, João Aff.°, D.™ Peres, Steváo Péres, Louro.» 
Eanes tabelliom, e outros muitos homens boôs do 
d.« Cone.» de Viseu, que hi veerom per prego m, 
teverom per ben de fazerem sa postura ea feito 
dos que filhavam o pescado ante que fosse almo- 
tacado, e sobre feito diis carnes, como se vendes- 
sem, e das outras cousas, como se mantivessem 
ben, e direitamente, aprofeitamento do dito Con- 
celho. 

Teverom por ben de o falarem com o Cabidoo 
de Viseu, e de o fazerem com ele ensenbra. E lo- 
go en outro dia os d." Juizes foram aa Crasta dos 
Coonigos da See de Viseu, seente hi presentes D. 
João Peres d'Alpram Davam, Maçam Paes Chan- 
tre, M.° Martinho, D. M Gil, Giraldeanes Coonigos, 
Pere Ermiges, Giraldomingues, João Martins mer- 
cadores, e outros muitos Clérigos e leigos do d.» 
Concelho, e Cabido, e fezerom postura en esta ma- 
neira: que os carnicejros dem o arratal do porco, 
e do carneiro por 4 dinheiros, e o arratal da me- 
lhor vaca por dons dinheiros, e da peyor por 3 mea- 
lhas, e o arratal da porca e da ovelha por 3 dinhei- 
ros, o o quarto do melhor cabrito por sex dinhei- 
ros: E que todo carnicejro que tiver falso pezo, 
que peite sesseenta soldos, e ponhftono na picota. 
E q. aquel q. inchar freama, ou outras carnes, ou 
poser sevo no rril do cabrito, q. peite cinque sol- 
dos: e se vender porca en vez de porco, ou ove- 
lha en vez de carneiro, q. peyte sesseenta soldos, 
e açoutemno pela vila. 
E q. todo o carniceiro q. se alçar de talhar car- 



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ne maliciosamente q. o degradem por huum anno, 
q. a nom talhe. E que a carne do coelho valha 
sex dinheiros, a quem a por mais der peyte cin- 
que soldos. E todos aquelles q. teverem os cami- 
nhos pêra comprar as vendas q. veerem pêra a vi- 
la, peytem sesseenta soldos: E todo homem q. fi- 
lhar pescado, ante q. seja almotacado, peyte ses- 
seenta soldos. E toda regateira, q. filhar pescado 
ante Terça, peyte dez soldos: E quem tever falsa 
medida de pam, ou de vinho, ou d'outras cousas, 
q. o acoutem pela vila com ela, e peyte sesseenta 
soldos. E toda paadeira, q. fezer pam q. nom seja 
de peso tal, qual os almotacees mandarem, peyte 
cinque soldos, e ponhamna na picota. E quem 
quizer ter alqueire atesteo pelo do cone», en tal 
maneira q. seja com rrazoyra, como ese do cone.» 
e atestemnos ata primeiro dia de Janr.° primr.» q. 
vem. E todo homem, ou molher, a quem outro 
acharem des entom adeante, peyte cinque libras. 
E disseram q. esto faziam por haver cada um o 
seu dereito. E quem poser vinho, ponhao por sol- 
dos cabaaes, q. nom ande hi meyo soldo, nem di- 
nheiros meyos, e se Ihi acharem medida, senom 
de soldos cabaaes, peyte 3 libras. 

E os Almotacees, q. meterem no começo de 
cada 'mez, jurem sobre os Santos Evangelhos q. 
façam cumprir e aguardar as ditas cousas, e q. 
nom façam rrogo de nenguum sobre as ditasj»- 
nas. E quem tolher penhor aos Almotacees, peyte 
3 libras, e jazea nove dias na*cadèa. E das ditas 
penas poseram, que levem os Almotacees o terço 
e o cone. , e o Cabido as duas partes para aque- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



las cousas q. por ben teverem. E dostas cousas 
os ditos Juizes mandaram a mim dito Tatnlliom, 
q. fezesse ende hum sturmento. E eu d.' Tabel- 
liom, q. este sturmento screvi, e meu sinal hi fiz 
q. tal he gg. Foi dado este instr." em qt. a fr.» ao 
Cabido em 13 de maio de 1338 e havendo-se toma- 
do este acórdão e postura no de 1304.» — 1) 



1) Explicação das pahtvras empi-eg^idas nesta documento, 
que nao foram explicadas a paginas 69 e seguintes d'este 
volume, e cujo sentido hoje geralmente se ignora : 

Filhar o pescado antes que fosse álmotaçado parece signifl" 
car a sua exposição á venda antes da inspecão e auctorísa 
çAo do almotacé. 

Aprofeitamento.—O mesmo que aproveitamento. 

Ensembra.— Adverbio. Conjunctamentt, 

Síííi fí.— Sendo. 

Dinheiro. -Era uma fraçcao do soldo. Antes de D. Aflbnso 
IV, 12 dinheiros faziam nm soldo, e elle determinou quo 9 o 
valessem. Já no tempo dos romanos se usou uma moeda de 
ouro com o nomp de sólidos, e quasi todas as nações usaram 
de soldos, mas com differente valor e peso. Entre nós bou- 
ve-os de ouro, prata e cobre. Dizem que valiam os de ouro 
320 reis, ns de prata 10 reis, e os de cobre 10 ceitis e 4[5 do 
ceitil, fazendo 20 d'ehtes uma livra de 36 reis. Tambpin hon- 
re toldos de cobre quo valiam 1 rosl e 2|7 de real e se diziam 
soldos de 24 lívririhas. Houve-o* também que va'iam 2|5 e 
1(20 do real e se diziam soldos de 7 livrinkas. 

Para terminar com esta variedade, D. Manoel em vários 
foraes determinou que se intendesse por 1 dinheiro 1 ceitili 
por 1 soldo 11 ceitis, e por 1 livra 36 reis. 

O ceitil era moeda decobre, britada pela primeira vez por D. 



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Vizeu era do senhorio de Ti. Diniz, mas, ha- 
vendo concedido alguns direitos sobre esta povoa- 
ção a seu filho o infante D. Aflbnso, foram taes as 
vexações por este practicadas contra os seus ha- 
bitantes que os juizes e o concelho (camará) se 
viram obrigados a dirigir ao mesmo monarcha uma 



Joáo I em memoria da conquista de Ceuta. Valia a sexta par' 
te de um real doa que agora usamos. 

Foi D. Manoel que estabeleceu o real como unidade da nos- 
sa moeda. 

Mealha. — Não era moeda cunhada do per si. Era metade 
de um dinheiro partida com faca, tesoura ou outro inetruraon- 
to. De ser metade do dinheiro se disse mealha, e de mealha 
se disso mealheiro. Também a mealha ao chamou pogeya ou 
pagueja e medalha. As mealhas extinguiram se no tempo de 
D. Manoel. 

Sex.— Seis. 

Picoía.-Pelourinhi com suns cadeias e argolas, onde os 
criminosos eram expostos ã vergonha. 

Inchar freama.— Encher de Tento aa avas o outros ani 
maoe, expostos á venda, para parecerem maia gordos. 
Freama significava também o leitão e a leiloo. 



Gingue. - Cinco. 

En.-Eta. 

St alçar de talhar.—^e atrovtr a talhar. 

Teverem os camifhos para comprar 03 vendas.— Irem es- 
perar aos caminhos que conduzem ã cidade as pessoas que 
aqui vinham vender foneros. 



v Google 



queixa, pedindo-lhe pozesse remédio a miséria 
(coita) e tribulação emque se encontravam, o que 
tudo consta da seguinte carta, que encontrámos 
em Viterbo—, Prooat e Apontamentos da Historia 
Portugueza, tomo If, fls. 103 (manuscripto do Se- 
minário) : 

eSenhor. Nos Vossos Juizes e Concelho de Vi- 
seu emvyamos muy bomi Idosamente beijar a terra 
d'ante os vossos pees, encomendado-nos en vossa 
graça e mercee, como a S. r q. deus faca Reynar 
muytos tempos por bem. Senhor, aa Vossa mercee 
fazemos saber q. Gomes Eanes e Vicente Peres 
Vossos Vassalos nos mostraram vossa carta aber- 
ta, en q. desiades antre as outras cousas q. os 
creessemos d'alguãs cousas q. nos diriam, e mos- 
trariam da vossa parte. E elles nos mostraron scri- 
pturas e processos grandes e sturmentos en q. era 
conteúdo muyto ben e mercee, q. vos sempre fl- 



Filhar pescado ante Terça.- Parece aer expor á venda o 
peixe antes de pago o tributo chamado terça. 

Nom façam trago de nenguum.— Não uttendani » podidos 
de pessoa alguma. 

Sturmento.— Instrumento, escriptura ou auto. 

Almotacé e almotacel. -Offlcial que tinh.i a seu cargo cui- 
dar na egualdade dos pesos e medidas e algumas vezes ta- 
xar o preço aos viveres que se compravam por meudo nas 
cidades. 

Almotacé da limpeza ora o cidadão ou official da camará 
que tinha a seu cargo a limpeza da cidade. 



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zestes ao lnf.° D. AfConso Vosso filho, e alguns 
movimentos, q. desedes q. el moveo contra a Vos- 
sa Vontade. E outra ssi nos mostraram outras scri- 
pturas e processos deste mal q. o Inf.° diz q. con- 
tra el foy cometido, e recados q. antro vos e el 
forom sobre esto e a Inquizioon q. v<*s dezedes q. 
sobr. esto mandastes fazer. E Senhor por taes mo- 
vimentos e levantamentos ssomos os do Vosso Se- 
nhorio en grani cojta e trebulaçom ata que deos y 
ponha remédio, q. ssa mercee for. Ca pois antre 
vos, q. ssodes nossa Cabeça, e o vosso filho pri- 
meiro e herdeiro sson taes movimentos e queixu- 
mes, assi nom podemoss nos viver senom en coyta 
ata q. o deos traga a boora ssoado. E gradecemos 
mt.» a deos e damos louvor por o bem e a mercee 
q. dezedes dos Vossos concelhos e naturaes sobre 
a dita duvida q. se levantou da carta dos sellos q. 
diziam q. fora feita.*Ca nós, Senhor, assi o teemos, 
e creemos, e somos certos, q. vos foste senpre, e 
sodes boom Senhor, e discreto, e assi o mostras- 
tes senpre en vossas obras. E q. os vossos Con- 
celhos, e naturaes sson boõs, e leaes, e aguarda- 
ron o vosso senhorio, e mandado, e aguardaram 
senpre. E outro ssf tíemos q. o Infante D. Aíf. 1 
vosso filho foy se:npre, ele boõ e leal contra vos, 
e contra os Vossos Poboôs do Vosso Senhorio, e 
q. aguardou sempre o vosso mandado, e nunca 
dei at soubemos. E pedimos aa Vossa mercee q. 
nom quejrades dei creer mal, nem desaguisado; 
ca asso vos, e asso a vossa mercee el he nosso 
Senhor natural, e vos assi nolo mandastes rrece- 
ber. E Senhor, querendo deos, nos guardaremos 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



o que devemos. E pedimos-Ihe por mercee q- quei- 
ra poer antre nos, e el tal concórdia, q. seia a seu 
serviço, e a vossa honra. Feita en Viseu na Re- 
guejra ante cas Pêro Paes trese dias de julho. Era 
de mil e tresentos e sincoenta, e oito annos. Tes- 
temunhas, q. assignarão no Instr." qd.« em q. 
foi conferida esta Carta Estevão Annes, Joliatn 
Grilo, Francisco Salvadores cidadãos: gç.° Nunes 
e Martím Peres Vogadas de Viseu e outr s gg. !)■ 

A 28 de janeiro do anno de 1321 (era de 1350) 
assigna em Santarém uma carta para Pêro Domin- 



1) Explicação de alguns termos dVte documento: 

Cojíra ou Cotio.— Necessidade, pobreza, lazei:i>, dôr, pona e 
e aíflicção. 

Boom Swado. — Bom caminho, bom procedimento. 

Desaguisado. — Mal intencionado. 

£sío.-Isto. 

Asso vos. Asso a vossa mercee- — Só a vós o só a vossa 
mercê. 

Antre.— Entre. Senom,— Sen&o. Boõ.i.-Bons. 

Al. — Nada mais. 

As fornias, usadas naqueiles tempos, dos verbos— tnostra- 
rom r desiades, crcer, creemos, creissemos, de sedes, forom, sodex 
e ssodes, gson, gradecemos, teemos, aguardaron, guejrades, cor- 
respondem hoje, reapactivaniunta, ãs seguintes — mostraram, 
dizeis, crer, cremos, crêssemos, foram, sois. são, agradecemos, 
temos, aguardaram, queirain. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



guês, Almoxarife do Infante na Beira, e para Af- 
fonso Gonçalves, em que lhes determina guardem 
e não vão contra os usos e costumes estabelecidos 
no concelho de Vizeu, quanto a cavallarias, nem 
contra os seus foros, e não façam outros agrava- 
mentos. 

D'esse documento vè-se que os cavalleiros do 
concelho de Vizeu desde tempos antigos eram obri- 
gados ao tributo chamado cauallarias, que consis- 
tia em apresentarem no primeiro dia de maio um 
cavallo para o serviço d'el-rei, ou, na sua falta, 
pagarem 20 soldos , ficando isentos d'outro qual- 
quer tributo ; e que os ditos Pêro Domingues e 
Affonso Gonçalves não queriam guardar esses usos 
e costumes. 

O theor da referida carta ó o seguinte : 

«Dom Denis pela graça de D. 1 Rei de Portugal 
e do Algarve a vos Pêro Domingues, Almoxarife 
do Inf. c na Beira e a Afonso Giz., saúde. Sabede 
que o concelho de Viseu me inviarom dizer que 
elles íun hum trebuto, que chamão Cavalarias, que 
foram feitas de tempo antigo en esto guisa q. aquel- 
les q. ouvessem cavalaria, ou fossem quinhoeiros 
en ella, e parecerem por primeiro dia de maio com 
cavalo pêra meu serviço nom pagar outro trebuto 
nenhum aquel ano por rasom de cavalaria: e se 
nom tever cavalo por aquel dia, dar logo vinte sol- 
dos: e os quinhoeiros d'essa cavalaria q. teverem 
cavalos, nom darem essa parte q. lhes acaveria dos 
30 soldos: e diz que assi o farom sempre e cus- 
tumarom: e q. ora vos que lhes ydes contra esto, 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



é que liio nora queredes guardai-. E vos sabedes 
que qualquer que de mim ten'ia terra como o in- 
fante tem de mim essa, que deve guardar seus 
Usos e custumes, que ouverem os concelhos, e 
nom lhes ir contra elles, e assi lhos fiz eu sem- 
pre guardar. Porque vos mando que assi como 
sempre usarom e custumarom esses de Viseu en 
feito dessas, cavalarias, q. assi os havedes usar e 
costumar d'aqui adiante, e nem lhes vaades con- 
tra seus usos e custumes, nem contra os foros q. 
am, nem lhes foçades y outros pgravamentos. Un. 
de ai nom façades senom a vos me tornaria eu por 
ende. E o dito concelho ou alguém por el tenha 
esta carta. Dante eu Santarém 23 dias de Janeiro 
El-rei o mandou. João Domingas de Portel a fez. 
E. de 1359 annos. 

Stevam da Guarda.» 1) 

Quando D. Affonso 4.» subiu ao throno, esta- 
vam socegadas as discórdias com o clero ; a nobre- 
za obediente; as ordens religiosas agrupadas, pelo 
reconhecimento, em torno do sólio como uma guar- 
da pretoriana; a agricultura no estado mais flores- 
cente ; a marinha orga.ni.sada; o commercío desen- 
volvido; e os bons estudos para sempre enraiza- 
dos em Portugal 2). 



1) Copiámos esta carta das Provas e apontamentos por- 
tuguezee, tom. II, fl». 90, por Fr. Joaquim de Santa Rosa de 
Viterbo, que com outros manuscriptos do mesmo uuctor se 
guardam no Seminário de Vizt.u, e file declara te la copiado 
de um pergaminho d,\ camará secular U'esta cidade. 

2) Sr. Pinheiro Chagas- llist. de l*ort., tom. I, pag. Z2i 



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Mas logo no principio do seu reinado renasce 
a questão dos privilégios das honras, que já havia 
sido resolvida no tempo de D. Diniz, porque os 
que aproveitavam com os abusos julgavam propi- 
cio o ensejo de um novo reinado para recobrarem 
o que haviam perdido . A quastão foi resolvida co- 
mo no tempo de seu pae 2). 

Por carta datada de Coimbra a 10 de janeiro 
de 1335 — 2) mandou por inquiridor as Comarcas 
da Beira e Tralos-Montes a Giraldo Estevez, da sua 
criação, que examinou os direitos jurisdiccionaes 
de cada um dos donatários ecclesiasticos e secula- 
res no Juizo dos Feitos d'El-Hef, sendo ouvidos os 
donatários por seus procuradores, inquiridas tes- 
temunhas sobre a posse, o tudo discutido em rigo- 
roso letigio. 

Em 6 de outubro da era 1377 (anno 1339) D. 
Aífonso IV dirige uma provisão a João Domiuguez, 
meu de creaçom, que eu mandei a essas Comarcas 
da Beira para devassar os Coutos, e Honras, que 
ham junsdiçoens, salvo a* qua achassedes, que pen- 
diam pleitos d' ellas perante mim, per rezam do Edi- 
to, que cu mandei fazer em est i rezam; ou em aquel- 
les, que vos mostrassem, que ai luxviam per Cartas, 
ou per Privilégios de mim, ou dos Reys, que ante 
mim foram; e nella lhe ordena e a todas as suas 



1) Ibi-pag. 326. 

2) Memorias para a Hiat. daa Conf. Regiaa n'esto reino - 
pag. 13. Ardi. Real, Livro das Devassas de D. Diniz, fls. 50. 
António Caetano cfAmar.U , nas Mem . da Acud. R. das Scien- 
cias, tom. VI, pag, 140. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



justiças não devassem as honras compretiendidas 
em uma transacção d'el-rel, sfi pae, com a egreja 
de Vizeu de 20 d'agosto da era 1330 (1328?), cujo 
theor reproduz, pela qual se mandou reintegrara 
mesma egreja das Honras que lhe tinham sido 
devassadas pelos Enqueredores da Commissão da 
era de 1326—1). 

D. AíTonso IV confirma no 1.» de junho de 
1341 os privilégios concedidos n Egreja de Vizeu 
por seus antecessores 2). 

Em 1330 ou 1331 havia escolhido para bispo 
d'esta diocese, sendo confirmado neste ultimo anno 
o seu chancelíer mor D. Miguel Vivas, a quem 
antes tinha dado a Egreja de S. Lourenço de Lis- 
boa e o seu padroado 3). 

Quando já eleito e confirmado, este prelado, 
achando-se de visita no Castello de Ferreira d' Aves 
em 30 de dezembro de 1331, deu nova forma e 
quasi que de novo instituiu a collegíada de Santo 
André de Ferreira d'Aves, de que acima falíamos, 
consentindo nisso os senhores da Terra, Lopo 
Fernandes Pacheco e sua mulher D . Maria Gomes 
Taveira 4). 

D. Miguel Vivas foi 13.° Prior da Collegíada de 

1) Memoria para a Historia das Conf. goraes neste reino 
-Additamenlos e retoques, p;ig. 6. 

Liv. IV da Chancellaria de D. Affbnso IV, lis. 41, in prin- 
cipio. 

2) Mss. de António Cardoso de Figueiredo. 

3) J. Col, Meni. da Acad. li. da Hiat. de 12 de fevereiro 
de 1722, n.» 37. 

i) Viterbo ~ Elucidário- v. Feiros. 



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101 

Guimarães, Desembargador ecelasiastico, Cónego 
de Braga e de Lisboa, Juiz d'El-rei, dignidade em 
que succedeu a Aflbnso Martins Vivas, casado com 
D. Toda, dos que havia memoria no Calendário da 
Sé de Coimbra, e Vedor da Chancellaria de D. Af- 
fonso IV 1). 

Algumas memorias manuscríptas e as da Aca- 
demia Real da Historia dizem que f'>ra eleito em 
1330, e morrera em 1335. Consta que por sua al- 
ma se diz uma missa na Sé em cada anno no mez 
de julho 2). E' porém certo que elle falleceu ou 
resignou o bispado antes de 1335, porque em 1333 
D. João, bispo de Vizisu, presta obediência ao ar- 
cebispo de Braga, D. Gonçalo 3). 

Fundado no testemunho de um nosso natural, 
Ribeiro Botelho diz que está determinado que na 
Sé de Lisboa se faça o anniversario d'elle no dia 
e mez em que falleoeu, nos seguintes termos: 10 
kalenias Junii fiat anniversarium pro anima Domi- 
ni Michaélis Vivas electi Visen. praesbit., e julga 
muito verosímil que elle fallecera em Lisboa, por 
ser chanceller d'El-rei, e de ordinário seguirem os 

1) Memorias da Acad. R. da Hist., tom. IV, a." XXVII. 
Historia Seraphica Liv. IX, cap. IV, pag. 262, n.° 1. Monareh. 
Lusit. 5.» parte, liv. 17, cap. 29, pag. 234 v. Representação da 
Egrejit de Murça no cartório da Co II cgiad a de Guimarães, Gav. 
20, HiisNO 8.°. Curogr. port., tom. II, pag. 183. 

2) J. Col, liem. da Acad. E. da Hist., tora. II, diz julho, 
mas Búrardo e Ribeiro Botelho, qno nós seRiiimos, dizem jw- 
«Ao, fundando se no livro dos óbitos da Sé. 

8) Documento de Braga, maço n.» 3.*-— Viterbo, Provas e 
Apontamentos portugueses, manuscripto do Seminário de 
Vigeu, tom. II, lis. 20. 



>,Sitizeot>vGoOgIe 



prelados a corte n'aquelle tempo, coroo se vê dos 
fomes e doações que assignaram e approvaram. 

No tempo de D. Aflonso IV, o cargo de tne- 
soureiro da Sé de Vizeu era occupado por Gonça- 
lo Vaaz, que foi um dos embaixadores que este 
monarcha, estando em Santarém em 30 de maio 
de 1340, enviou a seu sobrinho Affonso XI, rei de 
Castella, para com elle fazer a paz. 

Nem as chronicas nem os manuscríptos nos 
referem outras noticias acerca de Vizeu do tempo 
de D. Affonso IV, que falleceu em maio de 1357. 

Succedeu-lhe no throno seu filho D. Pedro I, de 
37 annos de idade, cujo nome a posteridade esti- 
gmatisou com o epitheto de cntei, alternando a 
injuria com o de justiceiro. 

São escassas as noticias acerca de Vizeu do 
tempo d'este monarcha. 

Sabemos por uma sentença do arcebispo de 
Braga do anno de 1360, que se guarda no archivo 
do cabido de Vizeu, que elle resolveu uma questão 
sobre luctuosas entre a meza capitular e o bispo D. 
João, que algumas memorias denominam apenas 
D. João II e Jorge Cardoso 1) diz ser D. João Mar- 
tins, cuja eleição outros asseveram ter sido feita 
no tempo de D. Fernando. Seguimos, porém, a 
opinião de Jorge Cardoso, baseados na inscripção 
que ainda hoje se vé na torre da Sé que fica para 
o lado do sul (chamada a torre do relógio). 

Se, depois de D. Miguel Vivas, e antes de D. 



1) Jorge Cardoso.— A geologío I.nsit., tom. IÍ, pag. 78. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



103 

João II ou D. João Martins, a esta diocese presidiu 
outro prelado, como parece crivei, não pode affir- 
mar-se, á falta de documentos. 

Sabe-se ainda, pelas chronicas de Ruy de Pina 
e Duarte Nunes de Leão e pelo catalogo dos bis- 
pos do Porto, que o bispo de Vizeu D. João foi um 
dos prelados que se achavam presentes á notifica- 
ção, feita ao povo em Coimbra em 1361, do casa- 
mento de D. Pedro I com a formosa D. Ignez de 
Castro. 

Satisfeito o desejo que por multo tempo nutriu 
de vingar a morte d'esta princeza, intenta D. Pe- 
dro rehabiiitar a sua memoria, e legitima solemne- 
mente, perante a sua corte, os filhos que d'ella 
houve, habílitando-os, assim, a poderem succeder- 
Ihe na coroa, se acaso seu filho mais velho falle-, 
cesse sem successão. 

Estando na villa de Cantanhede em 1361, reú- 
ne muitas pessoas, e perante ellas e um tabelliâo, 
sob juramento aos Sanctos Evangelhos, declara 
que, estando em Bragança ha 6 ou 7 annos, havia 
recebida por sua legitima mulher, guardados os 
mandamentos da Santa Madre Egreja, a D. Ignez 
de Castro, filha de Pedro Fernandes de Castro, e 
que só agora dava testemunho d'este recebimento 
e não o havia publicado em vida de el-rei D. Af- 
fonso, seu pae, por temor que d'elle tinha em razão 
de ter casado contra sua vontade. 

Esta declaração foi reduzida a escripto pelo 
tabelliâo, a quem D. Pedro ordenou que d'ella des- 
se conhecimento a qualquer pessoa que lh'o re- 
queresse. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Passados três dias, chegaram a Coimbra, e ahi 
na casa dos estudos, onde então se liara os câno- 
nes, perante um tabellião foram inquiridos como 
testemunhas, por terem sido referidos por el-rei, 
D. Gil, bispo da Guarda, e Estevam Lobato, guarda 
roupa de el-rei, jurando aquelle que os havia re- 
cebido em Bragança, sendo ainda Deão da Guarda, 
e este que fora testemunha presencial d' esse acto. 

«Tanto que aquellas testemunhas foram pergun- 
tadas, diz o chronisti 1), logo se ajuntaram D. 
Lourenço, bispo de Lisboa, D. AfTonso, bispo do 
Porto, D. João, Bispo de Vizeu, D. Affonso, Prior 
de Santa Cruz, e os fidalgos atraz nomeados, com 
muitos outros, e o vigário e cleresia da cidade, e 
muito outro povo, assi ecclesiastico como secular, 
que para este auto ali se juntou. E, feito silencio, 
começou a dizer o Conde D. João Affonso «Que 
lhes fazia saber que el-rei D. Pedro, sendo Infan- 
te, havia sele annos, na cidade de Bragança, sen- 
do el-rei D. Affonso, seu pae, vivo, recebera por 
sua mulher legitima, por palavras de presente, a 
Dona Inez de Castro, filha de D. Pedro Fernandez 
de Castro, e ella recebera a elle. » 

Peto letreiro, interpretado por Berardo, que 
está na torre da Sé, que fica para o lado sul, sabe- 
se que no tempo do bom e honrado bispo João 
Martins, aos 4 de juiho da era de 1400 (anno de 
1362), é que se completou a obra da abobada da 
Sé (não a que actualmente existe que 6 do século 



l) Duarte Nunes de Lefto. - Chroii., tom. It, pag. 216— 

ed. de 1774. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



IV), e que essa obra havia sido principiada em 5 
d'abril de 1282. Quando tractarmos da Sé voltare- 
mos a foliar neste letreiro. 

No tempo de D. Pedro I houve questão sobre 
a jurísdiccâo da alraotaceria entre os dois almota- 
ceis, que tinha a cidade, — um secular, eleito pelo 
senado d.i camará, outro ecclesiastico, nomeado 
peto cabido, em virtude de privilegio especial, que 
lhe foi dado por D. Diniz e confirmado por D. Af- 
fonso IV e D. Pedro I. 

O almotacé secular embargava as condemna- 
i.iões do almotacé ecclesiastico, pelo que o cabido 
levou as suas queixas a el-rei, que, denunciado o 
pleito, mandou passar de Tentúgal, bispado de 
Coimbra, na era de 1401 (anno de 1368), provisão 
ou carta, em que determinou que o almotacé, 
nomeado pelo cabido, podesse usar do officio da 
almotaceria com o almotacé do concelho, e por si 
só in solidum. 

Encontramos transcripta no I volume da obra 
manuscripta do padre Leonardo de Sousa a se- 
guinte parte d'osse diploma: 

«Dom Pedro por graça de Deus rei de Portu- 
gal e do Algarve. A vos João Peres Arragoens, 
Corregedor por mim na comarca de Entre Douro 
e Tejo e a qualquer outro Corregedor, que por 
mim em essa comarca andar, e a todallas outras 
minhas justiças que esta carta virdes, saúde. Sabe- 
de que perante mim veio um feito ordínhado pe- 
rante João Coelho que por mim em essa comarca 
ante vos foi Corregedor o qual era entre o Cabido 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



da sé de Vizeu e o concelho do dito, logo dizendo 
o dito Cabido contra o dito concelho que por El- 
Rey D. Aftonso meo Padre que Deus perdoe foi 
dada uma sentença na qual entre outras cousas, 
que por o dito Senhor Rey fora mandado que o 
dito Cabido puzesse um cónego por Almotacé do 
Olficio da Almotaceria na dita cidade com o Almo- 
tacé do Concelho, e dizião que por muitas vezes 
acontece que o dito Almotacé do dito concelho nSo 
estava prestes, presente, e que o Almotacé do ca- 
bido achava de carniceiros, e padeiras, e peixo- 
deiras, e candieiras, taberneiras, e as outras pes- 
soas, que á dita cidade davào mantimentos, em 
coumas, convém a saber, achando pão menor do 
peso que devia ter e os carniceiros não dando car- 
nes nem quaes devião, e lhes era mandado, , 

e as outras errando em aquillo que havião de fa- 
zer, e de dar a dita cidade assim como são devidos 
e que por Almotacé que he do dito cabido queria 
penhorar e constranger aquelles que assim achava 
em coumas, e errarão em aquillo que hão de fazer 
em elles direito, e justiça assim como pertencia ao 
seu officío de Almotaceria que o dito concelho o 
tomava e embargava não o querendo deichar usar 
de seu officio dizendo não havia poder de o fazer 
senão juntamente com o tal do concelho, etc. 1).» 

No mesmo anno de 1351, o bispo D. João II 
assistiu á sagração do convento velho de S. Fran- 

1) Padre Leonardo de Sousa, tom. I, Ha. 144 e 145. 

Feixodeiras -Vendedoras de peixe. 
Candieiras— Vendedoras da candõas"do cera, a que hoje 
chamamos rolos ou velas de cêbo. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



cisco de Coimbra, feita pelo arcebispo de Toledo 
D. Vasco (que, perseguido por D. Pedro, o Cruel, 
rei de Castella, se tinha refugiado em Portugal e 
governava então o bispado de Coimbra), bem como 
á sagracSo de Fr. Affonso, religioso da ordem de 
S. Francisco, para bispo de Orense 1). 

D. Pedro I falleceu em 18 de janeiro de 1367. 

Subiu ao throno D. Fernando I, que pela sua 
gentil presença e nobreza de porte a historia co- 
gnominou =0 Formoso. 

Era rei de castelia e Leão D. Pedro, o cruel. 
Seu Írm3o natural, Henrique It de Trastamara, 
disputou-lhe o throno e pediu soccorro a Carlos V, 
rei de França, que lh'o concedeu com o fim de 
vingara morte de uma princeza franceza, Branca 
de Bourbon, que no dia seguinte ao das núpcias 
com D. Pedro tinha sido lançada na prisão e de- 
pois assassinada. 

Este auxilio foi efficaz. Henrique de Transtama- 
ra ficou vencedor nos planos de Montiel e foi co- 
roado rei. Depois de vencido, D. Pedro foi attrahido 
um dia á tenda do general francez, condestavel 
Bertrand Duguesclin. 

Assim que o preveniram de que seu irmão lá 
estava, D. Henrique, armado de ponto em branco, 
e seguido por alguns cavalleiros, foi ter com o des- 
graçado, e precipitou-se sobre elle procurando fe- 
ril-o. Trava-se uma lucta feroz e horrorosa. De- 



ll J. Co], Mero. da Acad. R. da Hist., Tora. II. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



pois dalguns momentos, Henrique levanta-se triuoi- 
phante e D. Pedro jazia cadáver no chão. 

Este crime não foi favorável á causa de D. Hen- 
rique e atienou-lhe os ânimos de muitos fidalgos e 
de muitas cidades, que, lançando os olhos em tor- 
no de si, não viram quem os podesse ajudar senão 
o rei de Portugal. 

Mandaram dizer a este que lhe era fácil con- 
quistar a coroa de Castella, e que ninguém como 
elle tinha tantos direitos a cingi ia, por ser bisneto 
dos reis D. Sancho IV e D. Fernando III, e final- 
mente que, se entrasse pelas terras d'aquelle reino, 
muitas cidades o reconheceriam immediatamente 
como soberano. 

D. Fernando, essencialmente ambicioso, cedeu, 
apesar de povo e fidalgos desapprovarem seme- 
lhante guerra. 

Mandou emissários a Eduardo III, rei de In- 
glateira, e a seus filhos para lhes narrarem a tris- 
te sorte de D. Pedro e pedir-lhes que viessem vin- 
gal-o e vingar-se, e fez tractados de alliança cora 
Muhamad VI, rei mouro de Granada, e com o rei 
de Aragão. 

Ajustadas estas alliancas passou á Galliza acom- 
panhado de vários fidalgos, ao passo que uma es- 
quadra de oito galés ia seguindo a costa. Pres^i- 
ram-lhe obediência Tuy, Ourense, Salvaterra, líayo- 
na, Corunha e, quasi se pode dizer, toda a Gal- 
liza se declara por D. Fernando. ' 

Apenas D. Henrique soube da entrada do mo- 
narcha portuguez em terras de Galliza, levanta o 
cerco de Samora e dirige-se áquella província. D- 



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Fernando, tendo conhecimento d'esta resolução, 
retirou-se immediatrunente para Portugal. 

D. Henrique, depois de recuperar Tuy, entra 
n'este reino e tomando Braga e Bragança, dirige- 
se a Medina dei Campo, onde celebrou cortes, lan- 
cando-se em seguida sobre Samora. Achavam-se 
aqui os filhos d'el-rei D. Pedro, que prendeu, e 
outros cavalleiros, que matou. 

N'esta cònjunctura D. Fernando propõe e ajus- 
ta a paz, contractando casar com a filha do rei 
castelhano. Mas o conde João AfTonso, que tinha 
sido um dos negociadores do tractado, fez com 
que D. Fernando recebesse por mulher sua sobri- 
nha, filha de Martim AíTonso Tello. Desposou-a 
em Leza, próximo do Porto, ordenando que a cha- 
massem Rainha e a tivessem por Senhora d'estes 
reinos. 

Por outro lado, os castellãos portuguezes entra- 
vam e devastavam as terras de Castella. 

Tudo isto escandalisou D. Henrique, que man- 
dou tomar a vilta e Castello de Miranda, e commu- 
nicou a D. Fernando (pie, se quizesse fazer a paz, 
enviasse Diogo Lopes Pacheco com poderes para 
firmar o tractado que haviam feito, pois só com 
esta condição lhe entregaria aquella villa e castello. 

Efectivamente foi enviado, mas parece que na- 
da ultimaram pois que, no principio do anno se- 
guinte (janeiro de 1373), D. Henrique com toda a 
sua gente entrou em Portugal, rendendo-se-lhe 
logo Pinhel, Almeyda, Linhares e Sorolico. 

Veio depois a Vizeu, cujo castello e fortaleza 
cairam facilmente em seu poder por não terem 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



muros, estacionando nesta comarca todo o mez de 
janeiro e levando d' aqui para Castella muitos des- 
pojos (esbalhos — diz o Chronicon Conimbricense 1) 
e grande numero de captivos. 

Mas antes de partir para o seu reino dirigiu-se 
a Lisboa, estando D. Fernando em Santarém. 

E' nesta occasiào que o cardeal fluido de Mont- 
fort intervém e consegue fazer D paz entre os dois 
monarchas, que juram amisade em 10 de marco 
de 1373. 

Uma das condições foi o casamento do conde 
de Gijon D. Affonso, filho bastardo do rei de Cas- 
tella, com D. Isabel, lilha bastarda do rei portuguez, 
a quem seriam dadas em dote a cidade de Vizeu, 
e os logares de Celorico, Algodres e Linhares 2). 

Outra foi que D. Henrique conservaria em seu 
poder como penhor do cumprimento do contracto, 
por espaço de três annos, Vizeu, Miranda, Pinhel, 
Almeida, Celorico, Linhares e Seguia, e levaria em 
reféns para Castella vários fidalgos e cidadãos 3). 

Naquella doação feita a sua filha Isabel e con- 
de D. Affonso, D. Fernando diz que doa esta ci- 
dade e os referidos logares, tcom almoxarifa- 
dos, e aduanai, e com thlalis outras rendas, e di- 
reitos, que Nos havemos e nos pertencem de haver 
em qualquer maneira, em a dita cidade e lugares, 



1) Flôren-Hesp. Sagr., tom. 23, papr. 330 e aegs. 

2) Don Modesto Lafuente, Histuria General de Hespana, 
ed. de 1889 -tom. V, pag. 169. 

8) Chron. de D. Fernando por Duarte Nunes ds Leâo- 
vol. I das Chron., pag. 287. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



com justiça e jwdição eivei e criminal, e mero, e 
mixto império, segundo mais compiHdamente a Nós 
havíamos. Pêro reservamos pêra Nos as aypellaçôes 
de segunda instancia, das sentenças assim em feitos 
doeis, como crimes, e em quaesquer outros de qual- 
quer condição, que sejão, senio o dito Conde, e Vos 
dita Condessa, ou qualquer de vos neste reino de 
Portugal. 1 » 

E faz esta ampla doação para elles, seus filhos 
e filhas, tt para os que (Testes descenderem por 
linha recta e legitima. 

A Carta foi passada em Vailaila a 2 de outubro 
de 1377—1). 

D'ella se vê que por mais amplas que fossem 
as clausulas a respeito de jurisdicção de donatá- 
rios, e por mais graduados que estes fossem, nun- 
ca ficaram exemplos do ultimo recurso a El-rei, 
como o mesmo D. Fernando declarou em lei que 
mais tarde foi incorporada na Ordenação Aftbnsi- 
na, onde forma o titulo o'3 do livro II 2). 

Quem se seguiu a D. João II foi 1). João Mar- 
tins, que como D. João I, teve o epitheto de — boa 
memoria, por suas grandes obras. Foi o único bis- 
po que tere Vizeu no tempo de el-rei D. Ferna ndo 
e ainda floresceu no reinado de D. João I. 

]>'elle dá noticia o livro das confirmações da 



1) Ardi. Real, Li.'. II da Chancellaria de El-rei D. Fur- 
luiíiilo, fK 27. 

2) António Caetano do Amaral Memor. da Acari. V. diw 
Sdencias, tom. VI, psifr- 164 n (o) e png. 165 n (c). 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



em de 1413 (anno de 1375), do qual se vê que 
apresentou na capella de Nossa Senhora da Victo- 
ria de Carragozella a Fernão Esteves 1). 

mais que d'elte temos a dizer reservamo-lo 
para o capitulo seguinte. 



1) Livro óhs uonflrmaçõea da Camará Eccl. 

Ribeiro Botelho, pag. 466. Padre Leonardo de Sousa, 
tom. II, pag. 146 e 147. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Meia importante relativa a esle poda 

Depois de impressas as paginas anteriores < 
contramos no cartório do cabido cópia de n 
carta de el-rei D. Fernando, que julgamos de gr; 
de importância, da qual extractamos o seguinb 

«0 Daiãn (Dean) e cabida da Sé de Vizeu d 
giram a el-rei D. Fernando uma representação 
que lhe expunham que a jurislicção da almotaço 
da cidade era juntamente do concelho e sita d'el 
pondo-se em cada mez por almotacé um conei\ 
um homem bom do concelho; 

que estes constrangiam paleiras, carniceiros, 
nhateims, peixoteiros e outros ministros perlem 
tes d sua jurisàtcção, que desobedeciam e. tranx 
dlam os mandados e posturas suas e dos vereain 
julgando-os por coimeiros em suas sentenros; 

que essas sentenças iam á alr.aia dos juizes 
cidade, que as desfaziam sem appellar.ão ou recu 
resultando d'ahi não se executarem nera paga 
as edmas postas, e lançarcm-se algumas fint 
talhas e fazerem-M' outras coimas, que se não p< 
riam ou fariím, se at coimai fossem arrecada 
como cumpria; 

e lhe pediam que pozesse nisto algum rem 
qual cumprisse, segundo entendesse e houvesse 
bem do seu serviço. ^ 

D. Fernando, por carta passada em Seia ao. 



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de novembro da era de 1417 (anno de 18791 por 
Gil Annes, seu vassallo e corregedor na sua corte, 
dirigida aos juizes, vereaiore.;, procurador e homens 
bons da cidade de Vizeu, aos que ora som e forem 
cTaqui em deante, declarando ter-se informado so- 
bre estes factos e atteniendo a que não convinha 
tractarem-se por escripto os feitos da almotaçaria 
nem fazerem-se nelles perlongas nem dar logar ás 
partes que usassem de ti:>gitri.i* (intervenção de 
advogados} e fizessem ndles despezas perlongadas, 
o que tudo se fazia nesta cidade, houve por bem e 
mandou, para refrear tulo isto : 

que, quando perante os almotacés da cidade ou 
perante cada um d'elles vierem feitos de coimas, pe- 
tas quaes alguns forem demandados por as posturas 
do concelho, conheçam d'ellas simplesmente sem 
outra forma de juizo, ouvindo apenas os auctores e 
os defensores dos réus e dando suas sentenças con- 
forme o direito e o costume da terra; 

que, se algumas das partes appellar d' essas sen- 
tenças, lhes recebam as appellações nos casos em 
que as devem receber, segundo o costume da cidade; 

que os almotacés, que derem as sentenças, irão 
pessoalmente recontar as appellaçõ9S aos juizes, por 
palavra, presentes as partes ou á revelia, no dia as- 
signado, e lhes exporão os fundamentos das suas 
sentenças; 

que os juizes confirmem ou revoguem as senten- 
ças dos almotacés, como intenderem que o devem 
fazer, sem haver ahi outro incouto de feito nem ou- 
tro p-ocesso; 

que o escrivão da almotaçaria tenha um livro 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



em que escreva em separada os nomes dos que fo- 
rem julgados e coniemnadoê por coimeiroa; a quan- 
tia em que foram condemnalos; o dia mez e anno 
em que a sentemja for dada; e os nomes dos almo- 
tacés que servirem em cada mez, segundo a regra 
que lhe foi daia por Gil Atines, corregedor da cor- 
te; tire das notas das sentenças alvarás, por oníe 
serão constrangidos os conlemnados pelas quantias 
que hão de pagar, sendo esses atoarás assignados 
por aqueUes que proferirem as sentenças; 

que não haja uhi outra escriptttra, nem proces- 
so, nem instrumento, nem condemnwião de custos; 
que o escrivão, de caia sentença, leve um soldo, 
sendo seis dinheiros do registo e outros seis do alva- 
rá. 

que, em todas ai coimas que não passarem de vin- 
te soldos possam os juizeu dar livramento por si 
sós, mas, excedendo essa quantia, vão d casa da ve- 
reação, e, presentes todos os oereadores ou dois dei- 
tes, ouçam as appellatjões, que os almofacés alii de- 
vem recontar, e, com todos os vereadores ou a maior 
parte d'elles, dêem suas sentenças conforme o direito 
e o costume da cidade e as façam escrever, como aci- 
ma dito é; 

que esses feitos não tenham perlongas; e, deven- 
do saber os dias em que deoem comparecer as par- 
tes para assistirem e os almotactis para recontarem 
as appeilações, os juizes e usreaioria reunir-se ão 
em cada sabbado, untes de comer, na casa da verea- 
ção, para lavrarem os ditos feitos; 

que os almotacés, que, sem lídimos embargos 
deixarem, de comparecer para recontar suas appella- 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



ilfl 



ções, paguem as custas ás partes e maia dez saídos 
para as obras do concelho, por caía falta; 

e que cada um dos juizes e vereadores que n'es- 
se dia não comparecer na casa da veAeação para 
ouvir e desembargar as appellações, tse não forem 
embargadas de lídimos embargos*, pague vinte sol- 
dos para as ditas obras. 

Deferindo ainda o pedido que lhe fizwam para que 
as coimas se pozessem em uma arca de duas chaves, 
segundo havia sido julgado por sentença, para se- 
rem ilispervlidas em pontes e calçadas e em obras de 
piedade, o que então se não fazia, D. Fernando, at- 
tendendo a essa sentença e outros documentos que 
lhe mostraram, pela mesma carta houve por bem e 
mandou que os dinheiros das ditas coimas ou das 
remias, que por ellas dessem quando fossem arrenda- 
das, bem como as coimas dos juizes, vereadores e 
almotacés, se ponham na arca de duas chaves e. se 
dispendem nas obras das pontes, fontes, muroi e 
calcadas, não poiendo ter outra applicação; 

que aos procuradores que os dispenderem em ou- 
tros iisos não sejam recebidos em contas e os paguem 
em dobro; e, sendo juizes ou vereadores que os man- 
dem dispender, pague cada um vinte e cinco libras 
para as ditas obras. 

Er,pozeram-lhe também que os carniceiros pesa- 
vam a carne como queriam, não sabendo os que a 
levavam se era bem se mal pesada, por não haver 
peso do concelho d pwta da carniçaría, como o lia- 
ria em outras filias e Ingarrs do senhorio real, K D. 



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Fernando i ainda pela sobredita carta, houve por bem 
e mandou que logo os juizes e vereadores mandas- 
sem, para esse fim, fazer balanças e fieis pagos pelas 
coimas sem delongas, dentro de vinte dias da data 
da mesma carta; escolhessem um homem idóneo, em 
cada anno ou em cada mez, para estar com o dito 
peso aporta do açougue; impozessem coimas aos 
carniceiros que fossem achados não terem pesado 
bem as carnes; e constrangessem o pesador a estar 
continuadamente no logar assignado, fazendo-lhe 
pagar "20 soldos por cada falta em que fosse encon- 
trado. 

Finalmente, o mesmo monarcha, deferindo a ou- 
tro pedido, determinou que o meirinho do concelho 
cumprisse os mandados do almotacé clérigo, como 
sempre se costumou. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



jo.ra i.Google 



CAPITULO II 



) a morte de D. Fernando até ao fim do 
reinado de D. João li. 



TIhb, partidária do Mestre m™. 
6 incendiada t sapata pelos Castelhanos. 



Pela historia geral conhecem-se os aconteci- 
mentos que se seguiram á morte de D. Fernando : 
a regência de D. Leonor Telles, as pretensões á 
coroa portugueza dos reis de Gastella D. João I e 
1). Beatriz, a acclamação de D. João, Mestre de 
Aviz e filho bastardo de D. Pedro I, para defensor 
do reino, a offerta que o Mestre fez da coroa ao filho 
de D. Ignez de Castro, D. João, que se achava 
preso em Castella, e, além de muitos outros, a 
guerra que os portuguezes, para firmarem a sua 
independência, tiveram de sustentar com aquella 
nação. 

Refcrir.-nos-einos apenas aos que se prendem 
com a historia de Vizeu. 

Morto D. Fernando, são pretendentes á coroa 
os filhos de D. Ignez de Castro, D. João e D. Di- 
niz, D. João, Mestre da Ordem de Aviz, filho bas- 
tardo de el-rei D. Pedro, e D. João I, rei de Castel- 
la, casado com D. Beatriz, filha d'aquel!e monarcha, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



O povo era partidário do Mestre, ruas a ines- 
perada cessão da regência que D. Leonor Telles 
fez a seu genro, o rei de Castella, deu a este uma 
grande força moral; e metade do reino, principal- 
mente a nobreza, reconheceu o governo estran- 
geiro. 

A cidade de Vizeu, porém, seguiu sempre o 
partido do Mestre 1), pois que a bandeira com os 
escudos de Portugal e Castella, na Beira, apenas 
tremulou em Castello Rodrigo, Almeida, Sabugal, 
Monsanto, Linhares,. Celorjco, Penamacor, Guar- 
da e Covilhã 2). 

O infructifero cerco posto a Lisboa pelo rei 
de Castella durante quatro mezes, para obrigar 
aqitella cidade a render-se, e a victoria de Atolei- 
ros, alcançada no Alemtejo por Nun'Alvares Pe- 
reira, dissipou quasi totalmente o prestigio da ban- 
deira castelhana. 

levantado que foi o cerco, o Mestre d'Aviz fez 
entrai- na sua obediência os logares que tiveram 
voz por aquelle reino e reuniu cortes em Coimbra, 
em que é acclamado rei a 6 de abril de 1385. 

Depois d'este facto, o rei castelhano fez em 
■ Córdova novos preparativos para nova invasão, de- 
terminando aos seus vassallos que fossem reu- 
nir-se em Badajoz, onde o deviam esperar para 
elle se por á sua frente; e ordenou ao arcebis- 
po de Toledo D. Pedro Tenório dispozesse pa- 
ra o lado de Castello Rodrigo forças que fizes- 



1) Fernão Lopes, Chronica de D. João I, pag. 339 e 340. 

2) Pinheiro Chadas, Hid. de Port., vol.I I, twtf. 245. 



>,sitizeot> v GoOgIe 



sem uma diversão favorável aos seus planos, inva- 
dindo a província da Beira, talando os campos e 
arrasando as povoações que ahi reconhecessem a 
nova realeza 1). 



1) Em alguns auctores havíamos lido que o arcebispo de 
Toledo se chamava D. João Tenório e noutros D. Pedro Te- 
' norio; e, como puni evitar toda a inexactidão," mio nos pou- 
pamos ii esforços, escrevamos ao nosso querido amigo, 
distincto lítterato do reino visinho e anctor de várias publi- 
cações, entre as quaes avulta o apreciável livro de Llanex a 
Cotadonga, sr. D. Manuel de Foronds, pedindc-Ihe a fineza de 
nos dar qualquer informação sobre esse nome. 

Na volta do correio recebemos uma carta, que penhorado 
agradecemos, da qual estradamos os seguintes períodos : 

»En la catedral de Toledo se halla la capilla de San-Blas, 
on cuyo centro y á los pies dei altar mayor un sarcófago de 
marinol asentado sobre seis leonês y cuyos cuatro costados 
adornan bien hechos relieves gti ticos, cunles son, angeles y 
escudos de Tenório. 

Sobre el sarcófago reposa ta estatua yacente, cuyas plan- 
tas apoyan eu un leon, y en torno dei reborde de aquel cowe 
una insoripcion adecuada ai resto dei monumiento, y muy 
carcomida en algunos sítios, que dice «si : 

"aqui yase Dõ Pêro Tenório, de Saudable memoria, arçobpo 

de Toledo Pmado de las espanas, chanceller mayor de cetilla 

cuya anima ' 

Fallesciú dia de Sti Spiri 

mes de mayo ano dei nacimíento de nro Senor Salvador jliu 
xpo de 

M-CCC-XC-IX 



Esta fecha dará á V. la clave de) arcebispo Tenório de que 
V. me liabla. SI, como no pnede menos de suceder corres- 
ponde, no puede dudarse que *s D. Petfro, no estaria mal, 
como nota en su libro, qni cmcitinara V. la insiriprion ti? to- 
da pi fito autêntica. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



132 

Em Casteilo Rodrigo ou proximidades reuni- 
ram-se effectivamenle mais de 400 lanças, 200 ca- 
vallos, 2:000 besteiros e peões, commandados por 
muitos fidalgos que reconheciam a supremacia do 
fronteiro João Rodrigues Castanheda, valente cas- 
telhano, orgulhoso e fanfarrão. 

Entre Gonçalo Vasques Coutinho, alcaide 1) de 
Trancoso, e Martim Vasques da Cunha, alcaide de 
Linhares, havia desavenças por motivos frívolos; 
e um falso pundonor os levava a não quererem 
combater um ao lado do outro, para não terem de 
reconhecer qualquer d'elles como chefe. 

Expôndo-lhes estas e talvez outras discórdias 
entre governadores de castellos portuguezes, Cas- 
tanheda resolveu os fidalgos castelhanos a acom- 
panharem-no. 

Com a maior celebridade reúnem e organisam 
consideráveis forças, cujo commando confiam a 
Castanheda. 

Nem um nem outro dos alcaides portuguezes 
quizeram astender as mãos para se reconciliarem, 
e por isso os Castelhanos, entrando muito a seu 
salvo pelas terras de Portugal, talaram os arredo- 
res de Almeida (praça castelhana), Pinhel e Tran- 
coso, e chegaram (julho de 1385) até Vizeu, cujas 
muralhas se achavam derrocadas, por não mais se 
haver pensado na sua conservação, visto o aflasta- 
mento em que esta cidade se achava da fronteira. 



1) Alcaide ou ,Al-kaide è vocábulo derivado do Arnbe, 
composto do artigo ai, o, o do caidum, do verbo cade, capita- 
near. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Entrados nella sem difuculdade alguma, poze- 
ram-na a saque e incendia ram-na. Os habitantes, 
que não couberam na Sê, onde muitos se fortifica- 
ram, fugiram espavoridos para os montes. 

Esta catastrophe resoon por todo o reino, e D. 
João, que estava em Guimarães, admírava-se de 
que ninguém se oppozesse aos Castelhanos. 

O alcaide de Ferreira d'Aves João Fernandes 
Pacheco, homem conciliador por natureza, ou en- 
viado de Guimarães pelo Mestre, ou de motu pró- 
prio, o que temos por certo, para obviar aos gran- 
des inales que resultavam da desavença dos dois 
Vasques, dírige-se a Linhares e Trancoso e con- 
segue fazer desapparecer o antagonismo. 

Acompanhados de trezentas lanças, correm os 
três governadores a cortar a retirada dos inimi- 
gos, que levavam 700 azemolas carregadas das 
prezas que tinham feito. Encontraram-nos a pouca 
distancia de Trancoso, junto ao ribeiro de Freches, 
próximo da egreja de S. Marcos, onde lhes dão 
combate, que os Castelhanos, para não perderem 
os despojos, em vão procuram evitar. 

l)o combate resultou morrerem o Castanheda 
e alguns capitães, recobrar-se o saque e os prisio- 
neiros, e fugirem a desfilada os pagens e os aze- 
méis castelhanos com os cavallos, assim que vi- 
ram pronunciar-se a victorfa 1). 

1) Fernão Lopea, Chronica XIX, XX e XXI. 
Sanàovsil— Aljubarrota, 

Pinheiro Chagas, Hisl. de forf., tom. II, png. 332 a 334. 
Oliveira Martins, A vida il .\uh'al\nirts, p-g. 232 o 2&i. 



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A 14 d'agosto de 1385 fere-se a batalha de Al- 
jubarrota, em que os Castelhanos ficam derrota- 
dos; e alguns annos depois D. João I toma Bada- 
joz. 

Mas Vizeu ainda não ficou livre da fúria e vin- 
gança dos Castelhanos. 

Alguns fidalgos portuguezes, invejosos do Con- 
destavel Nun' Alvares e descontentes com o rei por 
os não recompensar devida minte, irritando-se, a 
ponto de quebrarem por tudo e de apagarem num 
momento de despeito de', annos de lealdade, pas- 
saram-se para o rei de Castella Henrique III. En- 
tre elles, os heroes de Trancoso Martim Vasques 
da Cunha e João Fernandes Pacheco, ealém (Tes- 
tes Egas Coelho, AlTonso Pimentel e Lopo Vaz, ir- 
mão do primeiro, que, reunindo-se a outros fidal- 
gos castelhanos, e todos commandados pelo con- 
destavel de Castella Uodrigo d'Avellar, entraram 
pela Beira e chegaram a Vizeu, sendo esta cida- 
de segunda vez saqueada e queimada (maio de 
H96) 1). 

Juntam-se o rei e o condestavel em Santarém 
e correm a alcançar os invasores, mas, quando 
chefiam, já elles se haviam retirado com a preza, 

São estes os factos e os nomes, referidos pelos 
chronistas, acerca dos saques e incêndios da cida- 



1) Pinheiro Chagas, Hist. de Port., vol. II, pag. 428 e 429 
Ribeiro Botolho— Dialogo*, [>;ig. 4<iT u -ItíS. \'itortm -Kluctita-. 
rio—v. FeiroB. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



de de Vizeu; mas escriptores de boa nota I), ain- 
da que relativamente modernos, apenas dão noti- 
cia de ter sido esta cidade saqueada e incendiada 
uma só vez. 

Posto que estejamos em desaccordo com estes, 
embora não seja inverosímil a sua narração, jul- 
gamos não dever omitti-la. K' a seguinte: 

Derrotadas as tropas castelhanas na batalha de 
Aljubarrota, no dia 14 de agosto de 1385, as relí- 
quias d'esse exercito, na sua fuga para Gastei la, 
levando á frente o general João Aniles Barbuda, 
atravessaram a Beira e, sequiosas de rapina e de, 
vingança, caíram sobre Vizeu, que, por estar aber- 
ta, facilmente tomaram, e em seguida saquearam 
e incendiaram, passando ã aspada os seus habi- 
tantes. 

Mas foram espiar suas atrocidades junto de 
Trancoso, onde Gonçalo Vasques Coutinho, gover- 
nador do Castello d'aquella vi Ha, João Fernandes 
Pacheco, Senhor do Castello de Ferreira, e o Se- 
nhor de Linhares, com toda a gente que puderam 
reunir, as combateram e desbarataram, matando 
4:000 cavalleiros, fazendo grande numero de pri- 
sioneiros e apoderando-se de toda a bagagem que 
levavam. A cidade de Vizeu, porém, ficou em es- 
tado lastimoso, occasionado pelo incêndio e pela 
carnificina. Só escaparam as Torres e a gente que 
nella se recolheu. 



1) Vilhena Barbosa, As cidades e villas de Port. que Um 
brasões d'armas, tom. III, pag. 185 e 186. 
Viterbo— Elucidário - verb. —Ferros. 
Mss. (To Atitonio Oaiiloiio de Figueiredo, png. Ifi." « uso. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



A Beira ainda depois tornou a sei' invadida pelo 
infante D. Diniz, íilho de D. Igne; de Castro, tra- 
zendo comsigo alguns portugueses que andava m 
por Castelia: Pachecos, Vasques, Pimenteis, etc, 
em quanto outros lados de Portugal eram assalta- 
dos de Castelhanos. 

Entrou pelo Sabugal direito á Guarda e desceu 
á Covilhã, onde se entretinha a escrever cartas ás 
villas do reino, dizendo-lhesque 1). Beatriz renun- 
ciara nelle os direitos á coroa poitugueza. 

Gonçalo Vasques Coutinho, que, por carta d'el- 
rei, correndo já a guerra em Castelia, havia sido 
creado Manchai e Fronteiro da comarca rta Beira, 
para que o colhessem no alio, e no baio, tirar Al- 
caides e por Alcaides, etc., pediu soccorro ao con- 
destavel que se achava em Évora 1). 

Nun'Alvares e Martirn Affonso de Mello, levan- 
do do Crato o prior Gamallo, que já -voltara des- 
enganado de Castelia e a quein el-rei pardoaría, 
dirigiram-se a Castello Branco, onia lhes disseram 
que o infante se achava na Covilhã. 

Marcharam knmadlatamaníe pira alli. O infan- 
te, espavorido, fugiu. 

Nun'Alvares, mandando voltar Martim Affonso 
para o Alemtejo, saguiu com um milhai- de lanças 
para o norte a encontrar-se com o rei. 

Na Guarda deseançou das fadigas da marcha 
violenta, e d'ahi desceu a Vizeu, onde soube da 



1) Viterbo— Elucidário —veib. Risonho. 
Jotté Soures dn Silva, Memorias para a Hiat. de Port. que 
•omprrhendrm o governo de D. João I, tom, [I, p. 773 e 774. 



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tomada de Tuy por D. .Toào, e, deixando aqui al- 
guma gente, seguiu acompanhado de 30 cavalloa 
para o Porto, onde estava el-rei. 

Saiu d'allí em direcção a Évora, e a gente que 
tinha ficado e;n Viseu foi reunir-se com elle a 
Coimbra. 

De Évora foram para Portel, com o intuito de 
soccorrer Moura, que o ssti alcaide-mór queria en- 
tregar ao rei de Castella. Bastou a noticia da sua 
chegada para tudo se pacilicar 1). 

Não será fora de propósito referir algumas no- 
ticias relativas a João Fernandes Pacheco e Mar- 
tins Vasques da Cunha, que tão importante papel 
desempenharam em todos estes acontecimentos. 

Joào Fernandes Pacheco era filho de Diogo Lo- 
pes Pacheco, um dos conjurados que tiraram a vi- 
da a D. Ignez de Castro e que, havendo escapado 
ás crueldades de el-rei D. Pedro, por ter fugido 
para Castella, foi chamado por el-rei D. Fernando 
para o auxiliar na guerra contra aquella nação. Por 
haver aconselhado ao infante D. Diniz que não bei- 
jasse a mào a rainha D. Leonor, segunda vez teve 
de fugir para Castella, d'onde de novo voltou, a 
chamamento de el-rei 1). João í. Na batalha d'Al- 
jubarrotu, tendo j;i 80 annos de edade, fez mara- 
vilhas com seus três filhos João Fernandes Pache- 
co, legitimo, Lopo Fernandes e Fernão Lopes, bas- 
tardos. 



1) Oliveira Marti m. Vida de Nun'Âloares, pag. 385, 
Joaó Soares da Silva— Jfent. para a Hist. de Port., 
tomprrkettdem o gorcrno d'El-rr.i 7>. João /, png. 7Í17. 



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128 

O pac. de líiogo I,opes Pacheco, lx)po Fernan- 
des Pacheco, foi uin dos cavalleiros da Tavola Re- 
donda, que foram despicai' as damas a Inglaterra. 

João Fernandes Pacheco, depois de haver ser- 
vido durante mais de dez a ri nos com a mesma 
lealdade a D. João I, vendo que o monarcha não 
remunerava devidamente os seus serviços, passon- 
se para Gastella em companhia de Egas Coelho e 
de João AiFonso Pimentel, levando comsigo 200 
cavalleiros, seus parentes, amigos e u.-eados i). 

Mártir ri Vasques da Cunha, alcaide do Castello 
de Linhares, Senhor das terras de Besteiros e A.la- 
fões, um dos que derrotou os Castelhanos, junto 
de Trancoso, era lilho de Vasco Martins da Cunha 
— O Velho — , que foi, neste reino, lidalgo muito 
honrado em tempo de D. Fernando e de D. João 
I, Senhor dos morgados da Cunha, Taboa, Anjeja 
e outros, e descendente de D. Guterres, natural 
da (lascunha, que veio para Portugal em compa- 
nhia do conde I). Henrique 2). 



Knnis e porias de Vim 



E' de presumir que já no tempo dos Romanos 
Vizeu fora cercada de muros, porque naquella 
epocha eram elles um dos melhores meios de de- 
feza das terras de maior importância. Havendo 

1) Vitorbo -htucidario— verb. Ferroa. 

2) Ribeiro Botelho, Dialogo*, pag. 457 e 45S. 



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levantado as Torre», não deixariam os legionários 
de encerrar as habitações dentro de muros, que 
envolvessem o castra do monte, onde está a parte 
mais elevada da cidade. 

Porém, as primeiras noticias seguras acerca da 
existência dos muros de Vizeu remontam ao pe- 
ríodo das luctas entre Mouros e Christáos. 

São destruídos no tempo de Ramiro I e reedi- 
ficados por ordem de Àffonso III, reis de Oviedo, 
como dissemos quando tractamos dos factos rela- 
tivos ao periodo em que viveram estes monarchas. 

No cnronicon Silense, escrípto nos fins do sé- 
culo XI ou princípios do século XII, lê-se que Af- 
fonso V, rei de Leão, havendo feito uma expedi- 
ção para conquistar Vizeu, tivera encerrados os 
Mouros no Castro Vesense, mas, quando, vestido 
com o seu fato de malha, fazia uma discursSo a 
cavallo em volta da muralha da cidade, frtra ferido 
por uma seta balear, despedida da torre por um 
bárbaro insigne 1). 

Fernando Magno em seu testamento confirmou 
a Sé de Vizeu na posse de tudo o que ficava den- 
tro do muro velho da cidade, o que evidencia que 
naquelle tempo havia também muro novo; e esta 
confirmação foi confirmada pelo conde D. Henri- 

1) Florei, Hesp. Sagr., tom. XVII, pag. 31S, transcreve 
ente chronicoD, que relata o acontecimento pela forma se 
fjuinto: apud Castrum Vesensem fertur, qiiosdam Mauros fer 
ro, fameque inclusos tenutiae ; in qua expeditione prae nimia 
aestate sola línea interula indutus, dum prope moeiíía Civita- 
tis spatianâo, super equum resideret, a quodam bárbaro inst- 
gni Balearia de turre sagitta percussus est. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



([iie e sub mulher a rainha D. Theresa no seu tes- 
tamento, d'onde colhemos esta noticia 1). 

Não resta, pois, duvida alguma de que no ber- 
ço da monsrchia ainda Vi.zeu era cercada de mu- 
ros. Mas, como não mais se pensasse na conser- 
vação d'elles, por se reputar desnecessária em vis- 
ta do afiastametito a que esta cidade se achava da . 
fronteira, foram-se destruindo pela acção do tem- 
po, a ponto de se acharem derrocados em 1385 e 
1396, annos em que os Castelhanos a entraram, 
sem resistência alguma, incendiaram e saquearam, 
passando pelo fio da espada os seus habitantes 
que não poderem fugir ou fortiflcar-se na Sé. 

Em prova d'este facto transcreve Ribeiro Bo- 
telho 2) de uma Chronica de João I, o seguinte 
período: 

«Então se fizeram prestes aquelles 400 de ca- 
vallo, e 200 ginetes, de que era capitão Pêro Soa- 
res de Quinhones, e com elle hiam homens de pé 
e alguns besteiros, e entraram em Portugal, vie- 
rào por Almeida, que estava por Castella, e che- 
garão a Pinhel, que tinha voz por Portugal, e des 
i por Veiga de Trancoso, e encaminharão por es- 
sas aldeias, roubando e cativando; e chegarão á 
cidade de Viseu, que era 22 léguas da cidade Ro- 
drigo, d'onde todos havião partido; os moradores 
do togar quando os virão vir por a cidade não ter 
outra cerca, nem fortaleza, salvo a Sé, acolheram- 
se a ella e ás Egrejas muitos d'elles, com aquillo 



1) Este testamento lô-ae a pag. 186 <lo tom. I d'esta obra. 

2) Dialogo», png. 466 e 467. 



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131 

que levar puderão dos haveres que tinham; outnis 
fugirão por esses montes, pondo-se em salvo cada 
um, como melhor podia, os Castelhanos começa, 
rão de roubar e cativar e fazer todo o damno que 
podião á sua vontade.» 

Para não continuar sujeita a eguaes horrores, 
lembrou-se D. João I de a fortalecer, com nova 
muralha, mais extensa que a do tempo de D. Af- 
fonso V e de Fernando Magno, de Leão, em cujo 
recinto se encerrassem não só a cidadella, mas as 
casas que se tinham construído fora da antiga. 

De alguns capítulos das cortes de Lisboa da 
1412, destinados exclusivamente a Vizeu, consta 
que el-rei concedera: 1.» que os da cidade e 
dos povos até duas léguas ao redor servissem na 
obra da cerca, que então se andava constmindo, 
não seis dias continuados em cada seis mezes, mas 
um dia em cada mez, ficando os moradores do 
termo obrigados, como d'antes, a servirem os di- 
tos seis dias em cada seis mezes consecutivamente; 
2.° que nem Lopo Fernandes nem outro qualquer 
obrigasse os moradores da cidade, quando abris- 
sem algum tonel de vinho para vender, a ir leva-lo 
á obra, porque nem todos tinham servidores ou 
creados que alli o levassem, e outros não tinham 
quem o vendesse senão suas mulheres, e não era 
justo e decente que ellas ali fossem, maxime obri- 
gando-se os moradores da cidade a provar homem 
que tivesse continuadamente taverna abe)'ta na dita 
ob-rae bom vinho eaguisadoc pelo preço da cidade i). 

1) Viterbo, Provas e apontamentos para a Historia de 
Portugal (mes. do Seminário de Viteu), tom. IT. Ah. 10). 



tamzMbyGoOgl^, 



432 

Kin 5 de janeiro de 1440 foram desembargados 
de Lisboa para Vizeu alguns artigos particulares, 
que os procuradores d'esta cidade propozeram nas 
cortes que em 1439 n'aquella se celebraram por 
auctoridade do infante D. Pedro, tutor e curador 
de D. Affonso V, regedor e deíensor, por elle, de 
seus reinos e domínios. 

Affírma Viterbo 1) que existia na camará secu- 
lar de Vizeu um pergaminho, já deteriorado e com 
parte das letras apagadas, que outr'ora teve sello 
í eal pendente, dè cuja parte legível ponde colligir 
ue n'aquellas cortes se determinou: 1.° que entre 
os besteiros fosse o anadell, porteiro e meirinho 2), 
como tinham por desembargo de cortes d'el-rei, 



1) Obra e tom. cit-, fls. 100. 

2) Besteiro.— Soldado urinado de beata e que com «lia 
peleja. Ordinária m ente hervavani as setas, untando as com 
liervas venenosas, principalmente com o keUebro, ou varatro 
negro, a que por isso em Portugal chamaram herva leiteira. 
No tempo de D. João I havia muitas espécies de besteiros: — 
i(c polé, que usavam de basta que tinha uma roldana, a que 
antigamente chamavam polé; da camará; de cavallo; de gar- 
rucha; de fraldilha; do mar; do monte; do conto; sendo estes 
assim chamados por serem di> numero dos que devia de ha- 
ver em cada Leira, cidade, villa ou comarca, promptos e agui- 
xados, constituindo os regimentos da tropa regular e effectiva. 

Anadell, anadel, anliade.l, annadem.— Maioral, chefe ou ca- 
pitão de besteiros, de espingaraeiros e de outra gente de 
guerra, que tinha jurisdicçáo ou poder em um districto cha 
iiiado anadaria. 

Porteiro.— Mordomo ou sacador ou cobrador dos direitos 
ou rendas da Coroa em algum território, comarca ou logar. 

Meirinho.— Smz real, executor das sentenças. 



>,Sitizeot>vGoOgIe 



seu pae; 2." que houvesse acostados 1) a fidalgos, 
sendo este desembargo contra o pedido dos procura- 
dores, que queriam só houvesse o acostamento a 
el-rei e ao infante D. Henrique, seu tio, terminan- 
do os acostamentos a Diogo Gomes da Silva, Dio- 
go Soares, Fernão Soares, D. Duarte de Bragança, 
D. Duarte de Menezes, ao bispo, seus irmãos, etc. 
para que os acostados fizessem qualquer cousa que 
os ofTiciaes de justiça lhes mandassem ; 3.° que, 
visto a cidade estar devassa e sem cerca e não ter 
outro muro senão a Deus e a mercê d'él-rei e ser a 
Sé d'ella a fortaleza com quatro torres, e haver 
concelho determinado, para se poderem defender 
das corredores, no caso de lucta untre estes reinos 
e os de Castella, tapar algumas ruas menos neces- 
sárias e por nas outras portas firmes e seguras, não 
tendo rendas para levar a efleito esta obra, fossem 
todos obrigados, na conformidade do pedido dos 
procuradores, a serem ajudadores, assim pelos cor- 
pos, como pelos bens, sem que ninguém, ou be- 
neficiado ou clérigo, fosse escuso, por ser proveito 
commum e geral em que todos por direito devem 
servir e pagar. 

Além d'isto foi concedida em nome d'el-rei a aju- 
da de custo e a respectiva carta, pedidas pelos 
mesmos procuradores. 

Ainda nas cortes, celebradas na Guarda era 
1465, alguns capítulos das quaes constavam de um 
pergRiiiinh > existente também no archivo da ca- 



1) Acostarias .--Ou que andavam ao lado d'alguoin, que 
eiain da sua parda] idade, 



>,sitizeot> v GoOgIe 



mara municipal de Vlzeu, de que Viterbo ainda 
lèu uma parte 1), pediram e conseguiram os d' esta 
cidade que na forma da determinação geral não 
houvi-sse privilegiado algum, ainda clérigo, para 
não servir e ser íintado nas estradas, fontes, pon- 
tes, etc., que são de utilidade de todos, e isto con- 
tra a vontade do bispo; 

que se prohibisse aos rendeiros das sizas vare- 
jarem as casas dos lavradores e dos que vendiam 
mercadorias, pretextando que elles encobriam as 
dos mercadores, visto como estes varejos se con- 
vertiam em roubos do que cada um tinha em sua 
casa; 

que fosse citado João da Maia, que se não 
houve fielmente no tiramento dos pedidos 2); 

que os moleiros do Barreiro e de Villa de Moi- 
nhos, terras que el-rei D. João I havia dado a Fer- 
nam Gonçalves, de Santar, com jurisdiccão sobre si, 
viessem aferir as suas medidiís pelas dos almota- 
cés da cidade, para evitar os grandes damnos que 
podiam fazer nas farinhas, como sempre se cos- 
tumou ; 

que os moradores da cidade não deveriam liti- 
gar por um alqueire ou meio de farinha fora da 
sua casa e em distancia de uma légua; 

e que se mandasse acabar a cerca da cidade, 
que já estava começada, ou que ao menos se lhe 
mandasse pôr um peitoril 3) deante da dita cerca 



1) Obra e tom. cit, fls. 100 v. e 101. 
2j Pedido— Finta ou imposto, lançado por cabeça, que os 
Senhores das terras arrecadavam de tens vaasalios. 

3) Peitoril. -Obr* de fortificação militar, plataforma, meia 



>,sitizeot> v GoOgIe 



para amparo da cidade, que jã duas ou três vezes 
tinha sido queimada pelos corredores de Castella. 

Continuou-se effecttvaraente a obra dos muros, 
cujos restos ainda hoje permittem determinar a 
sua posição, mas nunca chegaram a acabar-se nem 
a ter ameia., 1). 

Junto do arco da porta do Soar, da parte exte- 
rior, ainda hoje está um letreiro, que diz : 

D. Aflbnso o Quinto Rey de Portugal e dos 
Algarves da quem e da tem mar em Africa, Man- 
dou cercar esta nobre cidade de Viseu assí por 
nobreza, e defensam delia com prol comum de 
seus Reynos 

1472. (Estão apagadas as letras de Unha e meia}. 2). 

Os muros Unham sete portas arcadas, de gosto 
mourisco, que ainda existiam todas no meado do 
século XVIII, restando hoje apenas duas, — a do 
Arco e a do Soar, e os vestígios de três, a de San- 
ta Christina, a de S. Sebastião e a da Senho ra do 
Postigo. 

Por cima do arco de cada uma d'ellas foram 
collocadas em 16iô lapides, onde se gravou, em 
língua latina, a seguinte inscrtpcão, que ainda hoje 
se lè nas duas que existem : 



lua, ou qualquer corpj avançado Tora doa muros « sobre o 
campo, donde podiam d ofender- se os sitiados e encomraodnr 
oa Inimigos. Viterbo -Elucidário— verh. Peitoril. 

1) Ribeiro Botelho, Dialogas, pag. 467. 

2) Panorama, tom. V, pag. 98 e 90. 
Ribeiro Botelho, Diálogos, pag. 627 6 528. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



D. S. M. 

Aeternae Sacrae Immaculatissimae Conccptioni 
Mariae Joan. IV. Portugal. Rex una cum general 
GOmittiis se, et regna sita sub annuo censu tributa- 
ria publice vovit. Atque Deiparam in perpetuam tu- 
telarem electam a labe originali praeseroatam per- 
petuo defensuram juramento fírmavit, vioeret utpie- 
tas Lusitana. Hoc oiuo lapide memorabUe perenne 
exarari jussit anno Ckristi MDCXLVL ímperii 
sui VI. 

Traducção: 

João IV, rei de Portugal, com as cortes geraes, 
prometteu publicamente á eterna, sagrada, imma- 
culatissima concepç-So de Maria que elle e os seus 
reinos lhe seriam tributários num censo annual. 
E firmou com juramento que sempre havia de de- 
fender que a Mãe de Deus, escolhida para pa- 
droeira perpetua, fora isenta do peccado original, e, 
para se conservar a piedade lusitana, mandou exa- 
rar nesta pedra viva a memoria perenne, no ar.no 
de Christo de 1646, 6.» do seu reinado. 

Das sete portas a principal era a de Cimo de 
ViUa ou de S. José, que tinha, ao lado do arco, na 
face exterior da parede a imagem do Santo d'este 
nome e na interna a de Nossa Senhora, e estava 
no local onde a rua Direita entronca com a rua de 
D. Luiz [. antiga rua Formosa, aberta em 1868. 

Caminhando em volta dos muros na direcção 
do poente, encontrava-se a porta do Soar, hoje 
vulgarmente conhecida pelo Arco dos Melhs, con- 
tigua á cisa que foi do conde de Santa Eulália, 
António Augusto de Mello Castro (f Abreu, Ao lado 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



137 

do arco, na face externa está a imagem de Santo 
António e na interna a de S. Borja, advogado e 
padroeiro do reino contra os terremotos. 

Seguiam-se a da Senkom do Postigo, ao cimo 
da rua da Calcada e a pequena distancia da rua de 
S. Lazaro, que, ao lado do arco, na foce interna 
tinha a imagem de Nossa Senhora das Angustias; 

a do Arco, ao fundo da rua dos Cavalleiros, con- 
tigua ao palacete dos fidalgos do Arco que hoje é 
edifício da Escola Agrícola e da Estação telegrapho- 
postal, que, tem ao lado do arco, na face interna 
a imagem de Nossa Senhora ; 

a de S. Sebastião, que era contigua á egreja do 
convento das freiras de S. Bento e tinh<s ao lado 
do arco, na face interna a imagem d'aquelle Santo, 
que hoje está sobre o muro do quintal da Escola 
Agrícola; 

a da Regueira ou de S. Miguel, junto dá casa 
que é do dr. Ladislau Pereira Chaves de Sousa 
Araújo Manoel, em cuja face exterior estava a ima- 
gem de S. Miguel e ao lado a inscripção seguinte : 

No tempo d'el-rei D. Affonso 
Quinto se achou na tomada 
d'Arzilla 1) Fernam Lopes d' esta 
Cidade com 300 cavaleiros 
E lá foi armado cavaleiro 
Por mão do dito Rei com ou- 
tros mais. 

a de Santa Ckristina entro a casa dos Lemos 
e Sousas, de Villa Chã de Sá, e o quintal da Pre- 

i; Ã tomada de Arzllla foi cm 24 de agoslo de 1471. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



bonda, que dava passagem da rua da Arvore para 
o largo de Santa Christina e tinha ao lado do arco 
a imagem de Christo crucificado. 

A piedade dos povos tinha collocado nas por- 
tas as imagens como sentinellas e guardas contra 
as invasões dos inimigos. 

No reinado de D. João III já havia mais popu- 
lação fora dos muros que no recinto por eltes fe- 
chado i). 



DUCUO DE VíZEU. PRUMO CORREGEDOR 

De sua esposa D. Filtppa de Lencastre teve 
el-reí D. João I oito filhos. 

Entre elles, D. Duarte, que lhe succedeu na 
coroa, de quem adeante fallaremos, e D. Henrique, 
que nasceu no Porto a 4 de março de 1304, e a 
quem seu padrinho o bispo de Vizeu D. João Ho- 
mem pôz aquelle nome em memoria do conde D. 
Henrique, fundador de Portugal e vencedor do 
poder mussulmano em vários recontros i). 

Depois da tomada de Ceuta,regressou D. João I 
a Portugal (1445) com seus filhos, que o haviam 
acompanhado, e, quando chegaram a Tavira, man- 



2) Panorama, tom. V, pag. 98 99. Ribeiro Botelho. Vin ■ 
logoa, pag. 257 e 258. Mnnuscripto do ar. António CirriuMlo de 
Figueiredo, pag. 192 a 194. Vilhena Barbosa. As cidadã, etc, 
tom. Hl, pag- 185. 

1) Padre Leonardo de Sousa, Memorias nus., tom. II, 
pag. 155. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



dou chamai - á sua presença, para os recompensar 
dos grandes serviços que tinham prestado nessa 
campanha, D. Pedro e D. Henrique, elevando 
aquelle á dignidade de duque de Coimbra e este 
á de duque de Vizeu, de defensor de toda Beira, e 
por causa dos seus trabalhos para o equipamento 
da frota, de Senhor da Covilhã. 

Também D. Henrique exerceu os cargos de 
Fronteiro-Mór da comarca de Leiria e de 8.° Go- 
vernador e Administrador do Mestrado da insigne 
Ordem militar de Christo, e foi Cavalleiro da Or- 
dem da Jarreteira, de Inglaterra. 

Pode Vizeu gloriar-se de ter o seu nome ligado 
a este vulto, a estreita mais brilhante que fulgura 
no firmamento da historia portuguesa, de quem 
Rebello da Silva fiiz um bello retrato nos dois for- 
mosos períodos seguintes: 

«Dotára-o Deus de engenho elevado, de cons- 
tância e de vontade firme para, ajudado de pren- 
das tão raras, conceber e executar os vastos pla- 
nos, que sublimaram seu nome. 

Cavalleiro, cortou-lhe a gloria, ao sair da pue- 
rícia e na juventude, os loiros guerreiros para mais 
tarde lhe cingir na fronte a coroa rostral, queren- 
do que todos o tivessem por modelo acabado nas 
perfeições da época, vendo-o unir ás palmas de 
soldado os tropheus de navegador, á doutrina a 
gerarchia, ao arrojo a austeridade* 1). 

Mostrando 1). Henrique, desde os primeiros 
annos, inclinação á vida militar, seu pae einpre- 



1J Arcíiivo Fittoreaco, rol. IX (1866), u.° 6, pag. 42. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



140 

hendeu arma-lo cavalleiro, mas não quiz elle rece- 
ber honra tão elevada na paz, e por isso lhe lem- 
brou o emprehendimento das conquistas aos Mou- 
ros na Africa. Ahi poderiam, elle e seus irmãos, 
adquirir reputação e merecer a Ordem de caval- 
laria, que desejavam. 

Esta lembrança, ou antes solicitação, determinou 
el-rei á empreza, que lhe sorria. Colhidos os ne- 
cessários esclarecimentos acerca da cidade de 
Ceuta, feitos os preparativos e resolvidas algumas 
difficuldades que surgiram, a armada portugueza 
seguiu sua derrota para as terras africanas. 

O infante D. Henrique pedira em Lisboa a. seu 
pae para ser o primeiro a desembarcar. 

Elle não só lh'o concedeu, mas encarregoti-o 
da direcção principal da empreza. 

Todavia não foi o primeiro a pôr pé em terra ; 
precedeu-o Ruy Gonçalves, ao depois veador da 
infanta D. Isabel, o que bastante o irritou. 

Conquistada Ceuta, foram os infantes armados 
cavalleiros; e da nova possessão portugueza foi 
nomeado governador o joven conde de Vianna D. 
Pedro de Meneies, que ahi iicou com 2:700 sol- 
dados para a guarnecerem. 

A frota levantou ferro e voltou para Portugil 
em 1415. 

Tendo assim dado provas do seu valor, D. Hen- 
rique abalança-se a novos euiprehendi mentos. 
Funda uma escola náutica na vllla de Sagres, on- 
de se professaram a mathematica e a cosmogra- 
phia. 

Os truetos que promanaram immediatamente 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



14* 

dos estudos e observações do infante foram itó 
descobertas de Porto Santo e Madeira, cujo Senho- 
rio lhe foi dado por seu irmão el-rei D. Duarte, 
numa carta passada em Cintra a 26 de setembro 
de 1433, e ainda em sua vida as das terras de 
Africa desde o cabo Bojador até a Serra Leoa, 
isto é, 367 léguas de costa. 

Do seu valor são testemunhas as praças de 
Ceuta, Arziila, Alcacere e Tangere. 

Já era fallecido em 1460. O seu cadáver foi se- 
pultado na cidade de Lagos e trasladado poucos 
raezes depois para o real mosteiro da Batalha, on- 
de jaz na capella de seu pae, em magnifica sepul- 
tura, com uma estatua sua ao natural, vestido de 
armas brancas e na cabeça coroas entretecidas de 
folhas de carvalho, com uma rosa no meio, e re- 
presentadas as insígnias da Jarreteira e a Cruz de 
Christo. 

O Padre Fr. Luiz de Sousa refere que viu em 
Valença de Aragão um livro das suas descobertas 
(parecendo-lhe ser obra sua), que o infante man- 
dou de presente ao rei de Nápoles, e que esse li- 
vro com outros objectos de valor ficaram ao du- 
que de Calábria, descendente cTaquelle rei por li- 
nha masculina 1). 

Diz-se que o infante D. Henrique pensara em 
. mudar para outro local a cidade de Vizeu, onde 
residiu por muito tempo, mas que desistira de tal 
intento 2). 



1) Historia de S. Domingos, tom. I, livr. VI, i»p. XV. 

2) Jorge Cardoso, Âgiologio Lusit., tom. II, pag. 66. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



1-12 

Os seus feitos heróicos, cheios de abnegação, 
e as descobertas que iniciou constituem uma das 
paginas mais brilhantes da historia portugueza. 

Só uma penna muito aparada, que não a nossa, 
pode tecer a biographia de tão illustre varão, 
acerca de quem se acham publicadas obras de mui- 
to merecimento, uma d'ellas, com o titulo — In- 
fante de Sagres, do nosso quasi patrício sr. For- 
tunato d' Almeida, alumno distincto da taculdade 
de direito na Universidade de Coimbra, a qual me- 
receu premio por ser julgada uma das melhores 
que se publicou na celebração do seu 4.° centená- 
rio em 1894, e outra a de Oliveira Martins — Os fi- 
lhos de D. João 1. 

Succedeu-Ihe no ducado de Vizeu e em todos 
os mais senhorios seu sobrinho D. Fernando, Olho 
de el-rei D. Duarte, que nasceu na villa de Almei- 
rim a 17 de novembro de 1433 e foi jurado Prín- 
cipe e Condestavel de Portugal em 1438. 

Em virtude d"esta successâo e de varias mer- 
cês que lhe fez seu irmão el-rei D. Affonso V, foi 
o maior senhor da Península, depois dos reis. 

Além dos mestrados das Ordens de Christo e 
S. Theago e do ducado Vizeu, teve os ducados e 
senhorios de Beja e Salvaterra, os senhorios de 
Serpa, Moura, Lagos, Terra de Besteiros, Alafões, 
Sattam, Covilhã, ilhas da Madeira, Porto Santo, 
Açores, etc, e as alcaidarias mores da Guarda, 
Tavira e Marvão. 

Casou em 1447 com D. Beatriz ou Brites, filha 
de seu tio D. João, e d'ella teve, entre outros filhos, 
D. Manoel, que depois foi rei. Morreu em Setu- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



bal a 18 de setembro de 1470 com 36 annos de 
edade, e o seu cadáver foi trasladado para õ mos- 
teiro da Conceição em Beja. 

Passou toda a sua herança, incluindo o ducado 
de Vizeu, primeiro para seu filho D. João, que pou- 
co tempo depois fallcceu sem descendência legi- 
tima, e, por morte d'este, por virtude de carta de 
mercê de el-rei D. AíTonso V de 30 de junho de 
1471, para seu íllho D. Diogo, que veio a ser o 4.° 
duque de Vizeu, sendo ao mesmo tempo o 7.» 
Condestavel de Portugal e o 11.° Mestre e Gover- 
nador da Ordem de Christo. 

Os conselheiros de D. Diogo convenceram-no 
de que devia conspirar contra a vida d'el-rei D, 
João II, seu primo co-irmão, porque, morrendo 
este, a coroa lhe viria a pertencer. 

Tendo conhecimento da conspiração, o monar- 
cha dirige-se a Setúbal, onde chega em sexta-feira, 
22 d'agosto de 1484, e ahi manda chamar D. Dio- 
go, que, achando-se em Palmella, immediatamente 
cumpriu a ordem. 

Na noite seguinte determinou-lhe que fosse ao 
seu guarda-roupa. 

O duque entrou só, e, trocadas poucas palavras, 
el-rei mata-o ás punhaladas, deante de testemu- 
nhas para esse fim escolhidas, D. Pedro Déça, al- 
caide-mór de Moura, Diogo Dazambuja e liOpo Men- 
des do Rio. 

D'este facto se lavrou um auto, assignado pelo 
doutor Nuno Gonçalves, como juiz, e por Gil Fer- 
nandes, como escrivão da camará d'el-rei, em que 
D. João II declarou us razões do seu procedimento. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



144 

O cadáver de D. Diogo foi trasladado para Beja 
e sepultado junto dos de seu pae e irmão i). 

No mesmo dia em que D. João II matou o du- 
que de Vizeu fez doação de todos os bens da co- 
roa, que este usufruía, a seu primo e cunhado D. 
Manoel, reservando para si Moura e Serpa. E, para 
se esquecer a memoria do defuncto duque e evi- 
tar o escandaio em continuar a existir o titulo de 
duque de Vizeu, nomeou a D- Manoel duque de 
Beja e Senhor de Vizeu, Covilhã, Villa Viçosa, além 
de lhe conferir os cargos de Governador e Mes- 
tre da Ordem de Chrísto, Condestavel destes 
reinos e Frontelro-mor de Entre Tejo e Odiana 
(Guadiana)— 2). 

Numa memoria manuscripta, pertencente ao sr. 
António Cardoso de Figueiredo, que já por vezes 
deixamos citada, lemos que faziam parte do duca- 
do O palácio e quinta de Fontello, que passaram 
para o bispo d'esse tempo e, depois, para os seus 
suecessores, e um palácio com sua torre na rua da 
Cadeia, que fora comprado pelo cónego Pedro Go- 
mes d' Abreu, da casa de Santo Estevam, subúr- 
bios d' esta cidade, em cuja família se conservou 
como em cabeça de morgado. 

O padre Leonardo de Sousa ít) assevera que em 
Fontello existiu o palácio, que foi dos duques de 



)) D. António Caetano de Sousa. Hi*t. Gcxe.il. da Casa 
Real. PorL, tom. II. 

2) Damião d» Goea, Ckron.de D. Manoel, pag. 4. Marqaez 
de Alegrete, De rebus gentis, pag. 127 e 128. 

3) Memorias mas., tom. II, pag. 336 e seguintes. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



145 

Vizeu desde o reinado de D. João I até D. Aflbn- 
so V, e que a quinta contigua fizera parte do duca- 
do; e Oliveira Berardo 1) escreve: l.°que quando 
em 28 de abril de 1446 veio de Lamego para Vizeu 
o bispo D. João Homem, como consta do livro dos 
óbitos d'aquella Sé, residia o celebre infante D. 
Henrique no palácio da Torre, na rua da Cadeia, 
2.° que, tendo o mesmo bispo mandado compor 
para si o paço dos três escalhões junto á Sé, é 
verosímil que a qualidade da pessoa do infante e 
a circumstancia de ser seu afilhado influíssem na 
concessão, que a este fez do paço de Fontello, para 
sua residência, e que facilmente continuou nos 
successores do ducado; 3.° que o palácio da 
rua da Cadeia, depois da morte de D. Diogo, fora 
posto em hasta publica e arrematado pelo cónego 
Pêro Gomes d'Abreu, cujo tumulo está na Sé na 
capella de Jesus, conservando-se por muitos anãos 
em cabeça de morgado na Casa de Santo Estevam, 
subúrbios d'esta cidade. 

Não nos custa a crer que o bispo D. João Ho- 
mem e os seus successores consentissem em que 
D. Henrique e os outros duques de Vizeu fossem 
residir no palácio de Fontello; e que a estes per- 
tencesse o palácio da Torre, na rua da Cadeia. 

Não podemos, porém, admittir que fizeram 
parte do ducado o palácio e quinta de Fontello, 
porque tal affirmatlva contradiz factos constantes 
de documentos authenticos. 

Sabo-se que o bispo D. Odorio comprou esta 



1} Memorias mu. doudas á camará municipal da Vizeu. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



146 

quinta em 1449, estabelecendo ahi a sua residên- 
cia ordinária; que o bispo D. João Homem a ac- 
crescentou com a compra de algumas terras con- 
tíguas e dera principio ás obras do paço; que es- 
tas foram continuadas pelo seu successor D. Gar- 
cia, fundador da capella de Santa Martha; que o 
bispo D. Miguel da Silva a accrescentára com no- 
vas acquisicões e começara a cerca-la de muros; 
e, finalmente, que o bispo D. Gonçalo Pinheiro 
concluirá esta cerca. 

Ora, sendo o paço e quinta de Fontello bens 
ecclesiasticos, não podiam, segundo a jurisprudên- 
cia d'aque!les tempos, ser alienados sem permis- 
são da Sé Apostólica, e de nenhum documento 
consta que tal permissão fosse concedida. 

Também temos por falsa a noticia de que o 
paço e quinta de Fontello, como bens do ducado, 
fossem postos em praça, em execução de senten- 
ça, e arrematados pelo bispo D. Fernando Gonçal- 
ves de Miranda. Tal affirmativa não só contradiz 
os factos que deixamos expostos, mas o testemu- 
nhos de Rezende 4), quando diz que D. João II, 
tendo morto seu primo, mandara logo chamar D. 
Manoel e o nomeara duque de Beja, Senhor de 
Vizeu, e Grào-Mestre da Ordem de Christo, fazen- 
do-lke mercê de todos os bens de seu irmão, menos 
os de Serpa de Moura, por estarem na fronteira de 
Castetla. 

E, se assim foi, como acreditar também que Pêro 
Gomes d'Abreu arrematara o palácio da Torre? 



1) Garcia de Rezende, Çlwomca de D. João II, 



i;qi,- ; ::; v GOOglC 



m 

Para n&o voltarmos a fallar d'este assumpto, 
diremos que D. Manoel, quando jâ rei, nomeou 
Sen/tora de Vizeu sua lilha D. Isabel, e, depois da 
morte d' esta, outra Glha sua e de sua terceira mu- 
lher D. Leonor, por nome D. Maria, que também 
foi Senhora de Torres Vedras e mais tarde impera- 
triz da Alemanha. 

Tendo esta faliecido em 1527, os bens do Se- 
nhorio de Vizeu encorporaram-se nos da coroa, e 
foi então nomeado o primeiro corregedor d'esta 
comarca, recaindo a nomeação no dr. Domingos 
Borges da Costa, vulgarmente conhecido pelo titulo 
de Caualleiro de Çamorim. 

Foi elle quem mandou construir nesta cidade 
cadeia e casa de audiência, onde se pôz um letrei- 
ro, que dizia: 

«Esta obra mandou fazer 
O Doutor Domingos Borges 
da Costa primeiro corregedor que 
foi d'esta comarca, depois 
da morte da infanta 1). Maria 
Anuo 1580.» 

Alguns vereadores, levados por paixões, diz o 
manuscilpto donde extractamos a noticia, man- 
daram substituir aquelle letreiro por estoutro: 

«Esta obra 
Se fez por 
Mandado d'El 
R. N. S. Anno de 
•1580.» 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



148 



E' indubitável que em Vizeu esteve por algum 
tempo a carte durante os reinados de D. João I, 
D. Duarte e D. Affonso V. 

Fr. Francisco Brandão 1) refere que a rainha 
D. Filippa tomara sob a sua protecção o mosteiro 
e a commendadeira de Santos, Ignez Pires ou Pe- 
res, por carta passada de Vizeu, onde então estava 
a corte. 

Nos dois reinados seguintes expediram-se algu- 
mas cartas, passadas e assignadas em Vizeu. Men- 
cionaremos apenas duas de D. Affonso V, uma de 
2 de abril de 1454, pela qual nomeou almirante a 
Ruy de Mello da Cunha, filho de Lancerote Pessa- 
nha, fronteiro do Algarve, mandando levantar o 
sequestro que se tinha feito sobre a jurisdiccão e 
posse do Almlrantasgo, e outra de 29 de marco de 
1455, pela qual fez uma mercê a João Gomes de 
Góes, que havia sido camareiro-mór de seu avó D. 
João 1—2). 

Também nesta cidade se celebraram cortes em 
15 de dezembro da era de 1429 (anno de 1391), 
como o attestam documentos authenticos 3), caín- 



1) líonarch. Lusit., Hr. XVII, fla. 289, citada por José 
Soar» da Sllv», Memoria» para a Historia de Portugal, tom' 
I, pag, 263 o 254. 

2) D. Luix Caatano de Lima, Qeoçraphia Histórica, tom. 
I, pag. 311 e349. 

3) Arch. Nac. Arm. 11 da Coroa, Maç. I de CôrUa n.° IS- 
Arch. da camará municipal de Coimbra, pergaminho n.° 42- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



do, por isso, era erro manifesto os que lhes assi- 
guaram o anno de 1392—1). 

José Soares da Silva, no logar citado na nota 
antecedente, accrescênta que também nesta cidade 
se celebraram cortes na era de 1457 (anno de 1419) 
e Vilhena Barbosa 2) affirma existirem documen- 
tos authenticos, que não cita, tanto d'estas como 
das do anno de 1391. 

Apesar das nossas minuciosas e aturadas inves- 
tigações, nenhuma outra referencia a estas cortes 
encontrámos em qualquer outro escriptor ou em 
qualquer documento, e não somente as temos por 
duvidosas, como o Académico João Pedro Ribeiro 3) 
mas como não existentes; e explicamos a affirma- 
ttva de Soares da Silva por o equivoco, em que caiu, 
de ter tomado, quando leu qualquer documento re- 
ferente a cartes em Vizeu, a era de 1429, em que 
se celebraram, pelo anno de 1419, (era de 1457), fa- 
zendo, assim, de um só, dois factos 4). 

Cartorio da camará municipal do Porto, H*ro A, fia. 56, e Urro 
6, fia. 316 e v. 

O Panorama, to). V, pag. 90 da noticia de que no Archfvo 
da cantara municipal de Ponte de Lima existiu um pergami- 
nho com alguns capítulos das cortei de Vizeu, mas, segundo 
noa informaram, já hoje nlli n9o existe osso documento. 

1) D. José Je Hiranel y Casaa, El Oran Diccumario His- 
tórico, verb. Vizsu, e o Académico portuguez José Soarei da 
Silva, Memorias de D. João I, tora. II, pag. 066. 

2). As cidades e villas de Portugal que têm braxOes d'ar- 
nias, vol. III, pag. 146. 

8) liemor. da Litt. Portug., tom. II, pag. 119 e 120. 

1) Ainda nesta data so contava pela era de Cezar. Foi no 
anno d« 1421 (era de 1469) que D. João I, de Caatella, nas cftr' 



>,Sitízeot> V GoOgIe 



Naqitelle tempo, as cortes eram convocadas pe- 
los reis ou pelos regentes, e a ellas eram chama- 
dos os prelados, os nobres e os procuradores das 
villas e cidades notáveis, que, por foral ou privile- 
gio, ahi tinham assento. 

Tiveram o nome de agravamentos as propostas 
apresentadas nas primeiras cortes de Affonso IV, 
de artigos e também de capitulo» as apresentadas 
nas ultimas cortes d'este monarcha e em todas as 
que se celebraram até as de Guimarães na era de 
1430, e somente de capítulos as que se apresenta- 
ram nas de Santarém da era de 1444 e em todas 
as qtie se seguiram. 

Os agravamentos, artigos ou capítulos diziam se 
geram, quando eram propostos em nome de todos 
os procura lores dos concelhos e interessavam a 
todo o reino, e especiaes quando em nome da pro- 
víncia ou do concelho a que respeitavam, haven- 
do até exemplos de alguns serem propostos pelos 
Mesteres e povo de uma terra, em separado dos Ao 
concelho. 

Os capítulos especiaes eram reputados como pri- 
vilégios, e os geraes tinham toda a força de lei. 
Conceileii-.se, porem, aos concelhos a faculdade de 
só serem obrigados a cumprir aquelles de que pe- 
dissem ou levassem instrumento ou carta, o que 
explica a circumstancia de se encontrarem só al- 



ies de Segóvia, mandou que se contasse pelos annos de Cbris 
to, e no anuo seguint*>, 1132 (era de 1460), que D. Joio I, de 
Portugal, por Imitação, estabeleceu que neste reino se contas- 
se do mesmo modo. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



gunsdos capítulos das cortes em muitas cartas, que 
se acham archivadas nas camarás municipaes de 
muitos concelhos d'este reino. 

Das cortes celebradas em Vizeu no mez de de- 
zembro da era de 1429 (anno de 1391) passaram-se 
instrumentas ou cartas em 15 d'aquelle mez aos de 
Santarém com o teor de 12 artigos geraes 1), em 16 
aos juizes, concelho e homees boõs da leall cidade 
de Coimbra com o teor de 12 artigos, também ge- 
raes 2), em 20 aos juizes, concelho e homens bons 
da leal cidade do Porto com um artigo especial, e 
em 21 a estes mesmos com 17 artigos geraes, que 
comprehendem quasi todos os que se acham re- 
partidos pelos outros instrumentos. 

Em 20 do mesmo mez foi também passada car- 
ta aos de Ponte de Lima com 8 capítulos num per- 
gaminho.que existiu no archivo da camará d'aquelle 
concelho com o n.° 3—3), mas que, segundo nos 
informam e acima dizemos, já ali não existe. 

Dos capítulos d'estas cortes, numerados pela or- 
dem, por que se encontram no livro B do archivo 
da camará municipal do Porto, passaram para as 
Ordenações de D. Affonso V os seguintes: 



1) O resumo doa 7 primeiros artigos foi inserto na Hist. 
e theoria das cartes geraes, pelo Visconde de Santarém, part. 
2.*, pag. 19. Vejase o índice Chronolog. dos pergaminhos e fo- 
ntes, existentes no Arch. da Camaia Municipal de Coimbra 
(1863). 

2) Pergaminho n.° i\ da camará municipal de Coimbra, 
em 4 folhas, sem selle pendente, que pelos buracos se conhece 
ter existido. 

3) Panorama, logar citado. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Capitulo 1.» para o livro IV, tit 29 99 3.% 4.» e 5.*; 

Capitulo 2." para o livro V, tit. 58 pr.; 

Capitulo 7.» para o livro II, Ut. 57 pr. 

Capitulo 10.» para o livro II, Ut. 57 9 i.«— I). 

Temos em nosso poder certidão, t;strahida dos 
livros A e B da camará municipal do Porto, dos ca- 
pítulos que dos respectivos pergaminhos para elles 
foram transcriptos por ordem de Filippe II, e copia, 
que obsequiosamente nos foi enviada pelo erudito 
antiquário d'aquella cidade sr. dr. António Augus- 
to Simões de Castro, dos que em letra semi-gothi- 
ca se acham no pergaminho n.° 42 da camará mu- 
nicipal de Coimbra. 

Entre os capítulos de Coimbra e os do Porto há 
algumas divergências, quer no modo de dizer, quer 
na orthographia, provindo estas ultimas de ter o co- 
piai . dos livros do Porto adoptado a orthographia 
do seu tempo e não a dos pergaminhos que copiou. 

Se transcrevêssemos uns e outros avolumaría- 
mos muito o nosso trabalho, sem utilidade para os 
leitores, visto como todos os capítulos do pergami- 
nho de Coimbra se encontram nos livros do Porto. 

Não transcrever nenhum seria desacerto, por- 
que documentos de tanta importância não deveriam 
continuar ;i jazer, sujeitos a perderem-se, no pó dos 
archivos. 

Se transcrevêssemos só os de Coimbra, para con- 
servarmos a orthographia da epocha em que foram 
passados, continuariam desconhecidos os restantes 
do Porto. 



1) Jofto Pedro Ribeiro, Memorias da Lit(. Portúg,, tom. XI, 
pag. 71. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



153 

Transcrevendo só os do Porto, embora compre- 
hendam todos os de Coimbra, haveria o inconve- 
niente de não se conservar, tanto quanto possível, 
a orthographia com que foram escriptos. 

Adoptámos por isso a solução de transcrever os 
de Coimbra, expondo em notas as divergências mais 
importantes dos da copia do Porto, e de apresen- 
tarmos, em seguida, os restantes que se encontram 
nesta copia, resultando d'aqul a vantagem de se po- 
der comparar a orthographia dos séculos 15 e 17 e 
ver a transformação das formas d'algumas palavras. 

Mas como não temos os caracteres typographi- 
cos que naquella época representavam m, n, r, e, 
4, tia, ue, em, en, ra, re, ri, ro. ar, er, or, uar, ser, 
irei, substituimo-los pelos actuaes. 

O teor do pergaminho de Coimbra é o seguinte: 

cDom Joham polia graça de deus Itey de põ- 
tugal e algarve. 

A vos Juizes e concelho e homees boos da nos- 
sa leal t Cidade de Coinbra 1) Saúde sabede q. em es- 
tas cortes q. ora Azemos em esta cidade de Viseu 
nos forom dados por os procuradores das Cidades. 
villas e lugares do nosso senhorio 2) artigoos gee- 
raaes antre os quaaes nos derom estes q. se adeante 
seguem. ENos demos a elles nosas respostas e de- 
sembargos 3) com acordo de nosso conselho peta 
gisa q. asuso he septo 4) —1 .» Pmãmente 5) q. bem 



1) do porto. 

2) procuradores dos concelhos do nosso senhorio. 
S) nossa resposta e deseiubarg o. 

4] escrito. 

5) Primeiramente. Itera. 



>,sitizeot> v GoOgIe 



154 

sabíamos como i) os Reis q. ante Nos forom olhan- 
do maneira e condiçom destes Regnos por q. gisa 
se melhor podiam manteer ordinharom q. fossem 
constrangudos os prouedores 2) e dados aaquellas 
pessoas q. os merecessem 3) e mais tivessem de fa- 
zer o q. for nossa mercê 4) mandarmos que nom 
fossem constrangudos e q. desto se segue gramda- 
pno 5) aos nossos povoos por q. ha hy muytos q. 
teem encarrego 6) de cavallos e grandes fazendas e 
daproveltar muytos bees e honradas fazendas q. 
tem de q. Nos auemos da ver direitos e tributos e 
de q. auemos de seer seruido e se segue gram proll 
ao Reyno e q. muytos desta condiçom nom podem 
laurar nem aprofeitar seus beens. E q. nos pediam 
por merçe q. sem enbargo desto q. assy mandamos 
mandássemos ditos seruidores 7) siruam e morem 
pia gisa q. o faziam em tempo dos outros Reis q. 
ante Nos foram. 

A este artigoo 8) Respondemos q. nos praz em 
esta gisa q. se aduante segue convém a saber 9) q. 
se alguuns teverem filhos ou filhas quantos quer 
q. sejam taes filhos ou filhas em quanto (?) 10) este- 



1) que. 

2) Ber»idoreB. 

3) mantevussem. 

4) e que foy noaaa mercê. 
5| dano. 

6) caregoa. 

7) que os ditos servidores. 
8} K nos » este capitolo. 
9) sege- a saber. 

10) eminente. 



OaiozMbyGoOgle 



verem e morarem com seus padres e madres nom 
sejam obrigados morar com outrem. 

Item q. se alguns ou algumas morarem com al- 
guém per suas voontades q. estes nom seiam tira- 
dos 1) a estes com q. asi morarem nem constran- 
gudos pêra morar com outrem em quanto (?) 1) assi 
com elles morarem. 

E tirados estes casos a Nos praz q. os q. forem 
taaes-pessoas q. seiam pêra servir outrem q. seiam 
pêra ello constrangudos per as Justiças das terras 
pella gisa q. se vsaua no tenpo dos outros Reis to- 
mando lhes 2) as soldadas pella gisa q. Nos acor- 
darmos com 3) nosso concelho: 

2.° — Outrossi nos disseram em outro artigoo q. 
Nos mandamos q. nana ouuesse almotacaria nos nos- 
sos Regnos. E q. desto se segue gram dapno e per- 
da aos nosos povoos por q. as gentes dos nossos 
Regnos se nom ham Regra nom se contentam de 
dar as cousas por os preços agisados maas se lhes 
custa huum dinheiro damnas por vynte. E q. por 
esta Razam todas as cousas som postas em gram 
carestia per myngua da dita almotacaria por q. os 
q. ham de manteer de faze i ,1a de Ricos tornam em 
pobres e os Regatooes enrriquecem o desto se se- 
gue a Nos gram desserviço e dapno ao nosso povoo. 
E que fosse nossa mercê de mandarmos q. ouuesse 
hj almotacaria nas cousas em q. a soya daver per a 
gisa q. a auia em tenpo dos outros Reis q. ante Nos 
foram. 

1) não seiào constraniiidoa neul tirados. 

2) eminente. 

8) taxando -lhes. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



156 



A este art.» Respondemos q. nos praz pela gisa 
q. per elles he pedido saluo q. se antes soya daver 
almotaçaria em selas e freos 1) e nas armas de 
qualquer maneyra q. seiam. e em çapatos desenfro- 
lados e em todo lauor de polayna de çapateiros q. 
rsasem deste mester. E em tapetes e vidros e vor- 
lantes 2) q. queremos q. em estas cousas a nom ala 
e como quer q. esto per Nos assy he outorgado em 
estes dous artfgoos suso septos 3) q. outorgamos 
em todos nosos Regnos salvo na cidade de Li&boa 
por quanto lhes juramos q. nom mudássemos em 
esto nada na dita cidade salvo se a todollos mora- 
dores delia juntamente prouuerde se fazer assi con- 
vém a saber seendo pêra elo chamados todos os 
dos mesteres e todolos outros moradores da dita ci- 
dade e quintandonos o ditto juramento. 

3. tt — Outrossi nos disseram em outro artigoo q. 
em algumas cidades e villas destes Regnos ha ofí- 
cios públicos q. pertencem ao Rey assi scripuaaes 4) 
da camará e da vereaçom como dos beens dos con- 
celhos e q. estes sovam a seer e som postos peros 
Concelhos e elles gaanhavam de Nos cartas em q. 
tomávamos em Nos esta jurdicom e lhes confirma- 
uamos estes ofícios. E q. elles por esta Razam se 
apoderam das cidades e villas. E q. fosse nossa 
mercê de mandarmos q. os ponham eses concelhos 



1) 


freios. 


Zt 


bolam los. 


3) 


eecriptoe. 


*> 


mcriv&M. 



jo.ra i.Google 



457 



em cada huum.ano aqueles q. fossem hydonyos e 
perteençentes pêra ello e doutra glsa nom. 

A esto artigôo. Respondemos q. nos praz e man- 
damos q. daqui endiante os ponham elles e q. os 
ponham cada ano de glsa q. o q. o for huurn ano 
q. o nom seia o outro. Eq.o comecem logo de fa- 
zer e q. os façam com pelouros como mandamos 
fazer os juizes e nom o fazendo asi q. a Nos Acara 
a prouison daquellano q. os elles nom pozérem. 

•1,°— Outrossi nos disserom em outro artigoo q. 
algumas pesoas tragem aRendadas e aforadas her- 
dades e outras posesoões de Eígreias e moestelros 
e"doutras pesoas por certos preços e acontece q. as 
ditas pesoas teem os nouos e fruytos em seus agros 
e pousadas as quaees dizem q. lhe som acontiadas 
nas peitas e pedidos, outrossy nas contias pêra te- 
rem cavalos e armas nom lhes descontando os pre- 
ços e Rendas q. por elas dam. nem as custas q. 
sobrelas fazem, E q. fosse nossa mercê de mandar- 
mos q. lhes nom fosse acontiado senom*o q. ham 
em salvo. 

A este artigoo Respondemos q. nos praz q. se 
estimem estes enprazamentos quanto por elles da- 
riam se se vendesem com. seus encarregos e q. 
tanto lhes sei i contado no avaliamento pelos ditos 
beens e mais nom. 

5.* — Outrossi nos foi dito q. os coudeens 1) acon- 
tladores acuntiarom algumas pesoas pêra terem ca- 
vallos e beestus e armas depoiaem alardo. E q. des- 
pois lhes nom Recebem as ditas cousas e lhas en- 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



158 

geitam fiazendo-lhes grandes dampnos em seus bens. 
E aalem desto nom podem aver outras sem gram 
seu dampno. E q. fose nosa meroe de mandarmos 
q. depois q. lhes asi tosem Recebudos os ditos ca- 
valos e beestas e armas q. lhes seiam Recebudos 
dhi endiante. 

A este art.° Respondemos q. nos praz. salvos 
em estes casos. q. se aalguuns forem lançadas bees- 
tas. E q. se antes quesessem teer cavalos q. os te- 
vesem. E alies escolheram a ter cavallos e compra- 
romnos taaes de q. Nos nom podemos seer seruido, 
q. este caso mandamos q. posto q. taes Roçyns a 
estes fossem recebudos q. ou os tenham milhores 
ou tenham beestas segundo per Nos he mandulo ou 
se os cavalos q. ia foram Recebudos ouuerem algu- 
mas enfermidades ou avos (?) 1) ou as beestas fo- 
rem de tal gisa dampnadas q. nom possam com el- 
las seruir como compria em estes casos, mandamos 
q. lhes nom seiam Recebudos. posto q. lhes ia fos- 
sem Recebudos outras uezes. 

6." — Outrossf nos derom outro artigoo em g. di- 
ziam q. he ordenaçom posta pelos Reis q. ante Nos 
forom e direito q. nom seia presa nenhuma pesoa 
por carta de maldizer nem por libelos famosos nem 
por querelas nem denunciaçôes q. delas seiam da- 
das per pesoas a q. os feitos nom pertençam. E q. 
fosse nossa merçee de mandarmos q. esto se guar- 
dasse. Eq. nenhuma pesoa nom seia presa por taaes 
acasaçooes nem enformacooes ia muytos forom por 



1] cartas. 



w Google 



159 

elo presos e dapnados do q. aujam. E se guardasse 
o q. EIRey dom afonso nosso auoo mandou q. ne- 
nhum nom seia preso senom se dei for querelado 
e jurar e nomear ts {testemunhas}. 

A este artigoo Respondemos q. nos praz q. se 
guarde a dita ordenaçom. 

7.° — Outrossi nos disserom q. som ordenhaoooes 
postas pelos Reis q. ante Nos forom em q. defen- 
derom q. os corregedores nom tomassem conhoci- 
mento dos fetos (feitos) de q. os Juizes das terras 
disessem q. poderiam fazer direito, o q. se nom 
guarda ora mais leuam consigo os presos e gastam 
o q. ham. E q. fosse nossa mercê de mandarmos 
q. se guarde a dita ley, ea porem ia per Nos fora 
mandado em cortes nom se guarda. 

À este art.° Respondemos q. mandamos q. se 
guardem sobrello as ordinhaçooes do Regno. segun- 
do em ellas he conthudo. E q. se os corregedores 
o contrayro fezerem. q. Nos lho estranharemos. 
E q. se eiles sabem alguuns q. o contrairo desto fo- 
çam q. nolo digam e q. lho estranharemos. 

8.° Outrossy nos disserom em outro artigoo q. 
alguuns mercadores dos nossos Regnos e de fora 
deli vêem aell com suas mercadorias e dizimam nas 
nossas alfandegas e almazeens e Recebera alva- 
raaes 1) de saca pêra tirar do Regno outra tanta 
mercadoria. E levam os ditos alvaraaes e alguuns 
portos de mar destes Rognos e nom lhos querem 
guardar e levamlhes outra dizima do q. carregam 9.) 



1) alvarás. 

2) aai q. «tio duaa dizimas, accrescsnta a copla do Porto, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



m 

E q. fosse nossa mercee de mandarmos ai almuxa- 
rifles das comarcaa q. guardem os ditos alvaraaes. 
como se guardaram em t :npo dos outros Reis q. 
ante foram. E se o nom f «esem q. fossem citados 
pêra a nossa corte amostrar Razam^por q. os nom 
guardam. 

A este artigoo Respondemos q. Nos praz de guar- 
darem os alvaraaes com tanto q. sejam cptos (escri- 
ptoê) per os nossos xpuaàes (escrivães) e synados 
pelos nossos almuxariffes e sselados com seus see- 
los salvo em aquelas mercadorias de q. se senpre 
vsou levarem duas dizimas, nos quaes queremos q. 
q. se guardem o q. se soia de guardar era tempo 
do nossos antesecores. 

9.*— Outrossy nos disserom em outro artigoo que 
nas nossas prisoões e nas q. tragem os nossos cor- 
regedores som presos pelas terras rauytas pesoas. 
E nom lhes som dadas audiências como compre e 
jazem lazerando nas prisoões. E gastam gram par- 
te dos beens q. ham. E perderasse a farae. E laze- 
ram gmuernente. E acontece por vezes q- rauytos 
fugem e nom se faz dello direito e justiça. E q. fos- 
se nossa mercee q. mandassem os sobrello fazer o q. 
entendêssemos por nosso serviço em gisa q. os di- 
tos presos aiara cedo liuramento com seu direito. 

A este artigo Respondemos q. pedem bem. E q. 
Nos asy o mandamos ia fazer e mandamos daquy 
endiante. 

10.* — Outrossy nos disserom em outro artigoo 
q. alguuns mercadores dos nonos Regnos e de fora 
deli compram fruyta e vinhos no algarue. E mudam 
nas dhuum porto para outro em barcos per dentro 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



dos Rios pêra carregarem os nauyos q. teein noa 
ditos portos. E quando assy carregam nas barcas 
levamlhes dizima. E outrossy lhes Ieuam outra de- 
pois q. som carregados os ditos nauyos asi q. Ieuam 
duas dizimas dhuma cousa o q. nunca foy em tem- 
po dos outros Reis q. ante Nos foram. E q. ia so- 
bresto ouueroin duas cartas que nora pagasem mais 
dhuma dizima e nõ se guarda. E q. fosse nossa mer- 
çee de mandarmos q. se guarde em tudo como se 
guardava em tempo dos outros Reis q. ante Nos fo- 
rom. 

A. este art.° Respondemos q. nos praz q. se guar- 
de como se guardou em tempo dElRey dom pedro 
nosso padre e de nosso avoo. 

41.°— Outrossi nos disseram q. bem sabíamos 
em como Nos demandaram q. em estes avalliamen- 
tos q. se ham de fazer per todo o Regno pêra este 
pedido q. ham de tirar nom fossn ftto (feito} avalia- 
mento em ci vai los nem em armas daquelles q. som 
contiosos de as taerera nem em casas de suas mo- 
radas nem em cavallariças nem em roupas de ca- 
mas nem de vestir, por q. de todas estas cousas 
nom ham renda nenhuma. E q. per Nos lhe foi óu 
torgado parte dello. E q. fosse nossa mei-çee de lhes 
darmos em ello livramento pêra auerem suas cartas. 

A este ar!- Respondemos q. nos praz q. se nom 
aconticm cavalos nem armas, mais q. do ai q. di- 
zem q. nos nom parece razam. ea quanto mais 
beens contiarem tanto mais pagaram o q. he pro- 
ueito para elles. 

12.°— Outrossy nos disseram q. nos pediam por 
merçee q. nom seia nenhuma pesoa escusada em 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



este pedido por carta nem aluara nem priuilegid 
q, tenham, salvo se for donas e cavaleiros e todos 
aquetles q. continuadamente sentiram na guerra 
ataa o cerco de tuy. E os clérigos daquelio q. ham 
de seus benefícios, e se ouuerem beens patrimo- 
nyaaes q. paguem delles como cada huum dos 
leigos. 

A este art." Respondemos q. nos praz saluo dos 
clérigos beneficiados os quaes nos nom parece agi- 
sado pagarem de seus beens, pois em outra parte 
pagam dos benefícios que teem. 

E condue: E porem mandamos, a todolos mei- 
rinhos, corregedores, juizes e justiças. E a outros 
quaesquer offiçiaaes e pesoas dos nosos Regnos 
q. esto ouuerem de veer q. o compram e guardem. 
E façam asi comprir e aguardar como nos ditos ar- 
tigos e resposta delles he conthudo. E nom vaam 
nem consentam. ir contra ello em nenhuma gisa 
q. seia ea nossa merçee. E de seer asi comprido e 
guardado vos ai no façades. dat em Viseu XVI 
dias de dezenbro. ElRey o mandou per Ruy lou- 
renço fiavam de coinbra lecenciado em degredos 
e per Johane afonso escolar 1) em lex seu vasalo 
anbos do seu desenbargo. alvar gonçalves a fez era 
de mil quatrocentos e vinte e nove anos. 

No fundo de cada uma das paginas tio perga- 
minho em que esta escripto este documento estão 
as assignaturas de Ruy Lourenço, deão de Coimbra, 
e de João Affonso, escolar, aos quaes se refere o íi- 
nal do mesmo documento. 



1) da Santarém, diz a copia do Porto, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



No livro li da camará municipal do Porto, e ; s- 
tes artigos, salvo o 1.» e 2.°, estão por outra or- 
dem : o 3.» de Coimbra é ali o 6.% o 4.* o íí.°; o 5.° 
o 12.°; o 6.» o 4.»; o 7.» o 5.»; o 8.» o 7.*; o 9.» o 
&•; o 10.° o 10.°; o 14.» o Í6.°; o 12.» o 17.r 

Nesse mesmo livro ainda ha mais os 7 seguin- 
tes capítulos, qne se não encontram no pergami- 
nho de Coimbra, e são peia ordem em que ahi sa 
acham, os 3.", 1-1 ,», 13.°, 14.° e 15.°, que em segui- 
da transcrevemos, com a orthographia com que 
.foram copiados no tempo de Filippe II. 

3.° — E outro si noa disserão ena outro ar*.igo 
■que nos demos cartas de marcas a muytas pessoas 
<am religiosas como de outra condição em que lhe 
damos Juizes nos lugares onde são moradores pe- 
rante quem demande ti quem quizarem e que es- 
tes iuizes porque são ofeiezudos e apresentados 
ou per logo que lhes he feito, fazem andar perante 
si rauytos dos nossos Reynos e posto qne tenhâo 
dtrejto tanto lhe perlongão esses feitos que antes 
{tesemparão e deixáo perder o seu direjto e fazem 
avencas quaes esses autores querem. E porque nos 
bem sabemos que he direjto escripto que o autor 
deve segir o foro do Reo pediam nos por mercê 
que não déssemos taes cartas e as que dadas ha- 
víamos que mandássemos que não valessem. 

E nos a este oapitolo que nos damos as vezes 
estas cartas por algumas rezões lídimas qile nos a 
fsto movem e que as não déssemos sulvo quando 
taes resões forem por que as devamos dar. E do 
que dizem dos rogos e préstimos dizemos que 
quando esto for que fica seu direito as partes po- 



>,Sitizeot> V GoOg[e 



rem suas eceições segundo com direito íazer podem 
per os impunharem de seus Juizes. 

il. 8 — E outros! nos dísserSo em outro artigo 

que de se npre se costumou em estas Reynosque 
todo o homem de idade de sessnta annos não ser- 
visse per si nem per seus bens em maneira de de- 
fensão nem tivesse cavalo nem armas, salvo aven- 
do a contia dobra-la dos outros onde elle asy mo- 
rasse. <i que fosse nossa rasrce mandarmos que se 
goardasse asi aos da dita jdade e lhes fosse goar- 
dado o seu preuilegio. 

E nos a este artigo respondemos que manda- 
mos que não siruam na gerra mais que por serui- 
co nosso e prol da nossa terra mandamos que te 
nhão cavalos e as bestas com suas armas, posto 
que não tenhão as contias senão singetlas. 

13.°— E outrosi nos disserão em outro artigo 
que em alguns lugares ha pessoas que tem herda- 
des que são suas e são a nos tributarias em certa 
cousa dos quaes aforamentos e que os nossos almo- 
xarifes e outras pessoas a que demos as terras e 
outros nossos direjtos não lhes querem goardar os 
ditos prazos e aforamentos e que fosse nossa mer- 
cê mandarmos que aquelles que estão em posse 
por sesenta annos asi os que mostrão prazos como 
os que os perderão que não seião teudos de pagar 
saluo o que pagarão de sessnta annos a ca. 

E nos a este capitoto mandamos que se faça em 
ello o que for direito. 

14. •— E outrosi nos disserão em outro artigo 
que alguns nauios no nosso senhorio entrão agora 
poucos dias ha em alguns portos da inglaterra da 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



ida indo carregados da vinda trazendo panos pei 
fortuna do tempo que auiam por saluar seus cor- 
pos e bens e tomarão lhes de quanto levavâo e tra- 
zião de vinte hum. não comprando nem vendendc 
nenhuma cousa em esses portos desso que asi ie 
uauão e traziào salvo se hera seu mujto e que fos 
se nossa marce de escreuermos esto a elRey dí 
Inglaterra em gisa que o nosso pouo não recebes- 
se damno que pois elles não ousão de entrar nos 
portos da parte de frança e per tal custume nâc 
entrar em inglaterra coimem que se percão os na- 
u vos per mingoa de colheita e esto seria gram da 
no dos nossos pouos. 

E nos a este capitolo respondemos que elleí 
dizem muj bem e que nos escreueinos hora a El 
Rey de inglaterra sobre ello. 

15.°— E outrosy nos dí&serão em outro artigt 
que nos damos cartas a frades e a freiras e a ou- 
tras pessoas per que lhe damos os residuos dof 
testamentos e poemos Juizes nas terras que lhos 
julguem e os Juizes que asy sobrello poemos to 
mão no muy largamente tendosse mais alem d< 
que ho testador mandou em seu testamento e < 
que pior lie constrangera n os testamenteiros qiu 
forão (lalgtunas pessoas finadas áes vinte a trinfc 
e quarenta aiinos e mais que lhe dem conto e re 
cado de como distribuirão os bens do dito testa 
mento senão que lhe dem e pagem pêra os dito: 
mosteiros o que nos ditos testamentos he deixad< 
o que elles não podem fazer nem podem dello da 
recordação por rnuytas necessidades que se segen 
também de pertelencas e tremores como per gei 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



ras que se ata gora segir&o, ou que se perderão 
innytas escnViras e recadaçôes que dello tinhfio 
e que fosse nossa mercê e mandássemos que afio 
dessem conto nem recado dos ditos testamentos. 
santo de dez annos a ca que podem bem auer 
acoi-do os testamenteiros do que despenderão de 
majs que muytos dos testamenteiros são li nados e 
os herdeiros que flcão nâo hfio resâo de saber del- 
lo parte e íicarião danados o que não hera serviço 
de deos nem nosso. 

E nos a este capltolo respondemos que se faça 
em esto o que for dlrejto. 

livro B d'onde foram extraídos estes capilo- 
loi intKu:a-se « Livro de treslado de capitulo» de cor- 
tes e sente-; ;: antigtuu que ettauam em pergami- 
nho no cartono da camará d' esta cidade (Porto) de 
letra gant.tda que com diffieuldade se podiam leer, o 
qual êe ordenou por Mandado de sua rnagetíade, e 
no fim d'elie ettam concertadas — » e na sua primei- 
ra pagina enoontra-se, alem do titulo, copiada a 
provisão de 26 d'abríl de 1614 pela qual D. Philippe 
ordenou ao doutor Gabriel Pereira de Castro, do 
seu desembargo e corregedor do eivei da Relação 
e Casa do Porto, que sem duvida nem embargo 
opposto patos offlciaes da camará d'aquella cidade 
fizesse encadernar todos os papeis, que o não es- 
tivessem, trasladar em um livro e concertar com 
os origiitaes os pergaminhos de letras antigas e 
gastas que com difficuldade se podiam ler, reco- 
lhendo depois tudo ao cartório da mesma camará. 

No sobredito archivo da camará do Porto exis- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



te outro iivro, denominado o «.Livro A», que se in- 
titulo Livro de treslado de prouisões antiguas que 
estauom em pergaminho no cartório da ca/nara (Pes- 
te cidade (Porto) de lettrã gastada qtte com dificul- 
dade se podido leer, o qual se ordenou por Mandado 
de sua magestade, e no fim d'elle estão concertadas» 
e na sua primeira pagina, togo em seguida ao titu- 
lo, vem copiada a referida provisão, de D. Filippe. 
N'esse livro, a fl". 55 e verso, foi trasladada a 
seguinte carta: 

eDel Rei dom jofio primeiro para que os prasos 
que estauam feitos a pessoas os comprtssem os fi- 
dalgos a quem deu os taes direitos. 

Dom joio pella graça de deos rej de portugal e do 
algarue a todolos nossos mejrlnhos E corregedores 
e juizes e justiças E a outros que esto ouuerem de 
veer a que esta carta for mostrada Saúde Sabede 
que o conselho e homens bons da nossa leal ci- 
dade do porto nos enviarom dizer per seus procu- 
radores que ora mandaroin aas cortes que fizemos 
na cidade de Viseu que alguns moradores da ditta 
cidade tem suas quintas e cazaes no julgado de 
Geya e da maja e da feira e de melres e de gon- 
domar e doutras comarcas a propinco da dito ci- 
dade, as quaes herdades a nos som sojeitas, K que 
o foro que a nos som teudos de dar tem nos de 
nos einpmzados tf dos reis que ante nos forem por 
que os teverom/ e ora elles dizem que nos demos 
os direjtos que lij abiamos alguns lidalgos E a ou- 
tras pessoas poderosas que lhononi querem Guar- 
dar os dittos prazos e aforamentos que assj tem 
nossos e dos dittos reis com poderes que ham e 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



lias jurdíçoes que tem das dittas terras, e assj 
mos, e ífii ■ lhe totnão medições desso que assj 
urâo no qne dizem que recebe n grande agrano 
terem feitas bemfeitirias peitos montes qne tem 
npraziídos ou aforados a direjtos e das que som 
(tis averem lhe de tomar medição dos fruitos que 
n filias h.im em que gastâo quanto ham, e pedin- 
> nos por merçe qne lhe ouuessemos sobrello ai- 
un remédio, £ nos vjndo o que nos assj pediam 
mos por bem e mandamos vos que veiados os 
òramentos E emprazamentos que assj tem E se 
;li irdes que de direjto deuem valer que lhos nam 
«facadas e fazede lhoscomprir K aguardar como 
n elles he conteúdo, E não consintades a nenhit- 
a pessoa que lhe contra elles vão, e nom lhes 
>nhades nm eito outro embargo, E ai nom laça- 
is. Dada ein Viseu vinte dias de dezembro. Elrej 
mandou per Ruy lourenço Deão de coimbrã li- 
jnceado em degredos e per joâo afonso escolar em 
ijs ambos do seu desembargo. Marttra Yasques a 
•z era de mil E quatrocentos e vinte e nove an- 
os. Conimbricensis Decanus— johanes.» 

Panorama 1), conservou-nos um dos osto ca- 
itulos do pergaminho da camará de Ponte de U- 
ia, dilíerente dos que deixamos transcriptos. e 
ra: 

«Outro sy nos disseram ern outro capitolo que 
os pediam por mercêe que se guerra veessç, cous- 
ti que Deus nom mande, que os que erdades te- 



l) tom. V, pag. 03. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



verem em lugar que as nom possam lavrar com 
receeo dos inimigos, porque nom ham delias proll 
que lhe nom sejam contadas nos ditos podidos. 

A esto respondemos que elles pedem bera e 
que lhe agradecemos mujto tal petitório. 

Foi extensa a transcripção, mas de incontestá- 
vel conveniência para se ver a variedade e impor- 
tância dos assumptos tractados nas cortes d'esta 
cidade. 

E nâo será fora de propósito apresentar aqui, 
para melhor comprehensão dos artigos transcri* 
ptos, a seguinte resenha das suas principaes pres- 
cripçôes. 

Nelles se determinou que aos pães e ás mães 
não fossem tirados os filhos ou filhas, que com el- 
les morassem, para irem morar com outrem; e que 
a ninguém fossem tiradas as pessoas, que, por suas 
vontades, comsigo morassem, para serem constran- 
gidas a irem morar com outrem. 

Mas que, fora d ; estes casos, as justiças da ter- 
ra' poderiam constranger qiaesquer pessoas a irem 
morar com outrem, medi;:nte as soldadas arbitra- 
das pelo rei e seu conselho. 

Foi um golpe, ainda que pouco profundo, nos 
privilégios dos (Irandes. 

Foram restabelecidas, excepto em Lisboa, al- 
motaçarjas para lixarem os preços das mercado- 
rias e evitar assim que os ]"egatÕes, movidos pela 
avidez do lucro, os elevassem desmesuradamente. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Foram exceptuadas os freios,, sellas, armas, sa- 
patos, poiainas, tapetes, vidros, variantes mi bola- 
mios (?). 

Concedeu-se a algumas cidades e villas do rei- 
no proverem os offlcios públicos, pertencentes ao 
Rei, de escrivães da camará e vereação d dos bens 
do concelho, mas cada anno em pessoa diversa, 
passando a faculdade para o Rei, não os provendo 
d' este modo. 

Para se avaliar a quantidade de peitas e pedi- 
dos, cavallos e armas que os arrendatários e foreí- 
ros das herdadus e possessões de ègrejas e mos- 
teiros e de particulares deviam pagar, mandou-se 
descontar as rendas, foros e despezas da cultura, 
para a contribuição lecair somente nos sobejos. 

Determinòu-se que nâo fossem recebidos caval- 
los as pessoas que deviam dar bestas para o ser- 
viço real, nem cavallos ou bestas que não fossem 
boas para o mesmo serviço. 

Prohibiram-se as prisões, baseadus em carta nV 
maldizer, libellos famusos, querellas, denuncias ou 
informações dadas por pessoas a quem os feitos 
não pertencessem. 

Mandou-se observar as ordenações do reino, 
probiblndo aos corregedores tomarem conheci- 
mento dos feitos, quando este pertencesse aos jui- 
zes das terras, e levarem para junto de st os pre- 
sos, obrigando-os a gastar o que tinham. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Ordcnou-sé aos almoxarifes das comarcas que 
guardassem e cumprissem os alvarás, escriptos pe- 
los escrivães do Rei e assignados e sellados pelos 
almoxarifes, pelos quaes se permlttía aos mercado- 
ras levarem para fora do reino, pagando só uma e 
não duas dizimas, outra tanta mercadoria como a 
que trouxeram. 

Prescreveu-se que os corregedores dessem au- 
diências aos presos, para estes haverem cedo o seu 
livramento, nâo os deixando jazer nas prisões a 
gastarem grande parte dos seus haveres, a lazera- 
rern e a morrerem de fome. 

Estabeleceu-se que se pagasse sú uma dizima e 
não duas das fructas e vinhos comprados no Al- 
garve, e transportados om barcos pelos rios para 
os portos, onde eram carregados em navios. 

Para o pedido (contribuição) que ia fazer-se por 
todo o reino, determinou-se que não fossem ava- 
liados os cavallos e as armas dos que eram obri- 
gados a crea-los e a te-ias, nem as casas de habi- 
tação, nem as cavallaricas, nem as roupas de cama 
ou de vestir, por nada renderem; 

mas que d'elle não fo*n exceptuada pessoa al- 
guma por carta, alvará ou privilegio, salvo a<t da- 
mas, cavatleiros, todos aquelles que continuada* 
mente serviram na guerra até ao cerco de Tuy, e 
os clérigos quanto aos seus bens patrimoniaes, vis- 
to já pagarem < Wm seus benefícios. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Ao pedido que fizeram a El-rei de não con- 
ceder cartas de privilegio para qualquer pessoa 
poder demandar o reu fora do juízo do domicilio 
d'este, respondeu que ás vezes dava essas cartas 
por algumas razões lídimas. 

Quanto ao pedido que também lhe fizeram de 
serem dispensados de servir na guerra, por si e 
pelos seus bens, os homens de mais de 60 annos, 
e de terem cavallos, bestas e armas, salvo devendo 
de ter o dobro dos outros moradores visinhos, ape- 
nas os dispensou de leram metade dos cavallos, 
bestas e armas, a que eram obrigados. 

Queixaram- se os procuradores do povo a el-rei 
de que os almoxarifes e outras pessoas, a quem el- 
le deu certas teiTas aforadas e outros direitos, não 
queriam guardai - os prazos e aforamentos, e pedi- 
ram-lhe que mandasse guardar todos aquelles de 
que os foreiíos estivessem de posse por mais de 
60 annos, houvesse ou não documento, mas el-rei 
mandou que se fizesse o que fosse de direito. 

Também se queixaram de terem os Inglezes to- 
mado, de vinte, uma (5 por cento) das fazendas de 
pari no que aos portos da Inglaterra conduziram na- 
vios portuguezfis, voltando carregadas com ellas 
sem ali nada comprarem ou venderem, e pediram 
ao monarcha que escrevesse ao d'aquella nação so- 
bre este assumpto para obviar a dainnos de futu- 
ro, o que eile prometteu fazer. 

Sobre o pedido, que lhe foi feito, de eximir os tes- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



tamenteiros ou seus herdeiros de darem conta 
alem de dez annos, do cumprimento dos testamen-t 
tos, cujos resíduos tinham sido concedidos per car- 
tas a frades, freiras e outras pessoas, respondeu 
el-rei que se fizesse o que fosse de direito. 

Prescreveu que os fidalgos e outras pessoas po- 
derosas, a quem elle e seus antecessores haviam 
dado os direitos jurisdiccionaes que tinham em va- 
rias quintas e cazaes, sitas nos julgados de Gaia, da 
Mala, de Gondomar e de outras comarcas, próxi- 
mas da cidade do Porto, vissem, guardassem e não 
desfizessem os aforamentos e emprazamentos, fei- 
tos ás pessoas que os possuíam, e as não aggra- 
vassem de qualquer outro modo. 

Dispensou de contribuírem para os pedidos as 
herdades que, por causa da guerra, e com receio 
dos inimigos, ficassem por lavrar, visto que d'ellas 
se não tirava proveito ou rendimento algum. 

Privilegia da amara ft Hm. Sua rogação. Cavam ds Haii 

Por antigo uso e costume a camará de Vizeu 
repartia annualmente os officios denominados — 

Julgado do Vento, dos Resíduos, dos fíorfoos, e 
■ Escrepvaninlia dos Caoalleiros 1), mas D. João I re- 



li Ojuís do Vento, tomava conta e decidia as questões 
sobre os gados do vento, isto é, que ee acharam perdidos, sem 
Be snber cujos oram. 

Ojuie doe Residuoe arrecadava o dinheiro que o d efunde 



>,Sitizeot>vGoOgIe 



vogou este privilegio e dispoz (Telles em favor dos 
seus privados e de outros grandes da terra. 

D'isto se queixaram os procuradores de Yizeu 
nas cortes de Lisboa do tnno de 1410, dizendo: 

tqne El-Rai, eontra tu seus usos e costumes, lhes 
tomara os officios, que o Concelho annualmente re- 
partia pelos beneméritos da Republica pêra prol e 
honra delles, como eram o Julgado do Vento, e dos 
Resíduos, e dos Horfoos, e a Escrepoaninha dos Ca- 
volteiros, e que os dera de por vida a is seus Pisoa- 
dos e a outros Grandes da terra*; 

e pediram tque sejam restitui los ao Concelho 
e que os actuaes serventuários não uvem mais d'elles. 

El-rei i-espondeii que «já os tirara todos, salvo 
em Lisboa e em Kvora». 

Desde o principio da monarchiit, est veram os 
Cabeças de família de Vízeu e seu termo, sendo 
exceptuados os cónegos da Sé por privilégios es- 
pecialmente concedidos, obrigados; a apresentar no 
primeiro de maio de cada anno um cavailo de mar- 

deixava para obras pias; providenciava sobre capei las, alber- 
garias, contrarias, etc.; tomava contas aos teslameiíteii o* e 
indHgava e verificava se awdtapoatc^teat&mentarlas haviam 
sido cumpridas; e, caso o rito fossem, fazia reverter os obje 
ctos a que respeitavam para as pessoas ou comraunidadea a 
quem, por corta ou privilegio, devessem pertencer. 

juiz doa Horfoos defendia e promovi* os interesse* dos 
orphaou, fazendo inventario doe seus bens, e tomando contas 
aos tutores. 

A f.acrtpvanin]ia doa cavaUeiroa era uni offlcio quo tinha a 
seu cargo tudo o que respeitava ao Cavailo de Maio t mias de- 
pendência!. 



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á 



ca, capaz de servir na guerra, ou, na sua falta, A 
pagar umas tantas libras ou soldos, denominando, 
se este tributo em dinheiro eaaaUana e cavallarias, 
e também jugada e fossaicira. 

Em documento de 4311 mandou D. Dinií que 
o pagasse todo aquelie que não tinha Cavalla.-iu ou 
não era quinhoeiro nella, e não apresentasse no pri- 
meiro de maio cavallo capaz do real serviço. 

No reinado de D. João 1 e ainda nos seguintes 
continuou este tributo, que não sabemos quando 
terminou. 

Estabeleceu este monarcha, segundo se vê de 
capítulos especiaes dados por D. Affonso V á cida- 
de de Vizeu no anno de 4438, que ninguém da mes- 
ma cidade, com o pretexto de qualquer doação re- 
gia ou privilegio, fosse escuso de pagar no Direito, 
a que chamam Cavallo de Maio, o qual desde o prin- 
cipio do Reino houve sempre nesta cidade. 

Ainda se pagava no tempo de D. João II, como 
consta de uma sentença do anno de 4490, e no 
tempo de D. Manoel, segundo se verá do foral que 
concedeu a Vizeu 4). 



FBU FURA 

D. João I, levado talvez da sua especial predi- 
lecção por Vizeu, onde por algum tempo estabele- 
ceu a corte, e, querendo remunerar os serviços que 

1) Viterbo, Ebteidarto, T«rbis- folgado do Vento, K»crt- 
pvaiiinhfi e Cavallo de Maio. 



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seus habitantes lhe prestaram nas guerras contra 
Castella, concedeu-llie uma feira annual, livre de 
metade da ciza, a começar aos 23 de abril, dia de 
S. Jorge 1), devendo fàzer-se dentro dos muros da 
Cava em volta de uma ermida ou capella, dedicada 
a este santo, defensor do reino de Portugal. 

Esta concessão foi confirmada por D. Duarte 
logo no principio do seu reinado, mas, ou porque 
os vizienses não solicitaram a respectiva caita de 
privilegio na chancellaria, ou porque, havendo-a so- 
licitado, não lh'a quizeram passar, a feira deixou 
de fazer-se. 

Sentindo depois os prejuízos qu3 resultavam da 
sua privação, pediram elles por seus procuradores, 
nas cortes de Santarém, fosse restabelecida, mas 
iói-lhes respondido que el-rei a nào consentia, 

Não desistiram, porem, e renovam o pedido nas 
cortes de Évora, obtendo d'esta vez deferimento, 
pois que I). Duarte, em memoria de ter sítio nesta 
cidade o seu nascimento, lhe concede a feira com 
todos os privilégios outhorgados á de Trancoso, me- 
nos o da ciza, por carta passada em Estremoz aos 
17 de abril de 1436,, cujo teor, qua copiamos de 
uma certidão extraída do pergaminho original, a 
qual temos em nosso poder, é como- segue: 

« Dom Duarte pela graça de Deoa Reg de Portu- 
gal e do Algarve, Senhor de Cepta. A quantos esta 
Carta virem fazemoi saber, que na-t Cortes que hora 



1) Padre Leonardo de Sousa, tom. II folha» 2G6 e Verso. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



fizemos em a Cidade de Évora por parte do Conce- 
lho áa Cidade de Vizeu Nos forão dados alguns cer- 
tos capítulos especiaes, entre os quaes o teor de al- 
guns he este que se adiante segue: Primeiramente 
que nos faziades saber que Elrey meu Senhoi- e Pa- 
dre, cuja alma Deos haja, tinha outorgado uma fei ■ 
ra á ditta Cidade, quite ametade da ciza, por dia de 
S. Jorge; e que Nos outorgamos o privilegio delia 
em começo de nosso regnado ; e que pela Ckancella- 
ria não fora tirada; e que quando fizemos as Cortes 
em Santarém a qnizwales tirar, e vola não qitize- 
rão dar, dizendosse que por Nós era defezo que vos 
não fosse dada, e que Nos pedindes por mercê a hon- 
ra do Martgr S. Jorge, cujo orago está em Villa no- 
va, onde se a ditta feira hade fazer; E por fazermos 
á ditta Cidade mercê em memoria de nosso nasci- 
mento, que na ditta Cidade foi, que vos outorgásse- 
mos o ditto privilegio, que vos ja outorgado tínha- 
mos. E Nós visto vosso pedir achamos que não pe- 
dis bem quanto he ao assentamento da Ciza ; mas 
praznos, que hajaes os privilégios, que tem a feira 
de Trancozo, afora a ciza. [tem Nos enviastes pedir 
por mercê, que mandássemos dar aos nossos Vassal- 
los e Cidadaons dessa Cidade e Termo os orfaons por 
suas soldadas, antes q. a outros nenhuns, porque erão 
minguados de servidores. E Nós, visto vosso pedir, 
mandamos a todolos Juizes, e Justiças, Officiaes, e 
Pessoas, a que desto o conhecimento pertencer por 
qualquer guiza que assim o cumprãa, e guardem, e 
facão cumprir e guardar, segundo aqui nesta nossa 
Carta por Nós he mandado. E ai não façades. Da- 
da em Estremoz a desassete dias do mez de Abril 



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Elrey o mandou por Affonso Giraldes, e Luiz Mar- 
tins mis Vasmllos e do seu U-zembargo. Roílriao 
Anes Escrivão em logoar de FUippe Affonso a fez. 
Anno do nascimento de Xosso Senhor Jesus Chrísto 
de mil quatro centos trinta seis annos.v 

O Padre Leonai-do de Sousa assevera que no 
cai-torio do cabido existe uma provisão passada de 
Almeirim, pela qual 1). Duarte, querendo fazer mer- 
cê aos moradores da sua pátria, concedeu que a 
feira fosse três dias franca, dizendo *E,por atten- 
larmos a ser nat}uella cilade o nosso nascimento, a 
concedemos três dias franca*, i) 

Por D. Affonso V não ter confirmado a conces- 
são da feira á cidade de Vizeu, deixou ella de fa- 
zer-se durante os primeiros annos do seu reinado, 
mas, a instancias de seu tio o infante D. Henrique, 
duque de Vizeu, este monarcha a restabeleceu corn 
os mesmos privilégios e liberdades que tinha a fei- 
ra de Thomar, marcando-lhe a duração de quinze 
dias a principiar em 20 de outubro, dia de Santa 
Iria, e auetorisando o Infante a mandar fazer todas 
as boticas (barracas), havendo os res|>ectivos alu- 
gueres para os applicar á sua «ipella do mosteiro 
de Santa Maria da Victoria (Batalha), por carta de 
13 de janeiro de 1449, de que tainbem temos em 
nosso poder certidão authentica e cujo teor, já por 
nós publicado no numero 1293 do periódico A Li- 
berdade, de que soutos director politico,éo seguinte: 

tDom Ajfonso pela graça de Deos Rey de Por- 

1) Memorias niss., tom. II, 11. 260 e v.°. 



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tugal e do Algarve Senhor de Cepta. A quantos esta 
Carta virem fazemos saber, que o Infante D. Hen- 
rique meu muito presaio e amaio Tkio nos disse co- 
mo em todallas Cidades da Comarca da Beira lia 
feiras em c-tila hum anno, somente na cidade de Vi- 
zeu, pedindo nos por mercê que lhe déssemos lugar 
que elle podasse mandar fazer hua feira na ditta ci- 
dade de Vizett. E Nós,visto seo requerimento, c que- 
rendo-lhe fazer graça e mercê: Temos por bem, eda- 
mos-lhe authoridade, e lugar, que possa mandar fa- 
zer a ditta feira na ditta ci:lade de Vizeu, na cerca 
da Valia delia. 

E querem-is que todollos os que vierem á ditta 
feira hajào todollos os privilégios e liberda^les, que 
farão oulhorgadas por o Senhor Rey DomJoammeu 
Avà, cuja alma Deos haja, á feira de Titomar, se- 
gundo he contheudo na Carta que deito... a qual 
mandamos ao nosso chanceller, que lhe faça dar o 
treslado delia, com o nosso sello pendente signado 
por ello; salvante queremos que onde ha dita feira 
de Thomar he pollo Santhiago, ha dita cidade de 
Vizeu se comesse eoi aula hum anno por dia de San- 
ta Eirea (ília) e dure atee quinze dias seguintes. E 
querendo A'os mais fazer graça c merca ao dito in- 
fante meo Thio, lhe damos authoridade e lugar, que 
elle mande fazer todallas boticas, que d ditta feira 
pertencem; e haja todollos alugueres delias os -inaes 
possa apropriar á sua Capella do Nosso Mosteiro de 
Santa Mana da Victoria. 

E d imos lugar ao ditto Mosteiro, e Vraires dei- 
te, que possão esto haver, e recadar para a ditta ca- 
pella do ditto Infante meu Thio, sei/nndo for con- 



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theado no trauto que sobre esto com elles fizer. E por 
certidom dello lhe mandamos dar esta nossa Carta si- 
gnada por mis; e sellada do nosso sello de chumbo, 
por a qual mandamos a qunesquer nossos offirioes ? 
pessoas a que esto por qualquer guiza pertence que a 
cumpram e guardem, e farão cumpnr, e guardar, 
segundo em ella he contheudo. Dante em a nossa mui 
nobre e mui leal cidade de Lisboa treze dias de ja- 
neiro. El-Rey o mandou, Martim Gil a fez. Anno do 
Senhor de mil e quatrocentos e quarenta e nove.» 
Elíley. 

Devido aos privilégios que lhe foram concedi- 
dos, começou a feira a ter uma concon encia e des- 
envolvimento notáveis, e «era de tanta tàma, diz 
Ribeiro Botelho, que do reino de Granada, sendo 
ainda de Mouros, e de outras remotas partes vi- 
nham a ella». 

Para não voltarmos a fallar da feira de Vizeu, 
antecipamos a exposição das seguintes noticias, pos- 
teriores a esta epocha, que lhe resptsitam. 

Em 1501 pediu a cidade de Vizeu a D. Manoel 
confirmasse a carta que lhe havia dado D. Duarte 
e mudasse para dentro da cidade a feira que ha 
quatro annos se não fazia j»r causa dos actos irre- 
ligiosos e deshonestos, que dentro da Cava se pra- 
ticavam, e das invernias, que tornavam o togar in- 
conveniente. 

D. Manoel não só concedeu a mudança do lo- 
cal, como foi pedido, mas determinou que a feira 
voltasse a fazer-se era dia de S. Jorge, em cuja 
honra e louvor as seus antecessores a haviam 
outhorgado, por carta passada em Lisboa aos 30 de 



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abril de 1501, cujo teor, de que também possuímos 
certidão, é como segue: 

D. Manoel por graça de Deos Rey de Portuqal e 
dos Algarves, daqitem e dalém mar, em Africa Se- 
nhor de Guiné, e da conquista, navegação e com- 
mercio da Ethiopia, Arábia, Pérsia e da Índia. A 
quantos esta nossa Carta virem fazemos saber que 
por parte da Cidade de Viseu nos foi apresentada 
huma Carta de EIRey Dom Duarte meu Avó, cuja 
alma Deos haja, da qual o teor he este que se adian- 
te segue. 

E, depois de transcrever a Carta de D. Duarte, 
que acima deixamos publicada, diz: 

a Pedindo nos a ditta Cidade por mercê, que lhe 
confiwiassemos a ditta Carta; e que quanto he ao 
que toca na feira, que nos protwesse se mudar para 
dentro da ditta Cidade, se fazião nella cousas de pou- 
co serviço de Deos e nosso, e de muita deshonestida- 
de: e mais que, por respeito do Inverno, o lugar onde 
se a ditta feira soya fazer era não conveniente para 
ello, nos pedião por mercê, que nos prouvesse por man- 
dar mudar a ditta feira para dentro, porque por es- 
tes respeitos havia já quatro annos que a ditta feira 
se não fazia. E lhe confirmássemos os privilégios, que 
em ella forão dados. E visto por Nos seu requerimen- 
to, praznos dello; com condição que se faça a ditta 
feira dentro da Cidade, e por dia de S. Jorge, a exi- 
ja honra e louvor se outorgou por os Reys nossos 
antecessores. 

E porem mandamos a todolos nossos Corregedo- 
res, Juizes, e Justiças, Officiaes, e Pessoas, a que es- 
to pertencer, e esta Carta for mostrada, que cumprão, 



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t guardem esta Carta, como em ella ke conteúdo, sem 
lhe irem eontr t ella em maneira alguma, porquanto 
assim é nossa mercê. 

Dada em Lisboa a trinta dias de Abril. Luiz 
Corrêa a fez. Anno da nascimento de Nosso Senhor 
Jesus Christo de mil e quinhentos c hum annos. E 
os privilégios que serão guardados d ditta feira, se- 
rão aquélles, de que ella está em posse; e outros al- 
guns lhe nau serão guardados. EIReij. Dom António. 

Confirmaçlo desta Carta de Vizeit, em que lhe con- 
firmaes os privilégios, que lhe forão outorgados acer- 
ca da feim, que na ditti Cilaie se fazia por dia de 
S. Jorge; com u condição que se fuça dentro, e não 
onde se soja fazer». 

Passados annos, havendo augmentado conside- 
ravelmente a feira, de modo que já mal se accomo- 
dava no interior da cidade, foi transferida para o 
Largo da Ribeira, onde actualmente se faz, e, tal- 
vez por causa das chuvns que já s5o frequentes no 
mez de outubro, foi mudada para a segunda meta- 
de do mez de setembro com a denominação de fei- 
ra de S. Mathens, sendo francos os dias 30, 21 (dia 
do .=anto) .? 22 do mesmo mez. Não podemos de- 
terminar o tempo em que se mdisaram estas trans- 
ferencia é mudança; é, todavia, certo que ainda hoje 
se faz neste local e nesta epocha. 

Sabemos também, posto que ignoremos quan- 
do, que a camará municipal de Vizeu entrou de 
posse do.'i rendimentos das barracas, na qual hoje 
se conserva, conjecturando o sr. Vilhena Barbosa 



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183 

que pela extincção do ducado haviam passado pa- 
ra a corfia e que D. Manuel, attendendo á falta de 
recursos da mesma camâra, lhe fizera d'elles mer- 
cê 1). 

Os logares da feira eram designados e distribuí- 
dos pelos ofliciaes da camará com o Juiz de Fora, 
sen presidente, e, posto que no tempo de D. Ma- 
ria I fosse esta a antiga posse e costume, o Juiz de 
Fora, que então era Francisco António da Silva, 
no capitulo de correição por elle feito, servindo 
de Corregedor, os excluiu das sobreditas designação 
e distribuição, que privativamente se arrogou, pelo 
que elles pediram á Rainha o restabelecimento do 
antigo uso e costume, e esta o determinou pela pro- 
visão de 49 de junho de -1797, de que possuímos 
certidão ntithentica, concebida nos termos seguin- 
tes: 

tDona-Miri < par Graça de Deos Rainha de Por- 
luqal, e (ios AUjarves, d , Aquem e d' Alem Mar, em 
Africa Senhora de Guiné, ete. Faço saber que os 
Officiaes da Camará da Cidade de Vizeu Me repre- 
sentarão. Que estando na a<ititja posse, e costume de 
iterem elles com o Juiz de Fora Prezidente da mes- 
ma, os que arranjavãa, e distribuído os Lugares da 
Feira, que se fazia peia São Matkcus da cada num 
nnno na dita ''.idade, Unhão denta pouse sido despo- 
jado* p>-la Juiz de For% que então servia, Francisco 
António dn Silva na Capitulo de Ca rreição que jun- 
tarão por elle feito servindo de Corregedor, pelo 

1) As Cidades e ViUas de Portugal, que tem brazões d'ar- 
ma», ete- Tom. II, paff. 199. 



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qual forão excluídos do sobredito arranjamento, e 
destrebuição, antes ficando cila só privativa d» Juiz 
de Fora pelo dito Capitulo, e pela praclica que a 
ellfí se linha seguido; Pedindo-me por isso os tornas- 
se a restituir áquetle seu anterior costume, e posse. 
E visto o mais que alienarão, informação que se 
houve do Provedor da Camará da dita Cidwle, com 
audiência do Juiz de Fora Suplicdo, e do Procu- 
rador de Minha Coroa, e não se devendo entender 
humaexcluzivados Vereadores pela Lembrada Pro- 
vizão do Senhor lley Dom Pedro Segundo do pri- 
meiro de Setembro de mil sete centos e hum, e que 
sendo aqnelle deliniamento e destrebuição de Lu- 
gare» negocio meramente económico. Heu por bem, 
que os Suplicantes sejão restituídos ao seu anterior 
costume da económica destrebuição dos Lugares da 
mencionada Feira, com o mais que já se acha De- 
clarado, e de que arbitrariamente os privou o Juiz 
de Fora, ao qual só ficará pertencendo toda a Po- 
licia, Segurança, e Execução na mesma Feira. E 
Mando a todas as Justiças a que o Conhecimento 
desta Minha Provizão pertencer, que a Cumprão, e 
a facão inteiramente Cumprir, e guardar como nel- 
la se conthem, que se trasladará nos Livros da dita 
Camará, e valerá posto que sen e/feito haja de du- 
rar mais de hum anno, sem embargo da Ordena- 
ção da L." 2. a § 40 em contrario. E pagarão de 
novos direitos quinhentos e quarenta reis, que fo 
rão carregados ao Thezoureiro deites a fl* 286 do 
L.° 10 de sua receita, e se registou o Conhecimento 
em forma no L." 57 do Registo Geral a /!,* 62 v.". 
A Rainha Nossa Senhora o mandou pelos Minis- 



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tros abaixo assinados do Seu Conselho e Seus De~ 
zembargadorcs do Poço. Joaquim José Pinto a [es 
em Lisboa a dezenove de Junho de mil sele centos 
e noventa e sete annos. De feitio desta oito centos 
reis, e de assinaturas o mesmo. Joio Pedro Frede- 
rico Ludovici a fez escrevei: António Henriques da 
Silveira. João Xavier Telles de Sousa. José Alberto 
Leitão. Pagou quinhentos e quarenta reis, e aos offi- 
ciaes novecentos e vinte oito reis. Lisboa 20 de ju- 
nho de 1797. Jerónimo José Correia de Moura. Por 
despacho do desembargo do Paço de primeiro de ju- 
nho de 1797. Registada na Chancellaria Mor da 
Corte e Reino no L.« de Officios e md."* a #.» 207. 
ÍÀsboa 22 de junho de 1797. José Raymundo An- 
tónio de São.... Cumpra-se e observe-se, como nella se 
contem. Vise» 31 de julho de 1799. (assignatura 
ineligivel). Cump-ace. Vizeu 31 de julho de 1799. 
Mesquita. Registada a fl* 94 do L.° 6.". Leitão». 

Ha tiinta annos a feira franca tinha uma con- 
corrência e importância extraordinária, havendo 
numerosas transacções, principalmente em gado 
cavallar, muar e bovino, couros, ferro, pannos e 
fruetas seccas. Depois d'isso e actualmente, posto 
que tenha continuado a ser a melhor do paiz, a con- 
corrência e as transacções tem diminuído conside- 
ravelmente, o que deve attribuir-se á facilidade 
das communicações. 



Quando D. João I começou a reinar era bispo de 
Vizeu D. João Martins, a quem Costa, na Corogra- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



phia Portuyueza, erradamente chama Jerónimo 
Martins, e que de chantre desta Sé e abbade de 
CastellOes foi elevado aquella dignidade, como dis- 
semos, ainda no reinado de D. Fernando. 

Estando D. João I na viila de Chaves em 30 de 
marra de 1380, concedeu-Ihe e ao seu cabido a 
confirmação de todos os foros, privilégios e liber- 
dades, outhorgadas pelos reis seus antecessores, 
como consta de uma escriptura do archivo do ca- 
bido, escripta em pergaminho, pelo escrivão João 
Esteves, e assignada pelo ministro do rei João Es- 
teves de Azambuja, bacharel em degredos (assim 
se intitulavam os do eivei da corte), e João Affon- 
so, prior de Santa Maria de Alcáçova, de Santarém, 
e depois bispo de Silves, do Porto, de Coimbra, ar- 
cebispo de Lisboa (o segundo) e Cardeal. 

Se, como opina Jorge Cardoso e o confirma a 
inscripção da torre da Sé, que fica ao lado do sul 
da porta principal, interpretada por Oliveira Be- 
rardo, D. João Martins foi o immedÍa.to snecessor 
de D. Miguel Vivas, oceupou a dignidade de bispo 
de Vizeu 23 ou 20 annos, desde 1360 a 1385 ou 
1386. 

Ribeiro Botelho 1), affirma viver elle ainda em 
1388, attribitindo-lhe uma sentença desse anno, de 
que adeante fallaremos, pela qual foram mandadas 
retirar da Sé as cubas e as arcas, onde se l.mça- 
vam os dízimos. 

Mas isto é inteiramente inexacto, porque em 
1385 ou 1380 já era bispo de Vizeu D. Pedro Lou- 



1] Diálogos, pag. 466 e 467. 



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renço, que, por uma bulia do papa Urbano 6.° de 
qualquer d'estes dois annos, da qual se conserva 
copia authentica no archivo do cabido, em vista das 
suas iniquidades (suis culpit et demeritibus exigm~ 
tibus} é privado do bispndo e substituído por D. 
João Pires, de cujo episcopado nada sabemos. 

Em 27 de fevereiro de 1392 já occupava a Sé 
de Vizeu D. João Homem, por quem D. João 1 te- 
ve tão particular estima que o elegeu para padri- 
nho de seu filho o infante D. Henrique, duque de 
Vizeu. 

Bom, caritativo e de tracto familiar para com 
toda a gente, os seus diocssano? idolatravam-no. 

Era da nobre e antiga família dos Homens. Seu 
irmão Pêro Anes, por alcunha o Lageosa, com sua 
mulher D. Maria Anes, a Escassa, foram padroei- 
ros da egreja da Lageosa, e instituíram um morga- 
do que deixaram a seu filho Pêro Nunes Homem. 
Sua irmã D. Tareja Anes foi casada com Gil Mar- 
tins de Lemos, e d'este matrimonio houve um fi- 
lho Gomes Martins de Lemos, de quem procederam 
os Senhores da Trofa. 

No sobredito dia fez-lhe D. João I doação de 
uma torre, junto á Sé, em que elle fez collocar 
dois sinos grandes que mandou fundir : — um de- 
nominado de Nossa Senhora, no qual se viam 
em relevo as armas dos Homens: 6 luas azues, em 
três linhas paralellas, em campo de ouro, com as 
pontas para cima, e com um letreiro que dizia: Don. 5 
Jokanes Eps fecil fieri Era Coesar 1431 1), e ou- 

1) Ribeiro Botelho, Dialogo-!, png. 470 e 471. 

Pariro Leonardo do Sousa, ISemoriaa mss,, tom. II. pag. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



tro, com que se convocava o cabido, e tinha na 
circu mferencia o letreiro Johãs epis Vimensis me 
fizo era Cezar 1A32—Í). 

Não existem já estes sinos. 

Provavelmente foram mudados para a torre que 
(içava ao norte da porta principal da Sé e que de- 
sabou com o frontespjcio e uma parte da abobada 
em 16 de fevereiro de 1635, despedacando-se os 
sinos que nella estavam. 

O bispo I). João Homem mandou reparar o 
frontespicio da Sé, que, por muito antigo, ameaça- 
va ruina 2). 

No seu tempo já a mitra possuía em Fontello 
algumas terras, a que elle ajuntou outras, que com- 
prou 3), mas ainda ali não havia o paço. Também 
possuía em Santa Eugenia uma casa de campo, que 
já não existe, em cujos raunra, com plausibilidade 
pode conjecturar-se, estariam as pedras apparel ha- 



ll A palavra fixo, o feitio e o som deste sino levaram a 
padre Leonardo de Sousa, no logar citado, a conjecturar que 
o artista, seu iiuctor, fora Biscainho. 

2) Ignoramos so D. Diogo Orliz do Vilhegas, que mandou 
construirá abobada actual, conservou este frontespicio anti- 
go, como fez ii« torres, das quaes ainda existe a que fica ao 
lado nortada porta principal, que, exceptuando a cúpula ou 
zimbório, é do século 13.*; ou se o demoliu, construindo u 
que em bou logar desabou em. 1635. 

O actual foi construído neste anno e nos seguintes, execu- 
tando-se a planta ou traça do ar (hitecto de Salamanca João 
Moreno, que expressamente para essa fim veio a s«t» cidade 
a convite do cabido sede vacante. Em logar próprio volvere- 
mos a fatiar neste assumpto. 

3) Padre Leonardo de Sousa, jlfem, mçe., tom. II, pag. 100. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



das que hoje se vêem na parede próxima á capei- 
la, profanada, e junto á casa uma quinta, que ain- 
da hoje pertence á mitra e é foreira ao cabido. 

Também os bispos tinham nas proximidades da 
Sé uma pequena casa, de aspecto pobre 1), que tal- 
vez fosse a que ainda existe voltada para o largo 
que fica em frente da fachada norte do Colle^io, 
pois ó de uma architectura anterior a D. Manoel. 

Sob o episcopado de D. João Homem, em 1407, 
Fr. Pedro de Alemancos, galego, frade da Ordem 
dn Observância, sem a precisa auctoriãade apostóli- 
ca, deu principio ao Convento de S. Francisco d'0r- 
gens em uma ermida da invocação de S. Domingos, 
que o cabido, cuja era, lhe doou para esse fim 2). 

Em consequência d'essa falta levantaram-se va- 
rias duvidas e contendas, até que D. Amaro, bispo 
de Cepta e capellão mor do infante D. Henrique, 
por uma bulia apostólica, passada em 1426, houve 
o convento por bem fundado e approvado e absol- 
veu os freires que ali estavam havia já 18 annos. 

Para ensinar os meninos que serviam no coro, 
D. João Homem creou na Sé a dignidade de Mestre 
Scola, nomeando para a occupar, em 1408, o ba- 
charel Bartholomeu Fernandes, cónego e vigário 
geral, que nella foi confirmado por bulia do papa 
Bonifácio IX 3). 



1) Padre Leonardo de Sousa, logar cit. Ribeiro Bot. elho 
Diálogos, pag. 470 e 471. 

2) Padre Leonardo lie Sousa, Mem. mas., tom. II, pag. 167. 
8) Esta bulia conserva se no arctatvo do cabido. Padre 

Leonardo de Sousa, Mem. mas-, tom. II, p-.ig. 157. 



>,Sitizeot>vGoOgIe 



Este prelado enviou ao concílio de Constança, 
(1414 a 1418), como seu procurador, que também 
o foi de Gil Alma, bispo de Coimbra, a Gil Peres, 
cónego da Sé d'esta uííima cidade 1); na era de 
1458 (anno de 1420) oilou na eg.eja de Cerdeira, 
termo da viila de Castello Mendo, o seu vigário 
Lopo Vas ou Lopo Vasques, que nella havia sido 
apresentado pelo abbade de Santa Maria de Aguiar 
da Ordem de S. Bernardo; na em de 1430 (anno 
1422, ultimo em que se contou pela era de Cezar), 
estando em Villa Nova, próximo de Treixedo, collou 
por abbade, Pedro Fernandes na egreja de Arda 
vaz (lioje Dardavaz), vaga por obíti de Álvaro Gon 
çalves; e no anno de 1425 apreseatou a Pedro Af- 
fonso, por capellSo, nas Capellas Semanárias da Só. 
que elle instituiu e que dotaram c-ira consideráveis 
rendas Beatriz Affonso, dona de Canellas, teimo 
de Vizeu, e seu marido João Pires 2). 

Tendo governado o bispado por íli annos, D. 
João Homem falleceu em 1423, e o cabido, duran- 
te muito tempo, mandou celebrar uma missa por 
sua alma todos os sabbados em rei; inheci mento de 
lhe haver legado avultados bens. 

Deixou também muitas terras a seus parentes, 



1) Pereira, Concilias gemes, pag. 4(1. Fr. Pedro CVabbe< 
Lttru A da collecção dos Conciliou, tom. II, fl.* 035. Memoriai 
da Acad. fl. da Ui*t., toin. IV, n XVIII, pag. 142. 

2) Tudo i»to conuU úa livro das coll.içôes. Ribeira Bute- 
llio, Dialagos, pug. 470 o seguintes. Piniro Leonardo do Sou- 
sa, Mem. mss., tom. II. p;ig. 167 e loS.O.iveira lio ra ido, Mem. 
ms$. P&dre Joio Col., Catalogo nas Mem. da Acad. R. da Hist., 
toro. II. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



e a seu sobrinho Pedro Nunes Homem alguns prd* 
dios sitos da terra de Cannas de Senhorim, para 
nelles fazer um prazo. 

O infante D. Henrique, tendo em atten^ão os 
serviços que este bispo, seu padrinho, Ihu havia 
prestado, enviou ao cabido, sede vacante, uii"i car- 
ta, escripta por João de Sousa e datada de finta- 
ram aos 24 de novembro de 1430, em que lhe pe- 
dia emprazasse ao sobredito seu sobrinho Pedra 
Nunes Homem os bens que tinha naquella terra. 

Esta carta, que já publicámos no n.° 1293 da 
Liberdade, dizia: 

fNós o infante vos enviamos muito saudai 1 . Fa- 
zemos vos saber que a nos he dito que essa egreja 
tem alem essa comarca numa terra chamada Can- 
nas de Senhorim a qual he nam muito alongada 
donde Pedro Ntinez Homem escudeiro da nossa 
casa tem seus bens, e esso que lhe ficou de seu 
Padre, em que a Deos aprazendo intende fazer seo 
assentamento e porque a dita terra lhe bem á mão 
e lhe seria mui compridoura para ajuda de vansa- 
mento da sua vida, e por ello ser homem de que 
nos temos muito grande e especial cargo por 
bondade que em elle ha e por serviço que nos ha 
feito e esperamos d'elle receber e assim pelo de 
seu tio o bispo que foi dessa cidade, que foi nosso 
Padrinho, que volo deu, nos havemos desejo de o 
augmentar e de lhe fazer mercês em quaesquer 
cousas que bem possamos e entendemos que de 
todo o bem e accrescentamentoó assas merecedor, 
porem nosso desejo seria api-azendo a Deos e a vós, 
elle haver a dita terra por emprazamento que lhe. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



103 

delia fosse feito, em preço rasoado, e de que a 
Egreja houvesse prol e o escudeiro por seu traba- 
lho ajuda para sua vida, e vos rogamos e encom- 
mendamos quanto bem pademos que voa praza 
continuar bem esso, e os mais bens e cousas que 
seu tio fez em esse bispado, e algumas heranças e 
herdades, que a nos é dito que alguns de seu tina- 
gem dotarão e deixarão a essa Egr.ya . . E sede 
certos que a bem de fazerdes em ello vossas bon- 
dades, e ganhardes por ello o escudeiro, fazeis a 
nos muito grande prazer, e cousa qui vos teremos 
em serviço, e hajamos logo nosso bom recado, do 
que em ello vos prazer de fazer. Escripta em San- 
tarém a 21 de novembro. João de Siusa a fez rail 
quatrocentos e trinta. Infante». 

Não concordamos com a opinião dos que affir- 
mam que a D. João Homem succedera Fr. João 
de Évora, da Ordem da Santíssima Trindade, de 
quem se não encontram memorias e:n documentos 
ou monumentos, nem faliam aucto:-es auctorisa- 
dos; e temos como incontestável que, no mesmo 
anuo em que falleceu D. João llonmm, transferiu 
D. João I de Lamego para Vizeu o bispo D. Garcia, 
que em 1426 assiste em Braga com o;itros prelados 
suffraganeos á Junta que o metropolita D. Fernan- 
do da Guerra convocou em cumprimento de ordem 
e commissão do papa Martinho V, com o íim de 
promover os interesses do estado occlesiastico e 
designadamente de representai' contra a decisão 
tomada pelo Conselho de Estado sobre proposta do 
Condestable Nun'alvares, que os obrigava a con- 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



correr com homens e armas para a defesa e segu- 
rança do reino. , 

Era de 3200 o numero total de homens e lan- 
ças que deviam estar sempre promptos e em or- 
dem. Sobre o bispo de Vizeu impendia a obrigação 
de ter 20, e para isso foram-lhe enviados 20 orne- 
ze$, a que também chamavam couros, peitos de aço, 
gibões e ilhós, dos 4500 que foram distribuídos pe- 
lo rei, capitães, ordenanças, ordens militares, ar- 
cebispo de Lisboa, bispos, priores e abbade dè Al- 
cobaça. 

D. Garcia em 142S ou 1427, a instancias do in- 
fante D. Henrique, apresenta na egreja de Santa 
Maria do Sátam a Apparicio Vasques; por carta 
passada em Fontello em 29 de outubro de 1428, 
confirma na egreja de Ardavaz ao abbade Fernão 
Affonso; e faz muitas outras coltaçòes 1) em 1430, 
anno em que falleceu, segundo se infere da carta, 
do infante D. Henrique ao cabido, acima transcri- 
pta. 

E' tradiçio constante que fora D. (rareia quem 
mandara construir a capella de Santa Martha no 
paço de Fontello 2). 

No anno de 1431 já era bispo de Vizeu D. Luiz 
do Amaral, natural d'esta cidade, filho de Pêro da 
Costa e de Maria Vaz do Amarai, irmã de Beatriz 



1) Livro das collaçôea. 

li) Oliveira Berardo, Mem. m»s. Ribsiio Botelho. Dialoijox, 
p.ig. 473. 493 e 494. Fniire Leonardo de Sousa, Memoriou nm.< 
tom. II fl. 177 e 18t. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Jui 

Anes do Amaral, que viveu no Couto ilo rio n" As- 
nos a duas léguas de distancia d'esta cidade e foi 
Casada com Vasco Paes Cardoso, alcaide mor de 
Moreira e Senhor do Ervilhào. 

Consta do livro das apresentações existente no 
cartório do cabido que residira nadfocase até 1433, 
em que apresenta, quando se achava em Vai Bom, 
arcyprestado de Pinhel, na egreja de S. Pedro d'es- 
sa vilia (hoje cidade) por capellão ao seu fami- 
liar Lourenço João, sendo a respectiva carta data- 
da de 3 de março e esciipta por João Fernandes, 
Notário. 

Neste mesmo anno é enviado por D. João I, 
como seu embaixador, ao concilio de Basilêa (Ba- 
le), que havia começado em 1431 e durou até 1448. 

Fez caminho por Bolonha, onde se achava o 
Pontífice, e ahi se deteve até á chegada dos ou- 
tros enviados poituguezea, o conde de Ourem e o 
bispo do Porto I). Antão Martins de Chaves, com 
os quaes em 1434 partiu para Basilea. 

Quando ahi chegaram, já se tinham levantado 
as desavenças entre os padres do concilio, haven- 
do-se pronunciado uns a favor e outros contra o 
papa Eugénio IV. 

Dos dois bispos portugueses cada um seguiu seu 
partido. 

Reconhecendo a grande conveniência de trazer 
a si o imperador de Constantinopolo João Paleologo, 
que havia suecedido a Manoel, seu pae, ambos os 
partidos lhe enviaram embaixadores, que por parte 
do papa foram as bispos de Corona, Dine e Porto, 
e pelo partido adverso os bispos de I ^tisana e Vizeu. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



-Í95 

Correndo o mez de outubro, uns e outros che- 
garam a Constantinopola, quasi ao mesmo tempo. 

Ouvidas ambas as embaixadas, o imperador dé- 
clarou-se peio papa, e, embarcando nas próprias 
galés que este lhe enviara, dirigiu-se a Itália, apor- 
tando a Veneza e passando d'uhi a Ferrara, onde 
foi recebido, como em triumpho, a 4 de abril de 
1438—1). 

Esperava elle que a reconciliação com o bispo 
de Roma levaria os latinos a tomarem a defeza 
contra os Turcos, que haviam reduzido o seu im- 
pério á ultima extremidade, mas baldada foi essa 
esperança 2). 

Âpezar de se ter desgostado com o mau succes- 
so da commissão, ainda o bispo de Vizeu, a instan- 
cias' dos do seu partido, foi enviado ao imperador 
da Alemanha Aíbarto II, a pedfr-lhe a sua interven- 
ção^ mas, porque este se achava a braços com vá- 
rios negócios de estado, recusou presta-la 3). 

Regressando a Basilêa, o bispo de Vizeu jiintou- 
se aos padres do concilio, que votaram a deposição 
do papa Eugénio IV e elegeram em seu togar Ama- 
deu VIII, duque de Sabóia, que tomou o nome de 
Félix V (1439). 

Ou antes ou depois d' este facto, D. Luiz do Ama- 
ral, por proposta e a contento de el-rei D. Duarte, 



1) Pereira, Concílios gera** pig. 6ÍÍ e 54. 

2) Moaheim, tíist. Eccl. vol. V. 
8) Manoel Severím, Discirno 9.°. 



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é deposto do bispado de Vizeu. sendo nomeado em 
seu logar D. Luiz Coutinho 1). 

antipapa Félix V creou em vários consistó- 
rios cardeaes a diversos bispos e arcebispos de to- 
das as nações, os quaes tinham seguido o concilio 
de Basilea, entrando neste numero D. Luiz do Ama- 
ral, que só recebeu a purpura no 4.» consistório em 
1443 ou 1444. 

Nas cortes celebradas em Santarém nos fins de 
1434, os procuradores da villade Barcellos queixa- 
ram-se do considerável darnno que os povos d'aquel- 
le concelho sofTriam com a coutada do rio Ave, 
a qual D. Duarte havia concedido ao bispo de Vi- 
zeu D. Luiz do Amaral, e este monarcha, querendo 
castigar o prelado, por deixar de seguir, contra as 
suas determinações, o partido do papa, revogou o 
privilegio em 30 de agosto de 1435. 

Para terminar o senis, na, Félix V renunciou o 
pontificado em 7 de abril de 1 HO. submettendo-se 



1) Variam as opiniões acerca do anno om qao se elfectuou 
a deposição de D. Luiz do Amaral. Ruy de Pina, Ckronica de 
D. Duarte, assigna o anno do 14:55; o padre Leonardo de Sanou ^ 
Memorias mas., ude 1-130; o padre JoA) Col o de 1438; e ou- 
tros o de 1441. Mas é ueito que numa bulia de 1437, publica 
da uor Odorico Reinaldo, tom. XII, II. 174 n. 14, o papa Euge 
■lio IV lhe dá ainda o titulo de bispo de Vizeu e o chama aeu 
venerável irmão; que de duas caria* dirigidas por aquelle pon- 
tífice «o nosso rei D. AfTonso V e trasladadas pelo mesmo Odo 
rico, tom. XII, fl. 234 e 23íi, consta que em 1440 já estava de- 
posto; e que em 1387 jâ o seu succossnr D. Luiz Coutin lio 
apresentou um vigário na egreja de Alcafache. Nau pode, pois, 
duvidar-se do que a deposição se fez em 1437. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



ao successor de Eugénio IV, Nicolau V, que o no- 
meou cardeal, bispo de (renova, legado perpetuo 
na Alta Itália, em cujo retiro viveu ainda dois an- 
nos; e nesta data ainda existia I). Luiz do Amarai; 
mas é de crer que fosse já morto em 7 de dezem- 
bro do mesmo anno, em que o pontífice creou ver- 
dadeiros cardeaes os que haviam sido nomeados 
por Félix V, visto como ceste numero nâo foi in- 
cluído D. Luiz do Amaral e é presumir que o tos- 
se, se ainda vivera 0. 

Entre todos os portuguezes, que foram envia- 
dos aos concílios geraes, não pode duvidar-se que 
a primazia ê devida a D. Luiz do Amaral, de quem 
Oliveira Berardo 2) diz: iVeio a fallecer longe da 
pátria, prossripto, c ignoto dos wtw amigos, talvez 
na indigência: po;to que digno de melhor sorte pelas 
suas virtudes e distinctas prendas». 

O seu successor foi, como já dissemos, li. Luiz 
Coutinho, filho de Gonçalo Vasques Coutinho, al- 
caidit mor de Trancoso e Lamego e manchai do 
reino (cargo immediato ao de condestable), e de sua 
segunda mulher D. Joanna d'Albuquerque, (ilha 
natural de Fernando d' Albuquerque, Mestre da Or- 
dem de S. Theago 3). 

1) António Pereira de Figueiredo, ConeUian atroe», png 
63, ")4 li 55. Oliveira Berardo, Memorias mss., onde declam 
ter ne desviado de Cul na biogrnphin. d'este prelado. 

2) Liberal. n.° ft 

3) Ribeiro Butelbu, Diálogos, png. 600 a 602. Padre Gol, 
Catalogo dos bispos de Vízeu, nas Mtm. da Acatl. li. da ífirt.i 
tom. 11. 



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198 

Sagrado pelo próprio papa, depois da deposição 
de D. Luiz do Amaral, a quem havia acompanhado 
a Itália e aconselhado a que não seguisse o scbls- 
ma, partiu immediatamente para o reino a tomar 
conta do bispado, onde já estava no anno de 1437, 
em que apresentou na egreja de Alcafache a F. 
Gil. Faz outras apresentações de paroehos até 1442, 
em que apresenta naquella egreja, vaga por óbito 
de F. Gil, a Gil AíTonso, seu vigário geral, e nade 
Cavernães a Gregório Gonçalves. 

Como, porem, tivesse sido nomeado sem o ré- 
gio consentimento, os ministros de el-rei D. Atfon- 
so V privaram-no por alguns annos da posse do 
bispado, considerando a sé vaga 1). 

O papa Eugénio IV, logo que soube d'este fa- 
cto, escrevei ao rei, dizendo-lhe: que como absolu- 
to senhor dos bispados podia Ura4os a quem os pos- 
suísse, não os merecendo, e mudar para elles quem 
lhes aprouvesse, conforme o direito que a isso tinlutm 
a Sé Apost tlica e os suecessores de S. Pairo, a quem 
tocava por e dispo); sem que fosse preciso consenti- 
mento régio 1). 

D. Affonso V obedeceu, mas depois instou pela 
apresentação dos bispos pela coroa, o que se con- 
seguiu por Breve de Bonifácio VIII de 1489 e tem 
sido observado ato ao presente. 



1) Livro da& apresentações. Padre J.eonard-i de Sema* 
Mcm. mss., tom. II. pag. 197 a 206. Ribeiro Botelho Diálogos, 
pag. SOO a 502. Oliveira Berardo, Mem. nus. Padre Col, pag. 
cit 

2) Consta de uma Bulia, t.ranscnpta por D. Miguel da En- 
carnação tia Vitíserí. Btat. e Ltftiiury. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Em 1444 D. Luiz Coutinho é transferido do bis- 
pado de Vizeit para o de Coimbra, e pouco tempo 
depois e mandado por D. AiFonso V ao império da 
Alemanha a acompanhar, como capéilâo, a infanta 
portugueza D. Leonor, desposada com o imperador 
Krederico III. 

Para ihe recompensar os serviços, ainda o mes- 
mo monarcha o apresentou arcebispo de Lisboa 
por morte de l>. Pedro de Noronha, governando a 
archidiocese desde 1452 até 1453 em que falleceu. 
Também foi cardeal segundo se vè das listas ro- 
manas d'aquelle tempo 1). 

Caem em erro os escriptores que lhe attribuem 
a reforma das Regras e Estatutos da Ordem de 
Chrhsto, em execução de uma Bulia do papa Eugé- 
nio IV, passada n instancias do infante D. Henri- 
que, Grao-Mestre da mesma Ordem, porque esta 
reforma foi feita |K>r L). João Vicente, seu sucees- 
sor 3). 

No atino de 14V5 foi transferido do bispado de 
Lamego para o de Vizeu J). João Vicente, filho de 
Estevão Rodrigues Maceyra e de I). Mecia Ponces, 
a qual descendia do duque de Banhas (Castellai e 
era parenta mui chegada de I). Álvaro de Castro, 
conde de Arrayolos e primeiro Comlestable de Por- 
tugal, em cuja casa ss creou desde menina. 

Nasceu em Lisboa a 3 de março de 1.380 e re- 



li Padre Leonardo de Sonsa, Mem. iiujs, log, cit. 
3) Oliveira, Tratado da Nobreza. Oliveira Beiardo. Mem. 
iíiw., e Liberal, n.° 8. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



200 

cebeu o baptismo na egreja de S. Julião, uma das 
mais antigas da capital. 

Estudou medicina na Universidade de Lisboa, 
onde depois foi lente; e tal foi a fama e reputação 
que adquiriu, que passou por ser o medico mais 
distincto do seu tempo. 

D. Duarte, sendo ainda infante, mas governan- 
do já o reino como regente nos últimos annos da 
vida de seu pae, nomeou-o seu medico da camará, 
e logo Físico Mor do Reino, cargo, de grande con- 
sideração naquelle tempo, que elle pouco depois 
renunciou. 

D. João Vicente fundou em Portugal, sob a re- 
gra de S. Jorge em Alga de Veneza, quatro Casas 
da Congregacfio de S. João Evangelista, vulgo Con- 
gregação dos I>oyos: a de Villar de Krades, a de 
S. Jorge de Kecião, a de Santo Kloy de Lisboa ea 
de S. João de Xabregas; e nessa occasiào não só 
instituiu os pobres seus únicos herdeiros, dando- 
Ihes logo posse de todos os seus bens, mas renun- 
ciou o appellido de família para se chamar João 
Vicente, ou em homenagem a S. Vicente, padroei- 
ro de Lisboa, sua pátria, ou ao emparedado i) d'es- 



l) Emparedado, Emparedenado ou Empardeado. 

Desde o século XII a» século XV acham se em Portugal 
muitas emparedada» e alguns emparedados. Eram pessoas que 
desenganadas do mundo se sepultavam em vida numa eetrei 
ta cella, cuja porta se fechava com pedra e cal. ficando apo 
nas uma fresta por onde se lhes ministravam os alimentos, 
que poucas vezes pastavam de pfto e agua. e sõ Be abria por 
morte d'ellae. 

Po íivro Velho <íos Óbito» dr. Visvit, a do jiineiro, consta 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



te nome, homem virtuoso, que então vivia na capi- 
tal junto do convento de Nossa Senhora da Graça. 

Em 1446 apresentou e collou um parocho em 
Dardavaz; em 1454, estando em Valladolid, por ha- 
ver desharmonia entre os padroeiros, foi apresen- 
tado em seu nome por parocho, na egreja de Santa 
Maria de Silgueiros, Fernandeanes, natural de Óvoa; 
e em 1459 apresentou na egreja de Vousella a João 
Lourenço. Fez outras apresentações desde 1446 a 
1440 e desde 1457 a 1450. 

Em 1460 o vigário geral do bispo de Coimbra, 
por commissão sua e com consentimento da aba- 
dessa e religiosas do mosteiro de Lorvão, collou 
na egreja de Treixedo a um clérigo que havia per- 
mutado com outro 1). 

Nos fins do anno de 1446 ou nos principios do 
seguinte, D. João Vicente acompanhou a Castella a 
infanta portugueza D. Isabel, que havia casado com 
o rei castelhano D. João II; e, depois de ali ter 
permanecido dois annos, o papa Eugénio IV, com- 
prazendo com as instancias do infante D. Henrique, 
Mestre e Administrador da Ordem e Cavallaria de 
Christo, lhe determinou viesse para Portugal a fim 
de a reformar. 

que no anno de 1313 faDeceu nosta cidade Margarida Louren- 
ço que deixou ao cabido seis anldoe, impostos na aua caaa da 
Ribeira, que de unia parte confrontava con a Enpardeada. K 
mui provavelmente foi eata a contemplada em um testamon- 
to de Masaelradao de 1307, no qual so achava esta Verba: 
Mande aos Confrarias de Vieeo citiqui soldos, e aa Enparede- 
fiada.— (Viterbo, Elucidário, verbo— Emparedada). 

1) Ardi. de Lorvão, Oav. 7, masso 8, n. 6. Memorias da 
4«fci- ti- da Hixt., tom, IV, li. XVIII, pag. 149, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Regressou ao reino, depois de a rainha lhe 
haver concedido licença, com a condição de voltar 
para Castella finda que fosse a sua missão, e em 
1440 não só reformou a Ordem de Christo, dando- 
lhe nova regra em substituirão da antiga, que era 
a de Calatrava, de cuja jurisdicção, bem como da 
dos abbades de Alcobaça, a eximiu, mas também 
confirmou, com auctorídade apostólica, a mudan- 
ça, que os Mestres da mesma ordem haviam feito, 
da sua sede de Castro Marim para Thomar, e atem 
d'isso concedeu-lhe todos os privilégios que outr*ora 
havia gosado a Ordem do Templo, o que tudo mais 
tarde, a pedido de el-rei D. Manoel, foi confirma- 
do pelo papa Júlio II. 

Cumprida a missão e voltando para Castella, 
aconselhou a rainha 1). Isalwl que persuadisse 
D. João II a despojar de todas as honras o seu 
privado, causa de todos os males que aquelle reino 
soiTria, D. Álvaro de Lima, Condestavel de Castel- 
la, Mestre da Ordem de S. Theago, Duque de Es- 
calona, Marquez de Vilhena, três vezes LlmruU, 
cinco vezes Conde, Senhor de sessenta villas e for- 
talezas e de vinte mil vassallos, não comprehendi- 
das as villas e vassallos do Mestrado, o que tudo 
lhe produzia unta renda annual de cem mil dobras. 

D. Álvaro e preso, despojado de todas as rique- 
zas e dignidades e dejíolado em publico cadiiful.so. 

Teve a rainha D. Isabel unta filha também de 
nome Isabel, que herdou o throno de Castelia e 
casou com D. Fernando rei de Aragão (sendo eíla 
e seu marido cognominados os Reis Catholicos). 

l>e Isabel a Catholi&t foi padrinho o nosso rei 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



anâ 

D. Aflbnso V, sendo representado tio acto do ba- 
ptismo pelo bispo D. Joio Vicente, a quem consti- 
tuiu procurador. 

Este monarcha convocou cortes em Lisboa em 
marco de 1455, e os três estados do reino escre- 
veram ao bispo D. João Vicente pedindo-lhe viesse 
assistir a cilas para, com a sua auctoridade, zelo, 
prudência e conselho, dar remédio a alguns males 
e damnos, a que el-rei não attendla, como lhe 
cumpria. 

Nào poude acceder a este pedido, porque a rai- 
nha lhe recusou o consentimento; fez-se, sim, re- 
presentar ali por seu procurador Vasco Martins 
llebelto; sendo inexacta a afflrmação de que esti- 
vera presente, feita por Cunha no Catalogo dos bis- 
pos do Porto, 

De Castella escreveu D. JoSo Vicente para Vi- 
seu, ordenando que nos claustros da Sé se fizesse 
uma capelia e dentro d'ella um jazigo para os seus 
restos mortaes. 

Esta ordem toi iiu mediatamente cumprida, e a 
capella, de que voltaremos a occupar-nos quando 
tractarmos da Sé, teve a denominação de Capella 
dè Jesm. 

Depois do fallecjmento da rainha D. Isabel em 
14-Vi, regressou a Vizeu o bispo I). João Vicente, 
na jA avnnrtfida idade dnHO turnos, indn espeta-lo 
a duas léguas de distancia o cabido, o senado e 
innumeros populares. 

Geral foi o contentamento e a alegria em toda 
a cidade, que d*este modo lhe retribuía os actos de 
evangélica caridade e mizeiicordía que eile praoti- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



cava, distribuindo as suas rendas em esmolas, vi- 
sitando os enfermos, receita ndo-lhes medicamen- 
tos e dirigi ndo-lhas palavras de conforto. 

Para mais de perto conhecer as necessidades 
do rebanho que lhe estava confiado e melhor po- 
dei prover de remédio a ellas, transferiu de Fon- 
tello para junto da Sé o paço episcopal, e, em quanto 
durou a construccão de umas casas que mandou 
levantar no sitio, onde actualmente se acha a sa- 
cristia, habitou outras que ficavam próximas da rua 
do Miradouro, por baixo das quaes havia ura pas- 
sadiço para outra rua. 

Em presença da architectura (sem duvida ante- 
rior á Renascença) da porta e janella da casa, que 
tem em frente um pequeno releixo, separado, por 
um mnro pouco elevado, do Largo adjacente á fa- 
chada norte do editicio do Collegio, e attendendo 
a que na casa contigua ainda existe um passadiço, 
que commiinica esse Largo com a rua Escura, e 
formado por um arco também anterior á Renas- 
cença, bem podemos conjecturar que naquella 
casas habitou o bispo D. João Vicente. 

' Este prelado enriqueceu a Sé com preciosos or- 
namentos, entre os quaes um cálix de grande va- 
lor. 

Percorria a cidade a pé, acompanhado de dois 
clérigos, e encostado a um bordão, que, como re- 
líquia estimadíssima, por muitos annos se guardou 
na Sé, e poucos eram os creados que tinha ao seu 
serviço, tendo o máximo cuidado de os escolher 
virtuosos. 

Austero e. religioso, castigava, nos eoclesiasticos 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



a des honestidade e não consentia que os seus mi- 
nistros deixassem de proceder com inteireza na 
administração da justiça, ainda em assumptos de 
ponca gravidade. Teve por seu vigário geral o có- 
nego Gonçalo Dias. 

Desde que regressou de Roma, andava ve Cio 
com um habito azul, imitando S. Ixmrenço Justi- 
niano, patriarcha da Ordem dos Loyos, por assim 
lh'o haver permittido o papa Eugénio IV. 

Por esta cireumstaneia, pela sua reconhecida 
virtude e ainda pela dignidade que exercia, foi co- 
gnominado o Bispo Santo do Azul. 

Considerando que este bispado era demasiado 
extenso, conseguiu que o papa Nicolau IV d'eile 
desanexasse as 56 egrejas do arcypreítado de Riba 
Cna, que lhe pertenciam desde o tempo de* D. Di- 
niz, e as passasse para o de Lamego. 1) 

Foi no seu tempo — 18 de abril de 1451 — que o 
cabido tomou posse da Cava de Viriatho, que até 
esse tempo era reguengo. 

Os moradores dos coutos do bispo eram isen- 
tos do pagamento das sizas, mas Álvaro Pirez Tei- 
xeira, Gonçalo Vasquez, Gonçalo Annes, Gii Mar- 
tins e Christovão Annes, os três primeiros verea- 
dores da Camâra e os dois últimos juizes de Vizeu, 
não se importando com este privilegio pozeram ahi 
um recebedor d'esse tributo. D. João Vicente não 
só castiga o attentado, excommungado-os, mas di- 
rige-se a Lisboa a communica-lo a el-reí, que man- 



1) Pildre Leonardo de Souhh, Memoria* «ws., tom. I, pag. *. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



•200 

dou julgar o pleito pelo seu vassallo João Lourenço, 
Corregedor da Camará da Beira e Riba Côa, pro- 
ferindo esta, em 10 de outubro do 1H0, 'sentença 
favorável ao bispo, contra o agrado de AiTonso An- 
nes ou Annes Tocha, visiense muito podei*oso. 

Em satisfação dos desejos d' este piedoso prela- 
do, foram mandados trasladar os ossos de D. The- 
reza, mãe de Santo António, de uma sepultura 
raza, onde estavam na egreja de S. Vicente de Fu- 
ra, para junto do aliar da mesma egreja, onde se 
venerava aquelle santo e estava ainda em 1607 a 
seguinte inscripç-ão: 

c/íic stíiiwt ett cadáver matm 
Divi Antonii, qtd in eadem domo 
Fuit in lacem editas, inqua nunc 
Urais comitia geruntw. Fuit huc 
Translatum stwlio D. Joannis 
Visensis Epúcopi, anno thmini 
Xostri Jem Chrísti 1431.» 
I). João Vicente foi um escriptor consumaiado, 
deixando as seguintes obras notáveis: Livro de Me- 
dicina; Estatutos da Congregação dos Cónegos Se- 
culares — 1540; Regras e Defwiçõe-i da Ordem Mili- 
tar de Christo. 1) 

1) Encontramos liaorigoiras referencias a este prelado. 
dando- lhe oe epfthetos de varão santíssimo, grande prelado, 
um doe mate i Ilustres varões beatificados pela Egreja, insigne 
em letras e em virtudes, em dotes da nntureza e da graçn , 
devotíssimo ranio, medico eruditíssimo, espirito religioso, pe. 
nitente o austero, famoso e virtuoso, o te, do Catkalogo do* 
bispos do Por to, por Cunha; In descr. Reg. £ua&, pag.*Ii22, pe 
lo padre António de Vaaconcellos, da Companhia de Jesus; 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



á07 



Á -£) ri'agosto da 1 i(i2 ou 1464 achou-se. doente 
e declarou que morria no dia seguinte, o que, con» 
tra o prognostico dos médicos, se realiaou. 

seu cadáver foi sepultado no mausoléu de 
pedra lavrada com a sua effigie, que havia mandado 
construir, como deixamos dito, na capella de Je- 
sus, junto do altar que depois se chamou da Posta 
do Sol. 

Quando Gonçalo Pinheiro, um dos seus succes- 
sores, chegou a Vizeu, pediu o guiassem á sepul- 
tura do bispo santo, o que então se entendia do 
bispo D. João Vicente, e, voltado para ella e de 
joelhos, disse: «Aqui jaz o mais virtuoso e obser- 
vante prelado de quantos ha tido não só Vizeu mas 
todo o reino.» 



na Europa Port., por Faria de Sotisn, part. III, png. 194 e 207 
na II parte manuscripta do" arcebispos de Lisboa, por D. Ro '. 
drigo da Cunha; na Çhron. Mon., png. 63, por Fr. António da 
Purificação, chronista da Sagrada Religião doa Eremitas de 
Santo Agostinho; no Agiologio Lusitano, tom. I, pag, 53, por 
Jorge Cardoso; nos Annaes, pag. 148, pelo bispo Jacobo Filip 
po Thomaaino; na Bcnedfctina Lusitana, tom. II, tract. 2." 
pag. 350, pelo P. M. e br. Fr. Leão de S. Thomaz; nas Quês' 
toes dos regulares, tom. I, pelo P. Fr. Manoel Rodrigues. 

E' ainda mencionado pelo P. Fr. Jerónimo Romano, da Or- 
dem dos Eremitas de Santo Agostinho, peio P. Fr. Luiz de 
Sonsa, chronista de S. Domingos em Portugal, part. II, dtp 
XXVII, fl 68, e num livro dd encargos do coro, que se guar- 
da na Sé de Vizeu, em que se nomeain muitos bispos sem ou - 
outro epitheto mais que os ãetis nomes, a d 'este se diz: /v/n 
famoso'e virtuoso Doutor Dom João, Bispo quefoide Lamego e 
d'aqui, o que prova a clara fama e illustre nome que deixou 
n'eí)ta cidade. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



Km 1570 o bispo D. Jorge d'A.thayde, querendo 
fazer certa obra na dita capella, fez abrir a 
sepultura, mas, achando o corpo inteiro e as vestes 
illesas de qualquer corrupção, mandou fecha-la e 
desistiu do intento. 

Em 1618, sendo bispo de Vizeu D. João Ma- 
nuel, os cónegos de Santo Eloy enviaram a esta 
cidade o padre Manuel da Visitação, homem douto 
e grave, para inquirir sobre a vida, fama e mila- 
gres de João Vicente. 

Essa inquirição, que foi tirada por notários apos- 
tólicos com auctorisacão do cabido, durou três an- 
nos, e nella juraram 80 pessoas das mais nobres 
e auctorísadas da cidade, em que entraram muitos 
cónegos e dignidades da Sé, e tórios depuzeram 
«que havia n'esta cidade perpetua e constante tra- 
diccão do Santo Bispo do Azul, ouvindo sempre de- 
signa-lo por este nome a seus pães e avós; que o 
seu sepulchro fora em todos os tempos venerado 
como de homem santo; que muitas pessoas anti- 
gas haviam disposto em sbus testa nentos que as 
sepultassem na capella onde jazia o mesmo bispo, 
pela devoção que a elle tinham; que da masma se- 
pultura manara por muito tempo óleo que curava 
os enfermos; que, pela fama dos milagres, ali acu- 
dia muita gente, achando todos re nédio para as 
suas necessidades; que todos os sinos da Sé toca- 
ram por si mesmos, fazendo signaeí, na occasião 
da sua morte, em que também se ouviram vozes 
angélicas entoando palavras do evangelho de S. 
Matheus; que muitas vezes lhe fervera o azeite nas 
talhas e crescera o pão no celeiro; e que também 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



se contava que, havendo em Vizeu um celebre pin- 
tor, justifica lo nos costumes e especialmente de- 
votado ao mesmo bispo, misturava com as tintas 
algumas gotas do óleo que manava da sepultura 
episcopal, o que tornava seus quadros, que vendia 
por elevados preços, muito lustrosos, admiráveis, 
estimados e apreciados. 

No tempo do mesmo bispo D. João Manoel 
(1610-1633), segundo refere o padre Leonardo de 
Sousa e se collige do Ceu aberto na terra, os cóne- 
gos da Congregação de S. João Evangelista retira- 
ram do sarcophago o corpo de D. João Vicente e le- 
varam-no para Évora, onde o sepultaram na casa 
do cabido do seu convento em sepultura raza, jun- 
to de outra, para onde havia sido trasladado o ca- 
dáver de D. João de Bragança, que também jfoi 
bispo de Vizeu, e isto por connivencia do sub-chan- 
tre Filippe d' Almeida e do sachristão João Ribeiro, 
aos quaes estavam confiadas as chaves da capella 
de Jesus. 

Expõem três factos em que assentam este as- 
serto—l. Costumarem os cónegos de S. João Evan- 
gelista dizer missa, sempre que se achavam em 
Vizeu, na capella do santo prelado, e deixarem de 
o fazer desde certa epocha, embora se demoras- 
sem por muito tempo nesta cidade; — 2.° Ir D. Duar- 
te, marquez de Frecheilha e Mazagão, Cirande de 
Hespanha, visitai" o convento de Santo Eloy de 
Évora no anno de 1614 e, lançando agua benta so- 
bre sua campa, dizer: Aqui está um bispo santo;— 
H.« Estar o seu cadáver inteiro um século depois 
da sua morte, quando D. Jorge d'Atayde mandou 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



abrir o tumulo em 1570, e líào se encontrar ali no 
tempo de D. João Manoel 1). 

Passados annos, os Visienses, vendo no mau- 
soléu dois escudos, cada um com duas chaves, e 
havendo governado a egreja de Vizeu um bispo de 
nome D. João Ciiaves, que succedeu em 15 l 25 ao 
cardeal D. Aflbnso, fdho de el-rei I). Manoel, sup- ■ 
pozeram que esse tumulo era o de D. João Chaves. 
Nenhuma memoria, porem, confirma tal sup- 
posição, que era contradictada por um letreiro, que 
existia na capetla de Jesus e se tapou quando o dr. 
Lourenço Coelho Leitão mandou construir a capei- 
la do Santíssimo Sacramento, o qual dizia: 
«Esta capella e varanda 
Mandou fazer o Reverendíssimo 
S/D. Joam BpÕ, que foi de La- 
mego, protector da Religiam 
de S. Eloy em o anno de 1451 
'20 de fevereiro.» 
Presume-se que as chaves que se vêem no sar^ 
cophago representam as armas da Egreja, e que 
ahi foram esculpidas em razão de D. João Vicente 
ter sido medico do cardeal Thomaz de Sarzane, 
que depois foi eleito pontífice em 1448 com o no- 
me de Nicolau 5.° 



1) Padre Leonardo de Sonsa, Memorias mas., Tom. II, A, 
240 e 247, 2(52 a 265, 271 a 274.- Cm aberto na Urra. Historia 
das Sagradas Congregações dos Cónegos Seculares de 3. Jor- 
ge em Alga de Veneza e de S. João Evangelista em Portugal, 
png. 551 a 602.-£'s<oí. da Ordem de Chrísto, P. X.», tit. 2.» e 
3.°. Ribeiro Botelho. Diálogos, png. 503 a 507. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



E' bastante confusa a historia dos prelados vi- 
sienses nesta epocha, o que resulta de terem todos 
o nome de João, e, com elle somente, assignáreui 
o livro das confirmações, distinguindo-se apenas 
pelos 'sellos pendentes. 

Botelho e outros collocam como immediato sitr> 
cessor de D. João Vicente, jA em 1455, a D. João 
Galvão, filho de Ruy Galvão, secretario de I). Aflbn- 
soVe seu escrivão da puridade no impedimento 
de Nuno Martins da Silveira, o Moço, e irmão de 
Duarte Galvão, commendador da Ordem de S. Thea- 
go, também escrivão do mesmo rei e alcaide mor 
de Leiria, cargo que vendeu ao marquez de Vilia 
Real; e attribuem-lhe alguns factos que deixamos 
referSios na vida de D. João, o Protector. 

O licenceado Francisco d' Abreu no seu Catalo- 
go, que se perdeu, mencionava D. JoSo Galvão co- 
mo bispo de Vizeu, mas assignavn-lhe outro logar. 
Costa na Coroyraphia Portugueza e Gouvea nas 
suas Memorias mm. dizem-no eleito para esta dio- 
cese em 1464. Col apresenta-o como duvidoso. 

D. Nicolau.de Santa Maria na Chronica da Or- 
dem dos Cónegos Regrantes, foliando de D. Joâ? 
Galvão e referindo as dignidades que teve, não o 
menciona como bispo de Vizeu, nem sequer eleito. 

As dignidades que lhe attribue foram as de có- 
nego regrante e prior mor de Santa Cruz de Coim- 
bra, bispo de Silves e de Coimbra, primeiro conde 
de Arganil e ultimamente arcebispo de Braga, ti- 
tulo que gosou por 4 annos, posto que nunca che- 
gasse a alcançar as bulias de confirmação e a to- 
mar posse do cargo. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Inclinaino-nos a que 1). João Galvão não fora 
bispo de Vizeu, porque, sendo eieito prior mor de 
Santa Cruz, por insinuação do monareha, em 1450, 
e, em 1460, bispo de Coimbra, ainda exercia esta 
dignidade em 146!» — 1) e ]). João Vicente sú falle- 
ceu em 1462 ou 1463. 

Também na serie dos bispos do Vizeu, nesta epo- 
r.ha, apjtíirece o nome de I). Joio da Annunciairão. 

Oliveira Berardo *2) dá noticia de que na cama- 
ia «eclesiástica existe um livro, escrípto em cara- 
cteres gothicos, contendo o traslado das aposenta- 
ções ou confirmações dos benefícios deste bispado 
desde 1402 a 1481, cujos títulos principiam: D. João 
da Annunciação por mercê de Deus e da Santa Igre- 
ja de Roma Bispo de Vizeu, etc. 

Mas se J). João Vicente felluceu em 1482 ou 
1483 e a egreja de Vizeu foi occupada logo em 
qualquer destes annos pelo seu successor 1). João 
Gomes d'Âbreu, o que consta de vários outros do- 
cumentos, 6 licito concluir que, por qualquer cir- 
cumstancia que não conhecemos, mudaram de no- 
me ambos estes prelados, ou apenas.o ultimo, caso 
tenha succedido r.o bispado em 1482 e não em 
1403. 

D. João Cromes d'Abreu, filho de Diogo (tomes 
d' Abreu e de D. Leonor Viegas, descendentes dos 
principaes marquezes, condes e senhores de Por- 
tugal e Castella, etn 1462 ou 1463, apresentou nas 



1) 1'adro Leonardo de Sousa, Memorias mas., Tom. IT, p,tg. 
279 e 280. 

2) Memoria maniiscrivto. o Liberal n. n íS, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



capellas de lloular a Luiz Eanes de Loureiro, que 
depois foi cónego e arcediago da Sé de Vizene 
ainda abbade de Santa Maria de Sergueiros e da 
Tone d'Eita. 

Apresentou ainda no mesmo anno a Luiz Fer- 
nandes em S. Peioiins, em 1476 ao mesmo Luiz 
Eanes de Loureiro em Ribateita e a Pêro Dias, ab- 
bade de Iliba feita, em S. .Miguei de Campia, e em 
1481 na egreja de Santar, ou Routar, como outros 
intendem, a Nuno Martins da Silveira. 

El-rei D. Alfonso V estimava-o muito, e tanto 
que íoi a eile que em 14Í > encarregou de acom- 
panhar 1). Joanna, — a Ex,;ellcntc Senhora — , desde 
Miranda até á Guarda e d'aii até Coimbra 1). 

Era pouco affavel no tracto, pelo que os Visien- 
ses, com quem teve muitas desavenças, sendo al- 
gumas vezes preciso a intervenção de el-rei para 
as terminar, se retiravam da nua convivência. 

Os próprios religiosos de S. Francisco cVOrgens, 
cuja congregação elle tanto beneliciou, como adian- 
te se dirá, reconheciam o seu génio áspero e, para 
nào desgotarem os habitantes de Vizeu, evitavam 
quanto podiam ir fallar-lhe ao paço episcopal. 

Mas, a par d"este defeito, possuía duas excellen- 
tes qualidades: austeridade no cumprimento das 
leis, n amor da pobreza. 

Castigava com todo o vigor os transgressores 
das leis divinas e et eclesiásticas. 



1) Clironica do D. Affonso V. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Aos sacerdotes prohibiu, sob gravíssimas cen- 
suras, fazerem qualquer contracto em contraven- 
ção das determinações dos antigos cânones, e de- 
terminou que os clérigos ricos alimentassem os 
pobres, como o estabeleceram os apóstolos no con- 
cilio que celebraram em Jerusalém. 

Resuscitou o uso observado nos doze primeiros 
séculos da egreja de se não comerem ovos e lacti- 
cínios ao jantar nos dias da quaresma, têmporas e 
outros jejuns, e de não ter logar esta refeição an- 
tes das seis horas da tarde na quaresma, e das 
três no resto do anno. 

AborrBcia todo o excesso no vestir ou no tra- 
ctar e era aíTavel para com os pobres e humildes, 
a quem socorria frequentemente, tornando-se no- 
tável a sua liberalidade. 

Foi um dos principaes bemfeitores da congre- 
gação de S. Francisco d'Orgens. Não só mandou 
fazer a torre d'aquelle mosteiro (1476) e estabele- 
ceu multas para serem applicadas á reedificarão 
da capella mor, mas ordenou ao seu mordomo e 
dispenseiro que desse aos padres daquella congre- 
gação todos os géneros, indispensáveis á vida, de 
que elles necessitassem. 

As liberalidades d'este bispo para com o con- 
vento de S. Francisco d'Orgens, diz Fr. Manoel da 
Esperança, fizeram incorrer os padres em grande 
perigo de indignação do povo e cidade de Vizeu, 
que andavam com este bispo em trabalhos e con- 
tendas i). 



1) HisL Seráfica; liv, 9, cap. 8. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



215 

Ou no iircu da capella inór ou na torre do con- 
vento, ou em ambas as partos, ibram collocadf s as 
armas, que eram um escudo com cinco colas de 
armas em quina — , mas de que não lia hoje vestí- 
gio algum em consequência das successivas recons- 
truccões d'aquelte templo. 

Reedificou parte da torre de menagem junto ás 
ameias d"esta cidade, que ameaçava mina, conver- 
tendo-a era aljube ou prisão ecclesiastica, e por cima 
da porta, por onde os presos se serviam, mandou 
collocar um escudo com suas armas (pie também já 
nao existe. 

Diz Fr. Jerónimo líoinào, na Hepublien dos In- 
iíí(w Oceidentaen, que' D. João Gomes d' Abreu era 
grande homem na arte de marear e que, tendo vin- 
do Christovão Cólon pedir favor a el-rei I). Ailouso 
V para descobrir o Novo Mundo, este prelado pu- 
zera tantas difíiculdades e desconlianoa no que Có- 
lon promettia, que, por seu conselho, se desabriu 
mão da empreza. E', porem, errada esta assevera- 
ção, e melhor informado foi Fr. António de S. Ro- 
mão, quando affirma na sua Historia Geral da ín- 
dia que o bispo que dera parecer contra as pre- 
tensões de Cólon fora o grande matheniatico I). 
Diogo Ortiz de Vilhegas— a quem chamavam o Cal- 
cadUha, — que viveu no tempo de D. João II. 

D. João flomes d' Abreu, que teve um sobrinho 
Hero (loines d'Abreu (que foi cónego da Sé e se 
acha sepultado no capella de Jesus, n'outixf tumu- 
lo que liça ao lado do do bispo D. João Vicente), 
tbi encontrado morto no leito na manhã de sabba- 
do 16 de fevereiro dè 1482, tendo 6t> annos de 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



idade, o que constava de uma memoria mandada 
coilocar no convento de S. Francisco d'Orgens por 
Fr. João das Povoas, Vigário Provincial de Portu- 
gal, e foi sepultado na capella múr da cathedral 1). 

Francisco Manoel Corrêa, no seu manuscripto, 
nppenso de fl. 52., diz que o cónego Pêro Gomes 
de Abreu, que jaz na capella do Calvário, parece 
í'-er sobrinho do bitfpo João Gomas d' Abreu, falle- 
cido em 1482, e filho de Jorge de Abreu e de 
Filippa Yarella instituidora da capella da Sé com a 
invocação do Espirito Santo em 1571, sendo então 
ji fallecido o dito cónego com seu testamento; 
e que allude a este facto a seguinte inscripcão que se 
Vi no ai co da mesma capella — t Esta capella do Es- 
pirito Santo mandou-a fazer c dotou Filippa Varei- 
la, viuva, para sepultura de Jorge d* Almeida seu 
marido, e cumprimento do testamento de seu filho 
Pedro d'Avreu, no anno de Í571.» 

O dr. Nicolou de Mendonça, numa nota que 
enviou ao sr. abbade de Miragaia em meia folha de 
papel que se acha collocada em frente da folha 53 
d? mesmo manuscripto, diz que Corrêa cae num 
erro e anachronismo notável, 'por não ter acompa- 
nhado as suas indagações de estudos genealógicos. 
tSe soubesse alguma cousa d'tsto, continua, não con- 
fundiria o cónego Pêro Gomes d* Abreu, sobrinho do 
bispo, que o acompanhou para Vizeu e ali se estabe- 



1) Ribeiro Botelho, Diálogos, pag. 473, 505, 511 a 515. 
Padre Leonardo de Sousa, Memorias mss.,Tora. II, folhas 383 
a B8.Fr. Manoel da Esperança, flírt. Seráfica. Ur. IX, cap. 
VJH, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



teceu em 1463, com o cónego Pedro d' Abreu, filho 
de Filippa Varelta, funlalora da expelia do Espiri- 
to Sanfo em 1571, .... pois, atem do anachronis- 
mo ou contratMcçHo de datas (vir para Vizeu com 
seu tio em 1462 e ser filho de Filippa Varella que 
quasi um século depois 1571 — (unia a capeUa do 
Espirito Santo}, se soitbcssc genealogia conheceria 
por ella que Manoel d'Abreu, neto de Filippa Va- 
rella, e senlior d'aqttella capella, que continuou em 
seus descendentes até ao actual fallccido conde de 
Santa Eulália, cisou com a sua parenta D. Maria 
Soares d' Abreu, neta do outro primeiro cónego Pê- 
ro Gomes d' Abreu, como consta irrefragaoelmente 
de todas as Nobliarchias e escriptos de auetores, até 
contemporâneos d'cstes dois cónegos, » 

Incidentemente, julgamos opportuno consignar 
aqui que o Conde de Santa Eulália, António Au- 
gusto de Mello e Castro d'Àbreu, quando falleceu 
em 1887, não tinha parentes próximos— e de toda 
a parte surgiram pretendentes á herança, que pro- 
curavam em todos os cartórios ecclesiasticos cer- 
tidões para prova do seu mais próximo parentes- 
co. Correu no juizo d'esta comarca de Vizeu, pelo' 
cartório do escrivão Silvério Augusto d'Abranches 
Coelho e Moura, passando depois para o de José 
da Vera Cruz Pestana, o respectivo processo de 
habilitação, em que foram julgados herdeiros os 
seus parentes em 7.» grau {contados segundo o di- 
reito civil). 

A D. João Gomes dAbreu suecedeu D. Fernan- 
do ou Fernão GonçalVes de Miranda, Olho ou neto 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



do dr. Martira ou Martinho Affonso Pii'es, da Char- 
neca, conselheiro de el-rei D. Affonso V, e de sua 
mulher D. Branca de Sousa, senhores que foram 
dos morgados da Patameira, junto da Villa de Tor- 
res Vedras. 

Martim Affonso, passados annos, ordenou-se 
sacerdote e foi bispo de Coimbra e arcebispo de 
Braga. 

D. Fernando nos primeiras annos seguiu a car- 
reira das armas; e acompanhou D. Affonso V na to- 
mada de Arzilla e Tangere no anno de 1471 e na 
batalha de Toro em Castella em 1470, guardando- 
lhe as costas como capitão da guarda ou dos gine- 
tes, em substituição de Vasco Martins de Sousa 
Chichorro. 

Persuadiu-o el-rei a que trocasse as armas pe- 
los livros, a farda de soldado pelas vestes d? egre- 
ja; e elle, açceítando o conselho, em breve se pre- 
parou com os estudos theologicos e recebeu or- 
dens de presbytero do cardeal D. Jorge da Costa. 

monarcha, querendo premiar os serviços de 
seu pae D. Martim, que fora conselheiro de estado, 
e os merecimentos de D. Fernando, nomeou-o em 
1481 seu capellâo mór. D. João 2. 1 » conseiTa-o no 
mesmo Logar; em 1483 escolhe-o para guarda mór 
da rainha D. Leonor, sua esposa, e nomea-o bispo 
de Lamego e em seguida df: Vizeu. 

João Gol refere que do antigo livro das collações 
da camará ecclesiastica, que Oliveira Berardo 1) diz 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



219 

já não existir, consta que fora bispo desta diocese 
desde 1487 até 1491, e que apresentara alguns clé- 
rigos em differentes egrejas e entre elles a Vasco 
Fernandes na abbadia de Nossa Senhora da As- 
sumpção, do logar de Vai Bom, termo da villa de 
Pinhel. 

Era 1490 foi assistir as cortes de Évora, onde 
se demorou, passando d'ahi a cidade de Badajoz 
para acompanhar até Estremoz a prínceza D. Isa- 
bel, filha dos reis catholicos Fernando e Isabel, 
que vinha desposar-se com D. Afibnso, príncipe 
herdeiro da coroa de Portugal. Consorciou-os e 
deu-lhes as bênçãos nupciaes na egreja de Santa 
Maria d'aquetla villa, junto ao Castello, e acorapa- 
nhou-os depois até Évora, onde são recebidos com 
solemnissimas festas. Passados oito mezes, D. At- 
fonso caiu abaixo de um cavallo e morreu na Ribei- 
ra de Santarém. 

Hecolhe-se D. Fernando ã curte, onde exercita 
o emprego de capeilào mór em 1498, e em 20 de 
marco deste mesmo anno, tendo recebido de D. 
Manoel uma boa tença por não ter vago, para lhe 
dai 1 , melhor bispado, regressa a Vizeu. Na carta 
desta mercê é chamado capellão mór d'el-rei D. 
João e bispo de Vizeu, mas nella não vem o seu 
appellido de Gonçalves 1). 

Mandou fazer, para o altar mór, um novo retá- 
bulo, em que foram pintadas as suas armas, sen- 
do-o mais tarde também as de seu successor 1). 



1) 0. Luiz Caetano de Lima, (íeograpkia HiítoHca. tom . 

I, pag. 867. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Diogo Ortiz, e que, existindo ainda em 1030, como 
testemunha Ribeiro Botelho, já delle não havia 
noticiii no século 18.°, segundo affirina o padre Leo- 
nardo de Sousa. 

No anno de 14ÍÍ9 aclia-se na trasladação do ca- 
dáver de D. João 2." de Alvor para Thomar. 

Querendo premiar um seu escudeiro ou cauda- 
tário, por nome Gaspar Velho, fez nelle prazo (150i) 
em algumas propriedades que a Meza Pontifical ou 
Episcopal possuía em Mouzellos, arcyprestado do 
Aro, e juntamente o collou na egreja de Santa 
Maria Magdalena do Campo. 

Foi muito estimado pelas suas virtudes. Morreu 
em Lisboa, sua pátria, nos íins do mez de abril de 
1505, sendo sepultado mima das paredes da ca- 
pella dos Mirandas, na patiiarchal egreja de S. 
Christovão, de que foi padroeiro o seu ascendente 
Martim AiTonso, arcebispo de Braga. 

Jorge Cardoso, no Aqioloqio Lusitano, transcre- 
ve o seguinte epitaphio, que se achava no seu mau- 
soléu, elevado sobre leões de pedra, em que se 
designam os seus principaes empregos, enaltecem 
as suas virtudes, e se determina a epocha do seu 
fallecimento: 

•lO muito maynifioo c reverendo Senhor I). Fer- 
nanda de Miranda, Bispo dr Vizeu, que aqui jaz foi 
creaio em Capellâo Mór de- Et-ltey D. Affomo V m 
qual sérvio com tanta leatdaic que increcco fama de 
capitão d'ellc, e foi com elle na tomada de Arzilla 
e na batalha de Tnro, <t<:ompanhando~o sempre em 
todos os perigos em que se viu, de maneira que dos 
cinco que com elle ficaram foi um d'elles c sempre o 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



sérvio no autu (?) militar muitoi annoê, seguindo os 
passos dos que descende. E por uma virtuosa vida o 
dito Senhor quiz se mudasse ao estaio clerical e por 
seu fallecimento ficou ('.apelido Mór de D. João fl 
seu filho, o qual o fez Bispo de Viseo, e foi Bispo 
vinte e cinco annos, governando virtuosamente, e 
lhe deo ric-is ornamentos. E vioeo sempre em tanto 
recolhimento, e santúlade, que na opinião de muitos 
era havido por virgem, e fez til viíi, que, segundo 
nossa fee, vive agora Bsnnosnturato para sempre. 
Falleceo no fim de Abril. E. 1505.» 

Ha aqui fluas inexactidões: uma, quando se diz 
que fura bispo vinte e cinco annos, pois que de- 
correram apenas 22 desde 1483, em que foi no- 
meado para este cargo, até 1505, em que falleceu; 
e outra, assignando como data do seu fallecimento 
a era de 1505, que teiia sido o aimo de 1467, em 
que a Sá de Vizeu se adiava vaga. Nào só por es. 
ti razão, mas porque já então se nào contava pe- 
la era de Cezar, deve ter-se como certo que houve 
equivoco, collocando-se antes de 1505 um E (era) 
em logar de Anno 1), 

PriYíleflios concedidos l egrtja de Vim 



D. João i concede á egreja de Vizeu os seguin- 
tes privilégios : 

auctorisa o bispo a comprar bens onde quizes- 



1) Bernrdo, Memorias m$ft.— Ribeiro Botelho, Dialogo* 
png. 015 a 519.- Piídre Leonardo de Sousa, Tom. II, fl. 293 a 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



se até ao valor de 60i500O reis brancos e mais não. 
sob duas condições: i .» que não fossem terras re- 
guengueiras ou jugadeiras iou sujeitas à algum foro 
ou tributo; 2.* que á hora da morte os deixasse a 
pessoa leiga e não ecctesiastica 1); confirma aos có- 
negos o titulo de cavalleiros, que,segu tido alguns no- 
bliarchistas, corresponde ao de Fidalgos de nossos 
difjs 2); isenta os cónegos e clérigos de darem, contra 
sua vontade, pousada, alfaias e mantimentos aos 
fidalgos, seus creados e animaes, dentro da cida 
de, villas, casas, adegas e cavallariças, determi- 
nando que os auctoridades seculares os defendes- 
sem das violências e extorsões, por ventura contra 
elles praticadas, e impondo aos delinquentes a 
obrigacõo de pagarem o quádruplo do damno 3). 
D. Affonso V não foi menos pródigo quis seu 



1) Carta da Sintra de 1 d'agoato de 1420. 

■J) Este titulo, que já se encontra no foral de D. Thereza 
foi- lhes confirmado por provisão de D. Diniz, aaeignada tam- 
bém pela minha D. Isabel e seus filhos D. Affonso e D. Cons- 
tança, de 20 d 'agosto do 1292, e por outra de D. Affonso IV 
do 1 do junho de 1341; o lemos em um manuscripto que no 
século 18.° ainda os cónegos eram admit.tidoa ás audiências ' 
reaes nos dias de sabbado. 

3) Carta de 12 de março de 1392, copiada do Livro Gran- 
de dos Privilégios do Cabido, a 11. 23, o cartas do Évora de 1 
do fevereiro de 1429 o do 12 de março de 143Q. Esteprivile 
gio j«i era antigo, t D. Diniz, por carta passada qm Lisboa aos 
23 de fevereiro de 1326, prohibiu que Rico Homem que d'ollo 
tivesse a terra de Vizeu ou qualquer cavalleiro ousasse pou, 
sar nas casas do bispo, cónegos e clérigos de Vizeu, contra 
suas vontades, sob pena do encouto da 500 soldos por cada 
vez, e, por carta passada da Guarda aos 25 de julho de 1333, 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



avô para com a egreja de Vizeu; porquanto rece- 
beu sob a guarda e defendimento real o deão e 
cabido, os seus homens, egrejas, herda mentos, 
possessões e todas as outras cousas suas, sob pe- 
na de pagarem os eneoutos de 6:000 soldos os que 
fizessem algum mal a estas pessoas ou cousas 1); 
prohibiu ás justiças seculares entrarem na casa dos 
cónegos ou clérigos para ahi dar buscas ou pren- 
der alguém ou fazer desatteneão ou deshonra 2); 
libertou da obrigação de servirem os cargos do 
concelho o prebendeiro do cabido, que, alem d'is- 
so, isentou das fintas, talhas, pedidos, servidões e 
empréstimos, o medidor e o repartidor da tulha, 
e, emquanto durasse a arrecadação dos fructos do 
bispo e do cabido, os seus dizimeiros e quatro car- 
reteiros, não podendo estes durante esse período 
ser constrangidos a levar cargas, a transportar pei- 
xe ou outras cousas 3); concedeu ao cabido tivesse 

mandou a João Pacheco mio pousasse tus casas do bispo ou 
dos seus cômoro». 

D. Fernando confirmou este privilegio, por carta passada 
de Coimbra n !! de outubro de- 1380; a qual foi copiada no cl 
tado Livro Grande, a ti. 30. 

1) Carta de Coimbra de -10 de maio de 1473. Hsle privile 
gio ja lhes havia sido concedido porcaria de D. Fernando, 
também passada em Coimbra aos 13 d<s outubro de 1380. 

2) Carta de Santarém de 29 de março de 1449, copiada 
no cit. Livro Grande, a II. 30.— D. Jofto III confirmou este 
privilegio, mas exceptuou o caso de ir a justiça em persegui- 
ção de algum criminoso. 

3) Cartas de Évora de 29 de Jezembro de 1400, e de A vi?, 
de 28 de maio de 1460, copiadas no cit. Livro Grande a ti. 
36 v.« t> 33. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



um executor, que fizesse as pandoras e executas- 
se as suas dividas e rendas 1); prohibiu que os ca- 
seiros do bispo ou do cabido fossem vexados por 
qualquer forma 2). 

Alem d'estes privilégios teniporaes, tinham as 
dignidades, cónegos e meios prebendados o privi- 
legio espiritual de compartilharem nos benefícios 
espirituaes do choro e das funcçõas de egreja, com 
tanto que tivessem a resHencia amara de um an- 
uo 3), ou visitassem os logares santos de Jerusa- 
lém, ou o corpo de S. Theago de Compostella, pa- 
droeiro e tutelar das Hespanhas, ou o Santuário 
de Nossa Senhora de Guadalupe em Castella, sen- 
do-lhes concedidos para a primeira d'estas visitas 
um anno, para a segunda um mez de sete em sete 
annos, e para a terceira um mez de quatro em 
quatro annos 4). 

O bispo D. Jerónimo Soares com consentimen- 
to do cabido congregado em 6 de outubro de -1707 
commutou estas visitas: a de Jerusalém peta ida a 
Roma com a obrigação de ahi visitarem sste egre 
jas, a escada santa e as basílicas de S. Pedio e S. 
Paulo, dentro de onze mezes em cada período de 

1) Carta de Évora de 3 de setembro de 1473, copiada no 
cit. Livro Qrande, a fl. 33 v.» 

•2) Carta de Évora de 9 de maio do 1469. 

3) A retidencia amara 6 como que o noviciado dos cóne- 
gos, que, logo depois da sua collaçáo, «fio obrigados a assis- 
tir todoa os offlcios divinos sem faltarem a um só, por es- 
pagão de seis mezes na Sé de Lisboa, e por mais tempo nas 
outras cathedraes. Do rigor da costumada asais ten :ia tomou 
o nome de residência amara. Bluteau, Vocabulário, 

4) Estatutos do Cabido -Estatuto 10." 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



vinte e cinco annos; a de Compostella pela da Ima- 
gem da Madre de Deus no seu convento de Lis- 
boa; e a do Santuário do Guadalupe pela do Senhor 
de Mattosinhos e de Nossa Senhora de Nazareth, 
concedendo quinze dias para cada uma. 

PermUttu-lhes também que dentro de cada pe- 
ríodo de vinte e cinco annos visitassem a cabeça 
de S. Theotonio em Santa Cruz de Coimbra, o se- 
pnlchro de Santa Joanna em Aveiro, a Imagem de 
Santo António na egreja do convento de Guima- 
rães, e o Santuário de Nossa Senhora da Lapa; es- 
ta ultima visita em três dias e cada umad'aquellas 
em nove i). 



DIGNIDADES ECLESííSHW 



Neste período havia na Cathedral as dignidades 
de deito, chantre, arcediago, mestre scola, thesou- 
reiro da Sé, prioste, e notário apostólico e escri- 
vão do cabido, alem dos cónegos e dos meios-co- 
negos. 

De varias escripturas, copiadas nos livros do 
cabido, sabe-se que neste período exerceram a di- 
gnidade de timo D. João Annes, D. Pedro, Gonçalo 
Rodrigues, Antam Gomes e outro D. Pedro; a de 
chantre D. Pedro Migueis, Mem Kodrigues de Ma- 
galhães, João Nunes Homem, João Martins, Pedre 

1) Memorias wiss. do sr. António C.irdoso da Figueiredo, 
pag. 211 e seguintes. 



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Armes e Miguel de Brito; a de arceduuja Ruy Pe- 
res de Magalhães, João Rodrigues llibeiro e Pedre 
Annes; a de mestre scola Bartholomeu Fernandes, 
bacharel ín utroque jure e vigário geral, Gonçalo 
Domingues, Gonçalo Annes e Diogo Vicente; a de 
tlirsoureiro da Sé Francisco Martins, João Rodri- 
gues, Gonçalo Pires, João Nunes Homem e Vasco 
Martins de Rabello; a Aeprioste do cabido Vasco de 
Braga; e o cargo de notário apostolio e escnvão do 
cabulo em 1498 Vasco Fernandes. Também lemos 
que em 1452 e 1453 um dos cónegos era Efltevam 
Gonçalves, que se não deve confundir com outro 
cónego do mesmo nome, que desde 1610 a 1622 
desenhou e pintou em miniatura o lindissimo mis- 
sal que ficou do P. Maynt, religioso da Terceira 
Ordem de S. Francisco, como referem Volkmar, a 
pag. 4ti, e o Bis|K> Gonde, I). Francisco, na Lista 
de Alguns Artistas Portw/uezes, a pag. 35. 

bispo D. João de Ghaves expulsou as freiras 
do mosteiro de Ferreira d' Aves, reduzindo-o a egre- 
ja e beneficio secular, que annesou ao mestre sco- 
Uiin, mas ellas, em 14(i0 intentando questão, obtive- 
ram sentença íinal a seu favor, proferida por 1). 
Fr. Fernando, abba-.le das Salzedas e Juiz Apostó- 
lico 1). 



1) Viterbo, KUu-idaric 



>,Sitizeot>vGoOgIe 



HraeDi lilustres naturaes de íian n que nesta cidade 
lisaram a nu residência 

Daqui em dearite abrimos em cada um dos pe- 
ríodos uma secção em que nos «ocuparemos dos 
homens illustres ou naturaes de Vizeu ou que aqui 
fixaram a sua residência. 

Neste apenas encontramos D. Henrique, de que 
já falíamos, e el-rei D. Duarte. 

D. Duarte, filho primogénito de D. João I e de 
sua esposa D. Filippa d'Alencastre, nasceu em Vi- 
zeu em 31 de outubro da era de 1429 (anno de 
1301)— 1). 

Desde verdes annos tornou-se notável pela sua 
austeridade de caracter e amor ao estudo, qualida- 
des que brilhantemente aflirmou quando subiu ao 
throno. 

Soube continuar a pureza de costumes que seu 
pae havia implantado no Paço depois do reinado 
immoral de D. Fernando, e reduziu as despezas 
da Casa Real, paraalliviar o erário debilitado pelas 
gueiTas com Castella. 

Ordenou que sempre na corte estivessem, para 
o auxiliar, um dos infantes seus irmãos, um bispo 
e um conde. 



1) Num dos mamiscrtpt-os do século passado, que com- 
pulsei, li que D. Duarte nasceu na rua Nova na casa do almo- 
xarifado, e dos documentos do archivo do cabido evidencio que 
a rua Nova, naquelle tempo, se chamava rua da T raparia. 

A tradição, porem, diz que elle nascera na rua da Cadeia, 
que dos mesmos documentos se vâ que naquelle tempo se 
chamava rua da Yella de S. Domingos. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



O facto capital do seu reinado foi a infeliz, ex- 
pedição a Tangera, commandada pelos infantes D. 
Henrique, que voltou, e D. Fernando que ficou em 
reféns em poder dos mouros ató se lhes entregar 
Ceuta, que lhes havia sido tomada no tempo de 
D.JoãoI; mas a vontade nacional não consentiu que 
essa entrega se effectuasse, pelo (pie este bon- 
doso infante teve de soffrer com admirável resigna- 
rão os maus tractos que lhe infligiram durante dez 
annos de captiveiío, até que falleceu nos cárceres 
de Fez, com a reputação de Santo. 

E' no reinado de D. Duarte que se põe em ple- 
no vigor a lei mental, que regulava a successão dos 
donatários da coroa, jâ começada a executar no 
tempo de seu pae; e é sabido que elle planeara a 
codificação de todas as leis promulgadas, desejo 
que os accidentes e brevidade do sau reinado frus- 
traram, mas que foi realisado por sen Pilho D. Af- 
fonso V com a publicação das Ordenações afonsi- 
nas. 

Da sua muita illustração existem hoje provas 
irrefj-agaveis. Elle próprio compoz o Leal Conse- 
lheiro e a Arte de bem cavalgar tola a sella, e foi 
elle o primeiro rei portuguez que organisou biblio- 
theca. 

Por muito tempo todos os historiadores e 
chrooistas davam como assente que D, Affonso 
V fora o primeiro rei portuguez que em seus paços 
ordenara livraria. Porem o sr. Innocencio Fran- 
cisco da Silva 1) reivindica essa gloria paro o rei 



1) Panorama, »ol. XI, pug. 315 a 317. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Eloquente, por lhe tocar com mais justo titulo e 
melhor fundamento. 

Refere que no extincto mosteiro da Cartucha 
em Évora, entre outras preciosidades litterarias de 
grande momento paia a historia das lettras portu- 
guezas, existia um antigo e raríssimo códice, do 
qual João Franco Barreto extrrthiu vários aponta- 
mentos, quando .se occnpava de colligir memorias 
para a Bibliotkeoa Portugtteza, que emprehendeu 
e concluiu, mas que não chegou a ver a luz, se- 
gundo declara o abbade de Sever Diogo Barbosa 
Machado, testemunha oceular; que esta códice con- 
tinha uma compilação de todas as obras miúdas de 
ei-rei D. Duarte e uma resenha ou catalogo, que o 
dito Barreto copiou textualmente e Innocencio re- 
produziu, dos livrou de imo de D. Duarte, em nu- 
mero de 82. 

Esta collecção ainda que pouco numerosa e di- 
minutíssima com respeito aos nossos dias era de 
subida estima e preço naqueilas eras, e, attenden- 
do a que em sua totalidade se compunha de ma- 
nuscriptos, visto que D. Duar',e falleceu JG ou 18 
annos antes da invenção da typographia, bem po- 
dia merecer o nome de livraria. 

I). Duarte confirmou o leguengoe morgado de 
Mossamedes em João dWlmeida, fidalgo da casa 
do infante D. Henrique e seu monteiro mór, e ne- 
to do primeiro donatário Gonçalo Pires rtAlmeida, 
que D. Atlonso V casou com D. Isabel de Mel- 
lo, filha de Estevão Soares de Mello, dando-lheem 
dote 2:000 coroas de ouro, pagas nesta cidade. 

No seu níinado celebrara m-se cortes em Tor- 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



res Novas (1438), onde se fizeram alguns capítulos 
especiaes para Vizeu 1). 

D. Duarte foi jurado rei em 15 de agosto de 
1433, e neste mesmo anno foi coroado. Havia ja 
casado com D. Leonor, filha de Fernando IV, rei 
de Aragão, a qual falleceu em 18 de fevereiro de 
1445, tendo sett marido faliecido em Thomar (da 
peste segundo se diz) a 9 de setembro de 1438, 
dia em que houve eclipse do sol, na idade de 47 
annos, com 5 de reinado. 

Foi elle que introduziu em Portugal o titulo de 
príncipe, já adoptado na Hespanha, concedendo-o 
ao infanta D. Aflbnso 2). 

' Jaz na egreja da Batalha em um mausuleu, on- 
de esta o seguinte letreiro: 

H. I. 
Eduard. I. Port et Alg. 
Rex et Regina Ele- 
onora uxor eius. 

<f. |f|ana, a fitava 

A cidade de Vizeu ou qualquer das localidades 
próximas é indicada como o theatro de uma scena 
de uma interessante lenda do século XV, até hoje 
só referida por auctores hespanhoes, cujo conhe- 
cimento devemos á amabilidade do il lustre littera- 



1) Ribeiro Botelho, Politica moral, pag. 46!) e iJfki. Pinliei 
ro Chagas, Hiel.de Port., vol. II, pag. 449 e 529. Panorama, 
itíl. XI, pag. 315. Viterbo, Elucidário, verbo, Dnpnador. Dic- 
cion. Popular, por Pinheiro Chagas, verb. D. Duarte. 

2) D. António Caetano d<* Sousa, Bist. Gencal. da Catta 
Real Portug., tom. II, pag. 461 o seguintes. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



to do reino risinho "D. Manoel de Foronda, cujas 
relações temos em muito apreço. 

Em outubro de 1894 recebemos d'elle uma car- 
ta acompanhada de outra que um seu amigo lhe 
dirigira, sendo esta concebida nos seguintes ter- 
mas: 

nCongreso de los diputados. 

Archioo. 

lllm.o Seilor D. Manuel de Foronda, 

Mi carinoso amigo: Me dioo V. a niihe en el 
Circo-Colon que un .... i) escritor lusitano estaba 
publicando la Historia de Visão, de la cai' ga o- 
noee V. cl tomo 1* 

Desearia que V. cscribiese d xu autor perguntan- 
dole si en el tomo 2.° hace referencia á la impor- 
tante legenda espanola relacio ia:bi con Los bandos 
de Salamanca e en la cual toma un principxl papel 
la celebre Placentina D. Maria Roiriguez Monrog 
de Almaraz a quien la historia llama, con justa 
razon, \& Brava, por su proeza en Viseo el ano de 
Í437 ô I4;i9. 

Ningtm autor porluguez se ocupa de la legenda 
de D. Maria I-a Brava g mi bum amigo Herculano, 
a quien se la referi pocon mezes antes de su morte, 
intentaba g me lo ofreció dedicir á esta legenda un 
volumen ; peró murta antes de poder cumplirme su 
palavra. 



1) Supprimimos um adjectivo que não nos pertence, mas 
que exprime apenas mais uma gentileza, que agradecemos, 
do Foronda para comnosco. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Por si su amigo, el autor de la Historia de Vi- 
seo, quiere enriquecer su obra con la nanracion de 
un suceso altamente importante >/ por de mas curio- 
so, le citará três obras mias donde puede encontrar 
todolo que nccesite para llevar á la suya noticias 
sobradas dei suceso. 

Estas obras son : 

1* — Estremadura (tomo de idenj de la obra 
Espana, sus monumentos y artes, su naturaleza é 
historia (Barcelona, 1889-1893} publicada por la 
casa de Cortezo), En este tomo (el de Estremadura, 
que es el mio) á la página 904 dcl -Cap. VI f, de la 
i\ a parte (Cáceres), trato largamente dei suceso de 
Visco. 

â.» — Diccionario Histórico, Biográfico, Critico y 
Bibliográfico, de autores, artistas y estremenos 
ilustres, (Madrid, imp. de Alvarez Hcrmanos, 1884- 
1888J, ai tom» 11, página 239 dor/ la biografia 
estensa de D. Maria Rolriguez de Monroij y de Al- 
maraz, inelugcn-hi en ella el suceso de Viseo. 

Y ■'!.* — Recuerdos de Estremadura (Vreyenal 
de la Sierra, imp. de El Geo, 1889 J, á la pàg. 113, 
esta la legenda de Viseo. 

Todas três obrai eston en la li. Xacional de 
Lisboa, las oonocsn mug bien mis amigos Silva 
(bibliothecarioj, Enes (diputaio e bibliófilo) g, sobre- 
todo, cl doclo escritor g uno de mis mejores amigos, 
D. Gabriel de Pereira, director de la li. Xacional. 

Tambien las tiene mi camarada D. Thomaz 
Ribeiro. 

Dog a V. toialas estas noticias por si las estima 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



propias para transmitirias ai autor de la Historia 
de Viseo. 

Otra dato : 

En los Concílios emeritenses se encoentran no- 
ticias de los obispos de Viseo. 

Sin oiro particular tengo el gasto de repetirme 

de V. muy afectisi/no amigo >/, 

Q. B. S, M, 1) 
Xicolás Diaz y Perez. 
Madrid, 10 de Oelubrc de 1894. 
S[C. liucn-Suceso, 10 — 3.° - Derecha. » 

Ixjyo que esta carta nos chegou ás mãos apres- 
sámos a pedir cópia do que se encontrava nos in- 
dicados livros ao sr. conselheiro Thornaz Ribeiro, 
actualmente ministro de Portugal na republica dos 
Estados-Unidos do Brazil, que, passado algum tem- 
po, no-la enviou, quando já possuíamos outra có- 
pia que nos havia remettido D. Manoel de Foronda. 

Aos três litteratos os nossos agradecimentos, 
por nos proporcionarem occasião de podermos 
amenisar por alguns instantes a aridez própria dos 
trabalhos históricos, intercalando nelles a interes- 
sante lenda, vertida para linguagem portugueza 
das copias, que temos em nosso poder, extrahidas 
da obra Estremadura, por D. Nicoles Diaz y Perez, 
capitulo VII, pag. 904 e seguintes, onde se lè: 

Os Monroyes teem em Placencia justo renome. 

Alem de I). Sancho de Monroy, diplomata do 
século XVII, houve os Famosos Fernão Monroy e 

1) que-beija — suas -mãos. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



•234 

Orellana, conhecido peto epitheto de El Bezwlo, 
e D. Affonso Monroy Sotomaior, chamado El Cia- 
oero, de quem já fadámos no capitulo VIL 

Porem, na ordem chronologica, como tronco 
d'esta família deve collocar-se D. Nuno Peres de 
Monroy, que nasceu em Placencia em 1269. 

Seu nome figura nas guerras que D. Sancho 
sustentou contra Abent Jucaf. Esteve nos campos 
de Sevilha, lierez e Porto Real, nnõfí ganhou gran- 
de fama e assistiu a conquista de Tarifa, que foi 
tomada em 21 de setembro de 1292. 

Mais tarde apparece seu nome com o titulo de 
abbade de Santander e Senhor da Villa de Valver- 
de de ia Vera, que lhe dera el-rei D. Sancho, 

Fundou- o morgado da casa de Monroy, falle- 
cendo em 1326, sendo conselheiro d'el-rei 1). Af- 
fonso XI. 

Seu corpo foi sepultado no hospital que fundou 
em Valladolid no arrabalde de S. João. 

Deixou a seu irmão Fernão Peres a parte que 
tinha em Monroy e Talavan e todas as suas casas 
que mandou edificar em Placancia, conhecidas ho- 
je por a Casa das Ditas Torres. 

Fundou também em Placencia o hospital cha- 
mado de Santa Maria ou de D. Engraoia de Mon- 
roy, nome de sua mulher, como se declara no tes- 
tamento de D. Nuno, cuja copia esta nas officinas 
de beneficência de Placencia. 

Descendentes d'este Monroy são muitos perso- 
nagens celebres que illustram o solo da Estrema- 
dura e entre elles a inolvidável D. Maria Rodri- 
gues Monroy de Almaraz, dima illustre, nascida. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



em Placencia, no anno de 1398, de D. Fernando 
Rodrigues Monroy e de D. Isabel de Almaraz, fa- 
milia mui nobre que povoava a dita cidade e gosu- 
va muitos favores do infante D. Fernando e de el- 
rei D. João II. 

A casa, onde nasceu D. Mj iria, existe ainda em 
pé, é conhecida pelo nome de As Duo» Torres, e 
visitada por todas as pessoas il lustres que viajam 
pela Estremadura. 

A celebridade d'esta senhora tem sua origem 
nos chamados Bandos de Salamanca, que registam 
uma serie de luctas bem tristes para a historia 
d'esta cidade, a Athenas hespanhola, nos séculos 
XIV, XV e XVI. 

Havia casado esta senhora em Salamanca no 
anno de 1415 com o mui poderoso senhor D. Hen- 
rique de Henrique/,, Senhor de Villalba e Conde de 
Canillas, de quem enviuvou em 1435, segundo uns, 
ou em 1441, segundo outros, ficando-lhe dois filhos, 
que sobresaiam entre todos os rapazes do seu tem- 
po por a nobreza da sua fidalguia e por as excel- 
lentes qualidades pessoaes que os adornavam. 

O mais velho estava para cazar-se com uma jo- 
ven salamanquina, que havia despresado as pre- 
tensões de outro joven chamado D. João Manzano, 
descendente das famílias mais nobres de Sala- 
manca. 

Por este motivo os Henriquez não eram bem 
vistos por o Manzano e por um seu irmão, que, 
como era natural, também fazia seu o resenti men- 
to de D. João. 

Num dia em que se encontravam jogando a pel- 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



lota (exercício commum entre os nobre daquel- 
les tempos) os Manzanos com o mais novo dos 
Henriques, siisciton-se uma disputa entre elles so- 
bre a apreciação do jogo, e os Manzanos, movidos 
talvez pelos resen ti mentos antigos, deram morle 
aleivosa ao seu joven rival. 

Receiosos do que poderh fazer o outro irmão 
quando conhecesse a occon-erjcia, esperaratn-no 
numa encruzilhada, e, rodeando-se de seus escu- 
deiros e partidários, também o mataram, aleivosa 
e covardemente. 

Estes successos eram altamente escandalosos, 
pela importância que tinham em toda a Estrema- 
dura os Henriques e pela influencia que exerciam 
em Salamanca os Manzanos. 

Correu a noticia pela cidade. A população arao- 
tfnou-se. O povo apodera-se d f >s cadáveres do.s dois 
Henriques, e em desordenado tropel os vae collo- 
car estendidos sobre uma meza em frente dos bal- 
cões do palácio de sua mãe, á porta do templo d-i 
S. Thomé, gritando em altas vozes: 

Vingança! Vingança! 

D. Maria apparcce no balcão toda lívida, roxa, 
cabello solto e rosto descomposto. 

Contemplando os cadáveres ensanguentados 
de seus filhos, e diz ao povo: 

Enterral-os ! . . . Nad:i de vingança! .. Esta to- 
ca-me a mim ! . . . 

O povo rpasigua-se um momento. O bispo e o 
cabido da Cathedral recolhem os cadáveres, dão- 
lhes sepultura enrista e esforçam-se por acalmar 
os ânimos dos que com as armas na mão gritavam 
uma e outra vez: Vingança ! . . 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Entretanto, os Manzanos buscavam asyio em 
Po)tLigal,refugiatido-sr: em Duas-Egrejas l),não lon- 
ge de Vizen, onde lhes parecia estarem seguros, 
emquanto D. Maria montava a cavallo seguida de 
30 de seus mais intrépidos escudeiros, e no silen- 
cio da noite abandonava Salamanca, pondo-se tam- 
bf;m a caminho. 

Três dias depois, dando cana aos assas.- inos de 
seus filhos, chegava e entrava ã tinia noite no lo- 
gar de Dtias-Eijrejas. 

Seus escudeiros rodearam a casa em que se 
hospedavam os Manzanos, em quanto a valorosa 
D. Marta, vestida de cavalleiro, com casco e arma- 
dura, derribou, com a ponta da sua lança uma das 
janellas, penetrou na casa, onde dormiam os Man- 
zanos, e, louca de ira, om o valor de uma mãe 
offendida no mais sagr.ido da sua alma (na vida de 
seus filhos) e, trenetici, por lograr uma justa vin- 
gança, atravessou com a sia espada o mais velho 
dos Manzanos e sa defendia a s¥i turno do mais 
novo, a quem tambim matou em nobre e renhida 
peleja. 

Feito isto, cortou a cabaça aos matadores de 
seus filhos, e, espetando-as na ponta da siu afiada 
lança, saiu da casa gritando para seus escudeiros: 
Está cumprida a vingança!... Segiu-me a Sala- 
manca. 

Com efleito, três dias depois entrava D. Maria 
em Salamanca. Seguida de S3iis 20 escudairos per- 
iwrria as principaes ruas da cidade, passeando 



1) Povonçíio do concelho tio Siitiain. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



seus fúnebres tropheus sobre a lança, e indo de- 
posita-los depois sobre o tumulo de seus filhos. 

Havia cumpi ido esta valorosa mãe seus propó- 
sitos vingando seus innocentes filhinhos, que não 
tinham outro delicio a não ser a sua fidalguia e 
seu cavalheiroso comportamento. 

Desde então, o povo de Salamanca cognominou 
D. Maria a Brava, nome por que é conhecida na 
historia. 



H«ía* solte 



—Em 1133 o infante D. AfTonso doa a João Vie- 
gas os bens e herdades que foram confiscados a 
Ayres Mendes e a Pedro Paes, o Carofe, naturaes 
de Vizeu, por se haverem passado para os inimi- 
gos e fortificado no castello de Seia 1). 

—Confirmam os bispos de Vizeu: D. Fernando 
a carta de couto ao mosteiro de Tarouquella, ter- 
mo de S. Fins em 1214; D. Bartholomeu em 1219 
a isenção da colheita para o rei, concedida ao mos- 
teiro de Mancellos; D. Matheus os fontes concedi- 
dos a Pinhamsel em 1252 e a Gaia em 1255; e D. 
Egas em 1283 o foral concedido a Villa Real de Pa- 
noias 2). 

1) Docum. do Pendurada. Viterbo, Elucidário, v. Cruz. 

2) Viterbo, Provas e Apontamentos para a historia de Por- 
tugal (mas. do Seminário) tora. I, fl. 186, 191, 195 e 198. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



— D. Diniz doou ao bispo e cabido de Viseu os 
padroados das egrejas de S. Pedro e de Santa Ma- 
ria, de Castello Mendo 1). 

Também com a rainha D. Isabel e o infante D. 
Àffonso, seu filho primogénito, doou ao bispo de 
Viseu, o honrado D. Egas e a seus successores o 
padroado da egreja de S. Pedro de Penaverde, pa- 
ra, com os seus rendimentos, fazer uma capella a 
Santa Maria na Sé de Vizeu e ter ahi um capei Ião 
que cantasse em cada dia missa por sua alma e 
pela de todos os reis que depois d'elle reinassem 2). 

— No tempo de D. Diniz foi juiz de Vizeu Pe- 
dro Raymundo, mordoma Domingos JoSo, e tabeU 
Hão Lourenço Pelagio. 

—Foram também juizes de Vizeu em 1340 Do- 
mingos Pires e João Annes, em 1395 Domingos 
Domingues e Allbnso Estevas, em 1416 Gil da Guar- 
da, em 1425 Jo3o Ixmrenço da Covilhaã, em 1431 
e 1433 Pedro Affonso e em 1482 João Barbosa, fi- 
dalgo da casa d'el-rei. 

— Gil Pires era alcai.le de Vizeu em 1311. 

— No século XIV exerceram o cargo de tabel- 
lião de el-rei nesta cidade, alguns simultaneamen- 
te, Pedro Lourenço, Lourenço Annes, Lourenço 
Paes e Rodrigues Annes; e no século XV Estevam 



1) Viterbo, Elucidário, v. Gorda. 

í!) Livro 3.' das doaçúes d 'El-rel D. Diniz na Turre do 
Tombo (Anu. [ da casa da coroa) a fl. 31 T., coiumna 2.*. 

No archiro do cabido ha uma certidão d'esta doação pai , 
tada em junho de 1713. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Domingues, Estevam Armes de Alvarenga, Martim 
AfTonso, Gonçalo Annes. Gil Affonso, João Louren- 
ço, Ruy Martins. Rodrigo Annes, Álvaro Martins, 
João de Vizeu, Ruy Gomes e outros. 

Vasco Esteves também era tabellião em 1417 
por a Condessa D. Isabel, por auctoridade e man- 
dado de Nosso Senhor EIRey. 

—D. Pedro I por provisão passada em Tentú- 
gal aos 15 de marco de 1353, que confirmou outra 
de I). AlTonso IV, concedeu ao cabido de Vízeu o 
privilegio de eleger um almotacé clérigo com jnris- 
dicção egtial á do almotacé secular nomeado pela 
camará 1). 

Ao almotacé clérigo foi conferida a faculdade 
de prender e penhorar os carniceiros, por provi- 
são de 1-104. 

—Fr. Luiz de Mortaya, eremita de Santo Agos- 
tinho, fallecido em 1339, não acceitou o cargo de 
bís|x> de Vizeu para que foi nomeado 2). 

— Houve em Vizeu, ignorando-se a epocha. um 
bispo chamado Romualdo, como constava do livro 
dos óbitos do mosteiro de Landim, bispado de Bra- 
ga, da Congregarão e Reformação de Santa Cruz, 
onde se lia: 5 ilm obiit Das Roniucdíus Vis. Eps 
Canonicm S. Jiitfi 3), 

—1). Ferrando, depois de britar moedn, decre- 
tou os preços dos cereaes nas diversas províncias. 
Na Beira foi de 20 soldos (4!>i reis) paru cada al- 



1) Livro doa privileg os do cabido fl. 3S. 

2) Viterbo, Provai cit. (tnss.), tom. I, fl. 12' 

3) Ribeiro Botelho. 



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queire de trigo, e de 10 soldos (217 reis) para ca- 
da alqueire de cevada, centeio ou milho 1). 

— De varias escrjpturas do sec.ilo XIV consta 
que numa ma desta cidade havia uma pedra de- 
nominada de Gonçalo Alvilho, que passa a chamar- 
se no século XV e XVI de Gonçalvilhi, e mais tar- 
de de Gónçalinho, nome por que hoje é officialmen- 
te conhecida a rua Corrêa d'Oliveira. 

—No século XV já tinha o nome de Pavia o rio 
que banha Vizeu, já existia a fonte de Santa Chris- 
tina, que foi reformada no século XVI, sendo bis- 
po d'esta diocese o cardeal D. Aflonso, havia nesta 
cidade muitos Escudeiros, e nos emprazamentos de 
palheiras feitos pelo cabido era sempre inserta a 
clausula de os foreiros os converterem em casas 
de pedra telha e madeira. 

—Em 2 de dezembro da era de 1398 (anno de 
1380) o bispo D. João deu ao cabido uma carti da- 
tada de Fontello, em que declara o que a cada um 
d'elles (bispo e cabido) pertencia nas luctuosas das 
egrejas do bispado. 

—O infante D. Henrique promoveu nesta cidade 
umas festas lusidas, como era o gosto d'aquellas 
tempos (e ainda o de hoje), do que faz menção um 
antigo Académico da Historia Portugueza. 

«Os Infantes, diz ette, depois que forão para 
Évora, assistirão lã pouco tempo, e vierão para 
Santarém, aonde estava seu Pay, n ft«ndo com 
este o Infante D. Duarte, partirão para as suas ter- 



1) Raballo da Silva, Memoria «obre a população e agri- 
cultara em Portugal, png. 101 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



ríis, íestí!Jainlo-sfi reciprocamente hum :m mibvt, 
dada qilal nas que lhe tocuvão, como fez em Coim- 
bra o Infante D. Pedro, e o Intente D. Henrique, 
em Viztiu, e este ainda fez mais qus ajustou umas 
notáveis Festas de i-avallo, que durarão desde a 
véspera de Natal até dia de líeis, [>ara as quaes 
convidou seu irmão o Conde de Barcellos, e todas 
as pessoas principais d'aquella Comarca, e forão 
ellas de sorte, que aiA convocarão ao Infante I). 
Duarte, com o qual, depiis de acabadas, voltarão 
todos para Santarém, menos o Conde D. Affonso, 
que foi para o seu condado» 1). 

— O infante D. Henrique, residindo nesta cida- 
de, teve por escudeiro João do Ca npo, por brocha* 
dor Pedro Affopso, por carreteiro de suas terras 
Rodrigo Annes, e por creados Gonçalo Affonso do 
Arco e João Gqnmlves de Joeirou, casado com Ca- 
thalina Anneí, ao qual o cabido emprazou algumas 
terras em S. Miguel. 

— Em varias escripluras do saculo XV lemos 
que em Vizeu havia as seguintes ruas e sítios: Pa- 
Ihaes, Veila de S. Domingos (que depois se cha- 
mou rua da Cadeia), Tendas, Judiaria, S. Lazaro, 
Direita, Rigueira, Carvoeira, do Muro, do Arco, da 
Praça, de Cimo de Vil la, Miradouro, (Juintaãs, Tra- 
paiia (que depois se chamou ma Nova), Chão da 
Prebsnda, Carreira que vae para Santa Chrístina e 
vae lindar na estrala de Marmoiral, Chão junto a 
Mansorim, Chão de MemcDUtes. 

— Em 1448 havia na rua da Rigueira uma alber- 



í) J. 3. Silva, Mtmarim *■ KtRey />. Joio ].', tom. 3.°, 
vr«. 3.*, cu{.. Wi. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



•jaria, numa casa que para esse fim foi dadn pelo 
cabido. 

— Álvaro Dias era almoxarife em Vizeu no tem- 
po tíe D. João I. 

— Nas antíjías cortes os procuradores de Vizeu 
tinham assento no 2." Uincn dos 18 que havia. 

Tinham assento no 1.° os do Porto, Kvora, Lis- 
boa, Coimbra, Santarém e Elvas; e no 2.° os de 
Tavira, Guarda, Vizeu, Braga, Lamego e Silves. 

—Pela organlsação militar de Nun'alvares, o rei 
teria sempre sob as suas ordens iminediatas 3:200 
lanças, 12:000 ou 15:000 homens effectivos, 500 a 
cargo'' dos capitães, 2:403 dos es^udsiros, 300 das 
ordens militares: Christie Santiago lOOcida uma, 
Avte 80, Hospital 20. 

Por outro lado haveria sempre armamantos em 
arsenaes dispersos por todo o reina, 1:500 arneses 
ou armaduras completos, distribuídos por esta for- 
ma: ao rei 500, ao condestavel, as infante D. Affon- 
so, bastardo de D. João I, aos Mestres de Christo 
e de Santiago, aos arcebispos de í/sboa e Braga e 
aos bispos de Coimbra e Évora, a cada um 50; ao 
bispo do Porto, ao prior du Santa Cruz e a Gonça- 
lo Vasques Coutinho, Senhor da Beira, a cada um 
30; aos bispos de Silves, da Vizeu, da Guardo, de 
I.amego, e ao abbade de Alcobaça, a cada uni 
20—1) 

—D. Joio 1 estava em Vizeu, quando sua «.li- 
nhada D. Catharina lhe mandou pedir pazes. 

1) Fernão Lopes, Chron. dt D. João I, CCIII. Oliveira 
Maitinf, A Vida de NmCahartn, pag. 352 o 3õ:í. 



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ÍÍ44 

Vindo da Guarda ;iqui esteve o condestavel 
Nun'alvares, seguindo para a cidade do Porto, a 
visitar el-rei, com 50 homens de cavallo 1). 

—Entre os 7:000 portuguezes combatentes que 
estiveram na batalha de Aljubarrota 162 eram da 
Beira 2). 

— Estando na cidade de Vizeu, D. João I con- 
firmou em 30 de janeiro de 1410 a doação, que a 
Gonçalo Pires d' Almeida havia feito Martim Vaz da 
Cunha, Senhor de Alafõese Besteiros, em Oliveira 
de Frades, couto de Santa Cruz, julgado de AJa- 
fões, aos 17 de maio de 1389, do morgado e cellei- 
ro de Mossamedes, reguengo. 

Também o mesmo monarcha deu em dote de 
casamento 1:000 coroas de ouro, pagas no almoxa- 
rifado de Viseu, a João d*Almeida, escudeiro da 
casa do infante 1). Henrique, a quem casou com ' 
Brites de friuvea, do Colmeal 3). 

—Em 1410 João Alho era Corregedor entre 
Douro n Tejo e Riba Ctia. 

—Em 1422 mandou I). João I fazer o arrola- 
mento da província da Beira e verificou-se que ti- 
nha 07:308 fogos e 260:232 habitantes em 72 lé- 
guas de íuperlicie ou 367 habitantes por légua 
quadrada, tendo Vizeu 0:400 habitantes 4). 



1) Ribeiro ISotelho, Diálogos, pxg. 4ÍM. 

2) Fernão Lopes, Ckron. de D. João 1, XXVII. Sandovul, 
Aljubarrota, 177. 

3) liibeiro Botelho, Diálogos, pag. 585 e 586. 

4} Pinheiro Chagas, Uist. de Port., vol. II pag. 174 e 170, 
Rebello da Silva, Memoria sobre a jtopulaeão <■ agricultara de 
Portugal, pag. 45. 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



—Em 1427 o cabido faz um arrendamento a Af- 
fonso de Mansilha, e a João Martins, escudeiros do 
infante l>. Henrique 1). 

— D. João I, tendo em vista o aperfeiçoamento 
das raças cavatlares, estabeleceu, por lei, que os 
que tivessem de renda ou censo, na Estremadura, 
Minho e Traz-os-Montes, 32 a 40 marcos de prata 
(3441081) a 431 «200 reis, moeda d'hoje), ou 10 a 20 
marcos (172*430 a 215íí800 reis) no Alemtejo, Al- 
garve e Beira, deviam possuir cavallo de 2 a 3 an- 
itos de idade com a altura da marm e digno por 
suas qualidades de approvur-ão 2). 

— Em 1420 era escrivão da Correição da Uetra 
João Lourenço. 

— Exerciam os cargos, em Vlzeu, de juiz, jior el- 
rei, Álvaro fíoines Carvalho, de ouvidor AfTonso 
Annes (1437), de escrivão das cisas AlTonso Pan- 
do (1441) e Maitiui Rodrigues. (1459). A este e á 
sua parceira Domingas Amada fez o cabido um 
emprazamento neste anno 3), 

—Em 15 de novembro de 1438, I). AtFoiíso V 
(tti dar aos da cidade de Vlzeu o cap. 19 das cor- 
tes de Santarém de 1434, copiado do livro das Hor- 
denifie* da GfutncelLirta. Este; documento é assi- 
giutdo pelo doutor Johain dOsem, do seu conse- 
lho, e chanceller mor 4). 



h Documentos do cabido 

2) llobello Ja Silva, Memorias sobre a população e agri- 
cultura de Portugal, png. 16T. 
3} Documontos do cabido. 
1) Viturba Elucidário, v. Sem. 



= 01,-1 ::; ; GOOglC 



— Henrique Pereira foi escrivão da puridade de 
1). Fernando, duque de Vizeu 1). 

—Era 1450 era corregedor na Beira Fernandes 
Affonso 2). 

*-Na tarde de 24 de julho de 1456 desenca- 
deou-se sobre Vizeu uma tempestade de chuva, 
trovões, raios e vento 3). 

— Por muitos t nnos houve em Vizeu um almo- 
xarifado, e sabemos que foram almoxarifes Gonça- 
lo Pires (antes de 1431) e Álvaro Dias (1455) e es- 
crivão João Martins (1323). 

— Nas cortes que D. Affonso V celebrou em 
Lisboa em marco de 1455, os arcebispos, bispos 
e cabidos queixaram-se das justiças, officiaes e pes- 
soas poderosas, reduzindo os aggravos a 15 capí- 
tulos, a que foram dadas respostas em forma de 
concordata. 

O bjspo de Vizeu, D. João, foi ahi representado 
pelo dr. Vasco Martins de Kabello, seu vigário ge- 
ral e vigário da cidade de Vizeu;' e o cabido pelo 
mesmo dr. Vasco Martins, seu thesoureiro, e por 
Gonçalo Rodrigues, deão da Sé, e capellão d'el-ret 4). 

— Em 1481 era tractaior do muro da cidade 
Diogo Affonso. 

— Em 1481 el-rei determinou ao juiz de fora de 
Vizeu João Jorge que não soltasse Luzia Alvares, 



1) D. Luiz Caetano de Lima, Geogr. Bíst,, tom. I, png. 

41!). 

13) Documento do uabido. 

3) Padre Leonardo de Sonsa, Alem. mas., Q. 261. 

4) Gabriel Pereira de Castro, Monomachía sobre as con 
cvrdias que fizeram os Jicys com os Prelados d< Portugal, obr. 
214; De manu regia, mim concordatas entre o rei v o clero, fl. 
408. 



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247 



presa, em quanto não pagasse a Álvaro Annes, clé- 
rigo sacristão, 5A000 reisde que o despojou em ca- 
sa d'ella, mais 600 re r s que por causa d'elia lhe fo- 
ram tomados, e custas; e tanto que pagasse a levas- 
se presa a qualquer logar perto do mar, a metes- 
se em um navio e a enviasse a, Tanger paru onde 
a condoinnava por 8 annos 1). 

— Aos 14 de novembro de 1481 Agostinho Fer- 
nandes, cónego da Sé de Vizeu, por mandado de 
Vasco Palha, cavalluiro da Casa. d'KI-rei e «eu ern- 
tihr mór das suas coittis, q.t-j pcrtsncsm c ;;í? «p- 
propriaím d governança dos Isttjares d) Reino dei- 
tem mar, que presente estava, arre:iiatou um prazo 
cotn seu foro, que Kernam Lnpez, outiosi Cavai- 
tetro e Contador que foi os annox passaio; da: vil- 
las de Arzilla e Alctcere, possuía, e umas casas em 
que vivia qae são na da I'edi\t de Gonçalvilho 2). 

—D. João II e sua esposa I). l-eonor de Alen- 
castre, em setembro de 1483, foram em romaria a 
S. Domingos da Queimada, junto de Lamego, le= 
vando-lhe ricas oíTertas, a pedir-lhe a sua interces- 
são pai*» que Deus lhes desse Alhos. 

De l/imego se tornou a rainha a Vizeu, e d'aqui 
foi para a cidade do Porto, ein quanto el-rei foi a 
Villn Real e Bragança. 

IK> Porto foram juntos para Aveiro, onde esta- 
va a taranta I). Joanna, irmã d'el-rei, a quem falta- 
ram etn casamento que nSo chegou a realisar-se, 
com o duque de Vizeu, irmão da rainha ;t>. 

1) Documento do cabido. 
ii) Doe ii mento cfo cabido, 

3) Garcia do Rezende, Chroníca, fl, 2 v, e §3. 



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248 

ADDIT AMENTO AO TOMO I 

VIRIATHO 



Depois de impresso o primeiro volume (Tes- 
ta obra, em que expozemos alguns feitos do cau- 
dilho lusitano Viriatho, publicou o sr. dr. Antó- 
nio Garcia Ribeiro de Vasconcellos, muito eru- 
dito lente da faculdade de theologia na Universi- 
dade de Coimbra, um opúsculo com o titulo de 
Viriatho, dedicado ao sr. dr. António Henrique da 
Silva, illustre filho da Beira Alta e distinctissimo 
lente da faculdade de Direito na mesma Universi- 
dade, no qual com mui apurada critica, baseando-se 
nos historiadores de Roma, latinos e gregos, res- 
tabelece a relidade histórica do heroe lusitano e 
das suas façanhas, despindo-o, como elle declara, 
de todos os ouropéis com que as lendas peninsulares 
o tèem adornado. 

Aproveitando a occssiào para agradecer ao ait- 
olor o exemplar, que nos oilertou, desta tão inte- 
ressante como conscienciosa publicação, que mui- 
to o honra e confirma os seus créditos de consum- 
mado litterato, pedimos-lhe vénia para extracíar- 
mos as seguintes noticias que respeitam a Vizeu. 



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Sendo Netfidio pretor da Hespanha ulterior, 
como se suppõe, parece provável que a batalha em 
que foi derrotado se desse aqui, na sua província, 
talvez na própria Lusitânia, mas com os escassos 
dados, que hoje temos, nada mais pude adiantar- 
se na determinação do local do combate. 

E", porém, frequente encontrarem-se escripto- 
res, ainda dos de melhor nota, determinando pre- 
cisamente esse local. 

O próprio 1*afuente, (Historia general de Espa- 
na, Barcelona— 1887, tom. I, pag. 70), deixando-se 
levar na corrente do maior numero, diz que a ba- 
talha se dera próximo de Vizeu: «stifrtó (NegidioJ 
cerca de Viseo una derrota vergonzosá». 

Esta opinião baseia-se numa insorípcão falsa 
que Resende, Geronimo Çurita, Ambrósio de Mo* 
rales, Strada e outros dizem ser encontrada perto 
de Viseo, cidade da Lusitânia — não longe de Viseo 
num certo logar i). 

Fr. Bernardo de Brito di-la achada em Riba de 
>Uki, onde elle Imaginou os próprios reays de Xe- 
tfidio. 

E' inteiramente desconhecido o local, onde VI- 
liatho foi traiçoeiramente assassinado pelos traido- 
res Andacc, Ditdlcono e Minuro 2). 

Três inscripcôes falsas serviram a alguns escri- 
ptores para dizerem que morreu aqui ou acolá, em 
pontos muito diversos. 



1) Eatft inaci ipçào iidia s>e a pag. õtt duvo). 1 d fr-U obra. 

2) A paginas 76 do volume 1.° deiaos-llics oe nomes de 
Dislaiiào, Minuto e AxUacus. 



>,sitizeot> v GoOgIe 



250 

Da inscripyào— MC IACET VIRIATUS LUSI- 
TANOS OUX— da conta o nosso Joío de Barros no 
seu mamiscripto, intitulado Livro das untiguidates 
e cousas notavas de entre Dmro e Minho, e de ou- 
tras muitos d+Hespanha e Portugal, composto no 
anno de 1549. Diz na pagina 331 o seguinte: 

r Junto do Comear, onde chamão Bellas, que 
foi de P.» Corrêa, em numa quinta que foi de P. a 
Machado Carregeiro lídalguo, se achou u sepultu- 
ra de Viriato, que eu vi quebrada, e dezia: HIC 
IACET VIRIATUS LUSITANOS DUX e estava 
dentro nefla numa espada com muitas letras, a 
qual virão os infantes, e o P.» Machado a deu de 
graça a hum parente seu da Ilha por lhe não da- 
rem o que etle pedia por ella, do que o raprendi 
mas tarde, porque era cousa para todo o Poitu 
guez ter em muita estima.» (Bibliotheca Nacional 
de Lisboa, A4, 37). 

íueripçio romana 

Na parede exterior, que faoèa com a Avenida 
Emygdtt^ Navarro, da casa do ar. Joaquim Pereira 
dos Santos Salvador, descobriu ha dias o distincto 
pintor José d' Almeida e Silva a seguinte insciípçào 
tumular, evidentemente romana, numa pedra que 
tem 0,'»65 de altura, 0,»íM a 0,"3» de larpira e, 
0, ln 30 de espessura. 

D. n. v. 

ruam 
Finai. 

.» » . X X 

n u » li » i v 

rim 
■ . c 



jo.ra i.Google 



Tonada de lian pelei Ihtoi— D. BtdrUs 

A pag. 128 do tomo I escrevemos que não exis- 
tem documentos históricos donde conste qual o 
anno em que Vizeti caiu em pode» dos Mouros, 
depois de termos dito a pag. HO que esta cidade, 
com outras, se lhes rendeu em 716. 

No primeiro caso reproduzimos as palavras de 
Alexandre Herculano, e no segundo a de outros 
oscriptores; e d' este modo Pica explicada a diversi- 
dade que existe naquellas duas affirmaeões. 

Alguns mezes depois de publicado o referi- 
do tomo 1, D. Manuel de Foronda, no uso 
da sua habitual amabilidade e sympathia -para com- 
nosco, envion-nos um precioso livro, devido a pen- 
na de D. Eduardo Saavedra, soclo da Academia 
Real da Historia de Madrid, intitulado Estúdio so- 
bre la invasiÔn de los Árabes eu Espana, em que se 
contem um profundo estudo, de critica apuradissi- 
ma, baseado nos tramlhos de historiadores árabes 
e christaos, que vem resolver- muitas questões de 
que estava semeada a historia dajuella^ipoca e 
continuar o .que acerca das mesmas escrevemos. 

(lom a devida vénia, dessa notável obra extra- 
ctamos íis seguintes informações: 

As alturas do Cabo Trafalgar e de Meca, bem 
como as duas torres do litoral im mediato, conser- 
vam o nome de urna antiga povoarão perdida, >;)m- 
mada pelos Árabes Meca, e por causii d el lua appel- 
lidaram Rio de Beca, ou (íuadabeca uns, como. 
Edrísi, o modesto Conileti, e outros, como Aben 
Alcotia, o próprio líarbate. 



tanzMbyGoOgle 



Escriptores mais modernos, dos quaes copia- 
rem Aben Adari e Almacari, corametteram a pe- 
quena incorrecto de escrever Leça ou Guadaleca, 
e d'ahi procedeu dizer o arcebispo D. Rodrigo Gua- 
dalete, confundir Asidonia com Jerez e dar prin- 
cipio e base ao erro lendário da batalha do Gaada- 
Icte. 

A peleja entre os Mouros e o exercito de D. 
Kodrigo travon-se nos planos do Barbate perto da 
actual aldêa de Casas Viegas, em domingo 10 de 
julho de 711, devendo chamar-se com mais pro- 
priedade batalha do Barbate, ou, melhor, de Medi- 
nasidonia. 

Rodrigo não morreu nessa batalha, que termi- 
nou nos fins de julho, mas fugiu com alguns dos 
seus e foi concentrar em Merida todos os elemen- 
tos de que dispunha. 

A conquista d'esta ci-iade foi o principal obje- 
ctivo da campanha de 712, capitaneada por .Musa, 
em cujo poder caiu na primavera de 713. 

Rendida Merida, Rodrigo foi fortilicar-se na ser- 
ra de Krancia, que |)ela da Gata se une á de te- 
trella em Portugal e se relaciona com a de Regar 
pelo grande corte, em cujo fundo o Alagon leva 
suas aguas ao Tejo. 

Taric marchou por Talavera a esperar Musa, 
general em chefe, no vatle de Anocampo, termo 
de Almaraz, entre o Tejo e o Tíétar. 

Reunidos oh dois exércitos, Musa tornou a via 
romana de Merida a Salamanca para atravessar a 
serra, e, passado o porto de Siete l&rreras, no 
vértice do angulo que forma ali a divisória ao lado da 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



Pena íindifw, assentou seus arraiaes no ponto de 
intercessão dos caminhos do Merida a Salamanca 
e Alba e de lonnes a Cíudad I todrigu, deixando até 
hoje memoria do seu nome em Vaimuza, conser- 
vado pelo rio que nasce naquellas paragens. 

Ou para talar os campos mais próximos da ser- 
ra ou para estubelecer-se em Mirobriga e inutilizar 
dali a acção dos godos, o exercito árabe marchou 
pelos suaves declives da vertente septemtrional 
regados pelas primeiras aguas do Huebra, e, sain- 
do Rodrigo pela porta da Rinconada para effectuar 
um ataque de tlanco, travou-se em trente de Se- 
yoyuela de los Comejos, perto de Tamames, a de- 
cisiva batalha em que D. Rodrigo perdeu a liber- 
dade e a vi< 'a as mãos de Meruan, lilho de 'Musa. 

nome dt Segoyuela corresponde pontual- 
mente ao de Saguye, que dá o mouro Rasis como 
logar da ultima batalha de Rodrigo, e d'elle nasce- 
ram as formas Sangonera, do poema de Fernan 
(Sonzalez, e Sangobela, de Rodrigo Cara, que até 
agora careciam de explicação plausível. 

O arroio de Barbalos que está perto de Segoyue- 
la e as lagunas de Tamames se hão confundido 
com o lio Barbate e o lago da Janda, e a tendên- 
cia dos Árabes, a condensai- os successos contri- 
buiu para escurecer tão importante feito de armas 
e fixar a morte de Rodrigo no primeiro choque. 

Almaraz (o encontro, do Embaixador Marroqui- 
no), Vaimuza (o passo de Muza, de Aben Alcotia) 
e Segoyuela (Sagityue, do mouro Rasis) são três 
togares, que formam um conjuncto topographico 
cuja correlação não se pode desconhecer, servem 



>,Sitizeot> V GoOgIe 



<le ííiúíi par» resuscitar a esquecida runpanba n> 
Muza e Rodrigo, dão conta dos movimentos attri- 
biúdos ao exercito de Muza e aclaram a chronolo- 
gfa dos últimos antros da dominação goda. 

Desde os meados de 7-10 a acosto 011 setembro 
de 713, em que deveu de acontecer o dito recontro, 
rio os três anãos que o Albendense assigna a-i 
reinado de D. Rodrigo. 

Saltaram os godos piedosamente o corpo de 
seu infeliz monarcha, transpondo os cumes da ser- 
ra de Estreito, e, algum tempo depois, ek-ret D. 
Aflbnso, o Magno, achou em Vlzeti a fopite do sen 
sepulcnro, que dizia: 

Hie reqmiaãt liuderietts rex Oothorum. 

bmjriçãm tap fe B Tona 

Em 1127 mandou I). Thereza tirar 1 inquirição 
sobre reguengos e direitos reaes no dístncto da ci- 
dade de Vízeu, que no seu tempo foi governada por 
Bernardo Peres, seu genro, como se Vè de uma 
escriptura de 2 das calendas ds abril da era de 116» 
(31 de marco do anno de 1123), em que elle con- 
firma nestes termos: Vermuio Petrus continmtis 
Vixen confim» 1). 



1} Obras complutas do Cardeal Sar.úv.i, publicid.is p>r 
António Corrêa Caldeira, tomo II, p.ig. IU o 232. 



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UKCTIFtCA(JÂO IMPOKTANTK 



Referi ndo-nos á abobada da Sé, que actualmen- 
te exi.'.tf-, havíamos escripto que era do século XVI; 
mas os typographos compuseram século IV (ultima 
linha da pagina 104 e primeira da pagina 105 d'es- 
te segundo volume), e a revisão deixou passar o 
engano, cuja nidificação se torna impreterível. 

A. actual abobada que se ostenta magestosa foi' 
levantada por iniciativa do bispo de* Vizeu D. Diogo 
Ortiz de Vili>egas, celebre mathematico, e comple- 
tou-se em 1513, como se ve da inscripcSo que es- 
ta num dos seus fechos e diz: tEsta See mandou 
abobedar o muito magnifico senhor, o senhor D. 
Diogo Ortiz, bispo d'esta cidaie, e do conselho dos 
reis, e se acabou na era do senhor de 15/.1». 

ADVERTÊNCIA GRÃO VASCO 

Já temos colligidos muitos documentos e subsí- 
dios para o terceiro volume, mos, continuando ain- 
da nas nossas investigações, a sua publicação far- 
se-á esperar mais de um anno. 

Entretanto, communicainos aos nossos leitores 
que já encontrámos noticias referentes ao celebre 
pintor Vasco Fernandes, o Grão Vas;o t da própria 
e;iocha em eme elle viveu nesta cidade, exercendo 
a sua arte, 1512 a 1512, o que destroe o muito que 
erradamente se acha escripto acerca do patriarcha 
da pintura portugueza. 



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ERRATAS 



Alguns erros typographicos e algumas incorre- 
cções se encontram nos dois volumes do Vizeu, 
mas, sendo foceis de conhecer, dispensamo-nos de 
os notar. 

anfetor da obra foi o revisor das provas typo- 
graphicas, e é bem sabido de quem escreve para 
a imprensa que o auctor de um escrípto é o peior 
dos seus revisores. 

Ha porém, neste sentindo volume a-jwití. J5^,i 
linhas ÍO e II, uniu inexactidão (pie convém i<!- 
ctiíicar. 

Onde se lè «antiquário d'aquelln cidade sr. d) 1 ., 
' António Augusto Simões de Ca-trn»",' dwe Iémw* 
nntíiiHtwfo da eulade d<-. Cnhnbm *r. »h. .1 »</»■■</» 
Mniilra Siiiwes de Cnxlr". 



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